Richard Hamilton: Uma visão sobre o mundo

Dizer que um artista está à frente do seu tempo é comum, quase óbvio. E quando esse artista cria uma obra que deveria ser apenas uma ilustração para um catálogo e esta se torna um ícone artístico? E se a exposição tem por título “This is Tomorrow” e o artista sinaliza, em 1956, um modo de vida que torna os dias de hoje, o tal amanhã que a exposição prenunciava? Vamos à obra e ao criador:

Just what is it that makes today’s homes so different, so appealing? (O que será que torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?). Colagem, 1956.

Fabrício Gomes do Nascimento, meu aluno, enviou-me a notícia da morte de Richard Hamilton, um dos ícones precursores da Pop Art. O artista faleceu em Londres, aos 89 anos. É chamado de pai da Pop Art e entrou também no universo musical via capa do “White Album”, dos Beatles.

Hamilton participou de um grupo inglês que discutia a evolução da cultura de massa e das tecnologias então nascentes que transformariam o planeta. Ao criar a exposição “This is Tomorrow”, o artista inglês e seus parceiros levaram a cultura popular para uma galeria de arte. Hamilton desfrutava do prestígio de professor no Royal College of Art e a Inglaterra ditava costumes e hábitos para o mundo.

Reproduzido acima, o primeiro grande ícone criado por Hamilton pode ser visto,  guardadas as proporções e visualizando ajustes, como um retrato atual. O culto ao corpo representado na imagem pela pin-up e pelo halterofilista Charles Atlas, por exemplo, são primórdios dos corpos modelados em academias, algumas tatuagens decorativas, ou como outros, esculpidos em “lipos” e silicones. O lar visualizado por Hamilton é complementado com uma espécie de apologia aos produtos de massa: a história em quadrinhos, a televisão, cinema e vários objetos industrializados.

A Pop Art nasceu assim. O que poderia ter sido um movimento crítico – e Hamilton foi um crítico de seu tempo – foi utilizado de forma ambivalente pelos artistas americanos das gerações posteriores. A Pop Art americana é puro consumo. Multiplicidade de significados, ou significado nenhum, apenas o comum exposto como arte (latas de sopa) ou o ídolo musical e cinematográfico (Elvis Presley, Marilyn Monroe) tornado colagens, telas, serigrafias, tudo reproduzido e vendido em larga escala, tornando Andy Warhol – um dos expoentes americanos da Pop Art – um milionário.

Hamilton também criou uma obra sobre Marilyn Monroe. Se Warhol colaborou com suas obras para a criação do mito Marilyn, Hamilton disseca os mecanismos que transformam a atriz na estrela de cinema. (reprodução abaixo).  Em plena maturidade, o artista inglês ainda mostrou, de forma contundente, sua verve crítica retratando como caubói ao ministro britânico Tony Blair, em 2003, pelo apoio que este deu aos americanos na invasão do Iraque.

My Marilyn, fotografias e óleo sobre tela.

O que admiro em Richard Hamilton é o olhar sobre a realidade, a tentativa de compreender o presente em composições visuais críticas. Um artista que nunca perdeu o humor, a ironia, propiciando-nos uma visão sobre o mundo. Quase um profeta.

Até a próxima!

4 comentários sobre “Richard Hamilton: Uma visão sobre o mundo

  1. Nunca gostei da arte(?) do Andy Warhol, e por consequência repudiava a pop art, achando que ele que tinha inventado. Valeu por me mostrar que existe gente que fez coisa muito mais interessante e ANTES dentro desse estilo,

  2. edna

    Valdo, sei que vc escreveu coisas lindas sobre o artista, mas como sou meio tonta me perdi pelo caminho.Desculpe-me da pr´xima vez escreve menos um pouquinho.

    beijos

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