Grafite e simulacro de faxina

pichacao
Há funções e funções para a pichação…

Ando frequentemente pelas ruas de São Paulo. Deixei de dirigir e passei a usar transporte público, além de ser beneficiado pela carona de amigos muito gentis. Ao abandonar o carro redescobri a paisagem paulistana. Percebi a beleza da arquitetura da cidade – evidenciada por lei que limitou a utilização de placas e similares – que nos permite ver a passagem do tempo que vai do Pátio do Colégio, passa pelo Edifício Sampaio Moreira até chegar aos grandes blocos de vidro de construções mais recentes.

Foi caminhando pelas ruas de São Paulo que percebi a grande quantidade de flores que há pelas ruas da capital. Em 2015, durante vários meses publiquei diariamente fotos de flores dos jardins e, principalmente, das ruas da cidade. Constatei na época que “a dura poesia concreta de tuas esquinas” é suavizada criteriosamente pelos responsáveis pelo ajardinamento da cidade, já que – é fato! –nossas ruas estão arborizadas de tal forma que nos permite usufruir da beleza das flores durante todo o ano.

Desde as minhas primeiras viagens nos trens metropolitanos – estou lembrando final dos anos de 1970 e começo da década de 1980 – que descobri os incríveis trabalhos de inúmeros artistas, na época anônimos, quebrando a monotonia de muros descoloridos, prédios abandonados, suavizando a dura viagem de quem leva cinquenta minutos e até mais para chegar ao destino. Depois o mundo descobriu nossos artistas de rua, valorizando devidamente gente como Eduardo Kobra e OSGEMEOS (Gustavo e Otávio Pandolfo). Se fossem apenas esses… Há muitos outros entre nossos artistas e não posso deixar de citar Eduardo Saretta, Carlos Dias, Zéh Palito, Paulo Ito e tantos mais.

Pelas ruas da cidade há manifestações diversas e categorias distintas em duas grandes e notórias vertentes: o grafite e a pichação. Antes de qualquer coisa é bom salientar que o ato de grafar todo e qualquer tipo de superfície remonta à pré-história. O homem pintou cavernas na Europa e paredões no Piauí e não se contentou em criar objetos; desde os primórdios inseriu grafismos diversos nos mesmos registrando manifestações místicas, estéticas ou criando símbolos de poder. Penso que essas manifestações culturais sinalizam estarmos diante de algo que merece estudos e discussões aprofundadas, muito além do mero gosto pessoal.

De repente vem um sujeito enfeitado de faxineiro. Sob o discutível mote “cidade linda” o sujeito esconde moradores atrás de tapumes, alardeia vassouras em espaços já limpos, promete escovas de dente – e não dentistas – para outros e… decide apagar grafites em espaços da cidade. A imprensa enfatizou o “repúdio” do faxineiro aos pichadores enquanto o mesmo apagava desenhos da Avenida 23 de Maio.

Grafites e pichações costumam carregar na expressão, aqui entendida como ênfase nos sentimentos do artista, tal como descrito por Emil Nolde ao criar as obras “Ceia” e “Pentecostes”. Apresentam críticas, denúncias, manifestam descontentamento. Estão longe das pinturas de guardanapos aprendidos em estúdios das ligas das senhoras católicas. Os grafites quebram o discurso comprometido das grandes empresas de comunicação e propiciam reflexão, questionamento, denotando e conotando a realidade em que vivemos.

Há, é certo e sem pedir licença, garotos que picham diferentes superfícies urbanas. Reforço a ideia do quanto é inato ao ser humano o expressar-se e pergunto: quais são as possibilidades de expressão artística dentro de nossas escolas? Quais as possibilidades de manifestação de adolescentes e pré-adolescentes em nossas cidades? Devo pedir ao opressor licença para gritar meu descontentamento?

Por trás das ações do simulacro de faxineiro (longe de mim, ofender profissão tão nobre! O rascunho e a depreciação são tão somente para o sujeito em questão) está uma firme determinação em impedir manifestações contrárias a seus desmandos e às sujeiras de si e de seus correligionários no governo do Estado. Se o sujeito tivesse estudado um pouquinho mais de história saberia da inutilidade de seus atos. Quem pode calar o homem? Quem pode emudecer o poeta? Quem pode impedir o artista de expor suas inquietações ao mundo?

Houve um papa que cobriu as pinturas de Michelangelo. Outrora queimaram livros em praça pública. O Impressionismo ganhou notoriedade no Salão dos Excluídos. Graças aos céus, o que ficou foi Michelangelo, Shakespeare, Monet e milhares de outros artistas, de todas as áreas, sobrevivendo acima e além das mesquinharias dos mandantes de cada tempo. O tempo de faxina vai passar e o rascunho de faxineiro irá para o limbo merecido. Enquanto isso não ocorre haverá resistência. E se o dito cujo resolver apagar posts escreverei cartas ou qualquer outro meio que manifeste meus pensamentos.

Até!

Monet é o Impressionismo

Claude Monet – Le Bassin aux nymphéas; harmonie verte, 1899

A exposição “Impressionismo, Paris e a Modernidade” está chegando ao fim. O Centro Cultural do Banco do Brasil – CCBB – promete uma virada nesse final de semana, procurando atender ao público que, lotando o local, deixou evidente a paixão geral pelos artistas impressionistas. Tenho grandes amigos e Sonia Kavantan tirou-me das tarefas cotidianas para ver a exposição. Um grande momento no início da semana.

A exposição ocupa todo o prédio do CCBB. A coleção veio do Musée d’Orsay e compreende um amplo painel do movimento Impressionista, um raro momento em que é a pintura a influenciar as demais formas artísticas. Paris, no final do século XIX, abriga centenas de pintores ávidos por um lugar de destaque no mundo da arte. Os Impressionistas serão, no início, duramente criticados para, só depois, tornarem-se disputados pelos colecionadores.  Todas as fases do movimento estão na exposição do CCBB, tornando-a imprescindível para aqueles que apreciam pintura.

Os organizadores criaram um circuito, certamente já prevendo a afluência de grande público, e a mostra começa com um audiovisual no térreo. Depois, o visitante é encaminhado para o quarto andar para, seguindo o roteiro indicado por eficiente sinalização, percorrer todo o prédio, até o final da mostra, no subsolo.  As intenções são louváveis e atingem os objetivos básicos. Todos conseguem passar os olhos por tudo.

Gosto de passear por uma exposição e deixar que o quadro “me ganhe”. Com isso quero dizer que não me preocupo em identificar todas as obras, ler todos os detalhes de tudo. Com mais de 80 quadros em exposição e minha memória de 57 anos bem vividos, fica complicado guardar tudo; nem pretendo guardar tudo. O bom é deixar a sensibilidade livre para que uma obra, ou várias, ganhem espaço e tomem conta do coração.

É bem verdade que o páreo, no CCBB, é duro. Tem Vincent Van Gogh (o meu preferido), tem Paul Cézanne, Paul Gauguin, Edouard Manet, Auguste Renoir e, entre outras feras como Camille Pissaro e Edgard Degas, há Monet, Claude Monet. É difícil estabelecer uma escala tipo quem é maior, quem é melhor. Assim, deixando a percepção livre, fui aprisionado por Claude Monet.

Antes de continuar é bom lembrar que, em sala de aula, falo sobre o impressionismo desde quando iniciei meu trabalho como professor… Décadas! Uma exposição como a do CCBB é algo como rever velhos amigos, conhecer “pessoalmente” outros e, graças a Deus não sei tudo, descobrir outros. Então, sinto-me “em casa”, com uma vontade imensa de usufruir mais, ficar mais, e já meio ranzinza, querendo que todos desapareçam para que eu possa ficar sozinho, namorando cada tela.

Claude Monet – La gare Saint-Lazare, 1877

Em uma exposição sobre Impressionismo pode ser lugar comum chamar a atenção para a supremacia de Monet; no entanto, é isso. A coleção do museu francês só faz deixar claro que, em se tratando de Impressionismo, Monet é o maior entre os mestres do movimento. Todos os outros são bons demais, evidenciando que Monet é ótimo.

Dentre os vários trabalhos de Monet que estão expostos, escolhi os que estão reproduzidos neste post. Todos sintetizam o movimento em sua complexidade. Nem é preciso estudar arte para compreender a beleza da tela; não carece saber de história, de estética, de técnica de pintura. Basta olhar; demoradamente observar e analisar a maestria do artista captando formas, sugerindo outras, induzindo-os a completar outras com o tal fenômeno da persistência da visão.

Que me perdoem todos os outros, até meu amado Van Gogh. Cada artista tem sua especificidade, a beleza peculiar, a técnica incomparável que determina uma identidade; todavia, nesta exposição, Monet estabelece o padrão para os demais. Diante de suas telas não há como ter equívocos: estamos diante do Impressionismo, o movimento na pintura que buscou captar um instante; formar a figura a partir de pinceladas fragmentadas; que ensinou-nos a olhar para o cotidiano através da visão privilegiada de grandes artistas, como Monet.

Apareçam por lá. Ainda há tempo. Pode ser outras as telas que farão emergir paixões. Eu fico por aqui, curtindo a lembrança do trabalho de Claude Monet e eternamente grato à Sonia Kavantan pelo belíssimo presente.

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Até mais!

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