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Bandido que é bandido mata, não brinca de assustar. Essa história de jogar mocinha na cova escura cai bem em conto infantil. Isso se chama dramaturgia precária. Andei lendo por aí que a emissora pretende esticar a novela Avenida Brasil até dezembro. Se não fizerem isso com inteligência começarão as esculhambações ao bom trabalho feito por uma grande equipe. Uma bobagem é a discussão se Nina – a adorável Débora Falabella – é vingativa ou justiceira. Conversa para boi dormir. A personagem não tem representatividade social para fazer justiça e está muito distante de conduta divina para alçar-se à categoria de, em nome de Deus, vingar a morte do pai.

Honrar pai e mãe – o quarto mandamento – é muito diferente de vingar ou justiçar males sofridos por esses. A ação de Nina pode resultar em um ótimo folhetim, mas humanamente representa a volta aos instintos primários; socialmente, a falência da crença na justiça. Em termos de dramaturgia, insisto, muito fraca. Se a dramaturgia televisiva não satisfaz, uma solução viável é buscar socorro no cinema. Há roteiros honrando pai e mãe, com muita inteligência, diversão e emoção, distantes da vingança primitiva, animalesca.

Tão Forte e Tão Perto

Pai e filho são amigos, o primeiro buscando fazer com que o garoto viva melhor. O pai (Tom Hanks) morre em consequência dos ataques ao World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. O filho, deprimido, teme esquecer o pai. Ao vasculhar o armário do falecido, deixado intacto pela mãe (Sandra Bullock) encontra uma chave, dentro de um envelope, cuja única possível identificação é a palavra ‘Black’. O garoto resolve visitar todos os moradores com sobrenome Black, de New York, para encontrar utilização para a chave.

O menino Thomas Horn é um excepcional ator, do nível de Mel Maia, a atriz mirim que interpretou Rita em Avenida Brasil. Neurótico, perturbado com a morte do pai, o menino esbanja talento em cenas dificílimas, principalmente nos momentos de busca em que está acompanhado do avô, o genial Max Von Sydow. O roteiro não facilita. Max interpreta um ancião que deixou de falar. Quem ganha com isso é o público, com um ator mirim que fala pelos cotovelos e com um ator que carece fundamentalmente de olhares e expressões faciais.

Tão forte e tão perto é baseado no livro “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, escrito por Jonathan Safran Foer. Dirigido por Stephen Daldry, tem fôlego para minissérie, novela. Imaginem as histórias vivenciadas pelo garoto, que registra através de fotos todas as visitas realizadas durante a busca. Esses encontros, rapidamente mostrados no filme, merecem apreciação demorada em quem tiver interesse em conhecer o livro.

Adeus, Lenin!

O quarto mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Mais que honrar, por amor à mãe, em Adeus, Lenin! um jovem não muda o mundo; pelo contrário, tenta manter Berlim oriental como se o Muro não houvesse caído, para preservar a saúde da mãe. É divertido. É desesperador. É de uma ternura raramente vista em filmes, peças ou novelas.

Uma senhora, cidadã exemplar da Berlim Oriental, vive com os dois filhos, já que o marido foi embora para o outro lado. Sofre um derrame e entra em coma, voltando a si oito meses depois, quando o Muro já caiu e o capitalismo enterra os hábitos dos alemães socialistas. A mãe (Katrin Sab) não pode sofrer fortes emoções e o filho, (Daniel Brühl), resolve manter tudo tal qual a mãe deixara, antes da doença. O garoto empreende uma verdadeira caça à embalagens de produtos, desaparecidos com o novo regime, móveis e roupas para que a mãe pense que tudo está como antes. Quando a mulher insiste em ver televisão, a solução é a produção de programas falsos, com a ajuda de um amigo, diretor de vídeos. É a Berlim oriental recriada conforme os valores transmitidos ao garoto pela mãe.

Na dedicação do filho em recriar o mundo para preservar a saúde da mãe reside a beleza de Adeus, Lenin! Dirigido por Wolfgang Becker, o filme fez barulho por aqui apenas em mostras como o Festival do Rio, em 2003, tendo sido também um dos filmes mais vistos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O sucesso de crítica no Brasil, os prêmios e as grandes bilheterias mundiais não foram suficientes para que Adeus, Lenin! fosse exibido nos cinemas brasileiros; felizmente pode ser visto em vídeo.

Férias acabando; é possível uma opção à vingança/justiça de Nina. Esta personagem mantém a morte do pai como norteador da própria vida; a novela carece de cenas que esclareçam o que o pai deixou de bom para a filha, o que ele ensinou. Bem que Nina poderia ter algo de  Oskar Schell; a criança interpretada por Thomas Horn está cheia de boas lembranças do pai. Também seria bom se ela manifestasse um pouquinho de dedicação pelos vivos, como a personagem Alexander (Daniel Brühl), de Adeus, Lenin! Nina sai fazendo das suas, e todos os que ela supostamente ama, são os mais prejudicados. A jovem limita-se a pedir perdão, desculpas, alegando as boas intenções de seus atos, como se não fosse de conhecimento geral que de boas intenções o inferno está cheio.

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Boa semana!

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