Escrever é um barato (gíria dos anos 70, uma referência de idade). Às vezes, conforme o momento, pode ser um privilégio, sina, trunfo, maldição. Um exercício diário que busca a melhor maneira de manifestação através de um texto. Uma paixão que leva ao desejo de só fazer isso. Ninguém come letrinhas, papel impresso. A escrita literária pode ser um trabalho. Há os que tentam sobreviver da coisa. Um angu de caroço! Como muitas das habilidades humanas, a escrita foi dominada pelo capitalismo. Leia-se: explorar e ganhar ao máximo em cima do sujeito.
Explorar pessoas é um pequeno avanço se comparado ao trabalho escravo. No sistema capitalista o indivíduo pode se recusar a exercer seu ofício e morrer de fome. Ou fazer outra coisa. A isenção de responsabilidade tem frases do tipo “é assim que funciona”, ou “são as leis do mercado” e, a pior delas, “todo mundo faz assim, você acha que conseguirá fazer diferente?”.
Escrever, cantar, interpretar, compor, desenhar, pintar e, entre outros, tocar um instrumento, são atividades que demandam tempo enorme de formação, aprimoramento, pesquisa, criação e execução de algo que resulta fundamentalmente em expressão de um indivíduo, uma sociedade, uma época. O sistema capitalista, sempre alerta para novas oportunidades de ganho, trata de elaborar formas de lucrar com tais expressões. Os registros de cada ação são transformados em produtos, quando muda-se a escala de valores. Os que vendem mais estão acima dos que vendem pouco, normalmente com a expressão “não vende!”.
É comum encontrar o profissional que determina o “potencial de venda” de algo que tal sujeito é incapaz de concretizar. Pior quando ele não tem o conhecimento mínimo para estabelecer a distinção entre Escher e Nietzsche, mas tem poder sobre a verba necessária para montar um espetáculo, editar um livro. E toca você a ensinar ao sujeito um contexto que, às vezes, é base mínima para o que você pretende realizar como criador. “Mas, tem sexo, tem violência, é movimentado ou é aquela coisa parada?”. Sem a formação de um budista, resta cair fora antes de cometer um assassinato.
Conheci um editor que, literalmente, cheirava um maço do original apresentado e determinava: “Isso vende!”. Ou “não vende”, e ali na fungada estava definido o futuro de uma obra literária. Obviamente não se espera que um editor leia “tudo”. Na aceleração mercadológica, onde se faz necessário produzir quantidade, é romantismo bobo esperar ser lido por alguém que deve lançar dois ou mais livros mensalmente. O “Q.I”, leia-se “quem indica”, e a árvore genealógica do autor são facilitadores. Resenhas e resumos foram substituídos pelo atual “book proposal”, expressão que remete a quem domina o mercado livreiro.
Dia do escritor. Já andei me irritando ao receber a sugestão de usar inteligência artificial. Para alguma coisa tal artifício será útil. Jamais substituirá o PRAZER que sinto aqui, agora, em escolher a palavra, escrever e reescrever a frase, avaliar, julgar, rir ou chorar com o resultado que vem do que penso, do que sinto, do que gosto, do que creio. Usem, que eu continuarei a escrever, com a experiência da barra que vem ao terminar um texto. A primeira e grande barra, encontrar quem leia!
Gosto de ver pessoas cantando em ruas e praças. Também daquelas que ocupam os passeios públicos com telas e outros suportes para desenhos ou pinturas. Paro em feiras para observar, às vezes adquirir, pequenas esculturas e toda a sorte de artesanato. Cada vez mais raros, sempre dou atenção a repentistas e, quando acomodado, gosto da manifestação de poetas. Já os escritores… É complicado parar para ler uma orelha, uma contracapa, quiçá um capítulo. (Há séculos não utilizava a palavra quiçá!).
Em maio terminei de escrever um livro. Primeira crise veio quando me dei conta do tamanho do filho da puta. Mais de quatrocentas páginas! Em tempos de Twitter, que virou X, só loucos escrevem livros desse tamanho. Ou parentes do editor, ou o próprio editor. (O Luiz Schwarcz que tem domínio do mercado, escreveu 291 páginas no seu “O primeiro leitor”). A segunda crise é o processo de produção e lançamento do livro. Se a crise for ultrapassada e resolvida, meu caro leitor, então você saberá que livro é.
A palavra produção me incomoda. Significa transformar meu trabalho em produto. Algo a ser comercializado, vendido e se Deus descer do céu, lido. Sim, pois vender é uma coisa e ser lido outra. Reclama do preço do livro (Com razão! Nessas de cada um ganhar em cima do outro, há um abismo entre o custo do volume editado e o preço final). Há o “Será que vai virar filme? Vou esperar”, que já ouvi de gente prestes a ser estrangulada. Também há aquela que vem pedir um volume. E penso na frase atribuída à Cacilda Becker: “Não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender”.
Dia do escritor. E estou com fome. Vou preparar o almoço. Quem mandou não me tornar pastor? Tivesse seguido o conselho de meu pai estaria apenas louco de raiva desses que teimam em cobrar mais impostos de quem explora e não produz absolutamente nada. Feliz dia!


