Um café com Marilena Ansaldi

São tantas perdas! E a gente segue, ficando lembranças. Perdemos Marilena Ansaldi nesta última terça-feira, dia 9 de fevereiro. Uma mulher notável, grande artista. Um dia tive a oportunidade de entrevistar a atriz que, quando bailarina, atuou no Teatro Bolshoi, em Moscou. Ela estava atuando em Hamletmachine, onde também operava som e luz: “Um velho desejo, buscar a total unidade do ator em cena, onde o personagem se ilumina”. Disse-me Marilena.

Fui recebido em seu apartamento. Senti a responsabilidade em conversar com a atriz que conheci em “Geni”, o espetáculo baseado na personagem da Ópera do Malandro, de Chico Buarque. O compositor criou músicas belíssimas para o trabalho idealizado pela atriz. Entre essas, Mar e Lua:

…Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

Começamos nossa conversa por “Geni”, quando ela me disse: “Não faço peças, me apaixono por temas, por personagens. A partir dessa paixão, dessa identidade, é que realizo meu trabalho”. Essa declaração, que escrita aqui soa como manifesto, não deixa de sê-lo. A diferença está na maneira absolutamente tranquila em dizer algo que, naquele momento, pareceu-me papo íntimo entre amigos. Foi assim, Marilena Ansaldi tratou-me como um amigo.

No apartamento amplo, elegante, fiquei pouco tempo na sala. “– Você aceita um café? Vamos até a cozinha, vou fazer um café pra você”. E aí a conversa fluiu com a intimidade que um cafezinho permite, ainda mais quando preparado pela dona da casa. E pude ouvir Marilena Ansaldi falando com tato, emoção. Contundente sem deixar de ser calma. Uma personalidade forte.

Falamos sobre nosso país e, revendo o texto que publiquei, parece que a entrevista ocorreu ontem: “No Brasil sempre existiu a ditadura econômica e a ditadura da livre expressão. Os políticos descobriram que dando a liberdade de expressão, pouca, tudo fica como estava” e prosseguiu o assunto do qual extraí algumas citações:

“Contudo, sabemos que uma real modificação só pode ocorrer a partir da ação coletiva”.

“Nossos movimentos políticos são medíocres, mentirosos, tapeiam muito!”

“Se as pessoas fossem mais lúcidas, se lessem mais…Só a partir da consciência é que poderá surgir uma ação direta, efetiva”.

Generosa, Marilena me deu uma tarde de boa conversa. Fiquei impressionado com a lucidez e a tranquilidade de afirmações do tipo, “as coisas irão piorar, muito. Não tem como, é só olhar para o que está aí”. Não se tratava de mero pessimismo, mas de um olhar sensível sobre a realidade.  Falou de facismo, nazismo, não se referindo à existência de organizações, mas a formas de atitudes. O exemplo, na entrevista, era por conta de uma onda de crimes contra homossexuais: “Não é um fato isolado. A violência está tomando forma na comunidade. Os criminosos sabem que não serão punidos, nem procurados”.

Foi em 1987. Tempos difíceis! Luiz Antônio Martinez Correa havia sido brutalmente assassinado. Jânio Quadros fazia coro à homofobia, proibindo bailarinos homossexuais no Ballet da Cidade de São Paulo. “A AIDS é uma peste que recaiu sobre a sexualidade, o ato mais bonito da natureza foi atingido. Justamente quando as pessoas começavam a ver o sexo assim, como a coisa bonita que é”.  

E o que poderíamos pensar para o próximo ano? “Este ano é consequência do que vem atrás. A minha lucidez faz com que eu some. A vida é uma somatização de coisas. Essas estão aí. Podem melhorar um pouquinho ou piorar muito. De alma, pode melhorar; de fato, não.” Parece que foi ontem!

Alguma saída? “Existem seres e seres humanos. Na verdade, a essência do homem, o que chamamos de índole, a sensibilidade é que é o grande mistério. Se a sensibilidade se desenvolve, então teremos um mundo melhor. Se a gente soubesse mais, se fôssemos mais sábios! Esse grande mistério, o bem, o mal…” A atriz revelou um desejo: “o único espaço, seja onde for, em que eu gostaria de estar sempre é o palco.” E, com humor, finalizou: “mesmo que realizando um trabalho para cobrir os prejuízos do anterior”.

Tive a boa sorte de conversar uma tarde com Marilena Ansaldi. Desses momentos que ficaram inesquecíveis pelo todo, marcado por expressões do tipo “vai piorar, é só olhar o que há”, ou “nós permitimos o que há”, que me pareceram fortes, fatalistas, mas ao que a mulher respondia com arte, com delicadeza e sensibilidade. “Só um minuto, vamos tomar um último cafezinho” E aí, falamos sobre as peças que viriam, sobre quando sairia a matéria, sobre viagens e excursões da artista… Após esse momento nos encontramos apenas duas vezes. Nessas ela me tratando com generosidade, amizade. Inesquecível!

Nós, as saúvas.

Tenho tido dificuldade em escrever neste blog. E, por razões similares, tento falar pouco. O difícil exercício de calar, pensar, compreender, meditar, ponderar, refletir, raciocinar, entender e, mais difícil que tudo: aceitar, reconhecer, perdoar, conviver…

Há muito, quando entrevistei a atriz Marilena Ansaldi, ela afirmou que estava tudo muito ruim; e que iria piorar. Ansaldi foi bailarina e desenvolveu posteriormente uma brilhante carreira de atriz criando espetáculos contundentes, que demonstravam além da capacidade de criar, uma notável forma de ver e pensar o mundo. Desde tal entrevista, volta e meia recordo a reflexão da atriz; reflexão não, conclusão: vai piorar.

?????????????????????????????????????????????????????????

Quando trabalhei com Antunes Filho, em uma das versões de Macunaíma, o diretor falava da morte da personagem, associando a isso um estranho hábito que nós brasileiros temos, tal qual saúvas, de levar veneno para dentro das nossas tocas. Haveria momento em que, conscientes ou inconsequentes, levaríamos o veneno mortal para dentro de casa, dando de ombros ao risco de matar todo mundo. Terrível!

Penso que é difícil, na atual conjuntura, discernir alimento e veneno. Informação e mentira. Temos imprensa partidária que alardeia isenção; frequentamos igrejas que trocaram indulgência por sofisticadas formas de dízimo, comercializando céu, saúde e paz; nossos dirigentes de todos os partidos convivem com corruptos, colocando-se no mesmo balaio e evidenciando verdades populares do tipo dize-me com quem andas…  Vivemos sob um sistema que cria necessidades em nome do capital e, acima de tudo, nos diferenciamos das saúvas por um infinito individualismo. Somos “a saúva”. Os outros…

Os outros são aqueles com os quais somos obrigados a viver, a suportar. Para tanto, temos deuses e santos que nos são convenientes, tremendamente incômodos se temos que seguir ensinamentos tipo “amar ao próximo”. Somos um país cristão dividido entre católicos e evangélicos competindo entre si para garantir adeptos, sempre afirmando que somos irmãos; garantimos novas chances de retorno via espiritismo e, por atavismo, ignoramos diferenças sociais quando precisamos do apoio de um pai de santo. Quando sofisticados, cultuamos exóticas crenças, daquelas para quem pode viajar e conhecer a Índia, a China, ou mais próximos, os caminhos de Compostela.

Cuidamos do que somos, do que é nosso, do que nos diz respeito. Não importa quão alto tenha que ser o muro, quão resistente tenha que ser a armadura e eficaz o sistema de segurança. Precisamos nos defender… Do outro.  Lutamos também pelo o que pensamos, frequentemente, em contraposição ao pensamento de outros. Em atitude exacerbada, parece que o ideal é destruir quem pensa diferente. Política, religião, opção sexual… Interessa aquelas ideias e posições que são as nossas.

Somos saúvas e carregamos, com dificuldades de discernimento, o alimento e o veneno. Tal qual a chamada praga, destruímos muito do que nos cerca. Piores que formigas, ameaçamo-nos uns aos outros, colocamo-nos em perigo e, ameaçados, miramos o outro, sem conseguir enxergar o veneno sobre nossas cabeças.

Está difícil concluir, pensar saídas, vislumbrar soluções. A única pergunta que não me sai da cabeça: o que pode ocorrer para que ocorra uma intensa e honesta virada?

Até mais.