Sejam bem-vindos ao mundo novo!

NOVO MUNDO

Quando Zuckerberg e seus amigos criaram o Facebook estariam pensando em protestos e manifestações como estas que estamos vivenciando? É incontestável a idéia de que a internet muda a vida das pessoas e, definitivamente, as redes sociais são um marco na vida das populações. Bem-vindos ao mundo onde revoluções são organizadas sem que se saia de casa.

Essa nova realidade há que ser pensada por todos os lados e já ouso alguns esboços para futuros aprofundamentos:

– A imprensa deixa de ser a única porta-voz dos acontecimentos. Todo cidadão capaz de escrever, fotografar e que está conectado ao universo virtual pode falar por si mesmo. A imprensa perde credibilidade quando diz uma coisa e as imagens captadas pelo cidadão comum denunciam outra situação.

– Os governantes, mesmo em “Paris”, não têm o direito de dizer que “não foram informados dos acontecimentos”. As aparências não enganam quando a notícia tem a velocidade da Internet e se São Paulo perder a Exposição Universal (que é o que governador e prefeito foram tentar conseguir) por conta do que agora ocorre, é bom lembrar que nossa cidade tornou-se uma das maiores e melhores cidades pra se viver, sem que tenha tido aqui exposições universais ou copas do mundo.

– A polícia terá que usar com menor freqüência o velho argumento de que “vamos averiguar e apurar os fatos”. As imagens são candentes, em alta resolução e ganham o mundo instantaneamente, tanto quanto os depoimentos verbais. Os superiores terão que agir com honestidade ou evidenciarão cumplicidade com atos violentos.

– A população começa a perceber a força das redes sociais, embora tateie no uso eficaz. Governo e órgãos de segurança (Atentem para a expressão “segurança” e não “repressão”) carecem de observar as redes não com a intenção de reprimir, diluir ou acabar com os movimentos, mas para participarem com a população na busca de soluções compatíveis com os interesses reais dos indivíduos e suas respectivas comunidades.

– Uma verdade perturbadora: as redes mostram o fim da idéia que o brasileiro é bonzinho, um “ser cordial”. O ódio sobra em expressões que pedem violência, justificam atos violentos. A ditadura fez uma montanha de filhinhos prontos a exercer a dita cuja sobre os demais.

Bem-vindos ao mundo novo!

Nessa madrugada lembrei-me dos Inconfidentes mineiros. Ditos inconfidentes pelos poderosos da época, revolucionários reverenciados pela história. Pensei no quanto demorou em que um grupo fosse formado, em como foram difíceis as comunicações para agendar reuniões. Quantas horas, ou mesmo dias, passaram sem que se soubesse o real destino do amigo na masmorra ou já no desterro. Penso em Marília, pobre Marília, sem notícias do seu volúvel Dirceu, já em outro leito em terras africanas.

Ainda pensando em Minas me vi criança, em 31 de março de 1964, com a lembrança da energia elétrica cortada e da expressão preocupada de meus pais. Sem o rádio, único meio ágil de então, restava esperar o jornal que, já então duvidoso, anos depois, em 1968, chegaria totalmente censurado.

Vendo agora a rapidez de toda a sorte de manifestações, a força das palavras, a inegável verdade das imagens, as notícias tortas, os pedidos de paz, as agressões dos intolerantes – tudo isso em um curto espaço de tempo, ALGUNS MINUTOS, ALGUMAS HORAS – dou graças a Deus por estar vivo e dou graças à vida por me permitir viver tamanha revolução.

Há muito que pensar, muito para refletir. Fico imaginando os desvairados do passado que queimaram livros, proibiram pronunciamentos através de cortes aos jornais, aos programas de rádio e TV. Será que tem algum celerado pensando em reprimir as redes sociais? Será que algum estúpido pensa em tirar do ar a telefonia celular, a própria internet?

O passado nos mostra que pouco adiantou censurar, prender, torturar, queimar, matar; e isso quando levávamos meses para receber notícias. O mundo caminhou independentemente da tirania e crueldade de alguns. Agora, é bom que TODOS OS LADOS fiquem atentos: caminhamos com velocidade maior que a dos braços descendo o cassetete, que os jornais e telejornais moldados pelo interesse de seus donos. Sobretudo as ações de grupos, de comunidades inteiras, são agora extremamente mais rápidas que o voto. Sejamos responsáveis.

Bom final de semana para todos.

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O assunto da hora (passada?)

Andei segurando a vontade de escrever sobre as questões estudantis, a USP e a ação policial. Não dá pra ir ao embalo da onda, sem reflexão, sem conhecimento profundo. Não adquiri tal conhecimento, mas consegui reprimir o juiz de plantão doidinho pra fazer valer a própria vontade. A onda mais forte, parece, já passou, o juiz que mora em mim está calminho e sobra a tentativa de reflexão justa.

Imprensa, estudantes, polícia, sociedade… Muita coisa!

A imprensa imediatista quer audiência, quer exemplares vendidos. E sem muita ponderação faz sensacionalismo ordinário. A imprensa vira bicho quando alguém tenta reprimi-la. O direito de informação é sagrado; tão sagrado que até é deixado de lado para não beneficiar a emissora concorrente que detêm os direitos de transmissão da íntegra de jogos. É bom aguardar as publicações reflexivas; também há bom jornalismo por aí.

Um monte de estudantes – com um discurso rancoroso – brinda os colegas da USP com primorosas peças preconceituosas: filhinhos de papai e maconheiros são as mais utilizadas. Com um conhecimento incrível da melhor maneira de resolver situações, indicam cacetadas para a solução da questão. Nas redes sociais exercitam a hipocrisia, como se o país fosse habitado por anjos ameaçados por “maconheiros filhinhos de papai”.

A polícia que – também historicamente – justificou atitudes alegando receber ordens, tem uma dificuldade imensa em discutir, dialogar. Aliás, foi cumprindo ordens que a desocupação foi feita. Quando lidamos com quem obedece, nosso receio não deveria ser direcionado para quem manda?

Os estudantes da USP clamam por liberdade, direitos, autonomia. Recusam a polícia e falam em segurança; defendem a guarda universitária. Um angu de caroço. Supondo-se que essa guarda funcione e que o reitor continue sendo selecionado pelo governador do Estado, o que mudaria? Não seria mais ou menos isso: o governo quer, exige do reitor, que manda a guarda que atuaria conforme os interesses do Estado e não dos estudantes?

No calor de tantas reivindicações de direitos, seria bom contrabalançar com outro tanto de deveres. Faltam listas e mais listas de deveres pra todo mundo. Podemos ter listas de deveres com itens específicos tipo “estudante deve estudar” e “polícia deve proteger”; também seria saudável deveres amplos: “Não devo mandar a policia bater em ninguém”, ou “Não devo generalizar a ação de minorias”.

Os atuais acontecimentos – penso eu – são parte da formação dos estudantes. Se há conflitos, aprenderão com as vitórias, também com as derrotas. Exercitarão o discurso político, as estratégias e táticas que determinam o êxito de grandes empreendimentos, grandes campanhas. Eles viverão na universidade um exercício prático, concreto, extremamente preparatório para a vida. Uma universidade do porte da USP não é de brincadeirinha. As situações são reais e podem descambar para a violência, os atos excessivos. Sem deixar de ser aprendizado.

Há um barulho enorme por um acontecimento dentro de uma Cidade Universitária, com tudo o que essa expressão significa.  Outras invasões, como por exemplo, as de torcedores irracionais exigindo vitória para seus times, deveriam causar maior reboliço. Agridem juízes, jogadores e colocam toda a população em risco com suas brigas por um mero resultado de um jogo.

Ah! Terminando, é fundamental constar que a minoria que entrou na onda da liberação da maconha não tem nada de original. A questão já gerou quiprocó na Avenida Paulista e em outros locais e cidades brasileiras.

Bom final de semana.

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