Memórias de Assis, o Santo e a Cidade

São Francisco, de Cimabue, em trabalho recriado por João Gilberto Falioni

Um dia estive em Assis. Queria conhecer a cidade do Santo, que conheci melhor e passei a amar depois de ver Irmão Sol, Irmã Lua, o filme de Zeffirelli.  É encantadora a história do jovem que renega os bens (Abaixo o capitalismo!) e abandona o conforto da casa paterna para cuidar dos mais necessitados (de forma similar ao Pe. Lancellotti). Que bom perceber que há “Franciscos” por aí!

No inverno italiano o bicho pega e só por isso recusamos visitar a Ilha de Capri. Água e chuva… Melhor seria ir atrás do sonho e conhecer a cidade do santo. Uma pequena aventura! Por conta do frio as excursões para Assis estavam suspensas e minha irmã Walcenis fazendo a linha “um brasileiro não desiste nunca” decidiu que iríamos de trem. – Qual o problema?

Que tal começar pela Stazione Termini, uma das maiores da Europa? “Íntimos” da cidade, tomamos o TRAM, tipo metrô de superfície, em seguida o metrô que nos deixou na Termini. Acostumados com as pequenas estações da Ferrovia Mogiana, nossa principal referência de viagens de trem, o primeiro susto veio com a quantidade de bilheterias. Se você não pegar uma senha, ninguém te responde e um italiano com frio, talvez por isso com humor gelado, indicou-nos, literalmente, qualquer uma entre as bilheterias. Ok! Solícito, um bilheteiro falou com a velocidade de uma metralhadora giratória. O trem estava de saída, era o único e a plataforma era… Algo para ser descoberto entre 32 plataformas!! Ah! Teríamos uma baldeação em Bérgamo.

Poxa, lá em Uberaba temos uma plataforma. São quatro na nossa querida estação da Luz, aqui em São Paulo. Aquelas centenas de plaquinhas, com dezenas de horários e destinos em cada uma delas, a gente com Assis na cabeça, mas procurando Bérgamo, onde tomaríamos outro trem para nosso destino. Tudo falado entre nós como se estivéssemos em casa! Vamos pegar qualquer fila, atravessar as roletas, sair atrás do trem, vamos perder essa merda… – Eu sei qual a estação. Mostro para vocês, disse uma brasileira sobre quem nada sabemos. Não deu tempo, exceto de agradecer.

Qual trem tomamos? Não sei. Qual o destino desse trem? Quem se importa, desde que ele nos deixasse, como o fez, em Bérgamo? A baldeação foi rápida e, no segundo trem rumo ao nosso destino estava uma australiana. Eu já era rabugento, do tipo não gosto de conversar com estranhos. Walcenis deu papo para, em seguida, ameaçar um bate-boca quando a moça, daqui pra frente nomeada imbecil ignorante disse não saber nada sobre o Brasil. O que é? Onde fica? O que você faz, senão rir, quando uma brasileira irada, minha irmã, resolve mostrar amor pela pátria frente à turista imbecil…

A Toscana é uma região linda até sob intenso frio. A estação de trens fica longe da cidadezinha e, mais um micro-ônibus que – Santa Clara! – começa a caminhar sob chuva. Sob chuva fina, fria, chegamos na cidade que, lamento a comparação, é uma Aparecida do Norte medieval. Ou seja, alguma religião e muito comércio. Todavia, graças a esse fomos atrás de um guarda-chuva. Outra brasileira no pedaço, daquele tipo que viaja para comprar coisas… – Há uma loja ali com preços melhores, nos informou com uma imagem do santo em mãos.

O túmulo de Francisco, circundado pelos túmulos de seus primeiros companheiros de Ordem.

Lembro um antigo templo grego tornado igreja – Santa Maria sopra Minerva – e depois um teatro, com o mesmo nome da praça, “Comune”. A casa onde morou São Francisco, cheia de histórias, precedeu nossa chegada à Basílica de Santa Clara. A santinha não, falhou:

Santa Clara, clareai

São Domingo alumiai

Sai chuva, vem sol

Sai chuva, vem sol…

As clarissas, freiras enclausuradas, herdeiras da missão de Clara, amiga pessoal de Francisco, são silenciosas, delicadas. O corpo da Santa está exposto em urna de vidro em área central da igreja, construída em 1257, com simplicidade que remete ao que ambos os santos pregaram. Ao fundo está a clausura e lá se tem contato com as irmãs, com seus pesados hábitos de inverno. Caminhando lentamente se aproximam perguntando apenas o país de origem do visitante para, em seguida, voltar ao fundo da sala para buscar lembranças gratuitas: “santinhos” impressos na língua do visitante. A tal brasileira, a das compras, estava lá. E perguntou para uma das donas da casa: – Quem é aquela ali na urna?

A Basílica de São Francisco, com duas naves sobrepostas, impressiona bastante. Gosto de pensar que a pintura de Cimabue retrata o santo com “fidelidade” e procurei trazer o máximo possível das imagens de Giotto contando passagens da vida de São Francisco. Contudo, nada impressionou mais que a visita à cripta do grande prédio onde está a tumba do santo e mais, outros quatro túmulos de amigos, primeiros franciscanos: Rufino, Angelo, Masseo e Leone. É poético, mais que qualquer coisa. E talvez por fixar ali os ideais do criador e dos primeiros seguidores da Ordem Franciscana, sente-se uma aura diferenciada, inesquecível.

Dia 4 de outubro. Dia de São Francisco. Bom lembrar e, mais que isso, cabe pensar no que é possível de São Francisco para se viver em nossos dias. Nada muito heroico ou impossível. É, para dizer o mínimo, dar uma força ao Padre Julio Lancellotti, por exemplo. Ou então, ouvir o que o Papa Chiquinho tem pra nos dizer. Não, não é erro nem intimidade forçada. Esse tal Francisco, que está em Roma, é digno representante do Santo e, por isso, lhe cai bem um Chiquinho! Bem carinhoso, como eu gostaria de me dirigir ao Santo, caso tivesse a oportunidade de encontrá-lo.

Boa semana!

O décimo primeiro

O Papa levou-me a rever a lista dos argentinos que admiro. Em primeiro lugar sempre esteve Quino; na verdade, a admiração e o afeto é pela Mafalda. Gosto tanto da menininha que repeti o mico de milhares, posando com a estátua da personagem que está no passeio público, em Buenos Aires, defronte ao local onde foi criada por Quino.

Com Mafalda, a personagem de Quino.
Com Mafalda, a personagem de Quino.

Musicalmente já declarei por escrito que Mercedes Sosa é a mais representativa, e por isso mesmo, a maior cantora da América do Sul. Gosto demais de tango na voz de Carlos Gardel e na renovação do ritmo portenho pelo talento de Astor Piazzolla.

Maradona, Norma Aleandro, Jorge Luís Borges, Carlos Gardel, Manuel Puíg, Mercedes Sosa, Julio Cortázar, Astor Piazolla e Lionel Messi.
Maradona, Norma Aleandro, Jorge Luís Borges, Carlos Gardel, Manuel Puíg, Mercedes Sosa, Julio Cortázar, Astor Piazolla e Lionel Messi.

Lembro com carinho algumas passagens de Norma Aleandro em filmes memoráveis e guardo versos da comovente poesia de Julio Cortázar. Orgulho-me de ter toda a obra de Jorge Luis Borges e desde que vi “O beijo da mulher aranha”, na versão de Babenco, guardei um exemplar do livro de Manuel Puig.

Lá, no museu que há no estádio La Bombonera, tive a certeza de que em se tratando de futebol os Argentinos são tão loucos quanto os brasileiros. Alimentam a lenda Maradona e atualmente veneram Lionel Messi.

Com tanta gente querida, não dá para acreditar na seriedade de uma possível rivalidade entre os dois países. Principalmente por somar aos dez nomes de argentinos notáveis mais um, nascido Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco.

O décimo primeiro, Papa Francisco
O décimo primeiro, Papa Francisco

A visita do Papa Francisco tornou banal a idéia dessa rivalidade e somou, além da admiração, um profundo respeito pelo país de origem desse líder carismático. Esse homem entrará para a história como um unificador que, sinceridade paternal, tornou verdadeira a expressão “hermanos” para justificar o afeto entre brasileiros e argentinos.

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Até mais!

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