CANTOS E CONTOS DO RIO PARAÍBA DO SUL

Após levar montagens com textos que abordam a história e as características de cada cidade o Projeto Arte na Comunidade volta aos mesmos locais com um segundo texto. “Cantos e contos do Rio Paraíba do Sul” é a montagem, como o próprio título indica, sobre a região visitada e o mesmo texto foi apresentado nas cidades contempladas pelo projeto.

Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira voltaram a Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz, onde verificaram os resultados da primeira visita (Quando solicitaram dos alunos narrativas próprias sobre as cidades) e também convidaram os mesmos para o encerramento, ocorrido em locais públicos de cada município.

“Cantos e Contos do Rio Paraíba do Sul” resgata lendas, fatos históricos e culturais da região, além de alertar para a necessidade da preservação ambiental. Escrito e dirigido por Valdo Resende, a direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos de Carol Badra.

Idealizado por Sonia Kavantan, o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar, Taesa e apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, é necessária a citação do motivo pelo qual o texto foi escrito e a autoria do mesmo.

CANTOS E CONTOS DO RIO PARAÍBA DO SUL

Original de Valdo Resende

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Luciana Fonseca e, acima, Rodolfo Oliveira e Conrado Sardinha. Foto: Atelier da Fotografia

(CARACTERIZADO BASICAMENTE TAL QUAL NA APRESENTAÇÃO ANTERIOR O ATOR ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA; CAMINHANDO POR ENTRE O PÚBLICO DEVERÁ SEMPRE QUE POSSÍVEL RESGATAR ELEMENTOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO).

Vamos brincar de teatro…

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Luciana Fonseca e a letra da música de abertura. Foto: Atelier da Fotografia

Meus amigos: Voltei! Que bom estar novamente com vocês. Fazer teatro na própria cidade para os parentes, os amigos, os conhecidos é muito bom. Eu andei por toda a cidade, em várias escolas. Vou repetir meu nome; gosto que guardem o meu nome. Sou… (ADRIANO, CHICO ou PEDRO) e desta vez estou de volta para contar outros fatos, outros contos e cantos, agora da nossa região. Vamos brincar de teatro e o tema da nossa apresentação é o Vale do Paraíba, a Serra da Mantiqueira, as outras cidades do Vale. Vai ser muito legal. Vamos nessa? Quem já aprendeu a canção pode cantar comigo:

(CANTA APENAS O REFRÃO)

Vamos brincar de teatro…

Eu já andei muito por aí, nesse mundão de Deus. Fazendo peças de teatro, escrevendo e recitando meus versos. Vi muitos lugares bonitos, cidades encantadoras, regiões inteiras de uma beleza intensa, exuberante. Viajei pelo planalto, pela caatinga, pelo serrado, por florestas fechadas… Conheci as chapadas de Minas Gerais, o pantanal de Mato Grosso, nossas praias de norte a sul! Mas, nada supera o meu vale. O nosso Vale do Paraíba! É bem verdade que minha opinião é tendenciosa; como dizem por aí, cada um puxa a sardinha para a sua lata, não é mesmo? Mas, como não gostar daqui?

Eu sempre gostei de contar as histórias da nossa cidade e da nossa terra. Sempre que me perguntavam: – Onde fica a sua cidade? E pra fazer mistério, para acentuar a magia da nossa região eu respondia: – Sou das terras da A-man-ti-kir! Ninguém entendia nada e eu completava: A-man-ti-kir, a serra que chora. E escolhi contar tudo através do teatro. Em teatro, já sabem, não é, a gente pode ser tudo o que quiser!

(VINHETA. O ATOR CONTARÁ A LENDA DA MANTIQUEIRA INTERPRETANDO VOCALMENTE TODAS AS PERSONAGENS. CHAMARÁ QUATRO CRIANÇAS E ENTREGARÁ, A CADA UMA, ADEREÇOS MÍNIMOS PARA CARACTERIZAR AS PERSONAGENS. O ATOR DISTRIBUIRÁ AS QUATRO CRIANÇAS PELO PALCO, FACILITANDO O ENTENDIMENTO DO PÚBLICO).

Para contar a história da A-man-ti-kir, vou precisar de quatro crianças. Dois meninos e duas meninas. Quem quer brincar comigo?  (APÓS ESCOLHER AS CRIANÇAS). Bom, fiquem atentos, cada um aqui é um personagem e eu vou contar a história e vocês ilustrarão, com o corpo e as expressões de vocês. Vamos começar.

(ENTREGANDO ADEREÇOS PARA CADA CRIANÇA)

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Conrado Sardinha prepara criança para brincar de teatro. Foto: Atelier da Fotografia

(UM PEQUENO COCAR PARA UMA MENINA) – Você é uma indiazinha. (PARA A PLATEIA). Guardaram? Ela é uma índia da tribo tupi.

(UMA TESTEIRA DOURADA PARA UM GAROTO) – Você será o sol. O nosso rei dos astros. Um sol brilhante e forte!

(UMA TESTEIRA BRANCA PARA UMA MENINA) – Você será a Lua! Nosso satélite que enfeita o céu deixando-o claro, bonito.

(UM PEQUENO COCAR VERMELHO PARA UM MENINO) – E você, com esse cocar vermelho, será Tupã, o Deus poderoso dos índios. Deus tupã!

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“O sol” observa “Tupã” sob o comando de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia

Agora, vamos começar a história. (APROXIMA-SE DE CADA CRIANÇA, NA MEDIDA EM QUE CRIA AS VOZES DE CADA PERSONAGEM. O TOM DA CENA DEVE SER FARSESCO, ACENTUANDO A BRINCADEIRA DO FAZER TEATRAL. O ATOR, SEMPRE QUE POSSÍVEL, ORIENTARÁ AS REAÇÕES E EXPRESSÕES DE CADA CRIANÇA).

ÍNDIA – Olá! Eu sou uma indiazinha tupi. Sou muito linda e gosto de brincar com as flores e com os pássaros. Ultimamente tenho ficado um pouco triste. É que estou apaixonada. Muito apaixonada. Super apaixonada! #apaixonada!

(O ATOR VOLTA A SER ELE MESMO ENQUANTO CAMINHA PARA O SOL)

ATOR – #apaixonada! Será que essa indiazinha tem whatsApp? Eu, hein. Vai saber, não é? Vamos ao outro personagem, o sol!

SOL – Olhem para mim! Vejam como sou… Amarelo como o ouro, gostoso como o amarelo mel! Todos admiram minha grandeza e ficam amarelados perante minha força. Meus raios são amarelos fantásticos!

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Conrado Sardinha orienta criança que faz “o sol”. Foto: Atelier da Fotografia.

ATOR – (VOLTANDO PARA A ÍNDIA) Esse sol é modesto como ele só!

INDIA – Oh, como sou infeliz! Oh, de que me adianta ter os cabelos negros lindos, boca carnuda linda se o sol, por quem estou apaixonada, nem me enxerga. Oh! Estou apaixonada pelo sol e ele nem me percebe, não sabe que eu existo. Oh, mundo cruel!

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Conrado Sardinha observa menina que faz “a lua”. Foto: Atelier da Fotografia.

ATOR – Coitadinha! A menina passava horas e horas olhando para cima e nada de o sol percebê-la! Que bobo! Uma indiazinha tão linda! Acontece que, um dia – sempre tem um dia nessas histórias – o sol percebeu a menina e… Ficou ligado na garota! Enfeitiçado pela doce indiazinha. Ficou tão apaixonado que resolveu não sair mais do alto do céu, só pra permanecer olhando a menina. Imaginem! O sol, parado no centro do céu, lá de cima namorando a menina! Os outros índios da aldeia, os animais, os seres todos não entendiam a falta da noite? Onde a noite tinha ido parar? Acontece que mais alguém estava apaixonada pelo sol! A lua! (APROXIMA-SE DA CRIANÇA QUE FAZ A LUA).

LUA – Ai que ódio! Que ódio, que ódio, que ódio! Esse solzinho ousa me desprezar! E pior, me trocou por essa indiazinha borocoxô.

ATOR (QUEBRANDO A CENA). Borocoxô? Que palavra antiga, dona lua! Assim a senhora entrega a sua idade. Ninguém mais por aqui sabe o que é borocoxô (VOLTA RAPIDAMENTE PARA A MENINA QUE FAZ A LUA).

LUA – Indiazinha chata foi o que eu quis dizer. E agora tenho que ficar aqui, no canto, porque o sol bobão não sai do alto do céu. Vou reclamar para Tupã, eles vão ver o que é bom pra tosse! (APROXIMANDO-SE DO MENINO QUE FAZ TUPÃ). Tupã, vê se pode, ele fica lá no céu, aquela indiazinha na terra, um chove não molha, e acabaram-se as noites, todas as noites! Como os animais vão descansar? Como as pessoas poderão dormir? Está tudo secando. Esturricando de tanto sol! Ah, eu tentei falar com ele e ele disse que nem Tupã, nem você, Tupã, tira ele de lá!

ATOR – Luazinha ciumenta. Venenosa. Tupã não deixou por menos.

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Um “tupã” feliz ao lado de Rodolfo Oliveira. Foto: Atelier da Fotografia

TUPÃ – Acordem nuvens negras! Acordem raios enraivecidos! Escureçam todo o céu. Tirem o sol para lá! Vou criar, com minhas mãos de Deus, a montanha mais alta que já existiu! Apareça! Grande montanha! Enorme, imensa!E vou colocar essa indiazinha lá dentro, longe dos olhos do sol. E resolvo essa situação.

ATOR – (REUNE AS QUATRO CRIANÇAS PERTO DE SI) Pobre indiazinha! O que poderia fazer contra Tupã, a Lua? Lá, dentro da imensa serra criada por Tupã só fazia chorar. Chorou tanto, mais tanto, que suas lágrimas alcançaram o topo da serra e desceram, formando rios e mais rios por todo o vale. Foi assim que surgiu A-man-ti-kir, a serra que chora. A-man-ti-kir, que todos chamamos Mantiqueira! E assim termina nossa história. Palmas para nossos atores! (AGRADECE AS CRIANÇAS, CONDUZINDO-AS DE VOLTA A SEUS LUGARES).

Linda a lenda de como surgiu a Serra da Mantiqueira, vocês não acham? Nas minhas apresentações teatrais essa lenda interessa a todos, pois todos ficam encantados com a grandiosidade e beleza da nossa Mantiqueira.

Vocês sabiam que a Mantiqueira tem 500 quilômetros de extensão? E que dos dez pontos mais altos do Brasil, quatro estão aqui, na nossa serra? Todavia, esses números todos que dizem respeito ao complexo imenso da Mantiqueira não são mais importantes que um único pôr de sol. Nós, que somos daqui, somos presenteados constantemente com imagens mágicas, fantásticas, o melhor show que a natureza pode oferecer.

Eu já estive lá em cima, à noite, acampando em noite de lua cheia. O nosso vale é tão lindo e as nossas cidades, iluminadas, parecem o céu na terra, cheio de estrelas reunidas em grupos, cada grupo indicando uma localidade. Cruzeiro, Lavrinhas, Queluz, Lorena, Aparecida, Taubaté…

Uma noite de lua muito clara, lá de cima, todos nós conseguíamos ver o Rio Paraíba, serpenteando pelo Vale. Nosso belo rio Paraíba do Sul não nasce na Serra da Mantiqueira; ele vem de outro lado, a Serra da Bocaina que, por sua vez, é parte da Serra do Mar. Para que os colonizadores chegassem até aqui tiveram que subir a Serra do Mar e para irem atrás do ouro, em Minas Gerais, tiveram que atravessar a Mantiqueira. Nosso Vale do Paraíba ali, entre duas serras.

A história do Vale do Paraíba ganha dimensão mundial, mundial mesmo, no período em que o Brasil não só exportava café para o mundo todo; nosso país era o maior produtor de café e as primeiras fazendas mais importantes estavam aqui, no Vale do Paraíba. O nosso ouro, a nossa riqueza veio primeiramente do café.

(CANTA A CANTIGA “O CAFÉ”)

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Cantiga de roda e também de trabalho: “O Café” foi um dos resgates do Arte na Comunidade.

Uma reviravolta mundial ocorreu em 1929, quando a bolsa de valores de Nova York caiu, fazendo cair os preços das mercadorias em praticamente todo o mundo. O café, que valia ouro, passou a valer muito pouco e como tínhamos grandes estoques tivemos que queimar o café que não conseguimos vender. Muitos fazendeiros ficaram arruinados, mas logo em seguida se levantaram, extraindo madeira das encostas da serra, cultivando cana de açúcar e, depois, com o passar dos anos, valorizaram a pecuária leiteira, da qual fomos grandes produtores. Café, madeira, cana, leite! É muita riqueza!

Se a gente prestar atenção vai perceber que toda a riqueza da nossa região está ligada aos nossos rios. Todo o nosso vale é amplamente irrigado por água doce.

Podemos dizer que a vida das pessoas, habitantes do Vale do Paraíba, está intimamente ligada aos rios, cachoeiras, córregos; há histórias, muitas histórias envolvendo nossa gente e os rios. Há verdadeiras, aquelas que estão registradas nos livros e na lembrança das pessoas e há também outras, que aconteceram no imaginário de alguns criadores que, contando fábulas e lendas para os filhos, netos, amigos, enriqueceram a imaginação de todos.

É daqui, do Vale do Paraíba, que as histórias do Saci, do Caipora e da Cuca, entre muitos outros seres, saíram para ganhar páginas de livros, as telas do cinema e da televisão (PEGA O LIVRO CONTOS E LENDAS DE UM VALE ENCANTADO, DE RICARDO AZEVEDO). Algumas estão aqui, neste livro. Histórias contadas pelas avós, pelos tios, que foram recolhidas por um autor legal, o Ricardo Azevedo. Eu gosto muito da história que ele chama de Sopa de Malandro.

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Conrado Sardinha exibe o livro de Ricardo Azevedo. Foto: Atelier da Fotografia

Essa história é do tempo quem que Pedro Malazarte, um caboclo esperto andava por todo lado. Ele gostava de correr mundo e um dia veio passear por aqui, no Vale do Paraíba. Subiu um pouco da serra, cansou, voltou, atravessou rios, córregos, boa parte do vale e, claro, teve uma hora que sentiu muita fome. Mas, muita fome mesmo! Sabe aquela fome que parece que está destruindo a barriga da gente? Pois então, quando Pedro passou por uma casa, em uma das tantas fazendas por aqui, sentiu cheiro de comida… Esperem! Vou interpretar os dois; o Pedro e a dona de casa. Foi mais ou menos assim:

(VINHETA. O ATOR PREPARA-SE PARA INTERPRETAR PEDRO MALAZARTE E UMA COZINHEIRA DO VALE. UM CHAPEU PARA PEDRO E UM LEQUE PARA A DONA DE CASA SÃO OS ELEMENTOS MÍNIMOS SUGERIDOS).

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Duas personagens e um ator. O Projeto priorizou o jogo teatral. Foto: Atelier da Fotografia

PEDRO – Ai, que fome! Como é duro caminhar quando a gente tem fome. Esperem, mas que cheiro de comida é esse? Hum; que delícia! Não resisto, vou pedir um pouquinho dessa comida.

ATOR – Pedro bateu palmas (FAZ A AÇÃO) e apareceu uma mulher, com cara de poucos amigos. (FAZ UM PEQUENO JOGO, SIMULANDO OS DOIS PERSONAGENS)

MULHER – O que o senhor quer?

PEDRO – Boa tarde, Dona. Andei a manhã inteira, a tarde toda, venho de longe e não tenho nada para comer. Estou com tanta fome! A senhora poderia me arranjar um pouquinho de comida?

ATOR – E a mulher, com cara de deboche e de poucos amigos respondeu:

MULHER – Moço, não tenho comida. Aliás, eu nem vou jantar. Outro dia, quem sabe!

ATOR – O cheiro de comida que se espalhava pelo ar dizia que a mulher era mentirosa. Pedro fingiu acreditar e, de repente, teve uma ideia. Vejam o que ele fez!

PEDRO – Tudo bem, dona. Não faz mal. Eu dou um jeito. Já que a senhora não pode me dar comida eu vou preparar uma sopa de pedra.

MULHER – Sopa de quê?

PEDRO – Sopa de pedra! A senhora nunca experimentou? É uma das melhores sopas que tem. Aprendi com minha mãe. A mãe da senhora não ensinou como fazer sopa de Pedra? É melhor que sopa de batata, cenoura, sopa de feijão, de milho.

MULHER – Nunca ouvi falar.

PEDRO – Se a senhora me emprestar um tacho, eu faço a sopa pra matar a minha fome e, ao mesmo tempo ensino-a como fazer uma deliciosa sopa de pedra.

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As versões de Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira  para o Pedro Malazarte.

ATOR – Já ouviram dizer que a curiosidade matou um burro? Pois então; e não é que a mulher emprestou um tacho para o Pedro? Ele, espertíssimo, arrumou alguns gravetos, fez uma fogueira, encheu o tacho de água e colocou pra ferver, enquanto saiu por ali, bem em frente à mulher, escolhendo as pedras para a tal sopa.

PEDRO – (PEGANDO SUPOSTAS PEDRAS) Hum; essa pedra é boa. Substanciosa! Essa aqui também; essa, não. É dura demais. Nossa; essa é das mais gostosas que tem. E essa daqui? Delícia!

ATOR – A mulher olhando e Pedro catando pedras. Limpou todas e já foi jogando dentro do tacho. Quando a água começou a ferver ele, com a voz mais macia do mundo, pediu:

PEDRO – Não daria pra senhora me arrumar uma colher e um tantinho assim de manteiga? Por obséquio!

ATOR – A mulher atendeu arrumando a colher e a manteiga, curiosa para ver como era a tal sopa. Pedro começou a mexer a sopa e voltou a pedir, com a mesma voz macia.

PEDRO – E um tiquinho de sal, tem?

ATOR – A mulher atendeu e o Pedro emendou:

PEDRO – E um pouquinho de cheiro-verde? E uma rodelinha de cebola? Uma batatinha e um chuchu, tem? Essa sopa vai ficar muito boa!

ATOR – E a mulher, só indo buscar coisa por coisa que o Pedro pedia. O cheiro começou a ficar bom e foi então que Pedro fez o pedido final:

PEDRO – Por favor, a senhora não tem um pedacinho de linguiça e um punhadinho de arroz? É só pra dar gosto.

ATOR – A mulher voltou com a linguiça e o arroz. Pedro terminou de fazer a sopa e ainda pediu um prato e uma colher para a mulher que, ali, curiosa, viu ele tomar toda a sopa. E lá se foi o cheiro-verde, a cebola, a batata, o chuchu, a linguiça e o arroz. A mulher até sentiu vontade de tomar um pouco da sopa, mas Pedro tomou tudo, deixando as pedras no fundo da panela. Só as pedras. A mulher, olhando aquilo e já se sentindo otária perguntou:

MULHER – Mas… e as pedras?

ATOR – Pedro pegou as pedras, guardando-as no bolso e se despediu, rindo da cara da mulher.

PEDRO – Vou levar as pedrinhas comigo, para a próxima sopa! Tchau! (CORRE EM VOLTA DO PALCO, COMO SE FUGINDO DA MULHER)

ATOR – Não adiantou nada ser ruim e não dar comida para o Pedro. Ele, esperto, levou a melhor! Há muitas outras histórias aqui e em outros livros do Ricardo Azevedo. Este livro chama “Contos e Lendas de um Vale Encantado”, o nosso vale do Paraíba. A gente pode ler as histórias e contá-las para outros, brincando de fazer teatro, como fizemos agora. Mas, não são só lendas que tem aqui. Há ditados populares da região, quadrinhas, receitas, crendices e adivinhas. Quer saber, vamos brincar de adivinhas?

Vou convidar algumas crianças para brincar de adivinha!

(O ATOR CONVIDA CRIANÇAS, COLOCANDO-AS AOS PARES PARA TENTAR ADIVINHAR AS RESPOSTAS DAS PROPOSIÇÕES. UMA PRANCHETA E LÁPIS OU CANETA SERÃO OFERECIDOS PARA QUE AS CRIANÇAS REGISTREM AS RESPOSTAS. O ATOR DIRÁ A ADIVINHA, REPETIRÁ A MESMA E DARÁ TEMPO PARA AS RESPOSTAS).

ATOR – Prestem bastante atenção que esta é fácil. Vamos lá. Ninguém fala a resposta, anota no papel pra que a gente veja quem adivinhou. Não vale assoprar. Lá vai:

O que é; o que é?

Luiz tem na frente

Miguel tem atrás

Solteiro tem no meio

E casado não tem mais?

(O ATOR REPETE A ADIVINHA E ESTABELECE O TEMPO PARA A RESPOSTA. APÓS UM TEMPO MÍNIMO DÁ A RESPOSTA E INICIA A PRÓXIMA ADIVINHA).

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A adivinha estimula a memória e a interpretação de texto. Foto: Atelier da Fotografia

ATOR – Muito bem, agora vamos para a segunda adivinha. Muita calma, atenção e vamos adivinhar. Não se esqueçam, não é pra falar, é para escrever a resposta.

O que é; o que é?

É verde, mas não é planta,

Não é bule, mas tem bico.

Conversa, mas não é gente,

Vergonha não tem um tico?

ATOR – Palmas para quem acertou! Agora, a última adivinha! Vamos ouvir, adivinhar e anotar a resposta. Atenção! Essa adivinha é das boas!

O que é; o que é?

É ave, mas não tem bico.

É ave, mas ninguém caça.

É ave sem asa e sem pena.

É ave cheia de graça.

(O ATOR DÁ A RESPOSTA, PEDE APLAUSOS PARA OS PARTICIPANTES, AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES).

ATOR – Ave-maria! Maria, a Aparecida. Nossa região ficou muito famosa por conta da aparição da imagem de Maria no Rio Paraíba. A mãe do Cristo não só teria aparecido, mas também feito vários milagres. O Vale do Paraíba abriga todas as religiões, mas é impossível negar a importância de Aparecida no cenário católico nacional.

Todo mundo sabe ou ouviu falar de como a imagem apareceu. Um fidalgo português com fome, exigindo comida e a saída foi pescar para atender o homem. Três pescadores encontraram a santa ao jogarem a rede para pescar. Acharam o corpo, sem cabeça, em seguida pescaram a cabeça da imagem e por fim, conseguiram pescar muitos peixes. Ok! Acharam a imagem dentro do rio. Mas, cá pra nós, quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?

Quem foi que jogou a santa dentro do Paraíba?

Diz a lenda, e aí, é lenda, que no tempo de antigamente apareceu uma gigantesca e monstruosa cobra no rio Paraíba. Era tão grande, mas tão grande, que quando a cabeça estava em Queluz, o rabo ainda estava em Cruzeiro! Dizem que ela devorou muitos pescadores e que fez buracos imensos, pra se esconder, em toda a extensão do rio. O povo tinha medo que as cidades despencassem, caindo nos buracos feitos pela cobra gigante e vivia assustado pelas constantes mortes de pescadores. O buraco feito pela cobra ia longe, tão fundo, que diziam que chegava até ao inferno. Um terror! Até que um dia, o povo resolveu pedir ajuda à santa:

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Rodolfo Oliveira diz versos inspirados em Ariano Suassuna. Foto: Atelier da Fotografia.

Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

Não há bode, não há cobra, ninguém que pode com a fé,

Afaste do rio essa cobra, mande-a pra onde puder,

Valei-nos, Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré.

E jogaram a imagem no rio, bem na frente da cara da cobra. É, foi isso sim. A imagem foi boiando rio abaixo e a cobra foi seguindo, seguindo, até desaparecer pra nunca mais voltar. O monstro foi embora e a imagem acabou se partindo nas pedras do Paraíba, indo para o fundo, só sendo encontrada muito tempo depois. Como diz Chicó, aquele amigo de João Grilo, que por sua vez é amigo da Compadecida, tudo gente do Ariano Suassuna: “- eu não sei, só sei que foi assim”!

Esse tempo de santos e lendas, de índios e colonizadores ficou na história, lá longe. O Vale do Paraíba, como todo bom lugar, foi se transformando com o crescimento do país, com a chegada das grandes empresas, grandes indústrias que favoreceram o crescimento das cidades mudando tudo por aqui. Só aqui, no Estado de São Paulo, são 39 municípios sediados no Vale do Paraíba. Alguns se tornaram grandes metrópoles, mudando totalmente a economia da região.

Outro dia estava olhando e descobri que temos, em todo o Vale, mais de dois milhões e duzentos mil habitantes! Mais de dois milhões! É gente demais, não é? Gente que precisa trabalhar, que precisa de energia elétrica pra manter usinas siderúrgicas, a indústria aeronáutica, indústria bélica além, é claro, da agropecuária. Uau! Muita coisa!

Quando há muita coisa os problemas aparecem. Por isso devemos estar sempre atentos para garantir a qualidade de vida do nosso vale. Quando visitei as escolas, quando estive aqui, ensinei origami para algumas crianças.

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Luciana Fonseca com o origami, feito junto com os alunos de cada cidade.

Fizemos um peixe, lembram-se? Para quem não se lembra, ou para quem não sabe, a ideia é fazer um peixe com dobradura, a arte do origami e, com isso, alertar as pessoas para que não sujem nossos rios. Vamos fazer o peixe? Vou ensinar a vocês.

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Momento de fazer origami para lembrar de preservar o rio.

(APÓS FAZER O PEIXE, PROSSEGUE) Desta vez, além de fazer o peixe – sim, porque essa é uma campanha que devemos manter, sempre! – vou cantar pra vocês uma música! Mas, eu gostaria de não cantar sozinho. Quero algumas crianças que façam o coro, cantando junto comigo. Quem gosta de cantar? Quem vem cantar comigo?

(O ATOR DEVE ESCOLHER UM MÍNIMO DE CINCO CRIANÇAS, NO MÁXIMO DEZ, EVITANDO ENCHER DEMAIS O ESPAÇO CÊNICO. DEVE ENSINAR O REFRÃO E, SEMPRE QUE POSSÍVEL, UMA COREOGRAFIA BÁSICA).

ATOR – Atenção que primeiro vamos aprender o refrão:

Limpe a água

Limpe o rio

Piraquara quer pescar!

ATOR – Piraquara é o pescador, o homem do campo que vive da pesca. Vamos lá, de novo, vamos aprender a cantar e a dançar, vamos fazer um som legal.

Limpe a água

Limpe o rio

Piraquara quer pescar!

ATOR – E agora que estamos com o refrão na ponta da língua vou fazer o meu som, que lembra muitos peixes de água doce e alguns dos principais rios do nosso país. Vamos lá!

(A MÚSICA DEVE SER ACOMPANHADA, NO MÍNIMO, POR PALMAS FAZENDO O RITMO E DANDO ANDAMENTO APROPRIADO. O REFRÃO É DITO PRIMEIRAMENTE PELO ATOR QUE, NO BIS, PEDE O ACOMPANHAMENTO DAS CRIANÇAS).

Cadê tilápia, traíra?

Onde tem tucunaré?

Piabuçu nunca vi!

Nem jundiá, nem mandi!

Limpe a água, limpe o rio

Piraquara quer pescar

Pra onde foi surubim?

Piau-palhaço vai voltar?

Não vejo mais lambari

Piabanha onde é que tá?

Limpe a água limpe o rio

Piraquara quer pescar

Bagre-guri tem ali?

Ximboré, curimbatá?

Corvina do outro lado?

Dourado veio pra ficar!?

Limpe a água limpe o rio

Piraquara quer pescar

Paraíba, Rio Doce,

Amazonas, Paraná

São Francisco, Beberibe,

Araguaia, Japurá,

Rio Madeira, Tietê,

Rio Purus, Juruá,

Tocantins, Solimões,

Brasileiro quer pescar!

Limpe a água limpe o rio

Brasileiro quer pescar (REPETE DUAS VEZES)

(O ATOR AGRADECE E CONDUZ AS CRIANÇAS A SEUS LUGARES, PREPARANDO-SE PARA ENCERRAR A APRESENTAÇÃO)

ATOR – Cantar é bom, porque dá um clima de festa. E essa festa é válida para que nós fiquemos atentos para as coisas do nosso Vale do Paraíba. Para os problemas, buscaremos soluções e para tudo o que há de bom por aqui vamos preservar e celebrar, meus amigos…

(CONFORME A CIDADE, O RESPECTIVO ATOR DIZ OS VERSOS ABAIXO)

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Luciana Fonseca esteve em Queluz

Violeta é meu nome!

Sendo pobre nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar,

A carpir, fabricar!

Senhores, sou de Queluz

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

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Além de Lavrinhas, Rodolfo Oliveira também foi Pedro Menestrel, em algumas escolas de Cruzeiro

Adriano, este é o meu nome,

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Lavrinhas!

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

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Conrado Sardinha apresentou-se em Cruzeiro.

Pedro Menestrel é meu nome

Sendo pobre, nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar

A carpir, fabricar!

Senhores, nascido em Cruzeiro!

Devo me despedir,

Agora vou terminar.

(APÓS OS VERSOS O ATOR DESPEDE-SE CANTANDO)

E agora, quem se lembrar da canção que cante comigo:

(CANTA A MUSICA DE DESPEDIDA)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser…

Tchau, pessoal! Adeus! Até a próxima!

Valdo Resende/2016

A BARONESA DE QUELUZ

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Luciana Fonseca, A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia

Queluz – SP, foi a terceira cidade visitada pelo Projeto Arte na Comunidade 4, durante edição no Vale do Paraíba que contemplou também os municípios de Cruzeiro e Lavrinhas. “A Baronesa de Queluz”, interpretada por Luciana Fonseca, é referência explícita ao ciclo áureo do café e aos barões que viveram na região.

A montagem apresentada na primeira fase do Arte na Comunidade visitou as escolas municipais; o texto escrito e dirigido por Valdo Resende lembra não só aspectos históricos como também hábitos e costumes presentes na vida da cidade. A direção musical é de Flávio Monteiro e os figurinos de Carol Badra.

Idealizado por Sonia Kavantan, o Arte na Comunidade 4 foi patrocinado pela Alupar, Taesa e apoiado pelas Usinas Queluz e Lavrinhas. Uma realização da Kavantan & Associados, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, é obrigatória a citação do motivo pelo qual o texto foi escrito e a autoria do mesmo.

A BARONESA DE QUELUZ!

Original de Valdo Resende

 (CARACTERIZADO COMO UM POETA, TROVADOR, A ATRIZ ENTRA CANTANDO A MÚSICA DE ABERTURA CAMINHANDO POR ENTRE O PÚBLICO E, ANTES DE IR PARA O ESPAÇO CÊNICO PRINCIPAL – PALCO OU SALA DE AULA – BRINCA COM OS PRESENTES. ALÉM DAS CRIANÇAS, DEVE DAR ÊNFASE AO PROFESSOR EM SALA, CUMPRIMENTANDO-O E REVERENCIANDO-O).

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Luciana Fonseca, A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia.

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

– Meus amigos: Cheguei!

(CUMPRIMENTA E BRINCA COM A PLATEIA)

– Bom dia, boa tarde, boa noite! Que horas são? Por gentileza, meu senhor, pode me dizer a hora? Hora, então é… (COMPLETA DEPENDENDO DA RESPOSTA)! Que cabeça essa minha, boa tarde, boa noite, bom dia… Mas, o que interessa é saudar as pessoas. Os dias ficam melhores quando cumprimentamos as pessoas! Saudações! É muito bom estar com vocês! É ótimo estar em Queluz. Estava com muita saudade. E, estar em Queluz e brincar de teatro é melhor ainda. Pra começar uma peça, antigamente, o hábito era dar três toques. Assim (DÁ AS TRÊS BATIDAS TRADICIONAIS). Aprenderam? Agora, com palmas. Três palmas, certo? (FAZ COM O PÚBLICO E RETOMA O REFRÃO DA MÚSICA DE ABERTURA)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

(O FINAL COINCIDE COM A CHEGADA DA ATRIZ AO ESPAÇO CÊNICO DETERMINADO)

Estava por aí, viajando e se voltei, é porque saí daqui. Na verdade sou daqui, de Queluz, onde nasci e onde quero estar. Todavia, desde criança, pensava em viajar, conhecer outros países, outros lugares. Achei que tinha que cumprir uma missão. É, cumprir uma missão (RI, COMO QUE SE ENTREGANDO). Acho que a missão era satisfazer minha curiosidade.  Nasci curioso. Olhando nossa belíssima serra, já criança, me perguntava: o que haverá do outro lado? Quem estará lá? Alguém sabe o que há do outro lado da Mantiqueira? (INDAGA O PÚBLICO E ENTABULA CONVERSA) Você, por exemplo, já ficou imaginando o que há do outro lado? (PARA OUTRA CRIANÇA) E você, já foi lá em cima? Olhou para o nosso Vale do Paraíba, com toda a sua imensa beleza? Desde cedo, muito cedo, pensei que devia ir para o outro lado da serra. Mais tarde, fui para o lado oposto ao da Serra da Mantiqueira; quis conhecer o fim do rio, ver se ele deságua no mar e assim viajei bastante… O primeiro lugar que eu visitei ainda criança, com minha família, foi Passa Quatro, ali em Minas Gerais. Alguém já foi até lá? Passa um, passa dois, passa três, passa quatro e muito mais! Lugar bonito! Também fui até o Rio de Janeiro, que é nosso vizinho. Mas, antes de continuar falando e conversando, acho que está na hora de me conhecerem um pouco mais, saber quem eu sou!

(MÚSICA DE FUNDO ENQUANTO O ATOR DECLAMA OS VERSOS APRESENTANDO-SE AO PÚBLICO)

Atenção, senhor, senhora,

Quem vos fala é um cantador,

Aquele que trova, poeta,

Não faz versos só de amor.

Desde os tempos de outrora,

Pela graça divina,

No canto não desafina

Na dança não desatina

Do palco é dono e senhor!

Digo a todos, com respeito,

Prestem atenção: sou um ator!

Violeta, este é meu nome!

Sendo pobre nunca passei fome,

Pois nasci em belo vale

Onde aprendi a pescar,

A carpir, fabricar!

Senhores, sou de Queluz

Vim aqui me apresentar.

(TERMINA FAZENDO MESURAS E VOLTA A FALAR NORMALMENTE)

Nós, cantadores, somos parentes distantes dos trovadores; estes surgiram antes mesmo de os portugueses chegarem ao Brasil. Lá na Europa, na Idade Média, os primeiros trovadores andavam de cidade em cidade, apresentando poemas, cantando em praças, em festas religiosas ou nos grandes palácios. Às vezes cantávamos músicas nossas ou de outros compositores; de outras vezes, declamávamos poemas, sonetos e… Fazíamos teatro!

Eu adoro fazer teatro, também gosto de fazer versos. Então, resolvi ser atriz e poetisa. Ou trovador e ator? Ou cantador e ator? Não sei… Foi na escola que descobri o teatro. Minha professora gostava de fazer peças, de nos ensinar poesia. Depois, cresci e resolvi continuar a brincar de teatro e de fazer versos. Estudei, trabalhei em diversos lugares, com muitos outros artistas e agora estou aqui, de volta à minha cidade. Fazer teatro é muito bom! É uma brincadeira divertida, podem crer. Sabem de uma coisa, melhor fazer que falar. Vou chamar algumas crianças para brincar de teatro comigo. Quem quer? (A ATRIZ CHAMA CRIANÇAS (QUATRO) PARA UMA BRINCADEIRA. COM AS CRIANÇAS NO PALCO, COLOCA-AS NO CANTO E EXPLICA O JOGO).

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Alunos brincam com mímica em A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia.

Prestem atenção! O mundo do teatro é todo de faz de conta; um faz de conta tornado realidade pelo ator. Por exemplo, (COM MÍMICA) nada em uma mão, nada na outra e, de repente, o ator faz todo o mundo acreditar que segura uma vassoura (SEGURA O OBJETO FICTÍCIO E SAI VARRENDO O PALCO) e que está deixando tudo limpinho, limpinho, limpinho. Viram como é fácil? Façam comigo! (REPETE O ATO DE VARRER). Muito bem, agora vamos em frente (MUDA A AÇÃO). Vamos pegar a vassoura por uma ponta e transformá-la em uma vara de pescar! (SIMULA SEGURAR A VARA, JOGANDO O ANZOL EM UM RIO). Alguém aqui já pescou no Paraíba? O nosso bom e velho rio Paraíba do Sul? Pescar é bom demais! Eu ouvi dizer, lá de longe, que os peixes diminuíram muito, alguns tipos desapareceram, foram embora por conta de água suja… Também, quem vive em água suja? Mas, também já sei que estão trabalhando para que voltem peixes em abundância no nosso rio. Bom, vamos tentar pegar um peixinho! Tomara que consigamos pescar, pois eu adoro peixe! Opa! (FINGE QUE FISGOU). Peguei um! Pesquei um! (MOSTRANDO PARA TODOS) Olhem só o tamanho do meu peixe!

(VOLTA-SE PARA AS CRIANÇAS QUE ESTÃO NO PALCO)

Viram como se pode brincar só com a imaginação? Agora vamos continuar a brincar juntos? Vamos fazer de conta que somos soldados em guerra, prontos para defender nossa cidade, como nossos antepassados em 1932 (REALIZA A AÇÃO COM AS CRIANÇAS). Nossa gente é forte e não foge à luta. (MUDA A AÇÃO) Pronto! Agora, vamos brincar de lavradores e vamos capinar; deixar tudo limpinho (REALIZA A AÇÃO, SEMPRE ORIENTANDO E AJUDANDO AS CRIANÇAS)! Capinar é uma tarefa árdua, cansativa. Debaixo do sol, então, deixa eu limpar o suor (FAZ A AÇÃO). Não é fácil. (CONCLUI O GESTO E MUDA) e, finalmente, vamos varrer o que capinamos e juntar tudo nesse canto e assim concluímos mais uma, realizamos nossa ação e, já que terminamos, vamos fazer como atores educados e vamos agradecer a atenção das pessoas (FAZ MESURAS COM AS CRIANÇAS, AGRADECENDO À PLATEIA).

Pois bem, agora que já aprendemos vou dividir nosso pequeno grupo em duas duplas, vou pedir a eles que realizem duas ações e vocês, da plateia, adivinharão o que eles estão fazendo. Vamos lá!

(A ATRIZ PEDE, EM SIGILO, QUE CADA DUPLA REALIZE AÇÕES SIMPLES COMO DESCASCAR UMA LARANJA, UMA BANANA, CARREGAR UMA MALA, AMARRAR O SAPATO, DIGITAR NO COMPUTADOR, FALAR AO TELEFONE… IMPORTA QUE SEJAM AÇÕES FICTÍCIAS E DE ACORDO COM A FAIXA ETÁRIA DAS CRIANÇAS. DURANTE OS ENSAIOS DEVERÃO TRABALHAR, JUNTO A DIREÇÃO DO ESPETÁCULO, DIVERSAS POSSIBILIDADES PARA REALIZAÇÃO NAS ESCOLAS. AO FINAL DA BRINCADEIRA, AGRADECE AS CRIANÇAS, FAZENDO COM QUE VOLTEM A SEUS LUGARES).

Teatro é muito legal, não é! A gente começa fazendo coisas mais simples e depois, vai aprofundando, fazendo coisas mais complexas, até chegar a fazer uma peça inteira, com várias horas de duração. (MOSTRA O LIVRO HISTÓRIA DE LENÇOS E VENTOS, DE ILO KRUGLI).  Há peças de teatros com grandes personagens, de todos os tempos e lugares, mas eu quero contar pra vocês que há personagens diferentes, como os criados por Ilo Krugli! Nome diferente, não é mesmo? Ilo Krugli. É que ele nasceu longe, em Buenos Aires. Mas está no Brasil há muito tempo. Ele é um autor de teatro maravilhoso que escreveu a peça História de Lenços e Ventos (MOSTRA O LIVRO). A peça está publicada neste livro. História de Lenços e Ventos!

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Referência à Ilo Krugli, em A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia.

Imaginem: um lenço azul é o protagonista, o personagem principal da peça (A ATRIZ DEVE MOSTRAR UM LENÇO AZUL PARA A PLATEIA, BRINCANDO COM O MESMO). Ele é um aventureiro, livre como eu gosto de ser; livre! E, curioso, como eu também sou; ele adora conhecer o novo. Às vezes treme de medo; outras vezes vai em frente com a maior coragem. Gosta de carinho, de afago! Um lenço que ganha vida através do teatro (GUARDA O LENÇO).

Na peça escrita por Ilo Krugli há outros personagens muito diferentes. (FOLHEIA O LIVRO, ANUNCIANDO AS PERSONAGENS) Uma nuvem que é sonolenta, dorminhoca mesmo; um guarda-chuva! Já imaginaram um guarda-chuva falante? Ele é o principal protetor do papel, uma folha de jornal que é também personagem da história. Através dessa peça a gente aprende que é possível fazer teatro com aquilo que temos. Não precisamos ficar pensando “ah, se eu tivesse palco”, “Ah, se eu tivesse um cenário grandioso”, “ah, se eu tivesse…”.

No teatro podemos dar vida e emoção às coisas tanto quanto às pessoas, olhando-as com olhos diferentes do comum. Gosto de interpretar coisas, de fingir ações, mas o que gosto mesmo é de contar histórias. Histórias de todo tipo. Nas minhas andanças por ai sempre contava histórias de lugares fantásticos, de lugares imaginários, até que uma vez me pediram para contar quem era e como eram os primeiros habitantes de Queluz. Desafiaram-me dessa forma: (IMITANDO O DESAFIANTE) “-Inventar fantasias é fácil! Queremos ver se você é capaz de transformar história real em teatro”. Pensei com meus botões… Bobo! Esse cara não sabe de nada. Pois vou mostrar pra vocês como é que eu contei essa história, dos primitivos moradores da nossa cidade. Vou me transformar!

(UMA VINHETA MARCA A MUDANÇA DE CENA. COM ELEMENTOS MÍNIMOS A ATRIZ TRANSFORMA-SE NO ÍNDIO PURI CONHECIDO COMO VUTI OU VUITIR – MONGO VELHO. UMA MUDANÇA DE ROUPA, UM COCAR SIMPLES OU TESTEIRA COM MOTIVOS INDÍGENAS SÃO ELEMENTOS MÍNIMOS SUGERIDOS).

VUITIR – Meu nome é Vuti! Alguns me chamam Vuitir! Vuitir! Sou um índio Puri! Nós, os Puris, somos da família dos goitacás. Os Goitacás eram selvagens e cruéis; é o que contam os mais velhos que eu; encheram de terror os portugueses, quando esses chegaram por aqui. Nós, os Puris, somos calmos, gente de paz. Gostamos de viver com nossos cantos e danças e, todos confirmam, somos grandes dançarinos. Vivemos do que plantamos: banana, batata, milho. E também gostamos de cará, mandioca, abacaxi… Somos bons caçadores e bons pescadores.  Para caçar fazemos nossos arcos, flecha, zarabatana para pegar aves… Bodoque! Tem algum menino aqui que saiba fazer bodoque? Na minha aldeia toda criança faz bodoque, sabe pescar, nadar e caçar, porque precisamos da caça para nossa alimentação.

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Referência aos Puris, antigos habitantes da região. Foto: Atelier da Fotografia.

Os Puris não são conhecidos como os Tamoios, os Xavantes, os Tupinambás, os Yanomamis, os Caiapós ou os Aimorés. Essas são algumas das tribos, famílias indígenas que já estavam no nosso país muito antes da chegada dos portugueses. Nós estávamos aqui, os Puris. Infelizmente os colonizadores tomaram nossas terras, dominaram nossa gente. Eu, Vuitir, percebendo a força dos invasores, fiz um acordo com eles e trouxe minha gente para viver aqui, desde que fossem bem tratados. Foi tudo como o combinado, ficamos bem. Todavia, com o tempo minha gente foi desaparecendo (COMEÇA A TIRAR ADEREÇOS INDÍGENAS).  As doenças trazidas pelos brancos, as mudanças todas diante da nova situação nos foram fatais. Perdemos o nosso modo de vida e saímos da história.

(VINHETA. TERMINA DE TIRAR OS ADEREÇOS E PROSSEGUE.).

VIOLETA – Sabem que eu gosto muito desse velho índio puri? Fico imaginando… Já pensaram se os índios Puris ainda estivessem por aqui? Como é que viveriam? O que eles caçariam? Ninguém mais consegue viver de caça por aqui. As mudanças foram tantas que o ambiente em que eles viviam tornou-se muito diferente. Não conseguiriam mais caçar, mal teriam o que pescar… A mata original se foi, mas o rio está ai. E poderia nos fornecer muito mais peixes, mais riquezas! Há tanta sujeira nos nossos rios. Se a gente não cuidar nem nós sobreviveremos. Não é brincadeira! Sem água limpa, sem peixe, as matas destruídas, onde iremos parar?

(CANTA, COM A MELODIA DE A CANOA, CANTIGA DE RODA)

A canoa parou

Já não posso mais pescar

Foi por causa da sujeira

Nem me deixa navegar…

(VOLTA A FALAR) Até Martim-pescador, o pássaro que vive daquilo que pesca está ficando raro por aqui. Ainda temos gaviões, garças, tico-tico… (TIRA UM PAPEL PARA DOBRADURA DO BOLSO E COMEÇA A CRIAR UM PEIXE) A vida já é difícil com pouco peixe, imaginem se ficamos sem pássaros? Vamos fazer duas coisas! Duas! (ENTREGA O PEIXE PARA UMA CRIANÇA) Uma é aprender a nova letra da cantiga que é pra gente não esquecer de que temos que cuidar dos nossos rios. E a segunda, já falo; vamos cantar!

(A ATRIZ ENSINA A PLATEIA, CANTANDO UM VERSO, PEDINDO QUE A MESMA REPITA E APÓS FAZER OS QUATRO VERSOS, REPETIRÁ TODA A CANTIGA. ENQUANTO ISSO FARÁ OUTRO PEIXE COM O PAPEL DE DOBRADURA).

A canoa parou

Já não posso mais pescar

Foi por causa da sujeira

Nem me deixa navegar…

(EXIBE O PEIXE PARA A PLATEIA) Vejam no que transformei esse papel. Um peixe! Eu disse que faríamos duas coisas, certo?  A primeira foi a música. Agora quero ensinar as crianças a fazerem esse peixe. A ideia é a seguinte: sempre que possível, a gente faz um peixe para lembrar que temos que cuidar do rio para que ele volte a nos dar muitos peixes pra pescar. E quando alguém estiver sujando o rio, seja quem for, jogando ou despejando coisas nos nossos rios, nós não vamos brigar, vamos fazer um peixe como este e dar de presente à pessoa, para lembrá-la que rio sujo é rio sem vida. Vamos aprender a fazer esse peixe?

(A ATRIZ FARÁ O ORIGAMI E ENSINARÁ AOS ALUNOS DE CADA SALA. COM CALMA MOSTRARÁ CADA ETAPA DA ATIVIDADE, ORIENTANDO E PERMANECENDO ATENTO PARA QUE TODOS FAÇAM O ORIGAMI. EM SEGUIDA, AGRADECE AS CRIANÇAS E PROSSEGUE).

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Luciana Fonseca ensina origami aos alunos de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia.

Dobrar papel é uma arte desenvolvida no Japão. Lá eles dizem origami e assim ficou conhecido no mundo inteiro. Origami. Arte de dobrar papel e transformá-lo em flores, animais e toda uma série de coisas. Quem me ensinou a fazer dobraduras foi meu avô. Como já disse, eu nasci aqui, em Queluz. Sou de uma família de piraquaras. Meu avô foi piraquara. Alguém ai sabe o que é piraquara?  Piraquara é pescador. Assim como se diz do camponês que este é caipira, dizem do pescador: é um piraquara! Pois então, venho de uma família de pescadores, de caipiras ribeirinhos vivendo das graças do Rio Paraíba do Sul. Em casa não faltava lambari, curimbatá, surubim… Era tudo muito farto, peixe que não acabava mais.

Do quintal da casa de meus pais eu via a Pedra da Mina, imponente, majestosa. Meu avô vivia dizendo; (IMITA O AVÔ) “- A Pedra da Mina é o ponto mais alto da Serra da Mantiqueira!” Havia um tio que morava mais aí pra frente, já no Estado do Rio de Janeiro, teimava com o meu avô; (IMITA O TIO) “-Que nada! O ponto mais alto da Serra é o Pico das Agulhas Negras, aqui no Estado do Rio de Janeiro”. Era uma briga que não tinha fim. (BRINCA FAZENDO OS DOIS PARENTES) “- A Pedra da Mina é o ponto mais alto”! (IMITA O OUTRO) “- O Pico das Agulhas Negras é o mais alto! (REPETE AS AFIRMATIVAS).  “- A Pedra da Mina é o ponto mais alto”! “- O Pico das Agulhas Negras é o mais alto!  “- A Pedra da Mina é o ponto mais alto”! “- O Pico das Agulhas Negras é o mais alto”!( INTERROMPE BRUSCAMENTE)

Hoje, com aparelhos sofisticados, sabemos que a nossa Pedra da Mina tem oito metros a mais que a outra e, dizem os aparelhos, são exatos 2.796 metros de altura. 2.796! Eu pequeno, bem pequeno mesmo e a Serra naquela altura! Só é orgulhoso quem quer; a Serra da Mantiqueira está aí, pra mostrar para o ser humano o seu verdadeiro tamanho! Somos pequenininhos!

Meu avô gostava de passear, caminhar pelas trilhas da montanha e acabou ganhando um dinheirinho com isso. De repente começou a aparecer gente querendo subir a serra o pé, ver de perto o Pico dos Três Estados.  Meu avô levou muita gente para o lugar que marca a divisa do território dos três estados, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.  (BRINCA) Vovô gostava de brincar dando passinhos para um lado e outro: – Olhem, estou em Minas! Vejam, voltei para São Paulo! Agora vou para o Rio de Janeiro!

Eu morria de curiosidade pra saber como era Minas Gerais, o Rio de Janeiro… Acho que foi também por isso que tomei gosto pela ideia de viajar. Um dia arrumei uma mochila, dei tchau para minha família e fui me aventurar no mundo.  Peguei carona com um caminhoneiro e fui para bem longe e lá, já muito distante da minha terra, quando dizia ser de Queluz, logo comentavam: (IMITANDO UM SUPOSTO INTERLOCUTOR) Queluz, você é de Queluz então você é português. (FAZENDO SOTAQUE PORTUGUÊS:) “Ora gajo, me diziam, perdestes o sotaque da terrinha? Que raio de português que és se já não falas como os teus?” Hein?

Não sei quantas vezes repeti que a minha Queluz é a do Vale do Paraíba. Há outra Queluz, lá em Portugal, é uma cidade antiga, famosa por nela estar um palácio da família real portuguesa, o Palácio de Queluz, que era um dos locais preferidos de vários membros da família real. É um belo lugar com jardins floridos, enfeitados com estátuas e tem um interior rico, com uma decoração primorosa.  Eu dizia tudo isso e emendava falando sobre nossa Queluz, recitando versos que eu mesmo fiz e foi assim que começaram a me chamar de poetisa. Vou recitar os tais versos para vocês.

(SOBE MÚSICA INSTRUMENTAL)

Queluz, no vale do Paraíba,

É minha cidade natal.

Não confunda, meu amigo,

Com a outra de Portugal.

Aquela é cidade de reis

A nossa, bem brasileira,

Para nós é sempre a primeira.

São duas belas cidades

Quem conhece assim afirma

No meu coração não tem igual

Por isso repito e te peço

Não confunda, meu amigo,

Com a outra de Portugal.

(FAZ MESURAS E SEGUE A NARRATIVA) Defendendo minha cidade, falando sobre as belezas daqui, passaram a me chamar de Baronesa. Não que eu tenha sido rica, ou que venha de família poderosa, dona de grandes fazendas. Sou apenas uma atriz e, ainda, aprendiz de poeta. E assim aconteceu: eu chegava aos lugares e já ia explicando qual era a minha Queluz (fala rapidamente):

Queluz, no vale do Paraíba

É minha cidade natal

Não confunda, meu amigo

Com a outra de Portugal.

(VOLTA A CONTAR) Um dia, declamando estes versos, fui desafiado a contar a história da minha cidade. Não assim, de uma maneira qualquer, mas como um grande personagem. Foi um desafio e tanto. Há tantos fatos da nossa cidade que dão boas histórias! Um deles, certamente, está na memória de todos os mais velhos. E cada criança vai aprendendo, ouvindo de seus pais, de seus avós e vendo ali, no meio do rio o que restou da antiga ponte, dinamitada em 1932.

Todos sabem, o Rio de Janeiro está logo ali e, em 1932, era a Capital Federal, sede do governo. Os revolucionários estavam aqui, na nossa cidade, prontos para barrar as tropas federais que, em maior número, ameaçavam derrotar os paulistas. Para retardar o avanço inimigo foi resolvido destruir a ponte. Tenho aqui (tira da bolsa) uma cópia de um jornal de 1932, contando esse fato (LÊ):

“Levo ao vosso conhecimento que a 10 de agosto o Doutor Antonio Bresser Monteiro fez voar dinamitada a ponte da estrada de rodagem sobre o Paraíba, em Queluz… Debaixo de intenso fogo de fuzilaria e metralhadoras o doutor, afirma o jornal – com grande serenidade! -” deu provas de energia, sangue frio e bravura”! Uau! Que herói!

O doutor Monteiro é um grande personagem de Queluz que deve ser sempre lembrado. Um personagem real que merece as melhores interpretações! Mas também há outros, bem longe, lá dos tempos do império. Sabe, eu gosto de lembrar esse tempo onde tínhamos os nobres. Nossa família imperial, toda bonitona e os nossos barões e baronesas do café, naquela época a nossa maior riqueza. (A MESMA VINHETA DE MUDANÇA DE PERSONAGEM) Fiquei  pensando nesse tempo, pensando, pensando… (VAI TROCANDO OS ADEREÇOS E TRANSFORMANDO-SE NA BARONESA DE QUELUZ) Fui criando, criando, criando… Fui me transformando e… (APÓS COLOCAR O ADEREÇO FINAL – JÁ COM OUTRA POSTURA E COMPOSIÇÃO DIFERENCIADA) pronto!

(UMA MUDANÇA DE VESTUÁRIO, REMETENDO AOS BARÕES DO CAFÉ E UM LEQUE SÃO OS ADEREÇOS MÍNIMOS SUGERIDOS).

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Luciana Fonseca é A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia.

BARONESA DE QUELUZ – Meninos e meninas, mestres e mestras, todos os presentes!Agora sim, devidamente vestida e preparada. Eu sou o Baronesa de Queluz! Sou desta bela cidade onde nasceram outros barões, nobres, como eu. Um deles o Vicente de Paula Vieira, o Barão de Rifaina. Nasceu aqui, na nossa Queluz. Também de nossa Queluz é o Barão de Novais, um dos grandes donos de fazendas de café! Grandes figuras esses barões!

Ainda hoje gosto de passear por essas antigas fazendas…  São José, Fazenda Bela Aurora, Fazenda do Regato, Cascata… Fazendas belíssimas que guardam a história dos velhos barões, homens da mais alta linhagem. Certamente vocês nunca ouviram falar a meu respeito, eu, a Baronesa de Queluz. Sim, pois não sou baronesa por decreto, mas por opção! Assim sou a única Baronesa de Queluz!

Outro dia, tive o desprazer de encontrar uma jovem mulher do povo que colocou em dúvida a minha identidade. Ela foi chegando e me dizendo:

(IMITA UMA MULHER DO POVO, DIALOGANDO COM A MESMA, ESTABELECENDO UM JOGO ONDE INTERPRETA AS DUAS PERSONAGENS).

MULHER – Que baronesa que nada! O tempo de condes, duques e barões já passou. Só se você for uma baronesa de araque. Aliás, você tem cara de baronesa de araque! Tão verdadeira quanto uma nota de quinze reais!

BARONESA DE QUELUZ – (PARA A PLATEIA) Que ousadia! Que atrevida! Eu? Falsa? Nota de quinze reais? Não pude deixar de responder: Pois saiba a senhora que sou baronesa sim, de alta linhagem. Barão, minha senhora, é palavra que significa homem livre. Sou uma mulher livre! Sou uma baronesa. (PARA A PLATEIA) E não é que a mulherzinha retrucou!

MULHER – Logo vi; uma baronesa de araque! De mentira!

BARONESA DE QUELUZ – Uma baronesa verdadeira!

MULHER – Uma falsa baronesa!

BARONESA DE QUELUZ – Verdadeira!

MULHER – Falsa.

BARONESA DE QUELUZ – Verdadeira!

MULHER – Falsa!

BARONESA DE QUELUZ – (PARA A PLATEIA) O que aquela mulher queria? Provavelmente me enlouquecer. Eu já estava quase doida quando resolvi, ao invés de brigar, mostrar que posso ser o que quiser ser, pois sou uma atriz e as atrizes transformam-se em tudo o que der na cabeça. Então, enfrentei a megera com minhas armas preferidas: as armas do teatro!

(DECLAMA, PARA A MULHER FICTÍCIA).

Olhe bem, minha senhora,

Quem vos fala sem despeito,

Trazendo poesia no peito,

Dona do próprio nariz!

Atenção, peço respeito!

Minha cara, sou uma atriz!

(VOLTA A FALAR NORMALMENTE) Eu achei que ela se aquietaria com meus versos, mas não é que ela me desafiou novamente?

MULHER – Então a senhora Baronesa de Queluz é uma atriz! Onde é que está o palco, o figurinista, o iluminador?

BARONESA DE QUELUZ – Minha senhora, o figurinista está aqui, presente nas roupas que visto (MOSTRA A ROUPA, DESFILANDO E EXIBINDO-SE). E a luz foi Deus quem deu! Quando precisamos de luz contratamos técnicos, eletricistas, o iluminador! E palco, ah, minha senhora, o palco é onde o ator está. E para cenário, basta a imaginação. Veja só, como vou lhe mostrar!

(TROCA ALGUNS ADEREÇOS. UMA ECHARPE E UM LENÇO {O LENÇO AZUL DO INÍCIO} SE TORNA LENÇO DE CABEÇA, TRANSFORMANDO-SE EM UMA COZINHEIRA TELEVISIVA, QUE ENSINA UMA RECEITA).

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Queluz na Moranga é a receita transmitida aos alunos. Foto: Atelier da Fotografia.

COZINHEIRA – Minha querida amiga dona de casa, hoje vamos fazer o prato mais delicioso da região, prato típico oficial de nossa cidade: Queluz na Moranga (FALA RAPIDAMENTE, MAS COM CHARME E SIMPATIA). 1kg de carne seca , 2kg de mandioca, três tomates, uma cebola, cinco dentes de alho, um maço de espinafres, três tabletes de caldo de carne, salsinha e cebolinha, bacon para decorar e, obviamente… Uma moranga!  Cozinhe a carne, sem sal. Faça um purê com a mandioca. Frite a carne com a cebola e o alho. Adicione o tomate, o espinafre, os temperos todos e recheie a moranga já assada decorando com salsinha e o bacon. Ai, que delícia!

(VINHETA. VOLTA A SER VIOLETA; ENQUANTO FALA RETIRA, CALMAMENTE, OS ADEREÇOS ANTERIORES).

A mulher que duvidada que eu pudesse ser a Baronesa de Queluz ficou quietinha e depois que eu dei a receita, ficou me olhando, sem saber o que retrucar. Voltei a ser eu mesma e aproveitando a deixa convidei a moça para visitar nossa cidade, na Festa da Moranga e da Mandioca.

Aliás, moranga e mandioca são ingredientes do nosso delicioso prato desde o tempo dos tropeiros que atravessavam nosso país. Quem não quer vir na festa da moranga é porque já morreu! Temos muitas festas por aqui, não é? Gosto muito de ter conterrâneos festeiros, cheios de alegria. Quantas festas a gente tem aqui, por ano? Quer saber, vou chamar algumas crianças para uma brincadeira, sobre as festas da cidade.

(CHAMA AS CRIANÇAS – NO MÁXIMO CINCO – E PROPÕE ALGUMAS ADIVINHAS. DISTRIBUI PRANCHETAS COM PAPEL PARA CADA UMA DELAS).

Atenção crianças, vamos brincar de adivinhas. O tema das nossas perguntas serão as festas da nossa cidade. Prestem atenção! Vamos lá! Eu faço a pergunta e vocês escrevem a resposta no papel. Lembrem-se, o segredo das respostas são as festas da nossa cidade.

Pra Santo Antonio e São Pedro

Vivo pedindo perdão

E prometo todo dia

Jamais soltar balão

Toda vez que em Queluz

Temos festa de… (SÃO JOÃO)

(A ATRIZ DEVE ESTIMULAR, PERGUNTANDO O NOME DO SANTO QUE FALTA. APÓS CONFIRMAR A RESPOSTA – SÃO JOÃO – A ATRIZ COMPLEMENTA).

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Adivinhas lembram festas da cidade em A Baronesa de Queluz. Foto: Atelier da Fotografia

Parabéns. São João! A festa junina de Queluz é considerada a melhor de todo o vale do Paraíba. Há muitos shows, quadrilhas e muitas comidas gostosas. Eu, sempre que posso, não perco o canjão de galinha, depois da alvorada festiva. Mas, vamos responder qual outra festa está na próxima adivinha:

Bons em forno de lenha,

Também em fogão a gás

Grande festa da cidade

Toda vez que acontece

Da balança a gente esquece

Por isso convido você

Vamos à festa do… (DOCE)

Parabéns aos que acertaram. Eu perco a compostura na festa do doce. Como todas as tortas, compotas, geleias. É a melhor festa do mundo! Agora, vamos para a última adivinha! Prestem atenção e anotem a resposta.

Quando chega o calor

Há festas no litoral

No frio em nossa Queluz

É tempo de festival

Complete o nome, meu amigo,

Dessa festa sem igual

Festival de…  (FESTIVAL DE INVERNO)

(VOLTA A COMENTAR) Festival de Inverno. Eu gosto desde quando havia encontro de motociclistas. Mas, o que mais me agradou nesse festival foi o fato de ter feito apresentações das minhas peças de teatro lá, no Espaço de Eventos 8 de Março.

(TERMINANDO A BRINCADEIRA PEDE APLAUSO PARA AS CRIANÇAS E PREPARA-SE PARA SAIR DE CENA)

Bom, obrigado a todos pela participação. Professora, muito obrigado por me ceder tempo de sua aula. Sabem o que eu fico pensando? Se o Padre Francisco das Chagas Lima, fundador da nossa cidade, pensava que teríamos tantas festas assim. É claro que uma cidade que tem São João Batista como padroeiro tem que ter uma bela festa junina e, vamos combinar, festa é sempre bom.

Agora preciso ir embora. Vou visitar muitas escolas, muitas salas e brincar de teatro com muito mais gente. Prestem atenção que tenho algo muito especial a solicitar de vocês: eu gostaria que cada um de vocês escrevesse uma história sobre nossa cidade. Pode ser em versos, uma redação, uma peça de teatro… Professora, se for possível, a senhora ajuda o pessoal nesses trabalhos? Seria muito legal. Quando eu voltar vou ver o que vocês fizeram; combinado? Pra vocês, que ficam por aqui, meu muito obrigado, obrigado especial à escola e então, quem já aprendeu a canção pode cantar comigo.

(CANTA A MUSICA DE DESPEDIDA)

Vamos brincar de teatro

Vamos brincar de ser,

Viver muitos personagens

Nessa viagem e assim crescer.

O palco é a rua, a sala,

A praça ou o nosso quintal

A história a gente inventa

Ou conta aquela já bem contada

Que recontada, não tem igual!

Tchau, pessoal! Adeus! Até logo, professora! Em breve estarei de volta. Até a próxima!

 

Valdo Resende, Março/2016

 

E agora, Queluz!

Queluz SP

No próximo domingo, dia 28 de agosto, das 14h30 às 18h00, no Espaço de Eventos 8 de Março teremos a Mostra Teatral que encerra o Projeto Arte na Comunidade 4 na cidade de Queluz, no Vale do Paraíba. “Histórias para a hora do não”, de Carla Fioroni, com direção de João Acaiabe está na programação que também terá a apresentação de “Os Piraquaras do Vale do Paraíba”, texto e direção de Valdo Resende, autor também do poema abaixo:

Queluz praça2
Queluz (sp) Fotos Valdo Resende

 

A NOSSA QUELUZ

Queluz, no vale do Paraíba,

É minha cidade natal.

Não confunda, meu amigo,

Com a outra de Portugal.

Aquela é cidade de reis

A nossa, bem brasileira,

Para nós é sempre a primeira.

São duas belas cidades

Quem conhece assim afirma

No meu coração não tem igual

Por isso repito e te peço

Não confunda, meu amigo,

Com a outra de Portugal.

A montagem de Os Piraquaras do Vale do Paraíba foi feita exclusivamente para o encerramento do Arte na Comunidade 4. No elenco estão Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira. As músicas são de Flávio Monteiro e os figurinos de Carol Badra.

O Projeto Arte na Comunidade, idealizado por Sonia Kavantan, tem patrocínio da Alupar e Taesa, via Ministério da Cultura e Apoio Cultural das Usinas de Queluz e Lavrinhas. É uma realização da Kavatant & Associados.

Todos estão convidados!