Liberdade

Pra hoje, um poema de Fernando Pessoa:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Vivas ao Ibirapuera!

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65 aninhos! Vivas ao aniversariante do dia. O Parque do Ibirapuera é o meu lugar preferido em São Paulo. Meu e de milhares, talvez milhões de paulistanos. Do guarani ypi-ra-ouêra a palavra é expressão para “árvore apodrecida”, desde quando a área original era alagadiça. Vou lá com frequência e, quase sempre, sozinho. Sinto-me então em essência o sertanejo, daqueles mineiros taciturnos e quietos, matutando… bobeiras.

Tá para nascer o dia que o parque me deprima, ou me leve a filosofar, questionar a situação atual, ou coisa e tal. Gosto mesmo é de divagar, deixar o pensamento correr e ser feliz, que é para isso que o Parque foi feito. Das bobeiras que penso enquanto caminho selecionei algumas entre aquelas possíveis de compartilhar.

1 – Quantas folhas tem por aqui? Será que eu conseguiria olhar para cada uma delas nessa vida, ou precisaria de outra encarnação?

Slide22- O cheiro é bom, o silêncio é bom. Malditos celulares ! O que essa gente faz aqui?          3) São Paulo é onde pouca gente olha para as flores que a cidade tem.
4) Esses peixes… amanhã vou comer sashimi na Liberdade.

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5) O que Laocoonte tá fazendo aqui? Bem que eu gostaria de dar uma aula de arte nesse jardim.
6) Adoro a Bienal, mas prefiro o Museu Afro Brasileiro. Tem tanta porcaria na Bienal.
7) Me acho o tal, mas esses patos idiotas sabem nadar e eu… nada.
8) Terra é bom. Falta terra nessa cidade impermeabilizada.

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9) Não suporto gente quando o parque está cheio. Desculpa! Quero ouvir os pássaros.
10)Vou tomar água de coco, na próxima volta…

…e caminho, caminho,até a hora vir embora. Feliz da vida. Adoro o Ibirapuera.

Vivas ao Ibirapuera!

Até mais.

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ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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Sem celular ou os cacarecos da modernidade

Um momento em Olinda, Pernambuco, exercitando o sonho de viver sem amarras e  em harmonia com a natureza.
Em Olinda, Pernambuco, sonhando viver sem amarras e em harmonia com a natureza.

Meu celular, acompanhando as tendências atuais, resolveu esquentar de tal forma que me provocou o receio de um acidente desagradável; já li que baterias explodem e o melhor é não arriscar. Antes que eu tomasse a decisão de desligar o aparelho ele… “morreu”.  Tive alguns minutos de pânico, algumas horas de incômodo e já estou quase feliz sem o dito cujo.

Nada como a ausência de algo supostamente importante para que percebamos o quão presos estamos aos cacarecos da modernidade. Na real, a primeira sensação ante uma falha de um objeto caro, que não tem nem um ano de uso, é de profunda irritação. Algumas vontades: jogar a porcaria na parede; difamar a empresa – neste caso específico a SAMSUNG – para toda a humanidade e, em momentos de delírio, imaginar absurdos tipo questionar os céus a razão do castigo; ou ainda indignar-se perante o descaso do cacareco para conosco.  – Que atrevido!

Após a inicial irritação, vem o terror da falta de comunicação; na cabeça da pessoa importantíssima que pensamos ser bate um brutal desespero: E se Barack Obama quiser discutir a privacidade mundial comigo? E se Maria Bethânia pretender minha companhia para um sorvete na praia? E se… A pior consequência de todas é a fatal “como conseguirei viver sem isso”…

– Muito bem, obrigado! Não há nada tremendo no meu bolso e nem corro o risco do barulho indiscreto de uma chamada durante as várias reuniões que ando fazendo. Também começo a perceber que o imediatismo em saber, resolver, responder ou comunicar pode ser substituído pelo controle da ansiedade, pela reflexão para uma melhor solução e, entre outras coisas pela liberdade de caminhar sem precisar dizer para quem quer que seja – Obama, Bethânia, ou um querido familiar – onde estou.

Bom, após mais de 48 horas sem o cacareco moderno, algumas ponderações, mesmo que embaraçosas… Ninguém me chamou pelo telefone fixo! Ninguém questionou via e-mail ou a rede social do momento – Facebook – o motivo de eu não atender chamadas. O mundo continua bem sem mim; a temperatura mantém-se quentíssima por toda a região e eu, bom, deixarei para consertar ou procurar outro cacareco lá pra semana que vem. Vou aproveitar mais alguns momentos para exercer o delicado exercício de conviver comigo mesmo.

De quantos cacarecos realmente precisamos? Sou um indivíduo que pretende viver com o mundo, no mundo, portanto longe estou de pregar contra celulares. Todavia, esse fato serviu para recordar que já vivi sem esse objeto e que, vez em quando, posso caminhar pela cidade “sem lenço, sem documento” e sem celular. Apenas vivendo a alegria de passear pela avenida. Já senti em tempos passados o mesmo em relação à TV, ao computador, e realizo periódicos exercícios de desligamento de aparelhos. Somarei o celular, com muito gosto, no conjunto de coisas que devo desligar por algumas horas para poder fazer coisas tipo refletir, pensar, sonhar, devanear… Enfim, viver.

Até mais!

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(Sem) Destino de Mineiro

Como mineiro fora de Minas Gerais, em um período das férias e em quase todos os feriados volto para casa. É obrigação. Sendo trabalhador brasileiro, e professor, só posso viajar depois do quinto dia útil: dinheirinho no bolso, contas pagas e aí, sim, sair com tranquilidade.

Façamos as contas: primeiros cinco dias úteis, dar de mamar aos braços – não fazer nada é bom demais – e acertar as finanças. Em seguida, no mínimo uma semaninha em casa, no meu caso, em Uberaba. Pelo calendário do mês de julho de 2012 o quinto dia útil será na próxima sexta, dia 6. Uma semana em casa, já salta pro dia 14 (D. Laura não vai gostar de eu sair lá em pleno sábado, dia 14; vai mais o domingo, 15). Aí, lembrando que sou trabalhador, devo voltar dia 29 para descansar dois dias, 30 e 31, das peripécias da viagem. Sobraram exatamente 13 dias para férias.

A idéia de estar em Minas já me faz totalmente mineiro e esquecido das influências verbais paulistanas uma pergunta não me sai da cabeça:

– Prondéquieuvô?

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Valdo Resende foto by Luis

Quando meu amigo Luis, lá da UNIP, fez essa foto, as férias estavam distantes.  Qualquer cidade da lista acima valeria um bom período de férias, exceto “Radiator Springs” (Não quero, obrigado!) e eu acrescentaria ainda outras: Tegucigalpa, Belém do Pará, Helsinki, Cairu, a Ilha de Páscoa…

– Prondéquieuvô?

Algumas viagens, já feitas, estão amorosamente arquivadas. Acumulei lembranças, álbuns de retratos, camisetas, bonés e muitos outros cacarecos. Somando todas essas bugigangas às que o cotidiano obriga e tenho uma enorme quantidade de coisas sobre as quais devo  “montar guarda”. Isso se torna mais um empecilho em cada momento de férias: quem fica para guardar a tralha toda? Então percebo que a grande viagem, aquela sonhada desde a adolescência, ainda não aconteceu.

Sem Destino / Easy Rider
Easy Rider, viagem e liberdade

Minha geração foi beneficiada com Easy Rider  (Sem Destino), o filme produzido por Peter Fonda, dirigido por Dennis Hopper, que ainda revelou Jack Nicholson. Jovens americanos, em 1969, buscam liberdade pessoal, distância de hábitos e costumes obsoletos. Era a Contracultura, resultante de fenômenos sociais que remontam a Segunda Grande Guerra, aos conflitos no Vietnã e à Guerra Fria. As personagens do filme (contrariamente ao título dado no Brasil) tinham destino definido, um festival em New Orleans. Dois jovens atravessando os EUA sobre motos. Em dado momento entra um terceiro. A idéia é de total liberdade.

Adolescente, somei literalmente “Sem Destino”, dos americanos, ao nacional “Sem lenço e sem documento”, da música “Alegria, alegria” de Caetano Veloso. Nasceu o sonho. Sair por aí, sem destino, sem pousada, sem hotel, sem bagagem, sem lenço, sem documento.

O governo militar tratou de amedrontar a molecada de então. A gente sabia de gente que desaparecia e tínhamos medo da polícia (que então, não existia para proteger o cidadão, mas o Estado). Isso resultou em que cresci portando documentos. Sem oportunidades sonhadas de trabalho em minha terra, viajei para o mundo com destino geográfico definido, mas com a indefinição do vir a ser, do que seria possível conseguir.

– Prondéquieuvô?

Como milhares de migrantes brasileiros eu venho, desde então, voltando para casa. Há viagens e viagens, se é que me entendem. Poucas foram concretizadas. Já fiz viagens emocionantes para muito longe; outras, inesquecíveis, para bem perto. Todas com destino traçado e com documento no bolso. E centenas de viagens para o cosmo, o profundo dos oceanos, o interior das grandes florestas…

Tenho a impressão de que, volta e meia, deixo de programar minhas férias esperando o momento de sair por aí. Pode ser de bicicleta, moto, carro. Até mesmo a idéia de ser andarilho me é fascinante. O sonho permanece. Sair por aí, livre de amarras, de conceitos, de regras, de vontades alheias. Apenas viajar. A idéia é instigante e só faz martelar em minha cabeça de mineiro:

– Prondéquieuvô?

Como mineiro, respondo: – Por enquanto, sei não, sô!

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Boa semana!

O som que nos define

Uberaba é bão, todo mundo sabe.

Prestem atenção em Débora Falabella quando diz “faz” em “Avenida Brasil”. É a típica mineira que um mineiro reconhece só de ouvir. A atriz é primorosa e de talento inegável, não deixa aparecer muito mais do que pequenos detalhes  do “minereis”. Também não aparece nada de sotaque argentino (não foi lá que a personagem cresceu?), muito menos o sotaque carioca. Nem Débora Falabella, nem qualquer outro ator tem sotaque carioca em “Avenida Brasil”. Dona Globo pasteuriza tudo e todos. Nem o garoto de praia Cauã Reymond tem sotaque carioca.

Postura oposta ocorre com “Gabriela”; as chamadas comerciais da novela, baseada no livro de Jorge Amado, vêm carregadas de “baianês”. Sem ser carioca de Copacabana, como a personagem de Débora Falabella, sem que Juliana Paes utilize o real sotaque de uma verdadeira baiana da região de Ilhéus, tudo fica um tanto ou quanto artificial; é novela.

No cotidiano do país, uma rica e vasta sonoridade encanta, emociona e, sobretudo, propicia identidade aos brasileiros deste imenso país. Para muitos, o sotaque é motivo para boas piadas, constituindo-se em mote para histórias e estórias. Foi assim, vindo para Uberaba em companhia de mineiros, que surgiram comentários sobre o modo de falar do paulistano. Uma sonoridade única, uma musicalidade que difere de nós, aqui de Minas, mas que também aparece diferente em gaúchos, paraenses, sergipanos, catarinenses. Cada um com seu jeito próprio de pronunciar, emitir palavras, expressões inteiras, além das diferenças vocabulares regionais.

Pessoalmente gosto muito de sotaques. Quando trabalhei em Viracopos, a diversão era perceber a origem do viajante através do sotaque do mesmo, falando em inglês. Às vezes aparecia alguém de país mais distante, com o qual tinha pouca familiaridade, então ficava mais difícil perceber a nacionalidade do cidadão. Também não era muito fácil distinguir o colombiano do paraguaio, o peruano do chileno, o argentino do Uruguaio, todos falando variações do espanhol. O visual ajudava bastante e os “hermanos”, por exemplo, sempre foram e são muito elegantes.

Em São Paulo, um dos desafios linguísticos que enfrentei, logo no início, foi distinguir a origem de alguns indivíduos, genericamente denominados “baianos” ou “ceará”. Morando no bairro da Liberdade, convivi muito mais com nordestinos do que com japoneses (Em São Paulo, tradicionalmente a Liberdade é território da colônia nipônica). Nordestinos chamavam-se mutuamente por “ceará”. Convivendo aprendi a estabelecer diferenças e reconheço quando estou falando com um pernambucano, conheço a sonoridade do cearense e a malemolência do falar baiano. Sempre tenho boas lembranças quando identifico um piauiense.

Tamen rima com trem, que só mineiro tem

Quando o assunto é sotaque só fico irritado com o exagero preconceituoso de pessoas que confundem mineiro com caipira paulista; ou com o infeliz que utiliza um suposto sotaque baiano, aprendido assistindo atores de qualidade pra lá de duvidosa, para piadas pejorativas. Fora essas bobagens, fico encantado com as diferentes variações de uma mesma língua; Às vezes, emocionado. Basta que Débora Falabella diga um “faz” de maneia peculiar para que eu recorde o jeito de falar do meu pai, de velhos e grandes amigos. Sotaque é assunto para lá de sério. Se a língua é determinante para nossa nacionalidade, é o falar específico que nos localiza dentro da grande nação. Eu, por exemplo, sou mineiro, do Triangulo, entre Goiás e São Paulo; ao conversar comigo, perceba a diferença! Vou ficar feliz, pois tenho orgulho dela.

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Bom final de semana.

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