O décimo primeiro

O Papa levou-me a rever a lista dos argentinos que admiro. Em primeiro lugar sempre esteve Quino; na verdade, a admiração e o afeto é pela Mafalda. Gosto tanto da menininha que repeti o mico de milhares, posando com a estátua da personagem que está no passeio público, em Buenos Aires, defronte ao local onde foi criada por Quino.

Com Mafalda, a personagem de Quino.
Com Mafalda, a personagem de Quino.

Musicalmente já declarei por escrito que Mercedes Sosa é a mais representativa, e por isso mesmo, a maior cantora da América do Sul. Gosto demais de tango na voz de Carlos Gardel e na renovação do ritmo portenho pelo talento de Astor Piazzolla.

Maradona, Norma Aleandro, Jorge Luís Borges, Carlos Gardel, Manuel Puíg, Mercedes Sosa, Julio Cortázar, Astor Piazolla e Lionel Messi.
Maradona, Norma Aleandro, Jorge Luís Borges, Carlos Gardel, Manuel Puíg, Mercedes Sosa, Julio Cortázar, Astor Piazolla e Lionel Messi.

Lembro com carinho algumas passagens de Norma Aleandro em filmes memoráveis e guardo versos da comovente poesia de Julio Cortázar. Orgulho-me de ter toda a obra de Jorge Luis Borges e desde que vi “O beijo da mulher aranha”, na versão de Babenco, guardei um exemplar do livro de Manuel Puig.

Lá, no museu que há no estádio La Bombonera, tive a certeza de que em se tratando de futebol os Argentinos são tão loucos quanto os brasileiros. Alimentam a lenda Maradona e atualmente veneram Lionel Messi.

Com tanta gente querida, não dá para acreditar na seriedade de uma possível rivalidade entre os dois países. Principalmente por somar aos dez nomes de argentinos notáveis mais um, nascido Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

O décimo primeiro, Papa Francisco
O décimo primeiro, Papa Francisco

A visita do Papa Francisco tornou banal a idéia dessa rivalidade e somou, além da admiração, um profundo respeito pelo país de origem desse líder carismático. Esse homem entrará para a história como um unificador que, sinceridade paternal, tornou verdadeira a expressão “hermanos” para justificar o afeto entre brasileiros e argentinos.

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Até mais!

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Rivalidade entre cantores! Quem ganha com isso?

Ontem, lembramos a morte de Elis. Em post anterior recordei Nara Leão – que faz aniversário no dia em que Elis morreu – e também Maysa. Três cantoras que namoraram, em épocas distintas, o mesmo homem. Li uma matéria publicada no UOL chamando a atenção para a “rivalidade” entre Elis e Nara. Incomodou bastante a agressão ao integrante da banda Restart. Daí a reflexão!

divulgação sbt
As "rivais" que vendem discos e lotam shows

Tudo indica que é condição do ser humano querer ser o melhor. Alguns confundem melhor com “os mais bonitos”, os “mais gostosos” e por aí vai. Se a coisa caminha pelas tramas do gosto – pessoal, autônomo, ou mediante a adoção de patamares acordados por um grupo – o indivíduo precisa ter a clareza da relatividade da situação que elege o mais bonito, a mais gostosa, os mais “tudo”.

Há que se ficar alerta e não confundir o melhor com resultados circunstanciais, como a audiência de um programa de TV ou a vendagem de discos, livros ou revistas; o melhor pode ser medido, aferido, comparado, estabelecido a partir de regras precisas. Mesmo gostando de alguém – a querida Nara Leão, por exemplo – são padrões reconhecidos em todo o planeta que determinam Elis Regina como melhor cantora. Afinação, extensão vocal com domínio de graves e agudos e além de uma incapacidade incrível de, ritmicamente, dividir uma música, ou seja, colocar a frase verbal de forma peculiar dentro da melodia estão entre os itens que caracterizam Elis Regina.

Com a Bossa Nova, João Gilberto acabou com a tirania do “dó de peito”, das vozes volumosas. Um caminho onde Nara Leão reinou com absoluta tranqüilidade. E aqui cabe citar uma qualidade de Nara: a capacidade de interpretar uma canção com total suavidade e leveza. As trajetórias musicais de Elis Regina e Nara Leão são parecidas, mas distintas, pois ambas são dotadas de personalidade e caráter ímpar.

A rivalidade é uma coisa forte, intrincada, na vida de todos nós. Vamos lembrar algumas?

Começa geralmente na escola um certo Meninos X Meninas que na vida adulta resulta em Homem X mulher; passa pela rivalidade de cidades como Rio de Janeiro x São Paulo ou lá, na terrinha, Uberaba x Uberlândia. Chega aos grandes inimigos do futebol Corinthians X Palmeiras, bem local, e às eternas disputas entre Brasil X Argentina, Uruguai, Franceses, Ingleses, Italianos… Continuando em quase todos os aspectos da atividade humana.

Martinha e Wanderléa. As "rivais" da Jovem Guarda.

No campo da música há rivalidades históricas! São facilmente lembradas: Marlene X Emilinha Borba, nos tempos áureos do rádio; Nara Leão X Elis Regina na época da Bossa Nova; Wanderléa X Martinha durante a Jovem Guarda; Maria Bethânia X Elis Regina nos anos 70; Maria Bethânia (de novo!) X Simone nos anos 80…Recentemente, Sandy X Wanessa e atualmente, Ivete Sangalo X Claudia Leitte.

Psicólogos afirmam que a rivalidade entre mulheres é uma coisa velada e que entre homens é escancarada. Dois bons exemplos: Roberto Carlos e Paulo Sérgio, na Jovem Guarda, levando RC a gravar um disco, “O Inimitável”, em franca guerra contra o “rival”. Outro exemplo, em outra área, as farpas constantes no embate Pelé x Maradona.

É bom notar – fácil obter isso em pesquisa – que são revistas, jornais e similares que criam essas rivalidades e vendem absurdo com elas. Estão quentes na memória as insinuações quanto à pinimbas entre Ivete Sangalo e Claudia Leitte; as duas correm para desmentir desafetos. Ou seja, vende-se a “briga” e fatura-se um pouco mais, com a “reconciliação”.

Há, por outro lado, rivalidades verdadeiras, advindas de choque entre indivíduos de um mesmo grupo buscando impor sua maneira de ser, de criar. O mundo do Rock é rico em histórias, algumas irreconciliáveis. Pessoas que iniciaram um trabalho e que, com o conflito estabelecido, deram outro rumo às próprias carreiras. O mais clássico dos exemplos, John Lennon X McCartney e, no Brasil, Rita Lee X Arnaldo Batista. A lista poderia crescer bastante!

Lamentamos o fim dos Beatles, o rompimento entre os primeiros integrantes de Os Mutantes. Mas, é bom ressaltar que nesse tipo de conflito continuamos ganhando. Cada indivíduo, no caminho escolhido, deixou ou tem deixado um trabalho digno dos grupos onde tudo começou. Com esse tipo de rivalidade, ganhamos. Com pinimbas criadas pela imprensa, ganha o dono do jornal! Embora seja fato certa cumplicidade entre a imprensa e alguns “rivais”.

Há artistas que só aparecem quando brigam com alguém, enquanto outros artistas passam ao largo dessa história de rivalidades. Gal Costa, por exemplo, foi amiga de Elis Regina e é amiga de Maria Bethânia. Ninguém conseguiu estabelecer uma briga entre Gal e quem quer que seja. É constatável historicamente que Bethânia espetava Elis afirmando ser “Gal é a melhor cantora do Brasil”. Gal, tranquila desde sempre, canta. Longe das encrencas das colegas.

Gal Costa soube neutralizar fofoqueiros sendo amiga de Elis e de Bethânia, assim como Ivete Sangalo soube neutralizar uma possível rivalidade com Daniela Mercury, declarando-se sempre fã da colega. Uma tática infalível, que não vingou em relação à Claudia Leitte.

Hoje é reconhecida a falsa rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba nos tempos da Rádio Nacional

Verdadeiras ou falsas, as rivalidades resultam em sofrimento para aqueles que estão vivendo a situação, os próprios rivais. Gera frustração, tristeza, ciúme, inveja. No futebol, por exemplo, gera violência e morte; mas, como ficariam os programas esportivos sem esse aspecto? Complicado… Principalmente quando certos fãs confundem as coisas e resolvem jogar pedras em cantores e músicos.

É necessário que o indivíduo reconheça no artista, ou no time de futebol, as qualidades que tornam esses os melhores. Sem confundir com afeto, simpatia. Se não gostamos de um artista, basta evitá-lo. Agora, atirar pedra – Literalmente! – em um artista é, além de um crime, uma demonstração absurda de baixa auto-estima. Se for necessária violência para que reconheçam o “seu” artista como melhor, que raio de artista é esse? E que público é esse!

Um artista é bom ou ruim. Outra coisa é afeto. O que não pode é alimentar a rivalidade baixando o nível e chegando à violência. No futebol esta, em grande parte, é fruto de uma “guerra” alimentada em programas esportivos de rádio e televisão. Há que se rever os “jogos de vida e morte” para que estes não cheguem aos shows de música. Se vaias são desagradáveis; pedradas são inaceitáveis.

Bom final de semana!

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