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Tenho tido dificuldade em escrever neste blog. E, por razões similares, tento falar pouco. O difícil exercício de calar, pensar, compreender, meditar, ponderar, refletir, raciocinar, entender e, mais difícil que tudo: aceitar, reconhecer, perdoar, conviver…

Há muito, quando entrevistei a atriz Marilena Ansaldi, ela afirmou que estava tudo muito ruim; e que iria piorar. Ansaldi foi bailarina e desenvolveu posteriormente uma brilhante carreira de atriz criando espetáculos contundentes, que demonstravam além da capacidade de criar, uma notável forma de ver e pensar o mundo. Desde tal entrevista, volta e meia recordo a reflexão da atriz; reflexão não, conclusão: vai piorar.

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Quando trabalhei com Antunes Filho, em uma das versões de Macunaíma, o diretor falava da morte da personagem, associando a isso um estranho hábito que nós brasileiros temos, tal qual saúvas, de levar veneno para dentro das nossas tocas. Haveria momento em que, conscientes ou inconsequentes, levaríamos o veneno mortal para dentro de casa, dando de ombros ao risco de matar todo mundo. Terrível!

Penso que é difícil, na atual conjuntura, discernir alimento e veneno. Informação e mentira. Temos imprensa partidária que alardeia isenção; frequentamos igrejas que trocaram indulgência por sofisticadas formas de dízimo, comercializando céu, saúde e paz; nossos dirigentes de todos os partidos convivem com corruptos, colocando-se no mesmo balaio e evidenciando verdades populares do tipo dize-me com quem andas…  Vivemos sob um sistema que cria necessidades em nome do capital e, acima de tudo, nos diferenciamos das saúvas por um infinito individualismo. Somos “a saúva”. Os outros…

Os outros são aqueles com os quais somos obrigados a viver, a suportar. Para tanto, temos deuses e santos que nos são convenientes, tremendamente incômodos se temos que seguir ensinamentos tipo “amar ao próximo”. Somos um país cristão dividido entre católicos e evangélicos competindo entre si para garantir adeptos, sempre afirmando que somos irmãos; garantimos novas chances de retorno via espiritismo e, por atavismo, ignoramos diferenças sociais quando precisamos do apoio de um pai de santo. Quando sofisticados, cultuamos exóticas crenças, daquelas para quem pode viajar e conhecer a Índia, a China, ou mais próximos, os caminhos de Compostela.

Cuidamos do que somos, do que é nosso, do que nos diz respeito. Não importa quão alto tenha que ser o muro, quão resistente tenha que ser a armadura e eficaz o sistema de segurança. Precisamos nos defender… Do outro.  Lutamos também pelo o que pensamos, frequentemente, em contraposição ao pensamento de outros. Em atitude exacerbada, parece que o ideal é destruir quem pensa diferente. Política, religião, opção sexual… Interessa aquelas ideias e posições que são as nossas.

Somos saúvas e carregamos, com dificuldades de discernimento, o alimento e o veneno. Tal qual a chamada praga, destruímos muito do que nos cerca. Piores que formigas, ameaçamo-nos uns aos outros, colocamo-nos em perigo e, ameaçados, miramos o outro, sem conseguir enxergar o veneno sobre nossas cabeças.

Está difícil concluir, pensar saídas, vislumbrar soluções. A única pergunta que não me sai da cabeça: o que pode ocorrer para que ocorra uma intensa e honesta virada?

Até mais.