Outubro e o que resta do que um dia fomos

acólito

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Fernando Pessoa in A criança que fui chora na estrada.)

O que é que ainda permanece desse menino? Foi a pergunta que ouvi enquanto mexia com minhas fotos de quando criança. Sobrou alguma coisa? E dei de pensar olhando algumas imagens, as personagens que nelas estão comigo, os momentos em que foram registradas. Todos nós, inevitável, passamos por grandes mudanças, mas o que se espera, ou o que me parece, o que gostaríamos é que tenha permanecido o que tivemos de melhor.

A princípio, penso, temos a sensação de que somos sempre os mesmos. Essa abstração que nos autodenomina, o Eu, não tem idade e por isso entramos em crise quando um olhar atento ao espelho nos revela uma ruga, a pele perdendo o viço, mais alguns fios de cabelos brancos, o corpo ficando em forma… de bola. E ficamos mais chocados quando é o outro que nos faz conscientes de que já não somos os mesmos: – Você mudou muito! Quanto tempo!

A rede social nos acostumou, nos últimos anos, a nos revermos crianças, expondo antigas fotos na web. Graças à isso descobrimos a suavidade que já existiu em alguns, o sorriso espontâneo de outros, a ingenuidade evidente que pouco se alterou, a pureza tão ilimitada quanto perdida e, sobretudo, vejo que em todas as fotos de velhas crianças desse mês de outubro transbordam sentimentos de esperança, sonhos de vir a ser e estar em um mundo digno.

Ah, eu gostaria de não ter algumas dúvidas que volta e meia me atormentam. Eu acreditava em Deus, sem questionar. Havia o pai no céu que minha mãe da terra me deu. E tinha também a mãe do céu, que a mesma mãe da terra me ensinou a amar e a confiar. O mundo de então, era mais preciso; havia pessoas más e pessoas boas. As más estavam longe, bem longe, e os entreveros familiares eram simples e corriqueiros distúrbios logo serenados. Sonhava mais acordado do que dormindo e para esses sonhos Pasárgada e Shangri-la perdiam feio. Tudo era possível, tudo aconteceria no seu devido tempo. Hoje… sobram incertezas.

O quinto de seis irmãos, cresci em um ambiente sempre cheio de gente, de vozes conversando, música no rádio, jogo na televisão. Na hora de dormir tinha medo por ser, talvez, a única hora em que ficava sozinho. Mamãe rezava seu terço diário a meu lado, dizendo-me rezar para eu dormir. Confiante, eu dormia e acordava no dia seguinte, tranquilo ante o barulho da casa. Não gosto de solidão e vou sentir sempre a falta de todos os que povoaram minha casa de infância.

A excitação antes de qualquer viagem permanece. Seja para o lugar novo, seja para mais uma entre as centenas de voltas à Uberaba. Quando a viagem não é física, continua sendo literária o que me leva a crer que não mudou o amor a Salvador d’Os Capitães da Areia, a Londres de Oliver Twist, o porto do Havre d’O diário de Dany. Outras viagens, cinematográficas, levam-me para mundos distantes, outros imaginários, em companhias que prezo e que fico feliz em rever, por exemplo como se dançasse na chuva com Gene Kelly, ou lutasse ao lado do Cid Campeador de Charlton Heston.

Penso que algumas lembranças dessa criança com o castiçal possam suscitar outras, de quem me dá a honra de ler este texto. Esse santinho da foto levava cascudos do Pe. Luigi Stella, por conversar durante a missa e aprendeu a gostar de música erudita, assim como de imagens barrocas e renascentistas com outro padre, Nicola Rudge. Por mais que eu possa caminhar e vivenciar outras religiões é essa, a primeira, que somo a todas as demais. Um terceiro padre, Líbero Zappone, ensinou-me a respeitar todas as manifestações, levando-me muito cedo a ver Deus em todos os tipos de crença.

Essa criança aí da foto ainda está por aqui. Guardada em diferentes escaninhos do cérebro, do coração. Reconheço-a quando brinco com meus amigos, na convivência com meus irmãos que às vezes dirigem-se a mim como o caçula que fui. Reencontro o menino quando cuido das plantas que, lá atrás, cresciam soltas no quintal. Convivo diariamente com o gosto por andar de trem, sentindo um prazer indescritível com o som de quando os vagões mudam de trilhos e voltarei sempre à Santos, pra rever e andar de bonde, como aquele menino feliz que transitava nos bondes de Campinas, lamentando a ausência desses em Uberaba.

O que é que ainda tem desse menino? Foi a pergunta… Quase tudo. Quase nada. As coisas foram se modificando, as pessoas tornaram-se outras mantendo algo que faz com que as veja como sempre vi, reconhecendo nelas os infinitos detalhes que nos ligam. Esse menino aí fui eu. Um dia. Hoje sigo em frente. Dou graças à Deus pelo esquecimento, por me permitir viver sem a tortura das más recordações, sem a dimensão de todas as perdas, como também por caminhar tranquilo sem o afogamento pelos momentos de êxtase, de felicidade. Agradeço por ser outro, ter experimentado, ter sobrevivido e sobretudo, por estar modificado o que, espero, tenha sido para me tornar um ser humano decente.

Até mais!

Obs.: A foto acima é do final de uma procissão na Igreja Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba, por volta de 1965.

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“O Tíutio”, o nosso jornal

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Basta olhar para a imagem e o tempo, já distante, reaviva o cheiro de álcool e tinta característicos da impressão via mimeografo. Mesmo com todas as andanças, mudanças daqui e dali, ainda tenho um exemplar. É “O Tíutio” de número quatro, o jornal do Movimento de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, lá em Uberaba, MG.

Nosso grupo, lá no Bairro Boa Vista, começou com o trabalho de outros jovens, do então chamado Movimento Mundo Novo, cujos participantes eram de outras paróquias da cidade. Estimulados pelos Padres Somascos continuamos o trabalho. Esses já estavam na paróquia desde a década anterior e guardo, com muito carinho, muito do que aprendi com o Padre Nicola Rudge, a quem chamávamos Padre Nicolau ( Com ele descobri a arte do renascimento, aprendi xadrez enquanto ouvia música erudita, em especial, a ópera italiana).

A turma de acólitos (os populares coroinhas) criado pelo Pe. Nicolau caminhou naturalmente para o grupo de jovens, assim como as meninas do grupo que nas novenas, anualmente, coroava as imagens de Maria. Outros padres, Líbero Zappone e Américo Veccia, passaram a trabalhar conosco. Américo, o Tíutio que deu título ao jornal, tinha foco em ações da pastoral vocacional e Pe. Líbero, a quem chamávamos Coronel, era o Vigário de então.

O Coronel justificava o título com “ordens” variadas. “– Vocês irão tocar violão na missa daqui a um mês!” Fátima Borges e eu, obedientes, corremos para ter aulas e no tempo exigido estávamos, trêmulos, executando acordes para que nossos amigos cantassem.  Outra ordem, mexeu com todo o grupo, cerca de 50 pessoas: “- Na próxima quermesse vocês serão os festeiros!”.  Uma revolução. Em toda a história da paróquia as quermesses eram feitas por casais experientes do bairro, com domínio e prática daquele tipo de evento. O grupo topou o desafio e fez um belo trabalho.

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O jornal – faz tempo! – não sei como surgiu, mas está no exemplar que guardo menção à grande colaboração do “Coronel”. A redação está assim descrita: “Valdo, Inimar, Luiz Albino e Ronaldo. Os desenhos foram a cargo de: Gerson”. Os assuntos? Um texto reflexivo de abertura, algumas piadas e muita brincadeira com algumas pessoas participantes do grupo. O número, último do ano de 1975, registra nome e endereço de 46 integrantes.

Já tínhamos sinais de que as coisas mudariam. Fátima Borges, por exemplo, já havia ido de mudança com a família para Goiânia. Logo eu também viria embora. E dos que constam desse velho jornal mimeografado, lamento algumas erdas irreparáveis: Ronaldo Feliciano de Assis, meu querido amigo, faleceu. Também falecidos: João Cardoso Borges e Maria Catarina Souto. Talvez outros, não sei. Muitos integrantes permaneceram lá no bairro, formaram família, os filhos já crescidos, certamente há avós entre esses jovens do Tíutio. Outros foram pra outras cidades, outros estados. E o tempo passou.

Foi em uma dessas arrumações de final/começo de ano que mostrei ao Agostinho Hermes, meu irmão Gugu, o jornal de quando éramos jovens e ele, na época menino, era acólito cuja atuação está registrada nas fotos de casamento de minha irmã Walderez. Ele impediu-me de jogar fora o velho exemplar, assim como também o texto da primeira homilia que fiz, sob as ordens do Coronel, tendo como tema a Parábola do Semeador. – É história, Vavá! Tem que registrar no blog. E aqui está.

Nosso país anda feio! Os anos de 1970 também foram difíceis: estávamos lá! Semeando esperança e nos preparando para seguir em frente. Até onde percebo, via redes sociais, ou papos pessoais, continuamos na luta. A fé pode não ser a mesma, assim como os ideais foram mudando com o tempo, mas ouso afirmar: – Somos gente do bem. E aprendemos boa parte do que somos lá, ao lado dos padres.

Os Somascos ensinaram-nos a fazer reuniões, organizar eventos, discutir textos, planejar ações de integração, discussão. Entre muitas atividades, creio, que a principal foi a discussão e interpretação de textos. Da Bíblia, dos livros de formação e de letras de canções, notícias de jornal, poesias. Um aprendizado informal, mas que certamente norteia a vida de todos aqueles que viveram intensamente aqueles anos.

Meu carinho aos padres e para todos os meus companheiros de grupo, para quem vai este texto. Meus sentimentos aos familiares por aqueles que partiram.

Terminarei registrando todos os nomes citados no jornal; um encontro virtual para lembrar tempos em que sonhávamos grande e, quem sabe, não seja este um pequeno estímulo para continuar a sonhar. No mínimo, um bocado de histórias para lembrar.

Ajair dos Reis Farias Pinto, Alcides Delfino Camilo, Anivaldo Santana, Antonio Sebastião de Souza, Antonio Sergio Manzan, Ariadina Aparecida Borges, Célio Heli Batista, Daniel Lázaro das Neves, Delcio José Matos, Dulcelane dos Santos Loureiro, Eleusa de Fátima Ramos, Getúlio de Oliveira, Gilberto dos Reis Mota, Haidee Maria Fialho, Inimar Eurípedes Santana, João Cardoso Borges, José Geraldo de Oliveira, José Humberto da Silveira, Lúcia Helena Ribeiro, Luiz Albino Gonçalves, Marco Antonio Britto, Maria Amélia Cruz, Maria Aparecida Souto, Maria Bernadete Camilo, Maria Bernadete da Silveira, Maria Catarina Souto, Maria das Graças, Maria das Graças Silveira, Maria Lucia Souto, Maria Natividade Ramos, Marilene Alves, Marilene Justino, Marina Alves Rocha, Marisa Helena Alves, Marluce Aparecida Justino, Marluce Helena de Souza, Marta Aparecida Camilo, Paulo Roberto da Silveira, Pedro Bernardino da Silveira, Pedro Delfino Camilo Filho, Ronaldo Feliciano de Assis, Shirley de Matos, Silvia Gonçalves, Tania Cristina Melo Oliveira, Valdo Vinagreiro Resende, Vanildo Portela de Jesus.

Até mais!

Presépios, para um Natal feliz

 

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Ronaldo, Inimar, Marquito são os anjos. Anivaldo e Terezinha, os pais. Daniel, o menino Jesus.

Neste, como em muitos anos repete-se o ritual. O natal se torna visível nas diversas manifestações imateriais como folias, cantatas, missas ou através de elementos materiais: guirlandas,  árvores, ou um presépio… Eu gosto de presépio tanto quanto gosto de quem o criou, São Francisco de Assis; o Santo queria representar as condições do nascimento do menino Jesus.

O presépio mais encantador da minha infância foi, sem dúvida, um que foi construído pelo “Senhor Fumaça”, um artesão de mão cheia que, durante o dia, trabalhando em uma cerâmica, lá mesmo, aproveitando-se de sobras de materiais e do forno local, criou toda uma representação de Belém.  A sala na casa de D. Castorina era toda ocupada pelo presépio criado pelo marido (Essa casa, antes ocupada por meus pais, foi onde nasci!).

Presépio bem tradicional, aquele era composto por imensa gruta e, dentro desta, cabanas, palacetes, casas de diferentes tipos, todas em cerâmica. Estrelas, luzes coloridas. Animais domésticos, selvagens. Grupos de viajantes, caravanas e, entre essas, aquela que conduzia os magos para visitar o Salvador prometido. Das pequenas traquitanas criadas pelo “Senhor Fumaça” é nítida a lembrança de um monjolo que, abastecido por pingos de água exercia sua função de moagem de grãos. Crianças, entre uma brincadeira e outra, corríamos céleres em intervalos de tempo precisos para ver o objeto em movimento.

Jovem, atuante na mesma paróquia do Bairro Boa Vista, e já envolvido com teatro, chegou a minha vez de conduzir uma representação; um presépio vivo de lembrança muito especial. Na foto acima meu irmão caçula, Daniel, com cerca de nove meses de vida, foi o menino Jesus sobre a manjedoura. José e Maria (Anivaldo e Terezinha) cuidam da criança, protegidos por três jovens anjos (Ronaldo, Inimar e Marquito).  Nada de excepcional, exceto a lembrança de um momento nosso; feito com seriedade, reverência e, certamente, fé.

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Não sei há quanto tempo monto o presépio em minha casa. Gosto de realizar pequenas mudanças, alterar a composição da montagem e assim, em cada ano, fica diferente e sempre igual. Meu presépio tem, fundamentalmente, a função de me conduzir aos primeiros natais com minha família, ou na casa da Tia Olinda, em Ribeirão Preto, ou ainda na casa de meus avós, em Campinas. Ato familiar, as comemorações de natal reforçam minha fé no novo, naquilo que devo percorrer mesmo com perdas dolorosas pelo caminho. Meu lastro são as lembranças, reforçadas e reconstruídas em cada dezembro.

Feliz Natal pra todos!

Outros Personagens da Próxima Tarde

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José de Arimateia recolocou o Filho no colo da Mãe. (Pietá. Artesanato Mineiro)

Noite de lembranças sombrias. Véspera de uma sexta-feira fatal. Muitos, por aí, deverão recordar nem que seja por alguns minutos da aflição daquele alguém que, ante a eminência de uma prisão e uma provável condenação, passou a noite em oração. Passada a Última Ceia resta a longa tortura da espera pelo fato já sabido, prestes a ser consumado. Houve uma traição, uma troca por trinta moedas. Há o ser que tudo sabe e há o homem, pobre homem, prestes a experimentar dores terríveis.

Quando criança esta era uma noite silenciosa. Temerosa, pois afirmavam haver castigos horríveis caso não guardássemos devidamente a Quaresma. Nada de carne, nada de festas. O período de recolhimento atingia seu pico na semana santa. Não me recordo e não me fez falta a presença de chocolate nesse período. Havia cerimônias religiosas com textos profundos, tristes. A Via Sacra fazia lembrar e memorizar cada momento dessa última noite do Deus humano entre nós.

A tarde da sexta-feira, então, era a mais sagrada de todas. Nada de rádio, nada de TV, revista, gibi, nada! Às quinze horas estava tudo absolutamente parado, silencioso. A lembrança da profecia cumprida; nós, humanos, responsáveis por uma crucificação. Havia os teatros, o canto triste de Verônica, o desespero de Maria e um último pedido de Filho para Pai: Perdoai-os!

A Paixão de Cristo é algo tenebroso. A morte de um inocente, vítima dos interesses de muitos poderosos; resignado ante a falta de percepção da maioria da população. Fico pensando nas torturas de então – chicotadas, coroas, pregos – e penso que o sofrimento é o mesmo se há choques elétricos, paus-de-arara, solitárias escuras. Coroando tudo a execração pública. Consigo pensar, consigo imaginar, mas não consigo dimensionar exatamente o sofrimento em tal situação.

Foi lá, no passado, quando velávamos esta noite, que passamos noites inteiras em oração, reflexão, em nome da fé e da necessidade de estar ciente do que o Filho fez para nos salvar. Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Uberaba. Onde aprendi a respeitar e reverenciar todos os personagens da Paixão e, desde então, sempre refletindo sobre dois deles.

Simão de Cirene, que ninguém sabe ao certo quem foi, teria ajudado de bom grado ou o fez por ter sido constrangido? Ali, pelas ruas da cidade segue um homem coroado de espinhos, sangrando e arrastando uma cruz. Cai. Parece que não conseguirá seguir. Os soldados obrigam um espectador a carregar a cruz com o Condenado. O que teria passado pela cabeça de tal espectador, momentaneamente encarando as feições do inocente? Entre tanta gente… O que teria acontecido ao ajudante inesperado depois de terminado aqueles momentos de horror?

Outro momento. Um corpo inerte. A mãe, o discípulo, algumas outras mulheres ao pé da cruz. O sangue demorou a estancar? E a dor da mãe, vendo o filho ali, dilacerado? E é aí que aparece José de Arimateia. O homem que tirou o Cristo da cruz. Onde estavam todos os outros discípulos? Quem irá julgá-los? O que importa é que alguém foi até Pilatos e obteve a autorização para descer o corpo da cruz, minimizar o sofrimento da mãe e, por fim, dar um túmulo digno para o Mestre.

São passagens pequenas, mas essenciais. Esses dois personagens nunca me saem da cabeça. Simão de Cirene, o inesperado ajudante e José de Arimateia, que desceu o Cristo da Cruz possibilitando à mãe um último abraço, um derradeiro acalanto. Mediante o inevitável, colaboraram para minimizar e dar um fim aos acontecimentos tenebrosos daquela sexta-feira.

A noite avança neste 2016. Neste momento, lá fora há os bares palpitantes, com sua gente sempre barulhenta.

Boa Páscoa!

Domingo paulistano

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O metrô estaciona na estação Luz. Um assalto!

Do lado de fora vem uma mão que, sorrateira,

Leva o telefone de um indivíduo.

Movimento similar e outros telefones são roubados.

Um pequeno arrastão.  Tudo rápido, eficiente.

O pânico instalado e todo mundo olhando pra todo mundo.

Somos cúmplices dos ladrões?

Permaneceu algum assaltante no trem, já em movimento?

Ninguém fala. Ninguém grita.

Assustado, recordo outros assaltos; esses a mão armada.

Revivo sentimentos que sonhava distantes

Vontade de matar, trucidar, cortar as mãos do outro.

É natal… Tempo de luz…

Luzes na cidade, ladrões na Luz.

Ironicamente,

Anúncios no vagão garantem segurança

Outros, mentirosos, oferecem tranquilidade.

Antes de descer do trem, vigio meu próprio bolso;

Experimento a felicidade de não ter sido roubado.

E sigo aparentando tranquilidade;

É só mais um domingo paulistano.

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Obs.: A foto acima é de um mural da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, em Uberaba, MG; pintura de Antônio Fernando dos Anjos.

 

Noites de encantamento

Avenida Paulista 2011
Natal da Paulista em 2011, já alimentando sonhos

Já são tempos distantes e há certa dificuldade em precisar detalhes, acertar datas, ordenar acontecimentos. São lembranças acumuladas na caixa dos “primeiros natais” que emergem quando chega dezembro. Não sinto nostalgia; guardo a impressão de não ter aproveitado o bastante por não ter tido, então, a possibilidade de perceber o quanto foi bom. Talvez, esse “bom” seja uma mera cilada do tempo…

Houve uma época em que a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba, era só uma pequena capela sob os cuidados dos frades dominicanos. Não consigo recordar nome de nenhum padre de então… Após uma pequena pausa vem um nome, Frei Alberto Chambert, mas é só um nome do qual não me recordo o rosto. Tenho certeza é do estranhamento quanto à expressão “Missa do Galo” e de não ter a menor ideia do que seria um “presépio vivo”.

Era noite alta quando saímos para a capela e em um determinado momento da missa, onde não vi nenhum galo, apareceu um casal com roupa estranha, carregando uma criança. Um grupo de crianças aglomerou-se observando o casal. Minhas duas irmãs mais velhas estavam nesse grupo; com panos na cabeça, saias coloridas. Meu irmão e um vizinho estavam carregando pedaços de madeira e estavam com bonés. Pastoras, pastores, o menino Jesus, os Reis Magos…

Provavelmente foi Belinha a organizadora desse primeiro “presépio vivo” do qual me recordo vagamente. Ela foi desde sempre a responsável por momentos ternos, de suave lembrança, de tantos quantos tenham frequentado a capela, depois tornada paróquia sob o comando dos padres Somascos.

Não posso afirmar que tenha entendido toda a história narrada em meio a cantorias, sermões e preces na capela de Nossa Senhora das Graças. Sem ler a Bíblia, dominei detalhes da história do sagrado menino da mesma forma em que milhares de outros cristãos conheceram: através do artesanato popular.  “Seu Fumaça” era morador do bairro e trabalhava na cerâmica da cidade.Com imensa capacidade, o homem criava pequenas casas em argila, queimadas no forno da cerâmica. Essas casinhas viravam um vilarejo chamado Belém, montado dentro da sala de estar da família.

O presépio do “Seu Fumaça” e de D. Castorina eram grande atração natalina para todos os meus irmãos e primos. Era noite quando víamos a montagem que lembrava uma grande gruta, cheia de estrelas e luzes coloridas e, sob a gruta, a cidade com suas casinhas, sua gente, os animais e uma estrebaria onde ficava a sagrada família. Ficávamos horas observando um fio d’água que movimentava um monjolo. Quando cheio, este tombava a água e isto era algo como uma grande mágica.

Eram outros tempos e as Folias de Reis cantavam noite adentro, batendo nas portas das casas e, quando convidadas, entravam com suas músicas ternas, contando sob outra forma a mesma história ouvida na capela e vista no presépio. Batidas de tambor, a melodia acentuada no som da sanfona, cadenciada nas cordas de violas e cavaquinhos. Um solista, voz grave de barítono, contava uma história, repetida e acentuada pelo coro que alongava a última silaba, em agudo intenso, emocionado, cortado pelo som forte do tambor que marcava o retorno de outro momento da mesma melodia.

Depois, meus avós já não moravam em Uberaba, começamos a passar nossos natais em Ribeirão Preto, na casa da Tia Olinda, irmã mais velha de minha mãe.  Eu ainda acreditava em Papai Noel e achava fantástico acordar e ver alguns brinquedos ao lado da minha cama.

Nos natais de minha infância também havia brinquedos. Não sei quantas horas, meses ou anos divaguei brincando com minha carruagem puxada por quatro cavalos. Era um brinquedo de plástico que imitava as conduções dos colonizadores da América. Também viajei milhares de quilômetros imaginários com minha máquina “Maria Fumaça”, que apitava e tocava sino (Um prodígio!) assim como percorri outro tanto com meu carro amarelo ouro e lutei, ao lado de replicas de soldados da Segunda Guerra. Nesta, entravam carruagens, Marias Fumaças e todos os meus outros brinquedos.

É bom lembrar natais sem relação com consumo. Tive poucos brinquedos. É por isso que, com absoluta certeza, guardo a lembrança carinhosa de cada um. Guardei todos eles e só me desfiz dos mesmos já com 20 anos. Foi quando nasceu meu irmão caçula para quem, de bom grado, doei meus brinquedos de infância.

Natal de 2013! Se hoje eu fosse criança guardaria as lembranças das noites da Avenida Paulista, com seus prédios tornados locais mágicos. Também sonharia com as luzes que enfeitam ruas; com as projeções no Parque do Ibirapuera, a grande árvore, as águas dançantes. Ficaria na memória o motivo de tudo isso através de todos os presépios espalhados pela cidade. Esse é o maior encantamento; a história de dois jovens que sem conseguir hospedagem tiveram o filho em uma pequena manjedoura: Um deus menino que nasceu em uma noite, muito distante dessas em que vivemos.

Até mais!

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Velho amigo, S. Jerônimo Emiliani

Quando o Papa Francisco abençoou hoje a Capela de São Jerônimo Emiliani, no Rio de Janeiro, as lembranças bateram fortes. Conheci São Jerônimo através do Padre Luigi Stela, o primeiro sacerdote da Ordem dos Padres Somascos que assumiu a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Bairro Boa Vista, lá na minha querida Uberaba.

Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Uberaba, MG, onde conheci os Somascos e São Jerônimo Emiliani.
Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Uberaba, MG, onde conheci os Somascos e São Jerônimo Emiliani.

O Padre Luigi, Luís, como o chamávamos, rezava sempre para São Jerônimo, “Patrono Universal dos órfãos e da Juventude Abandonada”. Ficam mais claras, coerentes, as intenções do Papa Francisco ao escolher rezar na capela do santo que é patrono da juventude no Encontro Mundial que ocorre nesta semana, no Rio de Janeiro.

São Jerônimo nasceu em Veneza, no ano de 1486, filho da nobreza veneziana. Em 1510, já na carreira militar, confiaram a Jerônimo a Fortaleza de Castelnuovo de Quero onde caiu prisioneiro em ação bélica. Foi libertado milagrosamente por Nossa Senhora. Certamente começa aí a transformação que levaria o nobre Jerônimo ao serviço de Deus.

A morte de um irmão de Jerônimo, que deixou quatro crianças e antes de falecer pede a ele que cuide dos sobrinhos é o começo de nova etapa. Em seguida, outro irmão falece e outros sobrinhos, órfãos, foram também acolhidos por Jerônimo. Anos depois alugaria uma casa em Veneza, onde começou a dar guarida para outros órfãos, constituindo-se este na primeira semente de muitos orfanatos e colégios.

Jerônimo foi discípulo de São Caetano de Tiene, que é o santo que dá nome à simpática São Caetano do Sul, no grande ABC, tornando-se um dos discípulos do Divino Amore, organização criada por São Caetano. Nesta circunstância e após ter sido curado de uma moléstia é que Jerônimo decide dedicar-se aos órfãos. Todo um imenso trabalho deu origem, na aldeia de Somasca, próxima de Veneza e Milão, a Companhia dos Servos dos Pobres, a precursora da Ordem dos Padres Somascos.

Conheci a vida de São Jerônimo através do livro UM HERÓI DESCONHECIDO, a biografia escrita pelo Pe. Carlo Pellegrini, traduzida pelo Pe. Líbero Zappone.  Na adolescência chamávamos o Pe. Líbero de Coronel. Ele tinha um jeito todo peculiar de nos dirigir, enérgico, daí o apelido que, até onde me lembro, foi dado por Fafá, a Fátima Borges. O Coronel foi o primeiro sacerdote Somasco ordenado no Brasil. Mas antes de o Pe. Líbero chegar à vida dos jovens do Boa Vista, lá em Uberaba, conhecemos o Pe. Nicola Rudgi, o Pe. Nicolau.

Sem dúvidas, o Pe. Nicolau foi o mais culto entre todos os padres que conheci. Houve uma época em que ele lecionou as principais disciplinas do antigo Curso Clássico, no Colégio Diocesano, lá em Uberaba. Fui acólito (o popular coroinha) deste padre e na companhia dele, junto com outros garotos, aprendi a jogar xadrez, a conhecer o Renascimento e o Barroco e, lembrança mais sólida, uma grande coleção de discos que possibilitou-nos conhecer as mais belas óperas italianas.

Os padres Somascos cuidaram de um Abrigo de Menores, também lá do nosso bairro. O Pe. Pedro é sempre lembrado pela dedicação aos órfãos que por lá passaram.  Enquanto alguns trabalhavam no orfanato, outros orientavam os jovens paroquianos. O Pe. Enzo Campana, O Pe. Domênico, entre outros, estão entre os padres Somascos que marcaram a minha vida e a de muitos outros amigos.

Capela lateral e interior da nossa paróquia.
Capela lateral e interior da nossa paróquia.

O Padre Américo Veccia foi o primeiro padre que hoje me veio à lembrança. Através dele e na companhia de amigos estive em Manguinhos, no Rio de Janeiro, há muitos anos. Os Somascos mantinham uma paróquia por lá, deixada posteriormente, por questões administrativas. Lá, bem perto, fica a comunidade onde esteve o Papa Francisco abençoando a capela consagrada a São Jerônimo Emiliani.

Minha geração deve muito aos Padres Somascos. Através deles aprendemos a viver em grupo, a organizar ações educativas e sociais, a conhecer uma igreja engajada e voltada para necessidades reais.  Ainda hoje, cada um desses queridos padres está presente de forma distinta na vida dos moradores do Bairro Boa Vista. Casamentos, batizados, festas, reuniões, orientações de todo o tipo. No discurso de cada um está sempre a figura de São Jerônimo Emiliani, o santo que aprendi a respeitar e a quem recorro sempre quando peço por um menor abandonado.

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Até mais!

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