Cinquenta anos do “felizes para sempre”

novelas
Glória Pires, Carlos Alberto e Yoná Magalhães, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri, Tarcísio Meira e Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte, Ewa Vilma, Tony Ramos, Paulo Goulart e Nicette Bruno.

Dia 22 de julho de 1963, na extinta TV Excelsior, estreou a primeira telenovela brasileira: o seriado “2-5499 Ocupado” foi estrelado por Tarcísio Meira, que hoje está literalmente enraizado em “Saramandaia”, e Glória Menezes, a simpática avozinha do seriado “Louco por elas”.

Há cinquenta anos que um casal se conhece; após um nhém-nhém-nhém meloso algo ou alguém atrapalha o romance; após lágrimas, desavenças e muitas peripécias dão um belo beijo de “felizes para sempre’”. Assim fica mais do que evidente que interessa o processo, como o enredo é contado, interpretado, em que cenário de tempo e espaço está inserido. Isto é a telenovela brasileira.

Tenho lido críticas ao atual autor da novela das 9, Walcyr Carrasco, que estaria plagiando outros folhetins. Balela. O que interessa ao público é deleitar-se com o sofrimento do casal principal vitimado pela maldade do irmão da moça. O público diverte-se com as ações da médica inescrupulosa, da secretária vadia, enquanto dá boas gargalhadas com outra vagabundinha, atrás de um marido rico, estimulado pela mãe brega, bailarina decadente que brilhou nos programas do Chacrinha.

Novela é produto – dizem até aqueles que fazem – de uma indústria que faz exatamente o que é necessário para agradar seus consumidores. Mudam as embalagens, tiram alguns ingredientes, substituem outros por mais novos e assim, a novela segue em frente, assumindo ações de responsabilidade social, esbanjando sofisticação técnica, mas nunca indo além daquilo que agrada. Mercadoria é para ser vendida e o público escolhe aquilo que lhe convém.

Nossos profissionais de novelas merecem todo o respeito, também merecem homenagens. Há cinquenta anos embalam nossas tardes e noites com aventuras de “Europa, França e Bahia”; tudo com inegável domínio técnico. A novela brasileira tem excelência no fazer e por isso, quando atinge tal nível merece ser denominada arte. É uma das expressões de nosso tempo e, como tal, deve ser examinada sem preconceitos.

É hilário perceber que aqueles que criticam o senhor Walcyr Carrasco fingem ignorar que já sabem o final do folhetim. Ficam apontando aqui e ali alguns aspectos, esquecendo-se que quase todos os outros já estiveram em alguma novela ou filme. Os tempos são outros, a forma, o cenário, tudo é diferente, mas quando a personagem de Tatá Werneck procura um marido rico, nada mais faz do que viver situação similar por inúmeras outras personagens (Ocorre-me agora a sedutora Marilyn Monroe, por exemplo, em “Como agarrar um milionário”).

O público, ao que indica a longevidade das novelas, incomoda-se pouco com repetições; quer mesmo é um produto bem feito. Nosso público é educado para novelas e, nelas, reconhece a magnitude de uma Fernanda Montenegro, o texto ímpar de Dias Gomes, a produção requintada das produções de época da Rede Globo. Quando o público não gosta a novela, o autor e tudo o mais fica esquecido. E, é só prestar atenção para constatar que tem mais gente esquecida que medalhão reverenciado!

Em 1963, o enredo da primeira novela foi sobre uma presidiária que trabalha como telefonista. Ao ouvir a voz da moça o mocinho, sem saber que é uma detenta, apaixona-se. Nos dias de hoje, quando recebemos telefonemas de golpistas diretamente dos presídios, não seria de se estranhar se alguma garota, presa, resolvesse tentar um romance com algum, entre os tantos solitários dos nossos dias. Nada mal como enredo para a próxima novela; ou alguém duvida?

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Boa semana!

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Junho de santos e artistas

Bethânia, Chico, Erasmo e Wanderléa: Junho!

Sapeando na internet vi um vídeo com Wanderléa participando do novo programa do Danilo Gentili. Antes vi a campanha publicitária com a participação dela, sobre o trânsito em São Paulo. Agora, estava também na reprise do Globo de Ouro, no canal Viva. Três vezes Wanderléa que, por final, fez aniversário neste dia 5. Junho, finalmente, começou. E Wanderléa vem reforçar a lembrança de minha avó materna, que também fazia aniversário neste dia. Wanderléa, Erasmo Carlos e minha avó. Que trio!

Vovó comemorava o próprio aniversário e o de todos nós, crianças, fazendo sequilhos. Recentemente encontrei sequilhos industrializados; tive ímpetos assassinos por chamarem aquilo de sequilho. Como os feitos por minha avó só encontrei, em tempos recentes, no Estado do Maranhão. Especificamente em um simpático hotel em Imperatriz, quando de passagem para Açailândia. O café da manhã no hotel, em Imperatriz, foi com toda uma série de bolos, pães e outras preciosidades, como o sequilho, tudo feito na hora. Após o café, andando pelo centro da cidade fiquei impressionado com a quantidade de lojas vendendo vestidos típicos das festas juninas.

Quem é do norte, nordeste, vive as festas de junho com uma intensidade mil vezes maior que no sudeste. É gostoso brincar com o folclore que envolve o primeiro santo de junho, Antônio, o casamenteiro. Na véspera do dia 13 ainda há moças que acreditam nos poderes do santo para arranjar-lhes um marido. Logo depois, dia 24, vem São João, o Batista; aquele que batizou Jesus Cristo e para o qual se acende a fogueira, avisando Maria, a mãe de Cristo, sobre o nascimento do filho de Isabel.

Entre 13 e 24 de junho, outros artistas, todos bem amados: Chico Buarque, no dia 17; Maria Bethânia, Isabella Rossellini e Paul McCartney no dia 18; Jean-Paul Sartre no dia 21; Meryl Streep no dia 22. No dia 23 é o dia de Elza Soares. Só feras! Grandes feras! Juntinho com São João, no dia 24, por exemplo, nada mais, nada menos que Bob Dylan.

Junho de Sartre, Guimarães Rosa e Saint-Exupéry

Caminhando para o final do mês, as festas continuam para prestar homenagens também a São Pedro, o dono da porta do céu. Próximos dessa data, sintomaticamente, grandes figuras, acima do comportamento dos comuns:  João Carlos Martins, o maestro, faz aniversário dia 25 e em seguida, 26, Gilberto Gil. Depois de Gil, dia 27, Guimarães Rosa, antecedendo Raul Seixas que é do dia 28. No próprio dia de São Pedro, lembramos Antoine de Saint-Exupéry. Finalmente, se o mês de junho começa, no dia primeiro, com a loira Marilyn Monroe, termina com a perturbadora morenice de Dira Paes, no dia 30.

É fatal voltar ao passado em Junho. Um tanto de melancolia; rever o passado, pensar naquilo que vem pela frente. É como me sinto neste mês do meu aniversário; repensando o presente, vendo o que é possível fazer no futuro. Se eu penso em artistas e santos, mais que vaidade, tem a vontade ser como eles. Tento ser legal para um dia, quem sabe, estar entre eles quando alguém, no meio da noite, escrever sobre o próprio mês de nascimento. Por enquanto, nem santo, nem artista; apenas humano. Com vontade de ser melhor. Já está de bom tamanho; ou não…

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Até mais!

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O nome dos bois

A Familia Adams em foto de João Caldas, sem bois!

Quando os apresentadores do “Jornal Hoje” anunciaram que “Setor financeiro assume o primeiro lugar no número de queixas no IDEC” fiquei atento para saber de quem estavam falando. Nada! Nem um nomezinho. Só daquilo que, genericamente, não significa grande coisa. Citaram “Instituições financeiras”, “planos de saúde” e o final da primeira parte da notícia é um primor de tão vazia: “A qualidade dos serviços de telefonia ou internet, a demora na entrega e os produtos com defeito também recebeu muitas críticas do consumidor”.

E os nomes dos bois? Dona Globo não diz. Justamente hoje, que estive lendo sobre responsabilidade social e o livro (veja dados abaixo) fala sobre as iniciativas de ação social da TV Globo que, em documento citado, revela sua “responsabilidade na difusão de conhecimentos”. Desde que esses conhecimentos não comprometam a receita da emissora. Só por medo ou por aceitar pressão dos anunciantes que a Globo não citou o nome das empresas com problemas.

Os bois são grandes. Cada boi vale por cem, mil boiadas. Acontece que o PROCON-SP anunciou o ranking estadual, nominando e classificando os bois. O BRADESCO é o primeiro em reclamações. Depois vem o grupo B2W (Americanas.com/Submarino/Shoptime), seguido do ITAÚ UNIBANCO. No quarto lugar está a empresa LG Eletronics e aí chega o setor de telefonia: TIM, TELEFONICA e OI e assim por diante.

Fiz questão de dar nome aos bois e desejo, sinceramente, que todos entrem no site do PROCON e consultem a lista completa. Precisamos saber com quem estamos lidando. E precisamos reclamar formalmente mais, muito mais. Não adianta ficar choramingando pra vizinha ou para o melhor amigo. Soltar os cachorros nas redes sociais já é uma forma de pressão, mas isso não obriga nenhuma empresa a responder e, fundamentalmente, a cumprir com suas obrigações; por isso é importante oficializar. Vamos criando histórico para que, mediante um processo legal, a justiça tenha como precedentes tudo o que já foi denunciado pelo consumidor contra a empresa.

Maria Rita no Ibirapuera, uma das opções para o próximo dia 22 de abril

Finalmente, já que Dona Globo está a serviço dos grandes empresários, sugiro uma pequena vingança. Vamos desligar a tv ou, no mínimo, mudar de canal nesse final de semana. Eu, por exemplo, vou ver Maria Rita no show aberto que fará no Ibirapuera, dia 24. Também há Portinari no Memorial, Marilyn Monroe na Cinemateca e a Família Adams, com Marisa Orth e Daniel Boaventura no teatro. Há mais, muito mais. Bons jornais publicam os dados de espetáculos, peças, exposições. Dona Globo, só divulga quando o anunciante permite.

OPS! DESCULPEM. O show de Maria Rita será no dia 22 de abril, e não amanhã, dia 17. Fui alertado por Carolina, uma conhecida virtual. De qualquer forma, fica valendo. Mais que um, dois finais de semana para ficar distante da tv. Grato Carolina!

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Até!

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Nota: o livro: Ética e responsabilidade social nos negócios, coordenado por Patrícia Almeida Ashley, contém uma série de artigos sobre o tema. Editora Saraiva.

Em filme e exposição, Marilyn Monroe permanece

Uma das fotos que está na exposição da Cinemateca Brasileira

Marilyn Monroe frequentou os sonhos de homens do mundo inteiro. Morta há cinquenta anos tornou-se mito, a beleza eternizada. Desde então muitos tentam entender e retratar a mulher que, em vida, foi colocada em segundo plano pela estrela. A atriz americana está sempre por perto; às vezes mais, outras menos, mas sempre presente. No momento, presenciamos mais uma das voltas de Marilyn Monroe ao noticiário.

Não fosse a imbatível Meryl Streep, Marilyn Monroe poderia ter sido avessamente premiada com o Oscar de 2012. A indicada ao prêmio foi Michelle Williams, interpretando a estrela em “Sete dias com Marilyn”. A história é baseada em relato de Colin Clark, publicado postumamente, sobre uma semana em que Colin, então um jovem auxiliar de produção, acompanhou Marilyn Monroe em uma viagem pelo interior da Inglaterra. O garoto pode realizar o sonho de milhões de homens: estar sozinho com a maior estrela do cinema mundial. Mas, foi com a mulher que ele esteve; e este é o diferencial do relato e, portanto, do filme. A tentativa de desvendar Marilyn.

A mulher Marilyn Monroe ganhou notoriedade com a morte da estrela. Ninguém entendeu, e é difícil aceitar a morte prematura de uma pessoa linda, famosa e rica. O mundo ainda busca respostas, cinquenta anos após a morte, ocorrida em agosto de 1962. Em São Paulo, na Cinemateca Brasileira, ocorre uma exposição e mostra de filmes. O título sugere a força e a dimensão de Marilyn Monroe nos nossos dias: “Quero ser Marilyn Monroe”. Além dos filmes e de uma coleção de fotos, a exposição ainda conta com quadros célebres de artistas como Andy Warhol  e Peter Blake, entre outros, que tentaram revelar a mulher sob o mito.

Meu primeiro contato com Marilyn Monroe ocorreu quando uma exposição itinerante de um museu de cera ficou, temporariamente, em uma sala na Rua Artur Machado, em Uberaba. Eu era muito garoto e recordo uma escultura em tamanho real, protegida por uma caixa de vidro. Os cartazes, sensacionalistas, falavam de suicídio e sugeriam assassinato, conspiração, relações com John Kennedy. Fiquei na vontade, pois não me permitiram visitar tal exposição. Mas a loira bonita de vestido branco esvoaçante, morta misteriosamente, entrou na minha vida para ficar.

Fascina o jeito de criança de Marilyn Monroe. Penso que todo homem sente vontade de acariciar, proteger e amar a garota com aspecto inocente, parecendo ingênua. A doce menina que também é capaz de dominar, de ser determinada e, sobretudo, sensual.  E como os empresários de Hollywood nunca deram ponto sem nó, todas as fotos de Marilyn Monroe, no auge do estrelado, mostram pouco e sugerem tudo. Nada mais enlouquecedor que a promessa de uma sugestão. Lençóis, decotes, saias justas, vestidos leves… Todos os tecidos envolvem e mostram um corpo delicioso e, deste, sempre vemos o mínimo do máximo que a forma feminina pode ter.

Marilyn Monroe deixou bons filmes, alguns inesquecíveis. Prefiro “Como agarrar um milionário” e já escrevi que vejo este como o melhor momento da atriz. Todavia, mais que filmes de sucesso, Marilyn continua nos nossos sonhos. E este é, com certeza, o maior desafio para as estrelas dos dias atuais. Há mulheres lindíssimas, sensuais, provocantes, sedutoras; todavia, são consumíveis e, consumidas, logo substituídas.  Quantas mulheres atingiram o estrelato e, pouco tempo depois, já estão totalmente apagadas? Marilyn Monroe permanece. E parece que jamais irá desaparecer.

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Bom final de semana!

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Notas:

– Sete Dias com Marilyn tem previsão de estreia dia 23 de março em todo o Brasil.

–  A Cinemateca Brasileira fica no Largo Senador Raul Cardoso, 207, em São Paulo. A exposição sobre Marilyn acontece de 04 de março a 01 de abril. Outras informações pelo telefone: (11) 3512-6111 (ramal 215).

Richard Hamilton: Uma visão sobre o mundo

Dizer que um artista está à frente do seu tempo é comum, quase óbvio. E quando esse artista cria uma obra que deveria ser apenas uma ilustração para um catálogo e esta se torna um ícone artístico? E se a exposição tem por título “This is Tomorrow” e o artista sinaliza, em 1956, um modo de vida que torna os dias de hoje, o tal amanhã que a exposição prenunciava? Vamos à obra e ao criador:

Just what is it that makes today’s homes so different, so appealing? (O que será que torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?). Colagem, 1956.

Fabrício Gomes do Nascimento, meu aluno, enviou-me a notícia da morte de Richard Hamilton, um dos ícones precursores da Pop Art. O artista faleceu em Londres, aos 89 anos. É chamado de pai da Pop Art e entrou também no universo musical via capa do “White Album”, dos Beatles.

Hamilton participou de um grupo inglês que discutia a evolução da cultura de massa e das tecnologias então nascentes que transformariam o planeta. Ao criar a exposição “This is Tomorrow”, o artista inglês e seus parceiros levaram a cultura popular para uma galeria de arte. Hamilton desfrutava do prestígio de professor no Royal College of Art e a Inglaterra ditava costumes e hábitos para o mundo.

Reproduzido acima, o primeiro grande ícone criado por Hamilton pode ser visto,  guardadas as proporções e visualizando ajustes, como um retrato atual. O culto ao corpo representado na imagem pela pin-up e pelo halterofilista Charles Atlas, por exemplo, são primórdios dos corpos modelados em academias, algumas tatuagens decorativas, ou como outros, esculpidos em “lipos” e silicones. O lar visualizado por Hamilton é complementado com uma espécie de apologia aos produtos de massa: a história em quadrinhos, a televisão, cinema e vários objetos industrializados.

A Pop Art nasceu assim. O que poderia ter sido um movimento crítico – e Hamilton foi um crítico de seu tempo – foi utilizado de forma ambivalente pelos artistas americanos das gerações posteriores. A Pop Art americana é puro consumo. Multiplicidade de significados, ou significado nenhum, apenas o comum exposto como arte (latas de sopa) ou o ídolo musical e cinematográfico (Elvis Presley, Marilyn Monroe) tornado colagens, telas, serigrafias, tudo reproduzido e vendido em larga escala, tornando Andy Warhol – um dos expoentes americanos da Pop Art – um milionário.

Hamilton também criou uma obra sobre Marilyn Monroe. Se Warhol colaborou com suas obras para a criação do mito Marilyn, Hamilton disseca os mecanismos que transformam a atriz na estrela de cinema. (reprodução abaixo).  Em plena maturidade, o artista inglês ainda mostrou, de forma contundente, sua verve crítica retratando como caubói ao ministro britânico Tony Blair, em 2003, pelo apoio que este deu aos americanos na invasão do Iraque.

My Marilyn, fotografias e óleo sobre tela.

O que admiro em Richard Hamilton é o olhar sobre a realidade, a tentativa de compreender o presente em composições visuais críticas. Um artista que nunca perdeu o humor, a ironia, propiciando-nos uma visão sobre o mundo. Quase um profeta.

Até a próxima!