O que causa é algo que faz parte de nós

Eco, Santiago, Dirceu, Nina/Rita, o Juiz, tudo com muito sexo em tons de cinza… Que história!

Volta e meia usamos a expressão “melhor ouvir besteira que ser surdo”. Por dentro guardamos um não revelado desejo de que o autor da besteira fique mudo. Ou uma indignação: porque ele não nasceu mudo? Problema maior é quando o autor da besteira está assentado na experiência cotidiana, contemporânea, também conhecida como realidade…

Escrever é tarefa difícil. Fazer um livro de sucesso parece fácil. A receita pede muita ação, o mesmo tanto de sexo. Esse, com variações apimentadas como adultério, sodomia, probabilidade de incesto. Homicídios e vinganças também estão na ordem do dia, com a novela global matando um por dia. A morte em si, não basta para o sucesso; há que se ter muita pancadaria. Parece que bofetões provocam orgasmos.

A “besteira” que ouvi, chamava a atenção para o interesse menor de determinados produtos (livros, filmes, documentários, programas de tv, shows) sobre outros. Aqueles de maior sucesso contam escândalos políticos, crimes, roubos, enfim as polêmicas todas que param a sociedade, atenta no desenrolar de tais fatos. Dramas familiares também provocam interesse. Um estranho deleite. Assim, para fazer sucesso, obter mais audiência, vender mais, o caminho parece claro.

O final do mundo, que está próximo, é um bom tema. Vende muito mais, provoca mais interesse que livro religioso. Escárnio também interessa, principalmente se um adversário informar ao torcedor do time rival a receita de sobrevivência na segunda divisão. Brincar de revelar grandes conspirações vale se o autor conseguir fazer com que acreditem na coisa; nesse aspecto, iria causar furor as revelações de como a televisão – agente de um poder ligado à Igreja medieval – atua no controle da massa, conspirando para o resultado das eleições através das lágrimas de Nina e dos ataques histéricos de Carminha.

Escrever é difícil, fazer sucesso é fácil. Desde que saibamos fazer a coisa, foi o que me disseram. Assim, fiquei pensando em Pirandello, na peça “Seis Personagens à procura de um autor”, sentindo-me não personagem, mas autor procurando um escândalo, uma história bem cabeluda, uma conspiração mais que perversa. Alguém pode me dar uma idéia? Uma sugestão de sacanagem não publicada, escândalo brasileiro não registrado?

O título acima foi manipulado (oh!). A frase, original de Umberto Eco, publicada pela Revista Época diz: “O que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós”. Por isso, diz Eco, que o “o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso”.  Assim, parece que faz parte de nós todas aquelas tramóias de Santiago (Juca de Oliveira é magistral!); também há em nós os juízes e os ladrões no Mensalão, as verdades e as mentiras do jogo político. Ficamos indignados com um simples empurrão na mocinha e nos deleitamos com os tabefes dados na vilã.

Colocar sexo, bofetões, roubos, intrigas, conspirações… Isso em uma história razoavelmente bem escrita e – Bomba! – teremos muito mais que “Cinquenta tons de cinza”. Teremos um retrato estranho daquilo que socialmente repudiamos, mas que, reafirmando Eco, faz parte de nós.

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Até mais!

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Opções para o quarto mandamento

Bandido que é bandido mata, não brinca de assustar. Essa história de jogar mocinha na cova escura cai bem em conto infantil. Isso se chama dramaturgia precária. Andei lendo por aí que a emissora pretende esticar a novela Avenida Brasil até dezembro. Se não fizerem isso com inteligência começarão as esculhambações ao bom trabalho feito por uma grande equipe. Uma bobagem é a discussão se Nina – a adorável Débora Falabella – é vingativa ou justiceira. Conversa para boi dormir. A personagem não tem representatividade social para fazer justiça e está muito distante de conduta divina para alçar-se à categoria de, em nome de Deus, vingar a morte do pai.

Honrar pai e mãe – o quarto mandamento – é muito diferente de vingar ou justiçar males sofridos por esses. A ação de Nina pode resultar em um ótimo folhetim, mas humanamente representa a volta aos instintos primários; socialmente, a falência da crença na justiça. Em termos de dramaturgia, insisto, muito fraca. Se a dramaturgia televisiva não satisfaz, uma solução viável é buscar socorro no cinema. Há roteiros honrando pai e mãe, com muita inteligência, diversão e emoção, distantes da vingança primitiva, animalesca.

Tão Forte e Tão Perto

Pai e filho são amigos, o primeiro buscando fazer com que o garoto viva melhor. O pai (Tom Hanks) morre em consequência dos ataques ao World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. O filho, deprimido, teme esquecer o pai. Ao vasculhar o armário do falecido, deixado intacto pela mãe (Sandra Bullock) encontra uma chave, dentro de um envelope, cuja única possível identificação é a palavra ‘Black’. O garoto resolve visitar todos os moradores com sobrenome Black, de New York, para encontrar utilização para a chave.

O menino Thomas Horn é um excepcional ator, do nível de Mel Maia, a atriz mirim que interpretou Rita em Avenida Brasil. Neurótico, perturbado com a morte do pai, o menino esbanja talento em cenas dificílimas, principalmente nos momentos de busca em que está acompanhado do avô, o genial Max Von Sydow. O roteiro não facilita. Max interpreta um ancião que deixou de falar. Quem ganha com isso é o público, com um ator mirim que fala pelos cotovelos e com um ator que carece fundamentalmente de olhares e expressões faciais.

Tão forte e tão perto é baseado no livro “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, escrito por Jonathan Safran Foer. Dirigido por Stephen Daldry, tem fôlego para minissérie, novela. Imaginem as histórias vivenciadas pelo garoto, que registra através de fotos todas as visitas realizadas durante a busca. Esses encontros, rapidamente mostrados no filme, merecem apreciação demorada em quem tiver interesse em conhecer o livro.

Adeus, Lenin!

O quarto mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Mais que honrar, por amor à mãe, em Adeus, Lenin! um jovem não muda o mundo; pelo contrário, tenta manter Berlim oriental como se o Muro não houvesse caído, para preservar a saúde da mãe. É divertido. É desesperador. É de uma ternura raramente vista em filmes, peças ou novelas.

Uma senhora, cidadã exemplar da Berlim Oriental, vive com os dois filhos, já que o marido foi embora para o outro lado. Sofre um derrame e entra em coma, voltando a si oito meses depois, quando o Muro já caiu e o capitalismo enterra os hábitos dos alemães socialistas. A mãe (Katrin Sab) não pode sofrer fortes emoções e o filho, (Daniel Brühl), resolve manter tudo tal qual a mãe deixara, antes da doença. O garoto empreende uma verdadeira caça à embalagens de produtos, desaparecidos com o novo regime, móveis e roupas para que a mãe pense que tudo está como antes. Quando a mulher insiste em ver televisão, a solução é a produção de programas falsos, com a ajuda de um amigo, diretor de vídeos. É a Berlim oriental recriada conforme os valores transmitidos ao garoto pela mãe.

Na dedicação do filho em recriar o mundo para preservar a saúde da mãe reside a beleza de Adeus, Lenin! Dirigido por Wolfgang Becker, o filme fez barulho por aqui apenas em mostras como o Festival do Rio, em 2003, tendo sido também um dos filmes mais vistos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O sucesso de crítica no Brasil, os prêmios e as grandes bilheterias mundiais não foram suficientes para que Adeus, Lenin! fosse exibido nos cinemas brasileiros; felizmente pode ser visto em vídeo.

Férias acabando; é possível uma opção à vingança/justiça de Nina. Esta personagem mantém a morte do pai como norteador da própria vida; a novela carece de cenas que esclareçam o que o pai deixou de bom para a filha, o que ele ensinou. Bem que Nina poderia ter algo de  Oskar Schell; a criança interpretada por Thomas Horn está cheia de boas lembranças do pai. Também seria bom se ela manifestasse um pouquinho de dedicação pelos vivos, como a personagem Alexander (Daniel Brühl), de Adeus, Lenin! Nina sai fazendo das suas, e todos os que ela supostamente ama, são os mais prejudicados. A jovem limita-se a pedir perdão, desculpas, alegando as boas intenções de seus atos, como se não fosse de conhecimento geral que de boas intenções o inferno está cheio.

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Boa semana!

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