Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.

A mudança de Laura

Olhando para o computador travado ela se sentiu mais uma vez refém de algo não solicitado, não desejado. Não era a primeira vez que Laura se sentia assim, impotente diante de forças que estão muito além do que minimamente ela poderia enfrentar. Menina, bem menina, saiu da roça onde os pais amealhavam um pedaço de terra e, chegando na casa da madrinha que oferecera cama e comida durante o período da escola, ela descobriu o rádio.

A Madrinha Elvira gostava de jornais e revistas, mas a menina ainda não sabia ler. Gostava das fotografias impressas, das capas ilustradas com desenhos coloridos de casais apaixonados. Nada se comparava ao rádio com programas musicais, noticiários, novelas. Foi uma mudança e tanto! Do som de pássaros, dos ventos balançando árvores, dos animais no curral e no chiqueiro, ela passou a ser acordada por vozes graves dizendo “bom dia!” seguidos da alegre resposta de Elvira: Bom dia!

Apesar do medo diante de tantas novidades ela se manteve forte. Era desejo dos pais que conseguiram fazê-la entender ser necessário aprender a ler, a fazer contas, a conhecer as ciências. Tudo isso poderia e deveria ser utilizado no próprio campo onde eles prometeram, e ela sonhava, um dia voltaria em definitivo. Laura só não conseguia perceber quando ocorreria tal retorno.

Viver com a madrinha era mudança “para mais de metro”, ditado que aprendeu na cidade. O leite era entregue na porta, bem cedinho e em seguida vinha o pão, quentinho. Em dias alternados passavam o verdureiro, um vendedor de doces e, vez em quando, o carteiro batia palmas no portão. Iam à igreja com frequência, à praça com coreto no final das tardes de domingo, alegradas por uma banda com muitas marchas e modinhas. Pelo menos uma vez por mês iam ao cinema e Laura jamais esqueceu a luz apagada, a tela imensa e o primeiro filme, um romance açucarado. A madrinha chorava com a história. Ela se encantava com as imagens.

Muitos anos depois, já adulta e casada, deu-se conta de que a televisão tinha provocado outros hábitos e também o telefone tivera, aos poucos, colocado o carteiro em segundo plano.  Laura alimentou dúvidas sobre o bem que a tv poderia proporcionar, pois percebera que a câmera mostrava o que os donos da emissora queriam, o ângulo que eles desejavam. Já o telefone facilitara a vida de quem tinha leitura fraca, de quem não gostava de escrever.

Por muito tempo ela permaneceu fiel ao costume de enviar cartões de aniversário, por ocasião da Páscoa e pelas festas de final de ano. Em menos de uma década novas atitudes, novos protocolos, as respostas foram escasseando e definitivamente cessando substituídas por cartões virtuais. Nem se achava cartões para comprar. Tudo estava sendo rápido demais. Tão rápido que se fazia difícil perceber o que estava sendo imposto, as necessidades que estavam sendo criadas por conta de novidades, algumas não solicitadas, como as atualizações do computador. Laura estava cansada de correr atrás das mudanças que vinham de fora.

Tudo acelerado, vertiginoso. Todo consumo vira lixo. Os diferentes discos, compactos, k-7 e cds. As fitas VHS e os dvs, tudo rapidamente transformado em material obsoleto, ocupando espaços dentro de imóveis cada vez menores e mais caros, por isso mesmo exigindo que discos, fitas, livros se tornassem arquivos invisíveis, virtuais, inúteis com o computador travado, com a ausência de energia elétrica e as baterias descarregadas.

Já quase aposentada ela resistiu bravamente às redes sociais. Assumiu a imagem de mulher fora do tempo, só usando o computador para ler, pesquisar, utilizar serviços bancários e, ao telefone, só atendendo parentes e amigos próximos. Essa postura não veio por acaso, mas em consequência de perda de documentos por ataque de vírus e outras ameaças de golpes por telefone e e-mail. E de uma ojeriza que impunha mais do que o necessário, ser preciso ter o objeto do ano. O carro novo, o último modelo de telefone. Ela via crescer uma indisposição, uma resistência ao não desejado.

Nos últimos tempos, longe do trabalho, limitou-se a um aparelho básico para o caso de receber ou fazer chamadas urgentes. Contatos restritos a parentes, amigos, um pronto-socorro e um médico de confiança. Recebendo notícias via computador, gostava de pesquisar o mesmo fato, tentando saber o que realmente acontecia e o que cada empresa de comunicação estava defendendo. A tv fechada utilizada apenas para filmes e documentários, abandonando definitivamente as novelas que a encantaram na infância.

Então já enfrentara as piores mudanças advindas da morte do marido e da única filha, vítima de uma “bala perdida”, esse eufemismo para a incapacidade humana de controle da criminalidade. Ficara sozinha, morando fora do país o único neto com quem só conversava raramente, o que ela preferia acreditar ser fruto da diferença de fusos horários. Foi quando irritada diante do computador travado que pensou no futuro, em outras possíveis e previsíveis mudanças. Decidiu ser ela a autora e protagonista da vida que sonhara; algo que poderia ser vivido no tempo que lhe restava.

Dias depois riu quando um técnico sugeriu mais memória, outro eufemismo absurdo. Resistiu à ideia de um novo computador. Utilizou a pequena capacidade que ainda restava do aparelho para pesquisar, durante algumas semanas, até encontrar algo que atendesse aos objetivos pensados e decididos. E Laura encontrou. Uma casa de repouso no campo para pessoas em idade avançada, mas ainda com capacidade e disposição para mexer com horta, jardim e, se com vontade, a possibilidade de cuidar de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos.

Foi em uma segunda-feira que carregadores encontraram Laura, de pé e decidida, ao lado de duas malas modestas, apenas com roupas, uma maleta com álbuns de retrato e um caderno de lembranças. Segurava uma pequena bolsa com documentos, e o fatídico, mas necessário telefone celular. Os homens vieram para levar tudo, móveis e utensílios para uma instituição que ela escolhera. Viu saírem das janelas as cortinas, das paredes os quadros com paisagens e retratos familiares. Despediu-se de pequenos bibelôs, vasos com flores, o pequeno santuário e cada uma das imagens que ele abrigara.

Antes que os carregadores terminassem todo o trabalho chegou um conhecido corretor, com quem ela deixou a chave para que o imóvel pudesse ser vendido. Saiu sem olhar para trás, um leve sorriso nos lábios. Essa mudança, a penúltima, desejada e sonhada desde menina, de volta ao campo,  só seria interrompida pela mudança definitiva, fim de caminho nesse mundo, o que, certamente, não dependeria dela o dia, a hora e a forma de acontecer.

Duas Lauras. Uma, Laurinda!

Um filme de 1944, Laura foi o título e personagem interpretada por Gene Tierney. Belíssima! Em música há uma Laura, feita pelo Braguinha, outra, pelo Antônio Carlos & Jocafi e, entre outras, a Lady, que o Roberto Carlos fez para a própria mãe. Agora me pergunto se Laura, a Pausini, gravou alguma canção com o próprio nome tal qual outras cantoras o fizeram. Chega de prolegômenos, vamos às Lauras que me motivam a escrever este texto.

Há uma Laura que reverenciarei enquanto for vivo, tiver memória, for capaz de pensar. Foi minha mãe! E a outra conhecida Laura está, como minha mãe, com 95 anos. Essa outra Laura, nasceu Laurinda. Laurinda de Jesus! Lindo nome e, até onde me dou conta, a dona faz jus a este e ao que escolheu como nome artístico: Laura Cardoso.

Longe de mim comparar mamãe com a grande atriz! Mas gosto da ideia de ver Laura Cardoso, além de grande atriz, também grande mãe, avó, mulher! Não necessariamente nessa ordem, embora tenho cá comigo que ela primeiro se define como atriz. Sorte nossa! Colocando a profissão em primeiro plano, Dona Laura Cardoso vem nos brindando com papeis memoráveis, presença marcante pelo trabalho impecável.

Antes de citar alguns trabalhos quero enfatizar a mulher que percebo: carreira que comprova seriedade incomum para com a profissão; ética que a coloca entre as pessoas confiáveis só com a presença física: paixão pelo ofício que a faz assumir-se como é, sem subterfúgios, sem recursos que não a própria expressão, o uso do próprio corpo e voz. Dona Laura Cardoso chega aos 95 anos com um rosto absolutamente humano que pode ser a face de uma avozinha, de uma prostituta, uma víbora, uma santa, uma milionária ou uma pobre camponesa.

Dos trabalhos televisivos quero lembrar dois. A Viagem e Mulheres de Areia, ambas originais de Ivani Ribeiro. Optei por esses por Dona Laura, nesses trabalhos, mostrar faces distintas de uma mesma personagem.

Como Dona Guiomar, em A Viagem, a atriz foi a simpática sogra que, obsidiada, transforma-se em megera intragável, até conseguir livrar-se do espírito vilão, interpretado por Guilherme Fontes. Com a delicadeza e sofisticada simplicidade, a atriz se transformava seguindo o que o outro exigia.

Em Mulheres de Areia o trabalho de Dona Laura Cardoso foi tão ou mais sútil e, por isso mesmo, rico em nuances. Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, deixava evidente uma aparente proteção à vilã Raquel em detrimento da outra filha, personagens de Glória Pires. Cúmplice chantageada por Raquel, Isaura mostra o amor pela outra filha por não gostar de ouvir o que Raquel dizia de Ruth. E a novela tomou outro rumo.

Há muitos e grandes trabalhos da atriz em novelas, especiais, programas de humor. Todavia, foi no teatro que tive a oportunidade de ver um dos trabalhos que ficariam entre os melhores que presenciei. Já a conhecia de outras montagens, me apaixonando quando a vi em “Vem buscar-me que ainda sou teu”, dirigida por Gabriel Vilela no texto de Carlos Alberto Soffredini, em 1990. Todavia, três anos depois, viria o momento preferido.

Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, já havia sido montada em 1964 pelo diretor Antunes Filho, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, que retomou o texto em 1993, com Laura Cardoso e Luís Melo encabeçando o elenco do Teatro Sesc Anchieta. Texto que continua caindo como luva para a realidade brasileira, Vereda da Salvação tem como temas centrais a desigualdade social, a falta de liberdade e a religião enquanto fenômeno que leva indivíduos para rumos extremos.

Na personagem Dolor estão faces distintas de uma mulher sofrida que ficam evidenciadas através da atuação de Dona Laura. A personagem vivia o drama, baseado em fato ocorrido em Minas Gerais, de um grupo de agricultores em conflito com latifundiários e, ao mesmo tempo, nas mãos de um líder fanático, papel de Luís Melo. Em dado momento, a personagem de Laura dizia coisas, aqui extraídas do texto original, de Jorge Andrade, que dão uma ideia do estofo necessário para que uma atriz faça tal personagem:

– Estou cansada, Joaquim. Quero parar.

– Escuta uma coisa, meu filho: sem filho a gente não pode melhorar. Filho é que é riqueza de pobre. Eles dá despesa quando miúdo, mas ajuda bastante quando cresce.

– Pra todo lado que a gente vai… tem sempre alguma coisa pondo desordem na vida, Ana.

– Meus olho e meu corpo deitou mais água na terra que as nuvem do céu…

– Pode atirar, corja do demônio!

É possível que outras atrizes interpretem tal personagem. Poucas com a verdade dessa senhora, a aniversariante que presto singela homenagem. 95 anos e um rosto marcado de histórias, cheio de jovialidade e vida. Dona Laura costuma dizer em entrevistas que é preciso muito estudo, muita entrega para realizar um bom trabalho. Que uma atriz não carece de nada além da própria capacidade expressiva e esta vem através do estudo, do ensaio, do trabalho. Ostenta uma carreira que comprova o resultado de dedicação, esforço, entrega.

Essas Lauras! Fortes, generosas, inesquecíveis. Hoje lembro muitas Lauras, feliz por poder recordar e associar as duas mais queridas. Minha mãe e Laura Cardoso, a quem desejo tudo o que há de melhor que alguém possa ter.

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Nota: as fotos que ilustram esse texto foram colhidas no Instagram e em páginas que homenageiam a atriz.

A memória somos nós

Por Fernando Brengel

Lembro perfeitamente do dia em que, montado no meu possante carrinho de rolimã, saí em último e cheguei em primeiro.

Mal senti o sabor da vitória. Um capote cinematográfico no final da ladeira em que tirávamos o racha me levou a conhecer um balde de Merthiolate e uma dor terrível. Posso senti-la como se fosse hoje.

Quem não guarda na memória fatos como esse, sensações, odores, sons, alegrias, medos? Quem não busca dentro de si aprendizados, experiências?

A memória somos nós. É a única companheira que não nos larga nesse e, como creio, no plano para o qual, um dia, partiremos.

A memória não mente. Não julga. Quem se esconde dela, muitas vezes, somos nós, temendo facear atitudes inconfessáveis, gestos desnecessários, práticas condenáveis.

Na mão contrária, lançamos mão de suas benesses quando buscamos as lembranças de momentos felizes, de experiências prazerosas, daquilo que nos destaca. Enfim, de tantos momentos positivos construídos, vivenciados.

Não conheço Uberaba, não tenho a menor ideia da sua configuração. Exceto por fotos, nunca senti a sensação de pisar no mineiro solo de suas ruas, praças, avenidas. Isso até ler o “Vai e vem da memória” de Valdo Resende.

Mais que Uberaba, conheci um pouco do seu Bino, pai do Valdo, da dona Laura, sua mãe. Uma mulher decidida, que se fosse necessário espantava a bala, como o fez, um meliante que tentou invadir a sua casa. Uma das partes mais engraçadas do livro.

Entre fatos hilários, como o da dona Laura, passagens doloridas, conquistas e sonhos, o autor tece pensamentos que nos levam a fazer um balanço da nossa própria existência.

Uma viagem pela terra natal, a família, os amigos e as paixões, que serve como combustível para refletirmos a respeito de nossas trajetórias.

A obra, bem escrita, digna de um autor que nos brinda com o terceiro livro, fora os vários textos assinados para teatro, é de leitura ininterrupta. Daqueles volumes que a gente começa e só larga no ponto final.

Valdo abriu definitivamente o coração em o “Vai e vem da memória”. Acertou as contas consigo e retratou, sem abusar das tintas, o que o tornou o ser humano que é. Tocou, de acordo com a sua régua, em temas repletos de humanidade. Escolheu a prosa para mostrar a poesia do tempo. Um tempo repleto de ensinamentos, emoções e vida. Um bela e produtiva vida.

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Serviço:
O VAI E VEM DA MEMÓRIA – Valdo Resende
Elipse, Arte e Afins Ltda.
312 páginas – R$ 65,00

EVENTOS DE LANÇAMENTO:

UBERABA – MG 27/11/2021 – 16h00 ÀS 18h00
BARROCO ARTE CAFÉ – Rua João Pinheiro, 213

SÃO PAULO SP – 04/12/2021 – 15h00 ÀS 18h00
PORTELLA BAR – R. Professor Sebastião Soares de Faria, 61 – Bela Vista.

O Ridico e o Lambrecado

Felicidade é não ser ridico e lambrecar o prato

O cérebro, que desconhece os limites do ir e vir, leva-nos para muito além do espaço e do tempo e, para isso, enche nossas noites de sonhos. Tempos de reclusão imposta ao corpo, dei de sonhar com gentes da minha infância, cenários já desfeitos por reformas e mudanças. É incrível a quantidade de imagens reservadas na tal massa cinzenta e que, imprevisíveis, brotam sabe-se lá por qual motivo nessas noites pandêmicas. Eu que não vou tirar emprego dos discípulos de Freud. Ocorre que, lembrando ao acordar de sonhos recentes, com esses emergem palavras lá das profundezas das memórias. Algumas, voltei a usar.

“Me lambrequei todo!” Disse irritado após um acidente na cozinha quando, tentando socorrer uma tampa que caia, deixei uma vasilha cheia de gororobas sujar minha barriga, minhas pernas, o chão. “O que aconteceu?” Acudiu-me o Flávio e eu, irritado: “Tô todo lambrecado!”. Ele riu, já meio que habituado às estranhas palavras que tenho usado. “Você inventou essa palavra”. Claro que não, lá em Minas, na infância, a gente usava direto. Lambreca, lambança, lambuzado… E a memória se fez presente.

Um dia deixaram Walcenis, minha irmã, tomando conta dos sobrinhos. Dois, três? Com certeza, dois sobrinhos e nosso irmão caçula. Logo, no mínimo três crianças. Lá pelas tantas, uma delas encheu as fraldas no que resulta na plenitude da palavra em questão: “Ela ficou toda lambrecada de merda”! Eram sobrinhos, minha irmã não tinha traquejo nem a sina das mães em resolver tal problema e o jeito foi apelar pedindo socorro à D. Doralva, nossa vizinha que, prontamente, deu banho na criança feliz e aliviada.

Antes de entrar na segunda palavra, ridico, cabe uma digressão. Eu já pesei 55kg! Em priscas eras, com 1,84m eu era muito magrelo. Foi marcante ligar para Uberaba e dizer para minha mãe: “- Estou pesando 56kg!” Ela festejou e o tempo passou. Corre por aí que, com a idade, a gente engorda um quilo por ano. Soma-se à idade comilanças durante a pandemia e… Me descubro com 96kg.  E constato que lá se vão  uns 41kg, ops,  anos de quando liguei para Dona Laura.

96kg não seriam problemas se a distribuição desses não fosse cruel. Certamente, de todo o peso adquirido a maior parte está concentrada na pança (palavra adequada para a atual situação). A gente segue a vida, de bermuda e camiseta, até o momento em que se faz necessário usar uma calça comprida e… uma, duas, três, quatro calças destinadas para doação por excesso de cintura do dono. Bora retomar antigos hábitos e assumir um regime.

Hora da refeição peço ao Flávio (ele, de novo!) para abastecer meu prato. O dito cujo come feito um passarinho e eu, justificando meu apelido palmeirense, encho o prato feito um porco. Ao pedir ao jovem esguio e equilibrado para me servir sei, por experiência de vida, que ele naturalmente diminuirá as minhas porções de refeição. Entusiasmado com a função ele, ao invés de uma colher de arroz, por exemplo, passou a me servir meia colher. “Ridico!”

O embate estabelecido entre a gula e o comedimento resultou no conflito exposto com a palavra vinda lá da infância: Ridico. Ele riu e corrigiu: “- Ridículo?” “Não, ridico mesmo, você está ridicando comida!”. Nova acusação de estar inventando palavra e, confesso, a dúvida bateu. Será que existe “ridico” ou só a gente falava assim? Antes de ir ao dicionário apelei para o argumento de “autoridade”: nós mineiros falamos assim. E o cara me olhou com aquela expressão de “tá inventando coisa”. Pois bem, está lá, bem claro. Ridico: avaro, sovina, mesquinho. Ele sorriu com a definição e sentenciou: “Você que pediu!”.

E assim estou eu, tentando comer menos e evitando me lambrecar. Poderia terminar falando do incrível universo dos sonhos que, de quebra, levam-nos a lembrança de palavras e expressões tão antigas quanto nossa memória. Prefiro reclamar: Estou com saudade de um bom pedaço de pudim, mas o ridico – exímio chef de pudins – disse que engordarei quatro kg com a iguaria. Vida difícil!

Pombinha branca

De muito longe vem a voz que me traz a canção.

Tento ouvir com nitidez, determinar o timbre

A divisão, o andamento.

Reconhecer a tessitura com precisão…

Em vão.

A canção está no pensamento e,

a voz, no coração.

Embalou um, embalou dois,

Embalou seis filhos!

Distraiu netos enquanto os banhava

Vestia, perfumava.

Em vão busco a voz precisa

Só tenho certeza da canção

Que um dia foi cuidado

carinho, puro afeto e,

Hoje, 3 de novembro,

É saudade.

Finados: Todos seremos!

mamãe e mariah esta.jpg
…um abraço e mãos que trocam carícia.

E a experiência me garante que este título deve gerar incômodo. Vivemos como se a morte fosse para os outros, que ela não nos chegará e vivenciamos cotidianamente o alheamento ao assunto. A vida é bela, estamos aí e nada pode interromper a energia que corre plenamente em nossas veias levando nosso coração a pulsar. O oxigênio, mesmo ruim de nossas cidades, enche nossos pulmões, colaborando no bombeamento do sangue, no funcionamento do cérebro. Todavia…

A morte vem, implacável, e deixando momentaneamente as questões religiosas todos somos colocados diante do fim. O ser amado torna-se frio, rígido. Sentimos diferentes tipos de dor, terríveis sensações e, penso, todas elas nos levam ao total sentido de impotência. Todo o poder, todo o dinheiro no mundo não bastam. Nada acrescenta um único minuto de vida quando o indivíduo falece. Somos, nesse instante, colocados na nossa verdadeira condição humana e o arrogante “sabe com quem você está falando” tem a definitiva resposta: – Um mortal.

Quando o óbito é do outro percebemos graus na nossa vida. O parente envelhecido, o primo distante, o conhecido do bairro, a criança… Assim como há sensações distintas perante assassinatos, acidentes, mortes coletivas. E, exercitando a honestidade, há aquele defunto que leva da gente um “já foi tarde” ou, no mínimo, um “antes ele do que eu”. Se esses diferentes tipos de morte nos levam a reconhecer um alarme interno, lembrando-nos a finitude, é a morte de seres amados que trazem a tragédia, o sofrimento atroz, a depressão e, sobretudo, a impotência. Nada podemos por aqueles que amamos.

Podemos rezar. Podemos cultuar nossos antepassados e contemporâneos já falecidos. Aí entra outro grande dilema humano: o conflito entre a capacidade de crer e a de duvidar. Alternamos momentos de conforto e angústia, de calma e desespero. Normalmente a situação é serenada pelo tempo que, somado a atividades e compromissos, ao instinto de preservação e a deveres para com o outro nos leva a continuar, a seguir em frente. E provavelmente para evitar que todas as sensações voltem, todo o sofrimento instalado demore a ser digerido é que evitamos falar do assunto.

Creio que devemos pensar e falar sobre a morte. Tendo passado por situações limite e tendo perdido muitos seres amados é que me vem, primeiro, a necessidade de evitar situações embaraçosas, indecisões quanto a que atitudes tomar; enfim, questões absolutamente práticas como o que fazer com a coleção de postais, os livros e discos preferidos, a cadeira de balanço. Com qual roupa enterrar o defunto? É possível e seria vontade desse doar órgãos, proceder à cremação? Qual cemitério, de qual cidade? Eu, por exemplo, não gosto do cheiro de velas mais rosas, uma combinação que peço não ser oferecida a quem for ao meu velório…

Há bens maiores, os objetos de grande valor monetário para os que ficam! Os muito ricos, ou quase ricos, costumam deixar testamentos detalhados para evitar que herdeiros se matem. Para gente como eu recomenda-se transferir a casa ou apartamento em vida. Quanto menos coisas tiver, menos grana para o inventário, já que o sistema entra com severos impostos quando morremos.

Falar da morte, até mesmo com certo humor, me leva a valorizar a vida. E a pensar e a tomar atitudes que penso ser necessário considerar cotidianamente, principalmente quando sou notificado da morte de alguém que amo. Estou longe de ser o indivíduo que idealizo, mas tento, por exemplo, esquecer a ganância e sempre exercitar o desprendimento. Muito porque, se a coisa é material, o preço do túmulo é alto demais para levar cacarecos além do próprio corpo. E toda morte inesperada me lembra que devo dizer que amo a quem amo; a deixar de lado as picuinhas momentâneas, a até a ignorar o pecado da gula em prol de um bom pedaço de pudim.

Há quem pensa ser necessário acreditar na vida após a morte, o que garantiria maior responsabilidade para nós, vivos, já que nosso destino “do outro lado” seria conforme nossas ações na terra, que nessa circunstância costuma ser denominada plano. Nesse plano, então, a religião entra como regulador, passaporte para outros. Fé, a gente respeita, e admito um monte de coisas que acredito além-túmulo. Entretanto, não é pelo Éden, Paraíso, Shangri-la, Pasárgada ou qualquer outra ideia de céu que devo ser “o cara”.

Digo que é bobagem acumular se tudo vai ficar por aqui. Os pais e mães responsáveis dirão da necessidade de segurança para os filhos, bem-estar etc. É fato. É justo.  Só não viajar na maionese e esquecer o ciclo ao qual todos estamos condicionados. Quando acumulamos algo para deixar a outros, é bom pensar que esses outros também nos acompanharão e o melhor a deixar para esses é um planeta digno com água limpa e ar respirável, tesouros maiores que estão ameaçados, junto a toda a cadeia ecológica colocada em risco com queimadas, excesso de agrotóxicos e por aí vai.

O tema é vasto e podemos ir muito longe. Por enquanto fico aqui, pensando na loucura que é lembrar a morte da minha mãe e dois, três dias depois recordar o aniversário de nascimento dela. Minha amada mãe não está mais neste plano. Se você chegou até aqui, caro leitor, corra e dê um abraço e um beijo em sua mamãe. Sinta o calor da mãe materna sobre sua fronte, ouça a sublime melodia da voz que se altera com minúcias e sutilezas quando nos chama pelo nome, quando diz meu filho. Se sua mamãe já se foi, ofereça-lhe uma oração e olhe para o lado. Espero que haja alguém para ser amado, beijado, acarinhado. E é isso, só isso, pelo aconchego em um abraço e mãos que trocam carícia é que vale a pena viver.

Até mais.