Ederaldo e Ademilde, a Rainha!

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce no lodo

Gerando pérolas finas… 

O Brasil perdeu de uma só tacada, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Jorge Goulart, Ederaldo Gentil e Ademilde Fonseca. Muita gente boa. A Rede Globo prestou merecidas homenagens ao humorista e até resgatou – no calor da hora – o programa A Escolinha do Professor Raimundo para o horário das manhãs. Aqueles que têm boa memória irão recordar que Chico Anysio andou reclamando a falta de espaço que não lhe foi dado, nos últimos anos. Que a emissora aproveite do momento para faturar um pouco mais é inevitável; pelo menos reverencia a memória de um funcionário que deu muita audiência e dinheiro para a família Marinho.

Ederaldo, Ademilde, Millôr, Chico (como Popó, meu preferido) e Jorge Goulart

Jornais, telejornais e revistas lembraram a obra do genial Millôr Fernandes. Ele está em uma das chamadas de capa da Revista Veja. Em todos os lugares há entrevista de familiares, publicação ou leitura de frases do humorista Millôr e, entre diferentes homenagens, os depoimentos de profissionais, parceiros de longos anos do teatrólogo que, além de textos próprios, deixou excelentes traduções de peças de Wiliam Shakespeare.

Não queria ser o mar

Me bastava a fonte

Muito menos ser a rosa

Simplesmente o espinho

Não queria ser o caminho

Porém o atalho

Muito menos ser a chuva

Apenas o orvalho…

Dos outros três artistas falecidos falaram menos. Bem menos. Jorge Goulart foi um dos reis do rádio, é um dos artistas mais cantados em todo país, compositor e cantor de um mega sucesso: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”. Também foi o primeiro a gravar “A voz do morro”. Ederaldo Gentil foi um compositor baiano, falecido neste 30 de março. Em 1975 o Brasil inteiro cantou e, ainda hoje, “O ouro e a madeira” é um dos mais belos sambas de todos os tempos; o autor do samba cujos versos estão aqui, neste post, foi Ederaldo Gentil, que foi também parceiro do célebre Batatinha,.

…Não queria ser o dia

Só a alvorada

Muito menos ser o campo

Me bastava o grão

Não queria ser a vida

Porém o momento

Muito menos ser concerto

Apenas a canção…

Ademilde Fonseca está entre um tipo de intérpretes muito peculiares. Um país do tamanho do nosso possibilita uma voz regionalíssima como a de Elba Ramalho, ou uma voz absolutamente diferenciada como a de Tetê Espindola. Ademilde é aquela da articulação primorosa, com um domínio absurdo sobre a palavra cantada.

Qual teria sido o destino de chorinhos como “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” sem as palavras cantadas primorosamente por Ademilde Fonseca? Apreciamos demais uma série de músicas instrumentais, entre elas alguns chorinhos admiráveis. Mas, “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” lembramos fácil graças ao abençoado fôlego de Ademilde. Aposto que a maioria dos que lêem este blog conhece o balanço do ritmo gostoso, eternizado por Ademilde Fonseca.

“O tico-tico tá

Tá outra vez aqui

O tico-tico ta comendo meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer é mais minhoca e não fubá…”

(Alberico Barreiros e Zequinha de Abreu)

“O brasileiro quando é do choro
É entusiasmado quando cai no samba,
Não fica abafado e é um desacato
Quando chega no salão…”

(Waldir Azevedo e Pereira Costa)

Ademilde Fonseca foi a Rainha do Choro. Um ritmo entre os únicos verdadeiramente brasileiros. Sendo Ademilde uma das poucas que canta choro com propriedade, merece todas as homenagens. O cenário da música brasileira está cheio de umas “mocorongas” que balbuciam letras, com ar de enfado, simulando um distanciamento que é falso, estudado.

Uma geração abaixo de Ademilde Fonseca consegue cantar com dignidade essas canções: Wanderléa, Baby do Brasil, Maria Alcina e Gal Costa estão entre as poucas cantoras com competência para cantar chorinhos. Das novíssimas cantoras, será que tem alguma que se habilita? Mas, sem aquele arzinho “mocorongo”, olhando de soslaio e pensando que é “diva”. Bem, o bom de tudo é saber que os versos de Ederaldo permanecerão, assim como Ademilde Fonseca, que será para todo o sempre aquela que deu voz ao choro.

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Até mais!

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Notas:

1) Jorge Goulart faleceu em 17 de março. Chico Anysio faleceu em 23 de março.  Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca faleceram em 27 de março. Ederaldo Gentil faleceu no dia 30.

2) “O ouro e a madeira” foi um imenso sucesso na voz do grupo “Nosso Samba”.

3) “A cabeleira do Zezé” de Roberto Faissal e João Roberto Kelly foi originalmente gravada em 1964.

4) Ademilde gravou Tico-tico no fubá em 1942. Brasileirinho foi gravado pela cantora em 1950.

valdoresende@wordpress.com

“O Livro de Boni” é para ser estudado

valdoresende@wordpress.com

A primeira boa surpresa de “O Livro de Boni” é o prefácio do sociólogo Domenico de Masi. Com reconhecida competência, o  escritor italiano sintetiza o motivo essencial para a leitura da autobiografia de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o todo poderoso e lendário Boni, para quem se credita o mega sucesso da Rede Globo de Televisão. “A autobiografia de Boni é um verdadeiro tesouro de informações acerca de como nasce e se consolida a sociedade midiática em um país como o Brasil”, escreveu De Masi.

Logo em seguida, De Masi, coerentemente com seus estudos sobre Criatividade, aponta uma característica individual – capacidade de estabelecer parcerias – determinante para o sucesso de um grupo criativo, apontando o grande parceiro de Boni, vital para o empreendimento que veio a fazer da TV Globo uma rede reconhecida mundialmente: o próprio Roberto Marinho.

“O Livro de Boni” revela muito sobre o comportamento criativo, estudado por De Masi. E seria interessante uma análise abrangente da autobiografia  de Boni, sob essa perspectiva teórica. Por exemplo, Boni reúne em si vários fatores individuais determinantes para o trabalho criativo: forte motivação; preparação caprichosa, correção profissional, forte senso de integração, espírito de iniciativa, força de vontade, dedicação total, flexibilidade, solidariedade e por aí vai.

A motivação de Boni começa na infância, apaixonado pelo rádio e, em seguida, pela TV. A preparação inclui encontros e trabalhos conjuntos com gente especial como Manoel de Nóbrega e o então diretor-geral da Rádio Clube do Brasil, Dias Gomes. Em sua autobiografia, Boni revela na própria forma de apresentar sua história um senso de integração extraordinário assim como um espírito de iniciativa e força de vontade incomuns.

Como leciono para publicitários, coloco desde já este livro como fundamental para os futuros profissionais da área. O publicitário Boni está no imaginário de milhões de brasileiros com o “Varig, Varig, Varig” tão forte quanto o posterior “Plim-Plim”. Criou o inesquecível comercial dos Cobertores Parahyba e acumulou prêmios na publicidade. Força de vontade e dedicação total são características evidenciadas pelos estudos de De Masi, facilmente verificáveis no trabalho de Boni.

Outro fator que determina a criatividade individual, a flexibilidade, é um capítulo à parte na vida de Boni: Escreveu para humor e deu atendimento em funerária, foi ator, redator, compositor, locutor, apresentador e, além das atividades amplamente conhecidas, trabalhou como auxiliar de protético além de atuar ao lado de cenógrafos, sonoplastas e todos os demais técnicos que compõem o universo da criação publicitária e televisiva.

Falta apontar, entre as principais características individuais que detectei lendo o livro, a solidariedade. Nesse aspecto, Boni revela um lado humano bem distante da imagem pública de mando e desmando de vice-presidente da Rede Globo. Tudo começa na família e nos primeiros capítulos do livro Boni caracteriza o pai, a mãe, os avós, as tias – muitas tias! – e uma infindável galeria de amigos. Se um momento, por exemplo, ele aprende com Dias Gomes, muito depois, já poderoso, garante a possibilidade de trabalho com liberdade para o grande autor. Se as tias ajudam o menino, o diretor retribui e revela profunda gratidão.

A principal contribuição de  “O Livro de Boni” é fazer com que percebamos o quanto a televisão brasileira, na primeira metade do século XX – ou seja, da sua criação até à  criação e consolidação das grandes redes – foi fruto do trabalho de um grande grupo criativo. Este grupo esteve presente nas diferentes emissoras atuando em musicais, humorísticos, teleteatros, novelas. Pioneiros, inovadores, apaixonados pelas novas possibilidades, abertos a estímulos diferenciados e sem discriminações. Uma amizade facilmente percebida e fartamente documentada, a televisão brasileira é uma história de cumplicidade entre amigos, quase uma grande família.

A TV brasileira se faz e Boni é parte fundamental da formação e afirmação da mesma. Agora, ao colocar sua experiência em livro facilita o conhecimento para todos nós. Vale conhecer e estudar os mecanismos de construção de uma grande rede televisiva, as diferentes formas de atuação em televisão e publicidade, enfim, essa questão humana primordial denominada comunicação.

Boa leitura!

Nota: “O Livro de Boni” é uma publicação da editora Casa da Palavra.