Livre pensar…

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Lembrando Millôr Fernandes, livre pensar, é só pensar:

E após crescer sob a tenebrosa sombra da Guerra Fria, quem iria imaginar o mundo na atual situação? EUA e Rússia enfrentam o mesmo problema que China, Itália, Espanha, Brasil…

As bombas não cruzam os céus que, por sinal, estiveram ensolarados e belos nesses últimos dias. Parece que a única espécie ameaçada é o ser humano; a natureza, e Veneza é exemplo, ignora mazelas humanas e retoma um protagonismo de limpeza e vida. Na cidade dos canais, agora sem gôndolas, as águas estão claras; peixes e pássaros chamam mais a atenção que os pombos da Praça São Marcos.

Quarentena, isolamento social e cuidado, muito cuidado com o inimigo tão ínfimo quanto perigoso, invisível e, talvez esteja aqui o grande reboliço: o corona vírus não respeita classe social. Dezenas de membros da comitiva presidencial brasileira, Angela Merkel, na Alemanha, Rand Paul nos EUA e, entre muitos outros figurões, Tom Hanks e a nossa querida Preta Gil…

Pânico e medo, parece, predominam sobre os incautos que encaram a necessária suspensão de atividades com férias. Sábado, no edifício onde moro, rolou uma festa no bar que há no térreo. E as pessoas só foram embora dos bares após esses fecharem as portas. São poucos, mas colocam-se em risco e também por isso ameaçam aos demais moradores do bairro.

Errou feio quem pensou que as fake news políticas tinham sido o maior problema dos aplicativos na comunicação entre famíliares e grupos afins. A coisa foi polarizada, o que nos permitia identificar o lado oposto num piscar de olhos. Na atual situação, o que realmente fazer perante a ameaça do vírus mortal? Aliás, o vírus é mortal, ou com tratamento à tempo e adequado ele é só mais um? Unanimidade é lavar as mãos e rezar, é o que fica perceptível.

Os otimistas (ou mal informados?) pensam que tudo se resolverá logo, em quinze, vinte dias. Jornais e sites de notícias assinalam setembro como o mês em que voltaremos ao normal. Sem futebol, sem o boteco pra cachaça, sem novela (para os que não gostam de reprise)… Deus é que nos guarde! Trancafiados e sem Palmeiras e Corinthians pra alimentar pinimbas, sem a conversa fiada do boteco, sem discutir rumos de novela… Aí vem o sujeito dizer que o cidadão deve ler. Com as famosas e requintadas bibliotecas das salas de estar da população simples do Brasil… Viveremos tempos difíceis.

Enquanto isso, uma monumental briga política toma conta e rivaliza em atenções com a doença. Tem o imbecil que prega o vírus enquanto “gripezinha” e, do outro lado, em condições de sustentar a briga, governadores “lutando” cada um pelo seu estado. As aspas na palavra lutando é para chamar a atenção para campanhas políticas em andamento e, quem diria, até o lançamento de novos nomes para disputar futuras prefeituras, governos e até a República. Não é só o capitalismo a lucrar com a atual situação.

Se a coisa for até setembro completarei meus 65 anos (espero!!!) em plena crise. Estou grupo de risco. É muito doido! Recentemente quiseram me impedir de tomar vacina, pois eu estava fora do grupo visado pela saúde pública. Me vem o mesmo raciocínio de então: vírus pede RG antes de infectar o sujeito? E pior que vacina, é a possibilidade de não vir a ser tratado; ou deixado de lado… Santo Deus! E ser deixado de lado não é apenas para aquele que, infelizmente, possa vir a contrair o vírus. Há os moradores de rua, os desempregados, os afastados de suas funções informais…

Esse é um texto sem fim, vai saber o que nos espera… portanto, vale a pena repetir: Lembrando Millôr Fernandes, livre pensar, é só pensar.

Até mais!

PS: A foto é das escadarias no Bairro Bela Vista, aqui em São Paulo. Vazias, como quase toda a cidade.

 

 

Millôr

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Não é segredo.

Somos feitos de pó, vaidade,

E muito medo.

(Millôr Fernandes)

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Um haikai para manter na real.

Até mais!

A avaliação do MEC é correta?

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O MEC (Ministério da Educação) divulgou hoje a avaliação do nível dos cursos e instituições de ensino superior. Ficamos conhecendo aquelas que receberam conceito máximo e soubemos de outras que estão com problemas. Um ex-aluno lançou a questão: “- A avaliação do MEC é feita da forma correta? A metodologia aplicada faz com que eles realmente possam atestar que uma escola ou faculdade é boa?”

Não sou especialista nessa questão, mas recordei o grande Millôr Fernandes, “livre pensar é só pensar”; então, meu caro aluno, vamos pensar e levar alguns fatos para a apreciação de todos e, assim, caminharmos para possíveis esclarecimentos sobre o tema.

Primeiro grande fato: nessa avaliação estão envolvidas altíssimas forças políticas (instituições públicas) e imensas forças financeiras (Rede Privada – sem demagogias, a educação aqui é negócio).  Ministros e secretários da educação respondem pela qualidade da educação pública e caso o MEC cometa erros eles chiarão e usarão da própria força política para mudar os parâmetros do Ministério. Os magnatas da educação, por seu lado, teriam total apoio da imprensa caso houvesse algo errado; afinal, nenhuma empresa de comunicação pode desprezar as verbas de publicidade oriundas das universidades privadas. Assim, creio que o MEC não esteja fazendo nada de errado, mas, sem dúvidas, há o que discutir…

A avaliação do MEC estabelece um índice e, para estabelecer este, considera o desempenho dos estudantes no ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), o grau de formação do corpo docente e a avaliação da infraestrutura das faculdades.

Nos dois primeiros itens (ENADE e Formação do corpo docente) o MEC avalia resultados e não os processos. O fato de um professor apresentar titulação adequada indica que ele seja realmente um bom profissional? Ao ministério interessa que sejam mestres, doutores, mas como desempenham a profissão é outra história. Fica implícito que o resultado do aluno no ENADE qualifica a instituição e também o quadro de professores.

Nesse triênio foram avaliados vários cursos; ciências sociais, geografia, história, letras, música, biologia, etc. Não é difícil imaginar a importância das peculiaridades regionais como fatores que atuam no processo de alguns cursos. A prova do ENADE é única por área. Mais uma questão para considerar: o MEC dispõe de especialistas formados em cada uma das regiões do país? O aluno que estudou ciências sociais na Amazônia tem a mesma experiência que o colega que concluiu o curso no Rio Grande do Sul?

Bastam os títulos para a qualificação de um professor? (Caricatura de Fernando Paes)
Títulos qualificam professores? (Ilustração: Fernando Paes)

O critério que avalia a Universidade pela formação dos professores é, no mínimo, capcioso. É de conhecimento geral que o ingresso de profissionais na rede pública é feito via concurso. Para ingressar, a titulação mínima exigida é a de mestre ou doutor.  Nos últimos anos o MEC aceitou a contratação de profissionais sem essas titulações para atuação na rede privada. Agora, avalia ambas as redes com o critério da formação dos professores! Ora essa, como assim?

Sabemos que diplomas de mestres e doutores são registrados em Brasília; logo, o MEC tem todas as condições de saber a quantidade de profissionais habilitados para atuação nas universidades. Quem autoriza o funcionamento de um curso é o próprio MEC; quando isso ocorreu, o ministério não viu a formação dos profissionais envolvidos? Uma Universidade Federal, a de Viçosa, Minas Gerais, está com problemas no corpo docente. Como será que foram os concursos para a contratação desses professores?

Falta uma breve reflexão sobre a questão da infraestrutura das faculdades. Aqui entram, por exemplo, bibliotecas e laboratórios. Resta saber se os fiscais do MEC verificam se todos os computadores funcionam, se há máquinas em quantidade suficiente para a quantidade de vagas oferecidas e se essas (câmeras, microscópios, instrumentos musicais) também estão em pleno funcionamento. Por outro lado, há aquecedores nas salas de aulas do sul? Há aparelhos de ar condicionado funcionando em todas as salas de aula do norte do país?

Meu caro aluno, isto é um post para um blog, não um tratado sobre as condições da educação no país. Todavia cabe semear, iniciar uma discussão, alimentar o debate. Conhecimento – a facilitação deste – é poder e presenciamos, na realidade brasileira, esse poder dividido, sem deixar de ser disputado, entre duas forças básicas: a pública e a privada.

Entre as 27 instituições que receberam a nota máxima estão quinze universidades públicas e doze instituições privadas. Quase um empate. Não afirmo que é justo.  Sei que não corresponde à realidade; afinal, a USP (Universidade de São Paulo), não é avaliada. A isto se denomina poder; a Universidade mantida pela União não se submete aos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Educação. Por qual razão as demais aceitam tal situação?

A avaliação do MEC é correta? É justa?  Corresponde à realidade das nossas salas de aula? Reflete a atuação dos nossos professores? Retrata com fidelidade, através do ENADE, o estudante brasileiro? Vamos pensar e refletir nessas férias; “livre pensar é só pensar”; pensar para colaborar em possíveis soluções; quando falamos de educação, falamos de nós mesmos.

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Até mais!

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Ederaldo e Ademilde, a Rainha!

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce no lodo

Gerando pérolas finas… 

O Brasil perdeu de uma só tacada, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Jorge Goulart, Ederaldo Gentil e Ademilde Fonseca. Muita gente boa. A Rede Globo prestou merecidas homenagens ao humorista e até resgatou – no calor da hora – o programa A Escolinha do Professor Raimundo para o horário das manhãs. Aqueles que têm boa memória irão recordar que Chico Anysio andou reclamando a falta de espaço que não lhe foi dado, nos últimos anos. Que a emissora aproveite do momento para faturar um pouco mais é inevitável; pelo menos reverencia a memória de um funcionário que deu muita audiência e dinheiro para a família Marinho.

Ederaldo, Ademilde, Millôr, Chico (como Popó, meu preferido) e Jorge Goulart

Jornais, telejornais e revistas lembraram a obra do genial Millôr Fernandes. Ele está em uma das chamadas de capa da Revista Veja. Em todos os lugares há entrevista de familiares, publicação ou leitura de frases do humorista Millôr e, entre diferentes homenagens, os depoimentos de profissionais, parceiros de longos anos do teatrólogo que, além de textos próprios, deixou excelentes traduções de peças de Wiliam Shakespeare.

Não queria ser o mar

Me bastava a fonte

Muito menos ser a rosa

Simplesmente o espinho

Não queria ser o caminho

Porém o atalho

Muito menos ser a chuva

Apenas o orvalho…

Dos outros três artistas falecidos falaram menos. Bem menos. Jorge Goulart foi um dos reis do rádio, é um dos artistas mais cantados em todo país, compositor e cantor de um mega sucesso: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”. Também foi o primeiro a gravar “A voz do morro”. Ederaldo Gentil foi um compositor baiano, falecido neste 30 de março. Em 1975 o Brasil inteiro cantou e, ainda hoje, “O ouro e a madeira” é um dos mais belos sambas de todos os tempos; o autor do samba cujos versos estão aqui, neste post, foi Ederaldo Gentil, que foi também parceiro do célebre Batatinha,.

…Não queria ser o dia

Só a alvorada

Muito menos ser o campo

Me bastava o grão

Não queria ser a vida

Porém o momento

Muito menos ser concerto

Apenas a canção…

Ademilde Fonseca está entre um tipo de intérpretes muito peculiares. Um país do tamanho do nosso possibilita uma voz regionalíssima como a de Elba Ramalho, ou uma voz absolutamente diferenciada como a de Tetê Espindola. Ademilde é aquela da articulação primorosa, com um domínio absurdo sobre a palavra cantada.

Qual teria sido o destino de chorinhos como “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” sem as palavras cantadas primorosamente por Ademilde Fonseca? Apreciamos demais uma série de músicas instrumentais, entre elas alguns chorinhos admiráveis. Mas, “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” lembramos fácil graças ao abençoado fôlego de Ademilde. Aposto que a maioria dos que lêem este blog conhece o balanço do ritmo gostoso, eternizado por Ademilde Fonseca.

“O tico-tico tá

Tá outra vez aqui

O tico-tico ta comendo meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer é mais minhoca e não fubá…”

(Alberico Barreiros e Zequinha de Abreu)

“O brasileiro quando é do choro
É entusiasmado quando cai no samba,
Não fica abafado e é um desacato
Quando chega no salão…”

(Waldir Azevedo e Pereira Costa)

Ademilde Fonseca foi a Rainha do Choro. Um ritmo entre os únicos verdadeiramente brasileiros. Sendo Ademilde uma das poucas que canta choro com propriedade, merece todas as homenagens. O cenário da música brasileira está cheio de umas “mocorongas” que balbuciam letras, com ar de enfado, simulando um distanciamento que é falso, estudado.

Uma geração abaixo de Ademilde Fonseca consegue cantar com dignidade essas canções: Wanderléa, Baby do Brasil, Maria Alcina e Gal Costa estão entre as poucas cantoras com competência para cantar chorinhos. Das novíssimas cantoras, será que tem alguma que se habilita? Mas, sem aquele arzinho “mocorongo”, olhando de soslaio e pensando que é “diva”. Bem, o bom de tudo é saber que os versos de Ederaldo permanecerão, assim como Ademilde Fonseca, que será para todo o sempre aquela que deu voz ao choro.

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Até mais!

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Notas:

1) Jorge Goulart faleceu em 17 de março. Chico Anysio faleceu em 23 de março.  Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca faleceram em 27 de março. Ederaldo Gentil faleceu no dia 30.

2) “O ouro e a madeira” foi um imenso sucesso na voz do grupo “Nosso Samba”.

3) “A cabeleira do Zezé” de Roberto Faissal e João Roberto Kelly foi originalmente gravada em 1964.

4) Ademilde gravou Tico-tico no fubá em 1942. Brasileirinho foi gravado pela cantora em 1950.