Finados: Todos seremos!

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…um abraço e mãos que trocam carícia.

E a experiência me garante que este título deve gerar incômodo. Vivemos como se a morte fosse para os outros, que ela não nos chegará e vivenciamos cotidianamente o alheamento ao assunto. A vida é bela, estamos aí e nada pode interromper a energia que corre plenamente em nossas veias levando nosso coração a pulsar. O oxigênio, mesmo ruim de nossas cidades, enche nossos pulmões, colaborando no bombeamento do sangue, no funcionamento do cérebro. Todavia…

A morte vem, implacável, e deixando momentaneamente as questões religiosas todos somos colocados diante do fim. O ser amado torna-se frio, rígido. Sentimos diferentes tipos de dor, terríveis sensações e, penso, todas elas nos levam ao total sentido de impotência. Todo o poder, todo o dinheiro no mundo não bastam. Nada acrescenta um único minuto de vida quando o indivíduo falece. Somos, nesse instante, colocados na nossa verdadeira condição humana e o arrogante “sabe com quem você está falando” tem a definitiva resposta: – Um mortal.

Quando o óbito é do outro percebemos graus na nossa vida. O parente envelhecido, o primo distante, o conhecido do bairro, a criança… Assim como há sensações distintas perante assassinatos, acidentes, mortes coletivas. E, exercitando a honestidade, há aquele defunto que leva da gente um “já foi tarde” ou, no mínimo, um “antes ele do que eu”. Se esses diferentes tipos de morte nos levam a reconhecer um alarme interno, lembrando-nos a finitude, é a morte de seres amados que trazem a tragédia, o sofrimento atroz, a depressão e, sobretudo, a impotência. Nada podemos por aqueles que amamos.

Podemos rezar. Podemos cultuar nossos antepassados e contemporâneos já falecidos. Aí entra outro grande dilema humano: o conflito entre a capacidade de crer e a de duvidar. Alternamos momentos de conforto e angústia, de calma e desespero. Normalmente a situação é serenada pelo tempo que, somado a atividades e compromissos, ao instinto de preservação e a deveres para com o outro nos leva a continuar, a seguir em frente. E provavelmente para evitar que todas as sensações voltem, todo o sofrimento instalado demore a ser digerido é que evitamos falar do assunto.

Creio que devemos pensar e falar sobre a morte. Tendo passado por situações limite e tendo perdido muitos seres amados é que me vem, primeiro, a necessidade de evitar situações embaraçosas, indecisões quanto a que atitudes tomar; enfim, questões absolutamente práticas como o que fazer com a coleção de postais, os livros e discos preferidos, a cadeira de balanço. Com qual roupa enterrar o defunto? É possível e seria vontade desse doar órgãos, proceder à cremação? Qual cemitério, de qual cidade? Eu, por exemplo, não gosto do cheiro de velas mais rosas, uma combinação que peço não ser oferecida a quem for ao meu velório…

Há bens maiores, os objetos de grande valor monetário para os que ficam! Os muito ricos, ou quase ricos, costumam deixar testamentos detalhados para evitar que herdeiros se matem. Para gente como eu recomenda-se transferir a casa ou apartamento em vida. Quanto menos coisas tiver, menos grana para o inventário, já que o sistema entra com severos impostos quando morremos.

Falar da morte, até mesmo com certo humor, me leva a valorizar a vida. E a pensar e a tomar atitudes que penso ser necessário considerar cotidianamente, principalmente quando sou notificado da morte de alguém que amo. Estou longe de ser o indivíduo que idealizo, mas tento, por exemplo, esquecer a ganância e sempre exercitar o desprendimento. Muito porque, se a coisa é material, o preço do túmulo é alto demais para levar cacarecos além do próprio corpo. E toda morte inesperada me lembra que devo dizer que amo a quem amo; a deixar de lado as picuinhas momentâneas, a até a ignorar o pecado da gula em prol de um bom pedaço de pudim.

Há quem pensa ser necessário acreditar na vida após a morte, o que garantiria maior responsabilidade para nós, vivos, já que nosso destino “do outro lado” seria conforme nossas ações na terra, que nessa circunstância costuma ser denominada plano. Nesse plano, então, a religião entra como regulador, passaporte para outros. Fé, a gente respeita, e admito um monte de coisas que acredito além-túmulo. Entretanto, não é pelo Éden, Paraíso, Shangri-la, Pasárgada ou qualquer outra ideia de céu que devo ser “o cara”.

Digo que é bobagem acumular se tudo vai ficar por aqui. Os pais e mães responsáveis dirão da necessidade de segurança para os filhos, bem-estar etc. É fato. É justo.  Só não viajar na maionese e esquecer o ciclo ao qual todos estamos condicionados. Quando acumulamos algo para deixar a outros, é bom pensar que esses outros também nos acompanharão e o melhor a deixar para esses é um planeta digno com água limpa e ar respirável, tesouros maiores que estão ameaçados, junto a toda a cadeia ecológica colocada em risco com queimadas, excesso de agrotóxicos e por aí vai.

O tema é vasto e podemos ir muito longe. Por enquanto fico aqui, pensando na loucura que é lembrar a morte da minha mãe e dois, três dias depois recordar o aniversário de nascimento dela. Minha amada mãe não está mais neste plano. Se você chegou até aqui, caro leitor, corra e dê um abraço e um beijo em sua mamãe. Sinta o calor da mãe materna sobre sua fronte, ouça a sublime melodia da voz que se altera com minúcias e sutilezas quando nos chama pelo nome, quando diz meu filho. Se sua mamãe já se foi, ofereça-lhe uma oração e olhe para o lado. Espero que haja alguém para ser amado, beijado, acarinhado. E é isso, só isso, pelo aconchego em um abraço e mãos que trocam carícia é que vale a pena viver.

Até mais.

Outubro e o que resta do que um dia fomos

acólito

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Fernando Pessoa in A criança que fui chora na estrada.)

O que é que ainda permanece desse menino? Foi a pergunta que ouvi enquanto mexia com minhas fotos de quando criança. Sobrou alguma coisa? E dei de pensar olhando algumas imagens, as personagens que nelas estão comigo, os momentos em que foram registradas. Todos nós, inevitável, passamos por grandes mudanças, mas o que se espera, ou o que me parece, o que gostaríamos é que tenha permanecido o que tivemos de melhor.

A princípio, penso, temos a sensação de que somos sempre os mesmos. Essa abstração que nos autodenomina, o Eu, não tem idade e por isso entramos em crise quando um olhar atento ao espelho nos revela uma ruga, a pele perdendo o viço, mais alguns fios de cabelos brancos, o corpo ficando em forma… de bola. E ficamos mais chocados quando é o outro que nos faz conscientes de que já não somos os mesmos: – Você mudou muito! Quanto tempo!

A rede social nos acostumou, nos últimos anos, a nos revermos crianças, expondo antigas fotos na web. Graças à isso descobrimos a suavidade que já existiu em alguns, o sorriso espontâneo de outros, a ingenuidade evidente que pouco se alterou, a pureza tão ilimitada quanto perdida e, sobretudo, vejo que em todas as fotos de velhas crianças desse mês de outubro transbordam sentimentos de esperança, sonhos de vir a ser e estar em um mundo digno.

Ah, eu gostaria de não ter algumas dúvidas que volta e meia me atormentam. Eu acreditava em Deus, sem questionar. Havia o pai no céu que minha mãe da terra me deu. E tinha também a mãe do céu, que a mesma mãe da terra me ensinou a amar e a confiar. O mundo de então, era mais preciso; havia pessoas más e pessoas boas. As más estavam longe, bem longe, e os entreveros familiares eram simples e corriqueiros distúrbios logo serenados. Sonhava mais acordado do que dormindo e para esses sonhos Pasárgada e Shangri-la perdiam feio. Tudo era possível, tudo aconteceria no seu devido tempo. Hoje… sobram incertezas.

O quinto de seis irmãos, cresci em um ambiente sempre cheio de gente, de vozes conversando, música no rádio, jogo na televisão. Na hora de dormir tinha medo por ser, talvez, a única hora em que ficava sozinho. Mamãe rezava seu terço diário a meu lado, dizendo-me rezar para eu dormir. Confiante, eu dormia e acordava no dia seguinte, tranquilo ante o barulho da casa. Não gosto de solidão e vou sentir sempre a falta de todos os que povoaram minha casa de infância.

A excitação antes de qualquer viagem permanece. Seja para o lugar novo, seja para mais uma entre as centenas de voltas à Uberaba. Quando a viagem não é física, continua sendo literária o que me leva a crer que não mudou o amor a Salvador d’Os Capitães da Areia, a Londres de Oliver Twist, o porto do Havre d’O diário de Dany. Outras viagens, cinematográficas, levam-me para mundos distantes, outros imaginários, em companhias que prezo e que fico feliz em rever, por exemplo como se dançasse na chuva com Gene Kelly, ou lutasse ao lado do Cid Campeador de Charlton Heston.

Penso que algumas lembranças dessa criança com o castiçal possam suscitar outras, de quem me dá a honra de ler este texto. Esse santinho da foto levava cascudos do Pe. Luigi Stella, por conversar durante a missa e aprendeu a gostar de música erudita, assim como de imagens barrocas e renascentistas com outro padre, Nicola Rudge. Por mais que eu possa caminhar e vivenciar outras religiões é essa, a primeira, que somo a todas as demais. Um terceiro padre, Líbero Zappone, ensinou-me a respeitar todas as manifestações, levando-me muito cedo a ver Deus em todos os tipos de crença.

Essa criança aí da foto ainda está por aqui. Guardada em diferentes escaninhos do cérebro, do coração. Reconheço-a quando brinco com meus amigos, na convivência com meus irmãos que às vezes dirigem-se a mim como o caçula que fui. Reencontro o menino quando cuido das plantas que, lá atrás, cresciam soltas no quintal. Convivo diariamente com o gosto por andar de trem, sentindo um prazer indescritível com o som de quando os vagões mudam de trilhos e voltarei sempre à Santos, pra rever e andar de bonde, como aquele menino feliz que transitava nos bondes de Campinas, lamentando a ausência desses em Uberaba.

O que é que ainda tem desse menino? Foi a pergunta… Quase tudo. Quase nada. As coisas foram se modificando, as pessoas tornaram-se outras mantendo algo que faz com que as veja como sempre vi, reconhecendo nelas os infinitos detalhes que nos ligam. Esse menino aí fui eu. Um dia. Hoje sigo em frente. Dou graças à Deus pelo esquecimento, por me permitir viver sem a tortura das más recordações, sem a dimensão de todas as perdas, como também por caminhar tranquilo sem o afogamento pelos momentos de êxtase, de felicidade. Agradeço por ser outro, ter experimentado, ter sobrevivido e sobretudo, por estar modificado o que, espero, tenha sido para me tornar um ser humano decente.

Até mais!

Obs.: A foto acima é do final de uma procissão na Igreja Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba, por volta de 1965.

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O que falta para quem destrói estátuas?

Brinquei de ser amigo de João Cabral...
Brinquei de ser amigo de João Cabral…

Tenho profundo respeito e admiração por alguns artistas pernambucanos. Uma paixão que vem da adolescência quando, através da música de Chico Buarque, conheci a poesia de João Cabral de Melo Neto. Muito antes disso recordo, bem criança, minha mãe cantando Luiz Gonzaga. Quando comecei a gostar de Maria Bethânia conheci a música de Antonio Maria e ao curtir Alceu Valença ganhei também a poesia de Ascenso Ferreira. Já Manuel Bandeira entrou em minha vida quando, cansado desta mesma vida, sonhei ir-me embora para Pasárgada.

Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria...
Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria…

Quem já passou por Recife sabe da reverência com que são tratados os artistas pernambucanos pela gente da terra. Nas ruas da cidade velha estão singelas homenagens aos grandes artistas através de belos e singelos conjuntos escultóricos; lembram ao transeunte que tal local, por um ou outro aspecto, está na obra do artista homenageado.

Estive por lá em janeiro e entre meus desejos particulares era visitar essas estátuas. Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria… Brinquei de ser amigo de João Cabral…  E perto de Bandeira, manifestei desejos de Bandeira:

ruas de recife manuel bandeira

“…Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare…”

Numa noite quente, como só acontece em Recife, saímos à cata de frevo, festa e, sem medo da felicidade, arriscamos ir de trem. Saindo da estação nos deparamos com o velho e grande Lua! Só podia ser ele, Luiz Gonzaga, saudando viajantes de todos os recantos e tempos. Confesso que fiquei chateado e, mesmo com receio do local desconhecido (desculpem a foto ruim!) quis registrar o descaso com a escultura do querido músico. A estátua de Lua estava em estado precário.

ruas de recife luismontagem

Nesta semana veio a notícia da destruição da estátua de Gonzaga e de Ascenso, atitude de vândalos que, certamente desconhecem a poesia de Ascenso e a música de Gonzaga. Só posso acreditar que não conheçam, pois caso contrário fica totalmente inaceitável tal atitude. O que escrever perante gestos estúpidos? Qual pena seria eficaz para tamanha idiotice?

Comecei o ano de 2012 com a poesia de Ascenso Ferreira (Veja todo o post aqui) e citei versos geniais:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar! 

Foi relembrando tais versos que matei a charada. Certamente, os imbecis que destruíram as estátuas não sabem vadiar… Se é que estou sendo claro. Pra essa gente falta uma boa e gostosa vadiagem. Onde estejam Ascenso e Gonzaga, devem estar rindo e afirmando em verso e melodia: – Essa gente precisa vadiar!

E que as autoridades façam seu trabalho!

 

Até mais!

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