A Aurora da Minha Vida

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Foi há tanto tempo! Aurora era uma matriarca grave, ciente de sua condição de condutora familiar. Esbanjava força, ternura e, sendo mulher, tinha lá suas artimanhas cotidianas.

Na aurora da minha vida, quando minha mãe, Laura, visitava constantemente a tia e madrinha, era no colo de Aurora que ouvi as primeiras radionovelas. Dessas não me recordo. Sei que o colo era bom e, para permanecer sob tal aconchego eu permanecia silencioso até adormecer, sendo levado de volta pra casa nos braços de minha mãe.

Um dia veio a sentença. Aurora, com seriedade e forte sotaque português anunciou: “- Cido, se não deixares esta chupeta não sentarás mais no meu colo!”. Apenas ela e mamãe chamaram-me assim: – Cido!

Na manhã seguinte, antes mesmo de tomar o café, ou comer qualquer coisa, o Cido saiu da cama direto para o quintal. Abriu uma pequena cova e enterrou a chupeta sob olhares preocupados e uma segunda sentença da mãe: “- Se você chorar por conta da chupeta, vai apanhar!” Não apanhei.

Ainda era pequeno, ainda não estava na escola quando fizemos uma viagem; Mamãe, Tia Aurora e eu. O trem da Mogiana levava doze horas de Uberaba a Campinas. O dinheiro não sobrava e era comum levar lanche para substituir refeições. Não me recordo da contribuição de minha mãe para o lanche coletivo. Entre vários tipos de sanduiches e bolos, a Tia Aurora levou pão com ovo frito, que eu abominava sem nunca ter comido. A Tia, firme e terna, colocou-me a seu lado dizendo à minha mãe: “- Está gostoso! Comigo ele vai comer”. Comi e esta é minha primeira lembrança quanto ao paladar. Estava muito gostoso.

Enquanto Tia Aurora residiu em Uberaba fiz visitas constantes. Ia todas as tardes e ficava lá, no meu canto, enquanto ela cuidava de seus afazeres. Depois mudou-se para Campinas, no interior de São Paulo, e aos vinte e poucos anos fui hóspede dela.

Tia Aurora gostava de contar histórias, de lembrar fatos. Eu gostava de ouvi-la. Ela cuidava de mim com desvelo e atenção incomuns. Trabalhando em uma companhia aérea eu cumpria um rodízio insano, raramente permanecendo mais que três dias no mesmo horário. Colava a tabela com os horários ao lado da cabeceira da cama e não sei quantas vezes despertei com a tia olhando atentamente, sem saber ler, quando deveria preparar minha refeição, invariavelmente acordando-me para não perder o café. Aos sábados, quando eu trabalhava durante a madrugada, ela não permitia barulhos em casa, para desespero dos primos que queriam ouvir música ou fazer faxina: “-O Cido está dormindo!”.

Ela voltou para Uberaba; eu me mudei para São Paulo. Foi morar com a filha caçula, Dulce, e quando esta anunciava minha chegada a Minas, Tia Aurora acordava cedo, arrumava-se e, toda bonita, ficava me esperando. Foram nossos últimos encontros neste plano. Desde então ela me visita em sonhos. E foi em um desses, há muito tempo, quando pensei em morrer que ela me apareceu, jovem como nunca a vi, com seu jeito grave e terno, sentenciando mais uma vez: “- Cido, ainda não é a sua hora.” E conduziu-me por um corredor imenso, onde se ouvia uma bela canção.

Hoje vivo tranquilo, carregando saudades da Aurora e da aurora da minha vida. Gosto de viver e procuro conviver serenamente com o ocaso; o fim que, espero, seja passagem. É esta fé que me garante momentos amenos para quando chegar minha hora pois, dizem, espíritos de luz e guias amigos vêm para nos conduzir durante a travessia. Entre esses, tenho certeza, estará Tia Aurora, sentenciando-me como sempre: “-Dê-me sua mão, Cido! Vamos para casa”.

Até mais.

 

 

Nota: A Aurora da minha vida é Aurora Domingues Feiteiro. A outra aurora é verso do poema “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu.

 

Do tempo da Mogiana!

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O primeiro esboço de romance que escrevi, e que ainda guardo, foi em um bloco que ganhei de meu avô, José dos Santos Vinagreiro. A narrativa desenha um cenário bem mineiro: “Ao amanhecer na fazenda Ribeiro notava-se uma atmosfera estranha…”. Presente de meu avô, sobras de seu antigo escritório, eu ganhei um lápis e o bloco que servia, originalmente, para transcrição de telegramas recebidos.

Ferroviário durante quarenta e cinco anos meu avô aposentou-se como mestre de linha da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Comprou uma casa bem ao lado da residência de meus pais, no bairro Boa Vista, em Uberaba. Durante muitos anos fui reconhecido pelos ferroviários como neto do Sr. Vinagreiro. Enquanto morou em Uberaba meu avô tomava minha mão, eu devia ter quatro ou cinco anos, no máximo seis, e levava-me até a estação de trens. Eram tardes em que ficávamos observando o movimento das manobras no imenso pátio ferroviário.

Não registrei a data de meus primeiros escritos. Certamente antes dos quatorze anos, pois nessa época eu grafava meu nome com “W” e “Z”. Só descobri o “V” e o “S” do registro de nascimento quando precisei deste ao alistar-me para o exército. Coisas de uma época em que podia-se caminhar por aí “sem lenço e sem documento”. O fato é que está no cabeçalho de todas as páginas do bloco: Waldo Rezende.

Ainda não contabilizei dessa época quantas histórias inacabadas. Sim, eu começava a escrever, me empolgava e… Desistia alguns dias depois. Eram histórias estruturadas basicamente como novelas que escutava no rádio, ouvi-las era hábito de minha mãe. Antes da televisão havia novelas o dia todo e acabei gostando de histórias de nobres, de romances açucarados e dramas cubanos como “O Direito de Nascer” de Félix Caignet.

Fui insistindo em iniciar a redação de histórias até me convencer da falta de maturidade para escrevê-las, concluindo que precisava viver e aprender redação, português…  Mas, como eu gostava de escrever! Um dia caiu em minhas mãos um livro desses ditos “de formação”, de um padre francês, Michael Quoist. Era o Diário de Dany. Este foi o meu livro de cabeceira por toda a adolescência e, estimulado, comecei a redigir diários, narrando meu cotidiano.

A complexidade de um diário é a sinuca de bico propiciada por uma vida comum. Nada de crimes, roubos, romances proibidos. Era só o cotidiano de um jovem estudante tímido, sem aptidão para arroubos de qualquer espécie. Dá-lhe narrativa comum! Acordar, ir ao colégio, brincar à tarde, estudar, passear de bicicleta… Brigar com os irmãos, com os pais, sonhar com possíveis namoradas… Viajar nas férias para a casa dos avós, agora morando em Campinas, SP, e lembrar ao encontrar-se com o avô do romance inacabado.

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Passados tantos anos tenho um bloco amarelado cheio de um texto no qual reconheço a criança que um dia fui. Outras histórias vieram e outros tipos de texto… Ficam para outra hora. Agora volto ao trabalho reformulando aulas, formulando outras e, coisas da vida, preparando um curso para ensinar como escrever…  Processos de Criação na Escrita!

Há algumas décadas entre eu e o garoto que rabiscou o bloco da Mogiana. Revendo o material, lembrando o passado recordei histórias ouvidas de meu avô; das fantásticas mulas sem cabeça à Revolução de 1932; dos animais defrontados em noites escuras aos desastres ferroviários em noites de chuva. Muitas histórias… Do tempo da Mogiana. Primeiras histórias! E o desejo de contar todas elas, criar outras, escrever mais, muito mais e sempre…

Até!

ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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O último trem

Vivemos um momento histórico fantástico, onde a Internet promove encontros, aproxima pessoas. Faz pouco tempo, publiquei aqui um texto que já havia postado em meu blog anterior. Com o título  “Um garçom, um trem, um gavião“, recordei as viagens de trem, quando criança, com minha família. O que levou-me a tais recordações foi uma entrevista no Programa do Jô, com um garçom que trabalhou na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. O senhor entrevistado foi um dos possíveis autores da façanha; trechos do que escrevi:

“Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

… Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou”.

Gilberto Mussio, que ainda não conheço pessoalmente, é de Jaú, no Estado de São Paulo e leu minha publicação e comentou ter comprado de um fotógrafo uma foto, feita para um documentário e, nas memórias de Gilberto, o fato ocorria em Ipeuna. Voltando ao local, ele não encontrou a estação e acredita que o fotógrafo tenha se equivocado com o nome do lugar.

Caro Gilberto, posso afirmar que ele errou. Ipeuna não consta entre as estações, ou postos, da tronco ferroviário que liga Ribeirão Preto a Uberaba. A história da Mogiana é parte da história de minha família. Meu avô paterno, José dos Santos Vinagreiro,  trabalhou na estrada de ferro durante quarenta e cinco anos. Outros tios, muito queridos, tiveram a Mogiana como único emprego e até hoje, tenho primos que trabalham por lá. Esse “por lá” implica em uma vasta gama de ramais que ligam Ribeirão Preto a Franca, no Estado de São Paulo e estas a minha Uberaba, e a Araguari, ambas em Minas Gerais.

Quem terá outras imagens desse momento?

Fiquei emocionado ao receber a foto enviada por Gilberto Mussio e pedi autorização para dividi-la com os que leem esse blog, com meus amigos e familiares que têm muito de suas vidas e lembranças ligadas à velha e querida Mogiana. Atualmente, nas linhas entre Ribeirão Preto e Uberaba só trafegam trens de carga. Recordo-me ainda de quando anunciaram o fim dos trens de passageiros. Foi lamentável pelo descaso com um meio de transporte eficaz, barato e seguro, presente no mundo inteiro, mas que no Brasil foi esmagado pelo interesse de montadoras e de políticos interessados em receber benefícios advindos da indústria automobilística.

Como relatei anteriormente, e tive o prazer de constatar, vi  (e sendo criança, não tenho a menor condição de precisar a data) um gavião acompanhado por um filhote buscando a carne oferecida pelo garçom. E agora, fiquei pensando no último trem, em todas as pessoas que deixaram de ter uma condução confortável para suas viagens, e em um gavião perdido no tempo, sobrevoando a linha, esperando um trem que não voltou a passar.

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Grato, Gilberto, pela foto. Bom final de semana para todos!

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Quando o museu era a chácara

Bem criança, um local mágico era a estação de trens de Uberaba, minha cidade. Íamos até à estação da Mogiana quando viajávamos para Araguari, ou Ribeirão Preto, ou Campinas. Também íamos esperar os parentes vindos desses lugares, buscar coisas que minhas avós ou tias despachavam em cestas de vime. Os trens que saiam de Uberaba em direção a Campinas tinham Amoroso Costa como primeira parada, depois Ameno, Calafate, Tangará; em Coronel Quito estávamos  na divisa com o Estado de São Paulo bastando, para isso, atravessar o Rio Grande.

Chácara dos Eucaliptos, foto by Valdo Resende
Do lado direito de quem seguia para São Paulo, ficava a "chácara do Dr. Abel"

O páteo da estação de trens, imenso, tinha em uma das extremidades a casa das máquinas, um local fantástico aos meus olhos de  criança. Era o local de manutenção das “Marias-fumaça” e das máquinas a diesel. Terminando o páteo, do lado direito de quem seguia para São Paulo, ficava a “chácara do Dr. Abel”.  Acabo de descobrir que o nome do local é Chácara dos Eucalíptos e que o Dr. Abel era um dos quinze filhos de José Maria dos Reis. Lamento, mas em toda a minha infância e começo da adolescência,  o local foi conhecido como a “Chácara do Dr. Abel”.

Eu sonhei em ser como o Dr. Abel por um único fator. Ele era dono de um “carro”, um vagão especial, destinado aos engenheiros da Mogiana.  Nunca entrei nesse tal vagão que só era acoplado em composições quando o Dr. Abel viajava. Diziam que havia um escritório, uma saleta, e as acomodações normais de um vagão de trens. Quer sonho maior? Primeira classe era pouco diante de isso.

Museu de Arte Decorativa - Mada - Uberaba - MG
O cheiro e o gosto de jambo... de visitas furtivas... A pintura é de Hélio Ademir Siqueira

A Chácara do Dr. Abel era um local visitado pela molecada das redondezas. Fortemente vigiada, tinha um pomar imenso. O único lugar conhecido que tinha jambeiro. Íamos em bando. A cidade, então, ameaçava aproximar-se do local, pelos lados do bairro Estados Unidos. Do outro lado da linha do trem, o nosso lado, ainda era tudo um imenso descampado.

Hoje o local tornou-se o MADA – Museu de Arte Decorativa, Casa José Maria dos Reis. Para a personagem da minha infância a honra de ter dado nome ao loteamento que substituiu a chácara: Residencial Dr. Abel Reis. A sede e algumas árvores do antigo pomar estão lá. No interior do velho casarão a pintura da sala de jantar é parte original da residência. Os demais objetos são do acervo do museu. Na parede oposta encontra-se uma imagem da chácara, em quadro de Hélio Ademir Siqueira.

Detalhe da sala de jantar

Visitando o Museu fui muito bem recebido pelos funcionários, atenciosos, guiando-me pelas dependências e confirmando uma história que circulou pelo bairro sobre os motivos das mudanças. Consta que os impostos sobre o imóvel eram altíssimos. A cidade, no final dos anos de 1990 já ia muito além da chácara e sem condições para manter o imóvel os descendentes da tradicional família Reis transformaram em madeira quase todas as árvores do local. Em seguida fizeram o loteamento e a antiga casa foi doada à prefeitura em acordo que legalizou o Residencial Abel Reis.

Situação similar ocorreu em Araguari, em chácara que pertenceu a meu avô paterno. Lá, infelizmente, nada foi preservado. Por essa e outras que fiquei feliz em visitar a antiga residência uberabense, agora aberta aos meus conterrâneos e aos turistas que visitam nossa cidade. O MADA – Museu de Arte Decorativa fica na Rua Maria de Lourdes Melo Coli, 30,  no Residencial Abel Reis. Uberaba, Minas Gerais. A entrada é franca e o telefone para confirmação de datas e horários de visita é (34) 3338 9409.

Meu avô paterno foi colega de trabalho do Dr. Abel; certamente teria outras histórias para contar. Também é certo que muitos moradores dos bairros Boa Vista e Estados Unidos terão causos sobre a chácara. Quem sabe não aparece mais algum registro por aqui, nos comentários? Vamos aguardar.