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Rivalidade entre cantores! Quem ganha com isso?

Ontem, lembramos a morte de Elis. Em post anterior recordei Nara Leão – que faz aniversário no dia em que Elis morreu – e também Maysa. Três cantoras que namoraram, em épocas distintas, o mesmo homem. Li uma matéria publicada no UOL chamando a atenção para a “rivalidade” entre Elis e Nara. Incomodou bastante a agressão ao integrante da banda Restart. Daí a reflexão!

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As "rivais" que vendem discos e lotam shows

Tudo indica que é condição do ser humano querer ser o melhor. Alguns confundem melhor com “os mais bonitos”, os “mais gostosos” e por aí vai. Se a coisa caminha pelas tramas do gosto – pessoal, autônomo, ou mediante a adoção de patamares acordados por um grupo – o indivíduo precisa ter a clareza da relatividade da situação que elege o mais bonito, a mais gostosa, os mais “tudo”.

Há que se ficar alerta e não confundir o melhor com resultados circunstanciais, como a audiência de um programa de TV ou a vendagem de discos, livros ou revistas; o melhor pode ser medido, aferido, comparado, estabelecido a partir de regras precisas. Mesmo gostando de alguém – a querida Nara Leão, por exemplo – são padrões reconhecidos em todo o planeta que determinam Elis Regina como melhor cantora. Afinação, extensão vocal com domínio de graves e agudos e além de uma incapacidade incrível de, ritmicamente, dividir uma música, ou seja, colocar a frase verbal de forma peculiar dentro da melodia estão entre os itens que caracterizam Elis Regina.

Com a Bossa Nova, João Gilberto acabou com a tirania do “dó de peito”, das vozes volumosas. Um caminho onde Nara Leão reinou com absoluta tranqüilidade. E aqui cabe citar uma qualidade de Nara: a capacidade de interpretar uma canção com total suavidade e leveza. As trajetórias musicais de Elis Regina e Nara Leão são parecidas, mas distintas, pois ambas são dotadas de personalidade e caráter ímpar.

A rivalidade é uma coisa forte, intrincada, na vida de todos nós. Vamos lembrar algumas?

Começa geralmente na escola um certo Meninos X Meninas que na vida adulta resulta em Homem X mulher; passa pela rivalidade de cidades como Rio de Janeiro x São Paulo ou lá, na terrinha, Uberaba x Uberlândia. Chega aos grandes inimigos do futebol Corinthians X Palmeiras, bem local, e às eternas disputas entre Brasil X Argentina, Uruguai, Franceses, Ingleses, Italianos… Continuando em quase todos os aspectos da atividade humana.

Martinha e Wanderléa. As "rivais" da Jovem Guarda.

No campo da música há rivalidades históricas! São facilmente lembradas: Marlene X Emilinha Borba, nos tempos áureos do rádio; Nara Leão X Elis Regina na época da Bossa Nova; Wanderléa X Martinha durante a Jovem Guarda; Maria Bethânia X Elis Regina nos anos 70; Maria Bethânia (de novo!) X Simone nos anos 80…Recentemente, Sandy X Wanessa e atualmente, Ivete Sangalo X Claudia Leitte.

Psicólogos afirmam que a rivalidade entre mulheres é uma coisa velada e que entre homens é escancarada. Dois bons exemplos: Roberto Carlos e Paulo Sérgio, na Jovem Guarda, levando RC a gravar um disco, “O Inimitável”, em franca guerra contra o “rival”. Outro exemplo, em outra área, as farpas constantes no embate Pelé x Maradona.

É bom notar – fácil obter isso em pesquisa – que são revistas, jornais e similares que criam essas rivalidades e vendem absurdo com elas. Estão quentes na memória as insinuações quanto à pinimbas entre Ivete Sangalo e Claudia Leitte; as duas correm para desmentir desafetos. Ou seja, vende-se a “briga” e fatura-se um pouco mais, com a “reconciliação”.

Há, por outro lado, rivalidades verdadeiras, advindas de choque entre indivíduos de um mesmo grupo buscando impor sua maneira de ser, de criar. O mundo do Rock é rico em histórias, algumas irreconciliáveis. Pessoas que iniciaram um trabalho e que, com o conflito estabelecido, deram outro rumo às próprias carreiras. O mais clássico dos exemplos, John Lennon X McCartney e, no Brasil, Rita Lee X Arnaldo Batista. A lista poderia crescer bastante!

Lamentamos o fim dos Beatles, o rompimento entre os primeiros integrantes de Os Mutantes. Mas, é bom ressaltar que nesse tipo de conflito continuamos ganhando. Cada indivíduo, no caminho escolhido, deixou ou tem deixado um trabalho digno dos grupos onde tudo começou. Com esse tipo de rivalidade, ganhamos. Com pinimbas criadas pela imprensa, ganha o dono do jornal! Embora seja fato certa cumplicidade entre a imprensa e alguns “rivais”.

Há artistas que só aparecem quando brigam com alguém, enquanto outros artistas passam ao largo dessa história de rivalidades. Gal Costa, por exemplo, foi amiga de Elis Regina e é amiga de Maria Bethânia. Ninguém conseguiu estabelecer uma briga entre Gal e quem quer que seja. É constatável historicamente que Bethânia espetava Elis afirmando ser “Gal é a melhor cantora do Brasil”. Gal, tranquila desde sempre, canta. Longe das encrencas das colegas.

Gal Costa soube neutralizar fofoqueiros sendo amiga de Elis e de Bethânia, assim como Ivete Sangalo soube neutralizar uma possível rivalidade com Daniela Mercury, declarando-se sempre fã da colega. Uma tática infalível, que não vingou em relação à Claudia Leitte.

Hoje é reconhecida a falsa rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba nos tempos da Rádio Nacional

Verdadeiras ou falsas, as rivalidades resultam em sofrimento para aqueles que estão vivendo a situação, os próprios rivais. Gera frustração, tristeza, ciúme, inveja. No futebol, por exemplo, gera violência e morte; mas, como ficariam os programas esportivos sem esse aspecto? Complicado… Principalmente quando certos fãs confundem as coisas e resolvem jogar pedras em cantores e músicos.

É necessário que o indivíduo reconheça no artista, ou no time de futebol, as qualidades que tornam esses os melhores. Sem confundir com afeto, simpatia. Se não gostamos de um artista, basta evitá-lo. Agora, atirar pedra – Literalmente! – em um artista é, além de um crime, uma demonstração absurda de baixa auto-estima. Se for necessária violência para que reconheçam o “seu” artista como melhor, que raio de artista é esse? E que público é esse!

Um artista é bom ou ruim. Outra coisa é afeto. O que não pode é alimentar a rivalidade baixando o nível e chegando à violência. No futebol esta, em grande parte, é fruto de uma “guerra” alimentada em programas esportivos de rádio e televisão. Há que se rever os “jogos de vida e morte” para que estes não cheguem aos shows de música. Se vaias são desagradáveis; pedradas são inaceitáveis.

Bom final de semana!

As mulheres de Ronaldo

Lamento por quem chegou aqui pensando em algo tipo “Marias chuteiras”, ou gostosonas, ou outras… O Ronaldo em destaque é o Bôscoli e as mulheres em questão são Maysa, Elis Regina e Nara Leão. Como esteve envolvido com essas três cantoras geniais, o jornalista, compositor e produtor Ronaldo Bôscoli será um dos nomes mais citados, nas próximas semanas, pela imprensa especializada em música.

Janeiro é um mês fundamental na biografia das três cantoras. No dia 19 de janeiro próximo lembraremos a morte de Elis Regina. Em São Paulo serão feitas várias homenagens a maior cantora brasileira que irão até março, quando haverá um show no Ibirapuera. Feito pela cantora Maria Rita, filha da cantora, o show  irá apresentar um repertório só de canções gravadas por Elis Regina na voz de Maria Rita. Este é para ser festejado e será no dia 17 de março, que é a data do aniversário da cantora (Marque na agenda. Um sábado, show ao ar livre, no Parque Ibirapuera).

Nara Leão, a primeira namorada, 70 anos em 2012

Bôscoli foi casado com Elis Regina, sendo pai do primeiro filho da cantora, João Marcelo Bôscoli. O casamento foi um acontecimento para a época e a vida do casal foi fartamente documentada pelos fofoqueiros de então. O registro histórico está nas diferentes biografias sobre Elis Regina ou sobre a Bossa Nova, movimento do qual Bôscoli foi um dos principais nomes.

Elis Regina faleceu em 19 de janeiro de 1982. Esse dia, 19 de janeiro, também é o dia do aniversário de Nara Leão. Além da carreira ímpar e do repertório impecável, a musa da Bossa Nova, da Tropicália, da Música de Protesto, enfim, a Nara de todas as bossas será lembrada neste ano também pelos 70 anos que faria no dia 19.

Com Maysa, tempestade na aparente calmaria da Bossa Nova

Minha primeira lembrança de Nara Leão é cantando “A Banda”. Provavelmente posso tê-la ouvido cantar outros anteriores sucessos. Todavia conheci “Carcará”, um marco na carreira de Nara, quando esta fez o show “Opinião” com João do Valle e Zé Keti, na voz de Maria Bethânia. A gravação de Bethânia foi muito executada nas emissoras de rádio de Uberaba, MG, a minha terrinha. Outro sucesso de Nara, “O Barquinho” lembro sempre é na voz de Maysa.

Coincidências que fariam a festa de exotéricos sensacionalistas, Nara Leão faleceu no dia 7 de junho de 1989, um dia depois do aniversário de Maysa. Esta faleceu bem antes, em 1977, no mês de janeiro!

A lembrança das histórias de Maysa e Boscôli estão fresquinhas na memória de quem viu a minissérie que a Globo fez sobre a cantora. Há, no programa televisivo, uma clara menção ao namoro de Nara Leão e Bôscoli, interrompido bruscamente quando Maysa anunciou seu noivado com o compositor. Ou seja, recapitulando:

19 de janeiro: Morte de Elis Regina

19 de janeiro: Aniversário de Nara Leão

22 de janeiro: Morte de Maysa

O primeiro filho de Elis é de Bôscoli

Ronaldo Bôscoli passou pela vida das três, na ordem: namorando Nara, Maysa e casando-se com Elis Regina. Como compositor, foi limitado.  Entre as músicas mais lembradas estão “Lobo bobo” (parceria com Carlos Lyra); “O barquinho” (o parceiro foi Roberto Menescal); “Tributo a Martin Luther King” (grande sucesso do cantor Wilson Simonal, que assina a canção com Bôscoli) e “Você” (com Roberto Menescal).

Como produtor musical, ao lado de Carlos Miéle,  Bôscoli deixou grandes capítulos na história da música brasileira. Produziram shows de Wilson Simonal; o programa “O Fino da Bossa”, com Elis Regina e Jair Rodrigues no comando; vários programas na TV Globo e por mais de vinte anos foram os responsáveis pelos shows de Roberto Carlos.

Bôscoli, ao conquistar Nara, Maysa e Elis, deixou um dado biográfico invejável. Infelizmente, também foi por causa dessas conquistas que elas nunca estiveram juntas em shows ou discos. Ironias da vida: separados pelos desencontros amorosos, cantoras e compositor estão juntos na história. Sempre que se falar ou escrever sobre um, os outros serão lembrados.

Boa semana!

Jim Morrison e The Doors, atração contínua

The Doors, agora mito.

Meus jovens alunos sempre solicitam que eu escreva sobre esse ou aquele artista. O grupo THE DOORS é lembrado com uma certa insistência por Neimar. Esse garoto tem menos de 20 anos; fico imaginando como surgiu o interesse, de onde veio e se instalou a atração por um grupo cujo líder, JIM MORRISON, morreu em 1971. Meus alunos não são os únicos interessados. Estima-se que o “THE DOORS” venda cerca de um milhão de discos, anualmente, e que há maior interesse agora, sobre o mesmo, do que quando atuaram.

O que sobrevive com maior força, me parece, vem da fase underground do grupo. Além disso, a figura, agora mítica, de JIM MORRISON encanta e seduz. Um “herói” da contracultura, o vocalista continua ícone perfeito para a contestação juvenil. Aparentemente devasso, aberto a todas as experiências com alucinógenos, JIM ainda tinha status de galã, símbolo sexual. Uma  alardeada espontaneidade, nas primeiras apresentações deram o toque especial que marcaria toda a trajetória do grupo.

Duas músicas, em especial, marcam minhas lembranças do grupo:

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

Of our elaborate plans, the end

Of everything that stands, the end

No safety or surprise, the end

I’ll never look into your eyes…again

A performance teatral de Morrison, somada ao conteúdo expresso na letra, dá um bocado do que pensar sobre a música THE END. A década de 60, a guerra do Vietnã, o surgimento dos Hippies, as experiências alucinógenas, enfim, a era de aquário, fadada a não ser nada além de mais um período da história humana. Se JOHN LENNON disse que “o sonho acabou”, um pouco antes, MORRISON anunciou esse fim com sua canção. A segunda música, entre as que mais curto do grupo, é LIGHT MY FIRE; e aqui, os fãs do THE DOORS que me perdoem, mas prefiro essa quando cantada por MAYSA.

Maysa em cena no Canecão

Distante dos palcos e do Brasil, MAYSA voltou (mais uma vez!) exuberante em um show no Canecão, no Rio de Janeiro.  Foi no ano de 1969. Desse momento resultou um disco, clássico, no repertório da cantora. MAYSA estava mais bonita do que nunca e esbanjava sensualidade ao cantar a música do grupo norte-americano.

You know that it would be untrue

You know that I would be a liar

If I was to say to you

Girl, we couldn’t get much higher

Come on baby, light my fire

Come on baby, light my fire

Try to set the night on fire

Calminha, crianças! Assim como o processo de bebedeira acelerou o fim de JIM MORRISON, em 1971, essa mesma situação levaria MAYSA à morte, poucos anos depois. Ambos quebraram estruturas, viveram a vida com total intensidade, priorizando sempre a sensibilidade. Estão mais próximos do que se possa imaginar.A batida da canção é a mesma que caracterizou a Bossa Nova e Maysa, até Elis Regina admitiu, era uma cantora muito acima da média.

Jim, o vocalista
Val Kilmer em impressionante recriação

De MORRISON, para finalizar, quero lembrar a interpretação grandiosa de VAL KILMER, vivendo o roqueiro no filme THE DOORS, de Oliver Stone. VAL KILMER impressionou até os ex-parceiros de JIM MORRISON, pela semelhança. De quebra, o ator ainda cantou ao vivo, nas cenas de performance, imitando a voz marcante de MORRISON. Bom para conhecer um pouco, mesmo que romanceada, da vida do cara.

Até!

(Publicado originalmente no Papolog)