
Tem um monte de gente que procura justificar a própria ignorância com a expressão “não é do meu tempo”. De quebra o preconceito embutido, como se o tempo presente fosse a maior das maravilhas… Cada época tem a sua beleza e hoje estou interessado em grandes mulheres, para um carnaval do balacobaco. Com muito ziriguidum!
Hoje eu não quero sofrer
Hoje eu não quero chorar
Deixei a tristeza lá fora
Mandei a saudade esperar
Hoje eu não quero sofrer
Quem quiser que sofra em meu lugar…
Balacobaco só sabe o que é quem tem borogodó. E só quem tem borogodó é capaz de dar um ziriguidum. Tudo esclarecido um carnaval com “it” pode começar com versos acima, cantados por LINDA BATISTA. A primeira grande Rainha do Rádio.
O Brasil tem uma queda pela monarquia, adora eleger rainhas da primavera, do carnaval, do rock, do rebolado… Na chamada era de ouro do rádio elegia-se uma rainha por ano.
LINDA BATISTA foi Rainha do Rádio mantendo o título por onze anos (1937/1948) e, contratada da toda poderosa Rádio Nacional colecionou casacos de peles e carros de luxo. Rainha é rainha! E como essas histórias de monarquia são hereditárias, LINDA transferiu a coroa para a irmã caçula, DIRCINHA BATISTA.
Lá vai o meu trolinho
Vai rodando de mansinho
Pela estrada além
Vai levando pro seu ninho
Meu amor, o meu carinho
Que eu não troco por ninguém…
As irmãs Batista eram do balacobaco. Amadas até por Getúlio Vargas, ficaram meio esquecidas na transição do rádio para a televisão. Já na época havia também o “culto ao novo”. Veio com a Bossa Nova e, posteriormente, com a Jovem Guarda; um fenômeno que colocou em plano secundário outros grandes astros do rádio como, por exemplo, MARLENE.
Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria
Lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança
Lá vai Maria…
MARLENE, entre todas as rainhas do rádio, foi a que teve a carreira mais interessante, após a tal fase de ouro. Como atriz protagonizou novelas e peças teatrais. No disco “A Ópera do Malandro” temos dois registros dessa cantora incrível; uma filha de italianos (nascida aqui no “meu” Bexiga!) que canta sambas com o maior borogodó!
MARLENE foi estrela de um dos primeiros programas de carnaval que assisti pela televisão. O nome do programa era “Big Show Royal” e a cantora aparecia com um biquíni deixando evidente o quanto ela era capaz de um ziriguidum. Lembro que minha mãe não gostava; “- Essa mulher é muito escandalosa!”, reclamava. A cantora tinha um jeito de garota levada, mas levada mesmo era EMILINHA BORBA.
Se a canoa não virar
Olê, olé, olá
Eu chego lá
Rema, rema, rema remador
Quero ver depressa o meu amor…
EMILINHA BORBA reinou por 27 anos na Rádio Nacional. Foi campeã em correspondência por 19 anos e capa de 350 revistas. Isso é coisa de rainha! Vencedora de inúmeros carnavais, seus sucessos continuam por todos os bailes do país. “Chiquita Bacana”, “Tomara que Chova”, “Vai com Jeito” e, entre muitos outros, até uma “Mulata Yê, Yê, Yê”…
Mulata Bossa Nova
Caiu no hully gully
E só dá ela
Ye, ye, ye…
Na Passarela!
As cantoras do rádio brigavam feio pelo título de “Rainha”. O voto era popular e as “cédulas eleitorais” vendidas junto com a Revista do Rádio. Em 1949 a Companhia Antártica Paulista resolveu patrocinar MARLENE, dando a grana para a compra de votos. A cantora paulista conseguiu mais de 500 mil votos e sua vitória deu início a uma “guerra histérica” entre seus fãs e os de EMILINHA BORBA. Virou lenda!
Tivemos muitas “rainhas do rádio”. ÂNGELA MARIA, CARMÉLIA ALVES e DÓRIS MONTEIRO estão entre elas. Nenhuma, entretanto, foi grande como DALVA DE OLIVEIRA. Essa “rainha do rádio” foi também a “rainha da voz” e é, por muitos, considerada a maior cantora do Brasil. Nosso país é ou não é chegadão nessa tal monarquia?
Tanto riso, oh, quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão…
DALVA DE OLIVEIRA faz com que eu recorde meu pai. Eu era criança e adorava WANDERLÉA com suas pernas (Isso é borogodó!), a cabeleira loira e a dança, ingenuamente sensual (Mas, cheia de ziriguidum!). Sei lá o que eu estava fazendo; deixei de lado e atendi ao chamado de papai para, no programa FLÁVIO CAVALCANTE, assistir uma apresentação de DALVA: “- Vem cá; veja o que é uma grande cantora!”
Naquele programa ela cantou “Kalu” e, com ÂNGELA MARIA, “Ave Maria no Morro”. As duas grandes cantoras, cheias de borogodó, mandaram ver na melodia e letra de HERIVELTO MARTINS. Quando chegou o momento do maior agudo, ANGELA afastou-se do microfone, dizendo para DALVA: “- Agora é com você!”. E lá foi aquela mulher, magrinha, frágil, soltando seus “agudos fulminantes”, para lembrar a expressão certeira de HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO.
Nossas rainhas, se não estão na memória de muita gente, permanecem nas canções, nas marchinhas. Imaginem o tamanho do balacobaco com todas elas no mesmo palco? Dá até pra imaginar plumas (dizer penas, pra rainhas, não dá!) voando pra todo lado. Por outro lado, penso que DALVA DE OLIVEIRA mandaria seu melhor agudo, pra que tudo terminasse numa boa:
Bandeira branca, amor
Não posso mais
Pela saudade que me invade
Eu peço paz
Saudade mal de amor, de amor
Saudade dor que dói demais
Vem meu amor, bandeira branca,
Eu peço paz.
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Até mais!
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Notas:
Os versos acima são, respectivamente:
O Primeiro Clarim – Rutinaldo e Klécius Caldas, 1970 – LINDA BATISTA.
Upa, Upa!(Meu Trolinho) Ary Barroso, 1940 – DIRCINHA BATISTA.
Lata D’água – Luiz Antonio e Jota Junior –1952 – MARLENE.
Chiquita Bacana (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1949), Tomara que Chova (Paquito e Romeu Gentil, 1951) “Vai com Jeito”(João de Barro, 1957) e “Mulata Yê, Yê, Yê” (João Roberto Kelly, 1965) – EMILINHA BORBA.
Máscara Negra – Pereira Matos e Zé Kéti, 1967 – DALVA DE OLIVEIRA.
Bandeira Branca – Laércio Alves e Max Nunes, 1970 – DALVA DE OLIVEIRA.
. Publicado originalmente no Papolog em 14/02/2009.
Adorei!
Em meio a tudo… É só saudade!
Só consegui se Rainha do Lar.