Férias chinesas sem sair de São Paulo

Detalhe de obra em exposição na biblioteca.
Detalhe de obra em exposição na biblioteca.

A exposição “Seis séculos de pintura chinesa” em destaque na Pinacoteca é uma mostra que nos permite desvendar uma arte delicada, profunda, de domínio técnico impecável. Mais que questões formais e estéticas, o evento torna-se uma possibilidade de contato diferenciado com as expressões de um povo. Sabemos muito pouco ou quase nada sobre arte chinesa.

A coleção exposta na Pinacoteca é do “Musée Cernuschi”, de Paris. São 120 pinturas de diferentes períodos: China Imperial (1368-1911), China Republicana (1912-1949) e artistas atuantes no século XX. Henri Cernuschi foi economista e banqueiro, tendo fundado o museu com seu nome em 1898.

Painéis imensos, exigindo olhar demorado para apreensão dos detalhes.
Painéis imensos, exigindo olhar demorado para apreensão dos detalhes.

Duas peculiaridades merecem nossa atenção; primeiro é a presença de obras do artista Zhang Daqian, pois este morou no Brasil cerca de vinte anos. O artista insere-se entre outros que, trabalhando em Paris divulgaram a arte chinesa. Na Pinacoteca temos obras que foram feitas enquanto o artista morou no Brasil. A segunda é a publicação em formato digital do catálogo da mostra, disponível gratuitamente para download no site da Pinacoteca.

Diferente da arte ocidental, a pintura chinesa tem outros propósitos. A leitura do catálogo, antes do evento, propiciará melhor aproveitamento das mesmas. Os formatos são diferenciados, exigindo um percurso visual particular. A exposição, montada nos parâmetros ocidentais – são seis espaços divididos cronologicamente – não deixa de evidenciar maneiras distintas de aproximação e visualização dos trabalhos chineses.

O caráter simbólico das pinturas exige do observador mais que a observação do visível, mas daquilo que o objeto representa. Com freqüência, cada pintura é uma “viagem estática”, pois a montanha, por exemplo, é um lugar de isolamento espiritual para o pintor-poeta.

Artechinesa 2
Sutileza nos detalhes, delicadeza na forma e no conteúdo.

O suporte mais freqüente é o papel e o nanquim é presente em praticamente todos os trabalhos. Em muitos, além da imagem pictórica, há textos poéticos que são parte da composição, dando-nos vários exemplos da arte caligráfica chinesa.

Creio, sobretudo, que a exposição “Seis séculos de pintura chinesa” leva-nos a pensar diferente, com outros critérios, para a grande civilização e para as multidões chinesas, nossas contemporâneas. No grande salão da Pinacoteca estão expostas a delicadeza de diferentes gerações, a suavidade de traços, a leveza de formas, a sutileza temática. Todas essas qualidades: delicadeza, suavidade, leveza, sutileza são expressões de artistas que representam todo um povo em diferentes épocas. Acredita-se que o pincel, para o artista chinês, ia muito além da concepção ocidental de prolongamento da mão. Para os chineses, o pincel transmite emoções e por isso é a expressão do coração. Ao observar atentamente podemos concordar com essa máxima chinesa.

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Boas férias!

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A exposição “Seis séculos de pintura chinesa” permanecerá até o próximo 04 de agosto.

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A trajetória de Giacometti em São Paulo

Uma ampla exposição na Pinacoteca do Estado aproxima a obra de Alberto Giacometti do público paulistano. Foi aberta em 24 de março último e irá até 17 de junho deste ano de 2012, o que amplia as possibilidades de que visitantes de outras cidades e estados possam vir até São Paulo para visitar a mostra.

Pinturas e esculturas, com a mesma maestria

Giacometti nasceu na Suíça, em 1901, mas viveu em Paris de 1922 a 1966, ano em que faleceu. A exposição que está na Pinacoteca é da coleção da “Fondation Alberto et Annette Giacometti”, apresentando obras do início da carreira do artista, passando por várias etapas que compreendem obras do Cubismo, Surrealismo, correntes abstratas e o retorno à figuração. Concretamente, são telas, esculturas, xilogravuras e peças de arte decorativa.

A exposição é impressionante. O domínio técnico do artista é a base para todas as viagens, todas as experiências formais. Giacometti trabalha com elementos mínimos e com grandes objetos; domina a representação da realidade assim como se expressa, alterando a realidade, criando novas perspectivas ou abstraindo formas, sugerindo outras, novas e inusitadas.

Nos retratos pintados ou nas esculturas, o fascínio do artista pela cabeça humana fica evidente. Cabeças achatadas, cabeças esculpidas em diferentes escalas, chegando a admiráveis figuras mínimas que parecem esculpidas em um palito de fósforo, todavia guardando graça e elegância. É notável também a criação de figuras esguias, silhuetas femininas que esbanjam leveza e suavidade. Nas paisagens, imagens de seres emergem de montanhas através dos traços do artista.

Esculturas esguias, elegantes e o autor, entre seus trabalhos.

Ao longo da exposição, distribuída por 12 espaços, mais o espaço central da Pinacoteca, o Octógono, alguns estranhamentos:

Na primeira sala, dedicada à primeira fase do artista, a curadora optou por colocar alguns desenhos de nus atrás de uma parede, como se os escondendo em uma censura velada. O que diria o próprio artista sobre essa decisão?

Em outra sala, é lembrado o encontro entre Giacometti e Jean-Paul Sartre, o intelectual que escreveu dois importantes ensaios sobre o artista. Algumas citações de Sartre, escolhidas pela curadora, foram impressas nas paredes da sala. Nessas, optou-se por frases de grande efeito, mas de conteúdo vazio. O problema não é Sartre.

Finalmente, na Pinacoteca sempre foi permitido fazer fotografias fora das salas de exposição. Os corredores têm sido áreas livres para a ação de fotógrafos amadores. A curadora proibiu as fotos. Uma atitude antipática quando somamos à proibição o preço do catálogo: R$ 120,00.

A exposição vale uma ou várias visitas. Os pequenos pormenores são pequenos. E serão esquecidos, enquanto que as obras do artista estarão aí, para o deleite de todos nós.

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Boa Semana

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Registre:

Exposição Alberto Giacometti

Pinacoteca do Estado de São Paulo, Praça da Luz, 2

Informações adicionais: 3324 1000

Até 17 de junho de 2012