Padre Líbero Zappone, nosso “Coronel”

Pe. Líbero, em montagem com fotos obtidas nas redes sociais.

Éramos jovens e faltava experiência para uma melhor percepção da vida, das pessoas. Crescidos sob tutela de muitos padres, não era muito fácil distinguir com profundidade o que e quem era cada um dos sacerdotes. A simpatia de uns, as brincadeiras de outros, até a rabugice de poucos, o distanciamento, tudo era percebido de maneira um tanto emocional. Todavia, tivemos a argúcia mínima necessária para perceber que o Padre Líbero Zappone era especial. Um sujeito ímpar.

Em plena década de 70 apelidar alguém de “Coronel” não era propriamente um elogio. Provavelmente esse apelido foi dado por Fátima Borges. Sob a ditadura militar, apareceu-nos um padre que não pedia, mandava. E a gente obedecia, pois as ordens do Coronel eram muito claras e tinham como objetivo nos fazer crescer. Exemplo: Fátima e eu judiávamos de violões encontrados na sacristia, antes e após reuniões. Vem o Coronel e nos dá um mês para aprender a tocar e acompanhar os colegas durante a missa. Um mês! E lá fomos nós atrás de aulas, muito estudo, muito nervosismo e, obviamente não apresentamos um concerto. Chegou a tal missa e lá estávamos junto ao grupo, outros violões dando força. Fafá começaria ali uma linda trajetória musical.

Outras ordens dadas pelo Pe. Líbero colocaram o enorme grupo de jovens da paróquia em intensa atividade. “Na próxima quermesse, vocês serão os festeiros”. Para quem não sabe, ou não se lembra, festeiros são fieis encarregados da organização das quermesses. Pessoas experientes, negociantes, comerciantes capazes de administrar um evento que, durante nove dias, deve arrecadar dinheiro para as obras da paróquia. Encaramos a tarefa. O que a gente não sabia nos foi ensinado pelos pais, por amigos. Deu certo, tanto que depois ele nos levou a repetir a dose.

O Coronel priorizava o conhecimento. E a fé, com lucidez. Lembro-me dele conversando por diversas ocasiões com um “crente”, que hoje chamaríamos evangélico. Cada um munido de sua Bíblia, as conversas entre ambos eram acaloradas, intensas. Na minha estúpida postura de jovem argumentava com o Coronel: “Não é uma perda de tempo conversar com esse sujeito?”. O padre me deu uma lição que ainda hoje procuro seguir. “Eu aprendo com ele, reforço o que sei. Respeito o lado dele”. Recordo um dos temas, os dois citando versículos sobre os nomes de Deus, o que me leva agora a pensar que o outro deveria ser Testemunha de Jeová, pois era esse o nome pelo qual insistia. O Coronel, calmo, ensinava o outro a localizar Javé no livro santo.

Pessoalmente, o Padre Líbero provocou dois momentos que marcariam minha trajetória futura. Ele me mandou (de novo!) preparar uma homilia para a missa das nove, que era a “Missa dos Jovens”. Eu deveria comentar a Parábola do Semeador. “A missa não é só do padre! É de todos nós. Todos somos responsáveis”. E lá fui eu, jovenzinho, enfrentar a casa cheia, como eram todas as missas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba. Recordo ter estudado muito. De ter redigido o texto, decorado, feito resumo, conferido em Mateus, Marcos e Lucas, e fiz. O Coronel…  pediu-me nova empreitada, mais aprofundada. Muniu-me de livros e um imenso dicionário de teologia para elaborar uma dissertação sobre Revelação. Eu saí das narrativas bíblicas para o exercício da exegese, um começo para futuras palestras, aulas, vida acadêmica.

Creio que cada um dos participantes do grupo de jovens da paróquia tem uma história para contar, uma experiência particular. O Padre Líbero nos dividiu em equipes, cada uma delas responsável por um trabalho de apoio às atividades de formação e aprofundamento cristão. Com Maria Amélia Cruz e Terezinha Benetolo desenvolvemos trabalhos e apresentamos para a paróquia o que foram as Cartas de Medellin, o Concílio Vaticano II, e outros temas em uma tal “Equipe de Integração”. Com Ronaldo Feliciano de Assis, encarregado de atividade teatral, colaborei na montagem do que veio a ser o meu primeiro trabalho cênico, norteando toda a minha vida a partir de então. Quais serão as lembranças do Paulinho Silveira, do Getúlio, de tantos outros que por lá passaram.

O Padre Líbero nos levava a sério. E conversava conosco de maneira adulta. Com ele aprendi a diferença entre Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. E o papel que cada um estava tendo naquele momento da ditadura. Ele apontava o que pensava de cada um, qualidades, defeitos. Tempos depois, fui recebido por ele na Vila Luzita, em Santo André. Era 1977, creio eu, e o lugar era um bairro em formação. “É aqui, junto aos que necessitam que devemos estar”. Já então percebia as diferenças entre ele e os demais padres de nossa convivência. Pouco antes ele havia recusado uma paróquia prontinha, bonitinha, lá em Campinas, mas de difícil acesso ao povo. Optou pela vila em formação onde, literalmente, tudo estava por ser feito.

Anos depois, ele já atuando em Socorro, no interior de São Paulo, fomos, Fátima e eu, visitá-lo. Não nos surpreendemos em encontrar na paróquia um grupo de jovens cuidando de uma emissora de rádio criada pelo Coronel. “Eles que tomam conta”, nos disse, com inegável orgulho. Nem foi surpresa conhecer o conjunto residencial que ele, com recursos e trabalho dos grupos da paróquia, estava construindo e que se destinava aos mais necessitados. Durante o trajeto de volta comentamos sobre aquela grande figura. Uma coerência rara!  Um cristão digno da fé que professava. Um líder como poucos.

Hoje recebi a notícia do falecimento do Padre Líbero Zappone. Quem me participou desse triste acontecimento foi minha irmã Walderez. Ele foi o padre que celebrou o casamento dela. Nas fotos do álbum, os noivos e o celebrante, guardamos o registro da presença desse notável sacerdote em nossa família. Muitos paroquianos terão fotos de batismo, de primeira comunhão. Na cidade de Socorro, onde foi pároco por mais de três décadas, as redes sociais registram o afeto e o apreço pelo sacerdote.

Como última lembrança, quero guardar inúmeras caminhadas curtas, um vai e vem no pátio da paróquia (onde ainda não havia quadra, nem o salão construído sobre esta). Ele estava lá, nas tardes de todos os dias, indo e vindo com seu terço, ou o breviário, ou conversando com alguém. “Coronel, preciso falar com você”, e ele, “Venha, vamos caminhar. Pode falar”. E ali eu exercia o sacramento da confissão, sem fórmulas, sem madeira ou tecido me impedindo de perceber o olhar atento, a voz calma, mas decidida, opinando sobre o que ele achava melhor para minha situação. Às vezes, alguém nos interrompia. Continuaríamos depois. Ou então, ele encerrava o assunto com um “vamos rezar” e andávamos, em silêncio, sem penitências ou castigos. Que Deus o receba, Padre Líbero! Em minha lembrança, a figura de um sacerdote extraordinário que, com pulso firme e um especial carisma, conseguiu com que nós, jovens, o obedecêssemos.

Até mais, Coronel!

Maria Amélia, da delicadeza e do sorriso incansável.

Maria Amélia, ao centro, no Auto da Esperança

Ao longo de toda a minha vida tenho trabalhado com grandes mulheres: Mara, Sonia, Regina, Claudia, Vânia… A primeira, aquela quem norteou meus caminhos futuros, foi Maria Amélia. Lá em Uberaba, quando fomos aprendizes de quase tudo.

Um grupo considerável de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, foi organizado em diferentes equipes pelos padres coordenadores Líbero e Américo. Participei de uma dessas equipes, denominada Integração, coordenando-a com Maria Amélia e Terezinha Benetolo. Como o próprio nome da equipe sugere, nosso trabalho consistia em dar continuidade a trabalho anterior, realizado pela Catequese. Crianças, após a primeira comunhão, aprofundavam conosco temas religiosos e pertinentes a pré-adolescentes.

Caçulas de famílias distintas, Terezinha e eu éramos tímidos aprendizes no que Maria Amélia transitava com inequívoca simpatia e tranquilidade. Os diversos temas tratados pela Equipe de Integração eram facilitados pela nossa amiga que, já naquele momento, tinha algo de arrimo de família, lutando por melhores condições de trabalho para o próprio pai. “Estou trabalhando para conseguir uma banca no Mercado Municipal para o meu pai” recordo a frase que logo se tornou realidade.

Dessa equipe quero frisar de Maria Amélia a maturidade, o imenso carinho fraternal, às vezes maternal com que conduzia tudo sem perder a alegria, sem esconder um sorriso franco, sempre aberto a cada encontro. Trabalhamos por um bom período sem nenhuma perturbação, sem rusgas, intrigas. Fomos irmãos!

Lá pelas tantas, preparando com Ronaldo Feliciano Assis um momento do encontro de final de ano do grupo jovem, escrevi e dirigi o que chamo minha primeira experiência teatral. Entre as atrizes, lá está Maria Amélia se fazendo presente em momento de carinhosa lembrança.

Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, Valdo Resende, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel Lázaro das Neves, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Essas duas experiências, marcantes, nortearam minha vida pessoal e profissional. Aprendi a conhecer um pouco mais sobre crianças e adolescentes com a Equipe de Integração. Primeiros passos numa carreira de professor que ultrapassou três décadas de trabalho. Com o Auto da Esperança, iniciei uma carreira de teatro que, espero, ainda dê mais alguns frutos. Nas duas atividades trabalhei com mulheres, fui dirigido e coordenado por mulheres incríveis, sobretudo generosas, como foi Maria Amélia.

Cada um seguindo caminho distinto, nunca deixamos de lado os laços de amizade que nos uniram desde então. Ultimamente nos falávamos por WhatsApp e, não raro, ela deixava comentários delicados nas redes sociais como este, publicado abaixo que, infelizmente, veio a ser nossa despedida. Maria Amélia publicou a mensagem na sexta-feira, vindo a falecer no dia seguinte. A dona da delicadeza e do sorriso incansável fez sua passagem.

Registro aqui minhas sinceras homenagens, e certamente de todos os amigos de Maria Amélia Cruz Barbosa. Nossa tristeza infinita é somada a certeza de que pessoas como ela, só podem ter um destino de paz e harmonia ao lado do Criador. Registro também gratidão pelo carinho, pela amizade serena, pela simpatia nunca deixada de lado em todos os nossos encontros.

Domingo paulistano

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O metrô estaciona na estação Luz. Um assalto!

Do lado de fora vem uma mão que, sorrateira,

Leva o telefone de um indivíduo.

Movimento similar e outros telefones são roubados.

Um pequeno arrastão.  Tudo rápido, eficiente.

O pânico instalado e todo mundo olhando pra todo mundo.

Somos cúmplices dos ladrões?

Permaneceu algum assaltante no trem, já em movimento?

Ninguém fala. Ninguém grita.

Assustado, recordo outros assaltos; esses a mão armada.

Revivo sentimentos que sonhava distantes

Vontade de matar, trucidar, cortar as mãos do outro.

É natal… Tempo de luz…

Luzes na cidade, ladrões na Luz.

Ironicamente,

Anúncios no vagão garantem segurança

Outros, mentirosos, oferecem tranquilidade.

Antes de descer do trem, vigio meu próprio bolso;

Experimento a felicidade de não ter sido roubado.

E sigo aparentando tranquilidade;

É só mais um domingo paulistano.

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Obs.: A foto acima é de um mural da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, em Uberaba, MG; pintura de Antônio Fernando dos Anjos.