Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.

Jarras e muitas porções de carinho

Guardo alguns objetos que pertenceram à minha avó materna. Tornaram-se enfeite após décadas de uso contínuo quando ela nos servia leite, café, chá. Gestos cotidianos de carinho e afeto fixados nas linhas curvas, na decoração suave das louças, no cheiro inconfundível do que nos era servido.

Vovó Maria foi singular em nossas vidas. Não há recordações de voz alterada, de desavenças rudes, de “disse-me-disse”. Ela foi serena e, a mais velha, sempre teve o respeito e o carinho das três irmãs e dos dois irmãos. Nasceu em Portugal e veio muito criança para o Brasil. Assimilou os costumes daqui no jeito de ser, de falar. O sotaque lusitano era mínimo e não alimentou sonhos de retorno, ou mesmo de passeio: “Tenho vontade é de conhecer Belo Horizonte! Deve ser uma cidade linda”, dizia ela, quando a paisagem da capital mineira fazia jus ao nome.

Muito pequeno, vejo-me logo cedo batendo à porta da cozinha da casa vizinha, os quintais ligados por um portão lateral. Vovó, com cara de sono, abrindo a porta para o neto que desconhecia cansaço, privacidade, hora de visita. E eu ficava tagarelando, tomando meu segundo café e esperando meu avô, José, para acompanhá-lo limpando a horta, o jardim. “Deixa seus avós em paz”, dizia minha mãe chamando para o almoço. Logo depois voltava eu para, segurando a mão de meu avô, partir para o passeio vespertino.

De Uberaba meus avós se mudaram para Campinas e não me recordo de ter tido sequilhos nos meus aniversários seguintes. A cidade paulista passou a ser nosso destino de férias quando tínhamos doce de figo, filhoses e frutas secas nas festas de fim de ano. Vovó capitaneando as atividades culinárias, em meio aos filhos e dez netos. Muito movimento para que eu pudesse realmente conhecê-la. Com 17 anos fui morar com meus avós e, já um pouco mais ciente do mundo, descobri facetas daquela mulher.

Começando pela esquerda, os irmãos de Vovó: Palmira, Aurora, Amélia, ela + Antônio e Manoel

Vovó permanecia ocupada o tempo todo. Entre as tarefas comuns da casa fazia crochê. Minha irmã mais velha ao fazer 15 anos foi presenteada com uma colcha tecida por vovó. O mesmo ocorreu com todas as netas. Cada colcha de uma cor e desenho diferente. A televisão era novidade na casa das pessoas. Sob forte temporal um raio partiu ao meio a casa de uma vizinha e descobriu-se que o aparelho de TV estava ligado. Desde então, bastavam nuvens pesadas para que o aparelho não fosse ligado, vovó com medo de raios e trovões.

Em tempos de estio, ela e eu éramos os únicos a assistir filmes, novelas, desfile de carnaval. Um dia ela me surpreendeu perguntando o que eram aquelas letras que corriam no início e no final dos capítulos. “O nome dos artistas!”, respondi. E percebi naquele dia um pouco mais das dificuldades de quem esperava cartas e alguém para lê-las. Vez em quando, segurando um envelope aberto ela voltava: “Leia de novo!”.

Para quem cresceu e viveu longo tempo em cidades pequenas, Campinas era grande demais. Vovó, analfabeta, transitava pela cidade com desenvoltura e guardava a imagem formada pelos nomes das linhas de ônibus. Visitávamos vários locais e ela jamais errava o destino. Ansiosa, ficava atenta em cada veículo que se aproximava, escolhendo até mesmo entre duas linhas diferentes. “Vamos neste mesmo”. Uma vez em companhia dos filhos, guardava o nome e a localização de lojas, escritórios e consultórios. Nesses, quando em edifícios ela encarava cinco, dez andares de escada sem que houvesse algo ou alguém que a fizesse usar elevador. Em compensação, o fôlego era ótimo.

Em Campinas vovó era solitária. O marido e o filho mais velho doentes, os outros dois que moravam na cidade estavam casados e cuidando da própria vida. Ela, que também teve um sério problema de varizes, sentia falta dos netos que estavam em Ribeirão Preto e Uberaba. Uma imensa e dolorida ferida na panturrilha a acompanhou dali para a frente. Ela alegava ser resquícios de uma picada de aranha quando ela, menina, trabalhava na roça. Na calada, vovó elaborou um plano logo para resolver, no mínimo, a solidão.

Buscando médicos por todas as cidades possíveis encontrou um em Uberaba. Ele teria dito ser necessário acompanhamento contínuo por cerca de seis meses. Meus pais mantinham uma edícula no fundo do quintal que, naquele momento, estava desalugada. Vovó então propôs que ela se mudasse para lá durante o tratamento. Todo mundo acreditou e concordou com a ideia. Mudança feita, Vovó chamou meus pais, e a todos nós, quando tudo já fora colocado em seus lugares: “Só saio daqui se o Bino quiser ou se eu morrer”. Papai então informou a todos que ela só sairia de lá quando viesse a falecer.

A ferida na perna piorou e foi dela a primeira vez que ouvi estar acostumada com a dor. Isso não a impedia de estar entre nós participando de cada detalhe de nossas vidas e, particularmente, fazendo com minha mãe um delicioso pãozinho que eu trazia para São Paulo. Do dia em que minha avó faleceu ficou-me um momento definidor sobre meu avô. Quando o corpo chegou e o velório foi montado em nossa sala, ele que raramente saia da cama pediu para meu pai levá-lo até a ela. Debruçado e acariciando o rosto de vovó chorou feito criança. Choramos todos com ele.

Não careço de cacarecos de louça para recordar minha avó. Também não consigo me desfazer dos antigos jarros. Talvez tomem rumo de algum antiquário quando eu não estiver por aqui. Por enquanto, permanecem junto a outros objetos que me exercitam cotidianamente a lembrança de diferentes momentos que vivi. Entre esses, os mais suaves foram vividos com os meus, quanto todos tínhamos Vovó Maria.

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Com este texto da série “cacarecos, badulaques e bugigangas” comemoro 13 anos deste blog. Demais textos da série estão nos links abaixo. Leia, curta e compartilhe.

Pote de lobisomem e um pouco mais

Vavá e o copo campeoníssimo

A carretilha e os nossos quintais

A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )

Viagem Nº 2

Oh tristeza, me desculpe

Estou de malas prontas

Hoje a poesia veio ao meu encontro

Já raiou o dia, vamos viajar

               Estava aqui, com meus botões já gastos de tanto confinamento e, de repente, deixei a memória ir longe, onde tudo é possível. Com jeitinho, tudo é até melhor, mais bonito, mais saudável. Benditas lembranças que nos permitem ir para onde a gente bem quiser. E viajar está, desde sempre, entre as coisas que mais gosto. Pode ser para logo ali, ou lá, mais além-mar. No final da estrada, onde Judas perdeu as botas. Nos cafundós desse Brasil imenso…

Vamos indo de carona

Na garupa leve do vento macio

Que vem caminhando

Desde muito tempo, lá do fim do mar

               O vento me leva para a estrada, pela Via Bandeirantes, e só me sinto saindo de São Paulo quando passo pelo Pico do Jaraguá. Começam a surgir mesmices reflorestadas, mas verdes, plenas do verde e, em dias bons, do perfume de eucaliptos. Pensamento recorrente, ressinto-me da falta de verde e a memória me joga lá pra adolescência, em Uberaba, quando pegava a bicicleta e ia pra zona rural (Na época era zona rural). Passava o posto da Fepasa de Amoroso Costa e entrava no corredor de gado, passando por Rodolfo Paixão e sempre parando em encruzilhada, para onde era só mato, descansando e meditando sobre… nada.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

               Minha estrela está além da Bandeirantes, entrando pela Via Anhanguera afora até atravessar o Rio Grande e entrar em terras de Minas. O percurso é longo e, sem pressa, vou degustando a viagem. Nem passei por Jundiaí! De um lado da estrada a cidade, e do outro, fazendo uma linha com o horizonte, um campo de aviação onde é possível ver aviões decolando ou pousando. Aviões ínfimos se comparados aos maiores que, daqui a pouco, serão vistos à esquerda de quem sai de Sampa. Descem e sobem no rumo de onde deve estar Viracopos, onde trabalhei e depois, muito tempo depois, voltei como passageiro.

               Escolho deixar a Bandeirantes e entrar no primeiro trevo da Anhanguera, em Campinas. Penso nos meus avós, nos meus tios e sigo em frente. Passo pelo que restou da Bendix, onde trabalhei e, no lado oposto ao da empresa, vejo ao longe o bairro onde morou minha prima Dalva. Há muito não vou por lá.

Senta nessa nuvem clara

Minha poesia, anda, se prepara

Traz uma cantiga

Vamos espalhando música no ar

               Antes que Campinas fique para trás vem forte a lembrança de meu irmão. A entrada da Via Dom Pedro (nunca sei se é primeiro ou segundo) sai em direção ao bairro onde Valdonei morou. Sinto saudade e vou rezar por ele quando passar em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, que lá atrás o Pe. Líbero não quis como paróquia por estar isolada, muito isolada. Ela está próxima de escombros do que um dia foi a fábrica de óleos Minasa, onde também trabalhei. Por seis meses! Esse pedaço da estrada pesa um pouco. Melhor tocar em frente.

Olha quantas aves brancas

Minha poesia, dançam nossa valsa

Pelo céu que um dia

Fez todo bordado de raios de sol

               Deixo a mente vagar e só vou atentar para outra fábrica, de cachaça, em Pirassununga. Meu padrinho Nino era chegado em pinga. “… Porque gosto dela, bebo da branca, bebo da amarela, com limão, cravo e canela…” Em Pirassununga ele cumpriu obrigação de jovem, no exército. Meu pai gostava de atirar, se destacou em tiro ao alvo, no exército. Eu gosto de exército circunscrito ao exército, se estou sendo bem claro.

Vai demorar um bocado pra chegar a Ribeirão Preto. O reflorestamento ainda aborrece, mas já consigo ver resquícios de mata ciliar, de montes cobertos por… quem sabe, mata original. Há um imenso aclive no que pessoalmente chamo de Serra de Santa Rita. São quatro quilômetros de subida que sempre, na volta, descíamos na banguela economizando gasolina. E nem estava no preço que está hoje! Logo passarei por Cravinhos e por Ribeirão Preto.

Oh poesia, me ajude

Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias

Pelos campos verdes

Que você batiza de jardins-do-céu

               A Via Anhanguera tornou-se uma longa marginal que atravessa Ribeirão Preto. Em direção a Minas fiz todo o trecho que vai do trevo principal, entrada para a cidade, até o viaduto da Fepasa, sobre a estrada que, quando eu era criança, ficava em pleno mato. Duas caminhadas memoráveis:

Com papai e mamãe saímos de trem de Uberaba para Ribeirão Preto. A estação de trens era bem nova, mas estava no meio do mato. Por indicação da minha tia Olinda, descemos do trem e caminhamos pelos trilhos (quem está na estação de Ribeirão Preto é sentido Campinas) até o tal viaduto, descendo deste até a estrada e, mais uma boa caminhada, até chegar à Vila Abranches.

Dessa mesma Vila, outra vez saí com meu primo, caminhando pela estrada em direção oposta, até o trevo (na época era o único) e, entrando para a cidade, passávamos por uma fábrica de bolachas, de onde sempre vinha um cheiro delicioso de coisas assadas. Uma caminhada tranquila, interrompida por um temporal de verão. Entramos ensopados pela cidade e, como dois bons adolescentes, tomamos rumo da Praça XV de Novembro onde não tomamos chopp do Pinguim, mas tomamos sorvete sentados nos bancos da praça.

Mas pode ficar tranquila, minha poesia

Pois nós voltaremos numa estrela-guia

Num clarão de lua quando serenar

               Nunca mais voltei. A cidade passou a ser um ponto por onde vou ou volto. Passando pela Vila Abranches recordo canções ouvidas na infância, leite tomado quentinho, ouvindo o barulho dos animais todos da chácara de D. Dina. A estrada pede caminho, ir em frente, vou passar pelo Rio Pardo e olhar em direção a Jardinópolis, por onde gostava de passar quando viajávamos de trem. Em Orlândia, inevitável, vou recordar uma viagem com Tia Amélia, para visitar meus padrinhos Toninho e Rosária, queridos, muito gentis. Em São Joaquim da Barra passo por uma placa que anuncia faltarem 100 quilômetros para Uberaba. Dependendo do motivo da viagem rola desespero ou alívio…

               Pioneiros é um local que um dia foi chamado de Bacuri. Fica logo após São Joaquim da Barra e é um lugar da maior importância. Lá nasceu minha mãe, Laura, batizada no município vizinho. Não é o momento de entrar e rever as velhas casas que restaram da extinta estrada de ferro que, atualmente, passa longe dali. Passando por Buritizal já me sinto próximo de coisas de Guimarães Rosa. Minas está perto.

Ou talvez até, quem sabe,

Nós só voltaremos no cavalo baio

O alazão da noite

Cujo o nome é raio, raio de luar.

               Já estou ansioso e não vejo a hora de atravessar o Rio Grande, quando nunca deixei de pensar: cheguei! Minas tem um cheiro, um ar… Minas tem as montanhas, e logo após o Rio começa um brincar de montanha russa, com um sobe e desce de responsa. A memória, bendita memória. Essas longas subidas e descidas me lembram Beto Rockfeller, o inesquecível personagem interpretado por Luís Gustavo. Pra fazer firulas com a namorada, o Beto apostou que chegaria de helicóptero em uma festa. Para conseguir a aeronave, alegou aos proprietários que precisava levar um doente para Uberaba. Aquele sobe e desce horrível da estrada tinha que ser evitado e, para isso, só voando. Conseguiu.

               São angustiantes os minutos que antecedem passar pelo Catetinho, um antigo restaurante atualmente em ruínas. Às vezes parecem eternos, o trecho longo demais, enlouquecedor de tão longe. E o pior é ter a certeza de que, quando na volta, passará rapidíssimo, aumentando o distanciamento da cidade amada. Mas passo pelo Catetinho, logo, logo, por uma ponte sobre a estrada de ferro, e aí não tem mais lero-lero. Estou em Uberaba.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada

Que pensei perdida pela madrugada

Mas que vai escondida

Querendo brincar

Já sinto cheiro de café, pão de queijo, bolo… Sinto o calor de abraços, a ternura de beijos.

Estou com meus sobrinhos, meus irmãos, meus pais… Bendita memória! Benditas lembranças!

Com licença, tá na hora de curtir a família.

Até mais.

Notas:

Viagem (a número um, letra que me inspirou aqui) é canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Convido você, leitor, a ouvi-la na interpretação de Marisa, a Gata Mansa.

Uma caneca de Natal

Chegando de Ribeirão Preto, Tia Olinda sempre levava presentes, constantes mimos de alguém que gostava de agradar. Chegava sorridente, falante, e assim me entregou a caneca – que está aí na foto. Uma caneca agora cinquentenária… ou mais, não sei. Eu nem estava na escola! Ou seja, meu mundo era a família e o quintal, posto que a rua, o bairro e a cidade vieram depois. Com a caneca vieram algumas bolas coloridas, de vidro.

– Para você fazer sua árvore de Natal!

Disse-me a tia ao entregar o precioso presente. Lembro de ficar olhando, encantado, para aquelas coisinhas coloridas, leves e… mortais. Quando quebradas eram um perigo considerável diante das infinitas partículas do vidro.

Primeira árvore de Natal de que tenho notícia, mamãe pegou um galho dos muitos que haviam de árvores, arbustos e similares nos terrenos baldios próximos. Enrolou todo o galho e suas ramificações com algodão, branquinho.

– É para lembrar neve!

Tia Olinda, com o presente, levou minha mãe a comprar outros enfeites. Bolas, guirlandas, estrelas, tudo para enfeitar nossa primeira árvore natalina. Criou-se um hábito, mas… Havia o presépio da casa de D. Castorina, reproduzindo uma Belém artesanal, cheia de casas de barro, montes feitos de papelão, sob uma gruta imensa, iluminada com pequenas lâmpadas coloridas, destacando-se entre as estrelas, de papel laminado, a mais importante, orientadora dos magos quanto ao local de nascimento do Menino. Demorei, mas um dia tive o meu presépio.

Durante essa infância, cada vez mais distante, eram raros os Natais em nossa casa. Tínhamos o privilégio de viajar nos finais de ano. Natal a gente passava na casa da Tia Olinda, lá em Ribeirão, em memoráveis férias na nascente Vila Abranches, cheia de chácaras por todos os lados, com sua pracinha onde, às tardes, colocavam músicas para alegrar todos os moradores.

Éramos nove crianças! Mamãe Laura e minha tia Olinda saiam para a cidade (naquela época a Vila Abranches ficava longe de Ribeirão Preto!) e, entre outras coisas, compravam brinquedos que “Papai Noel” nos deixaria para fazer nossas manhãs cheias de brincadeiras com os presentes trazidos pelo bom velhinho. Antes da noite, escrevíamos cartões para os avós, os tios todos, o pai, a mãe… E toca esperar o carteiro pra ver de quem receberíamos uma mensagem.

Não tenho lembranças de comidas. Essas coisas que dizem ser tradição, hábitos de muitas famílias. Penso que as pessoas, crescendo, trocam a satisfação dos brinquedos, das árvores e dos presépios pela comilança, pela bebedeira. É o lado que menos aprecio. Aquele almoço cheio de coisas, levando todos para o sono pesado da tarde do dia 25. Eram bem melhores os dias em que, rapidamente, tomávamos as refeições e voltávamos a explorar as possibilidades dos novos brinquedos.

Frutas natalinas eram o “must” da noite de ano novo, quando já longe de Ribeirão Preto, íamos todos para a casa de minha avó materna, em Campinas. Nozes, avelãs, amêndoas, castanhas e figos secos portugueses. Também uvas passas! As mesmas uvas passas que, nos últimos tempos, gente chata fica enchendo a paciência alheia. – É só não comer! (aqui está omitido um belo palavrão em função do espírito natalino).

Em Campinas, na mesma casa ficavam todos os irmãos de mamãe, meus irmãos e todos os primos. Éramos todos vivos, felizes, e por estarmos assim, lamento hoje, não percebíamos que meus avós já não tinham seus pais, seus tios… Esses mesmos pais e tios que todos temos e que, hoje, não tenho mais. Propiciando-nos noites de Natal e Ano Novo, esforçando-se para nos darem o máximo, deixavam de lado suas lembranças tristes, suas perdas irreparáveis. E, penso, é assim que deve ser!

Ontem comecei a brincar de Natal. Tirei do armário as velhas caixas e fui inventar nova maneira de dispor as coisas. Não espero crianças em casa, mas vai que apareça alguma. Ou mesmo algum adulto. Quem sabe meu presépio não desperte lembranças boas, ou mesmo crie outras. Mas, na real, meu presépio é para nós, que estamos aqui, neste ano tão complicado e diferente.

É linda a lembrança do primeiro Natal, aquele de 2020 anos atrás, quando nasceu uma criança, o Deus feito menino. São lindas as lembranças de todos nós; isso, se nos atermos às primeiras visões de um brinquedo, uma árvore cheia de cacarecos, um presépio pra lá de estilizado, as pessoas todas juntas abrindo presentes, trocando afetos.

Talvez escreva sobre os presentes de Natal que ganhei na infância. Era época em que o consumismo não determinava excessos e ganhei poucos, mas inesquecíveis brinquedos. Talvez!

Neste ano, é lamentável que a pandemia nos impossibilite grandes encontros. Cabe aqui uma postura, uma decisão: Podemos ter noites de reclamações, ou podemos dar graças por estarmos vivos. E se as reuniões forem precárias, limitadas, temos lembranças para preenchê-las. E objetos que nos suscitam lembranças, como a minha caneca, dada pela minha tia Olinda, que morava em Ribeirão Preto, onde passávamos os natais, esperávamos Papai Noel…

Um bonde de lembranças

Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.
Em Santos, o bonde que me trouxe lembranças.

A Rua Ari Barroso, no bairro Taquaral, em Campinas, me é bastante cara. Nela moravam meus avós. A casa ficava em esquina com a Rua Antonio Bonavita. A linha da Companhia Mogiana corria paralela à Rua Ari Barroso e do alpendre da minha avó avistávamos as pessoas chegando ou saindo da cidade. O trem passava sempre rápido, e a imagem da minha avó, de pé, acenando, continua presente. Era aceno feliz saudando os parentes que chegavam; era aceno triste, cheio de lágrimas quando as filhas e netos voltavam para Uberaba ou Ribeirão Preto.

Um pouco abaixo da linha de trem havia outra linha, do bonde que ia para o “furazóio”, na época, o fim da cidade. Ambas as linhas ficavam entre a Ari Barroso e o Ribeirão das Anhumas, que naqueles tempos era um triste córrego, esgoto a céu aberto. Quem estava no trem, de longe, sabia o ponto exato da casa de meus avós porque havia duas árvores, rentes à linha, quase em frente à Rua Antonio Bonavita. Às vezes, ficávamos aguardando o trem ao lado dessas árvores e era possível ouvir com clareza as palavras de despedidas ditas pelos passageiros. De lá, também, avistávamos o bonde, com o barulho do motor propulsor, mais a haste arrastando-se na rede elétrica, fazendo som peculiar. Eu adorava bondes.

Os bondes de Campinas tinham as laterais abertas e os bancos eram sem divisões, indo de uma lateral à outra. Sobre os estribos o trocador cobrava as passagens e o motorneiro seguia tranquilamente para seu destino. Quando muito frio, ou com chuva, havia uma espécie de cortinas que fechavam as laterais, protegendo as pessoas das intempéries do tempo.

José e Maria, meus inesquecíveis avós.
José e Maria, meus inesquecíveis avós.

Eram tempos felizes porque éramos dez netos aboletados na casa dos avós, brincando, lendo revistas, assistindo televisão que, pra nós, era grande novidade. Falava-se muito! Uma pequena pinimba entre meu padrinho Nino e meu tio Manoel questionava qual seria a maior cidade: Ribeirão Preto ou Campinas. Tio Manoel, de Ribeirão, afirmava ser esta maior que Campinas. Pra tirar a teima o tio Nino resolveu nos levar até ao mirante do castelo, para lá de cima constatar o quanto Campinas era maior que Ribeirão Preto. Hoje, infelizmente, o Google resolveria a questão em segundos; graças a Deus, sem a web, ganhamos um belo passeio no domingo seguinte, pela manhã. De bonde!

Dito e feito, no domingo seguinte dez netos saíram da cama e foram constatar o tamanho de Campinas nos anos de 1960. Voltando pra casa, era mês de janeiro, viemos em outro bonde, uma linha que terminava na Avenida Nossa Senhora de Fátima. Uma tempestade imensa caiu sobre a cidade e, já quase molhados no bonde, descemos sob a chuva para a casa da avó, ensopados e felizes. Não recordo nada ruim desse dia. Estávamos encharcados e famintos, doidos pra chegar e almoçar as delícias feitas por nossas mães, nossa avó.

Depois, já crescido, habituei-me com velha piada do mineiro que compra bondes. Eu compraria bondes; muitos! Em um país tropical, como o nosso, ter meios de transporte arejados seria sinal de inteligência. Evitaríamos todas as mazelas do ar condicionado, da lataria quente dos meios atuais. No final desta semana, em Santos, em frente ao hotel estava o bonde que me fez escrever esta história, lembrar o porquê de gostar tanto desse meio de transporte. Bonde me traz a Campinas dos meus avós, de toda a minha família, de reuniões de férias sempre alegres e cheias de brincadeiras.

Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.
Bendita internet. A rua, a esquina e o espaço onde estavam as linhas.

Bendita internet. A casa ainda está lá. Vejo alterações, fico ressentido e não me permito divulgar imagem de uma casa que já não é mais nossa. Mas, o outro lado… Das linhas, raros sinais. Nem trem, nem bonde. Sem acenos, sem poesia.  Pelo menos há árvores e, me parece, pássaros, espaços para lazer. Todavia, eu adoraria ouvir aquele barulhinho do bonde, passando tranquilo, arejado, indo e vindo, incansável e, na minha lembrança, cheio de pessoas felizes.

Até mais.

Nosso Deus, o celular

nosso deus, o celular

Nesta manhã li que uma mãe atirou o filho na parede porque ficou nervosa ao ver a criança mexer no celular. O garoto, de dois anos, faleceu. Ela escondeu o menino de dois anos no interior de um sofá e, depois, acionou a polícia denunciando o desaparecimento da criança. O fato nos dá a medida extrema do lugar ocupado pelo poderoso aparelho em nosso cotidiano.

Tenho a impressão de que o menor uso do celular, na atualidade, está no objeto como meio de comunicação em si, indispensável. O que é realmente necessário dizer ao nosso interlocutor? Se alguém diz que vai para algum lugar, quando nos comprometemos a comparecer a tal encontro, qual a real necessidade de ligações do tipo “estou saindo”, “estou no trânsito” “já estou aqui”? Ontem presenciei quatro ligações “importantíssimas” de uma companheira de viagem. Na rodoviária: “- já estou dentro do ônibus”; após a partida: “-Acabamos de sair”; uma hora e pouco depois: “- Onde você estava, porque não atendeu? Fiquei ligando, ligando… já passamos Ribeirão Preto”. Mais tarde: “- Já passamos Jundiaí” e, poucos minutos depois: “-Entramos na Marginal”. Não me cabe julgar o que cada um classifica como importante para ser comunicado. Casos como o que presenciei ontem, penso, são para psicólogos.

O celular comporta um monte de joguinhos. Também li que esses passatempos são ótimos e atendem diferentes tipos de necessidades. Aqui, acredito que é só estabelecer o que é passatempo e distinguir isso de vício que tá tudo bem. Vício, é bom lembrar, instala-se sorrateiramente em nossas vidas. Afirmamos que bebemos socialmente, fumamos só um pouquinho e todos nós sabemos como, sem controle, onde isso vai parar.

Quando dizem que o celular é instrumento de trabalho, parceiro para alguns, ele não deixa seu caráter fundamental de meio de comunicação. Acessamos nossas contas bancárias, participamos de reuniões estando do outro lado do planeta, vendemos e compramos tanto o necessário quanto o cacareco inútil e por aí vai. O celular, e todo avançado derivado desse, é o grande e poderoso meio de comunicação do século XXI.

O ser humano nunca se contentou em ser um minúsculo ponto diante da grandiosidade do planeta. Na atual fase da nossa civilização extrapolamos os limites físicos e criamos um mundo virtual. Estamos neste através da informática, com infinitas possibilidades, limitada para um considerável contingente que se contenta em usufruir tão somente das redes sociais. Tenho a impressão de que é aqui que reencontro a mãe do garoto assassinado em Minas Gerais.

Pessoas que residem em cidades praieiras convivem com a falsa igualdade propiciada pelo traje de banho. Seminus, bronzeados, alegres ao sol, parecemos todos iguais perante um belo verão. Temos essa possibilidade “melhorada” no mundo virtual. Tiramos as manchas da pele, as rugas e somos amigos de personalidades importantes, de artistas. Nas redes sociais esbanjamos felicidade; a comida é farta, a bebida é abundante. Ampliamos nosso mundinho para milhares de amigos e, suprassumo da rede, somos seguidos por outros. Nas redes, conta mais quem tem maior número de seguidores. Quando isso não ocorre, contentamo-nos em seguir, em fazer parte da vida de quem admiramos. Nas redes sociais podemos simular o mundo que queremos.

O telefone de antigamente era pra falar com o parente distante, chamar o médico, a polícia, os bombeiros. Usávamos o dito cujo até para conversar com amigos, mas tínhamos o limite da conta telefônica – sempre caríssima! – e a restrição da família, já que era raro mais que um aparelho por residência. Hoje, quase todo mundo tem telefone. Smartphone é o termo adequado. Isso é muito bom; um inquietante receio é o de que algumas pessoas, como a tal mãe, tenha só o tal smartphone. Um aparelho que subverte a realidade da pessoa colocando-a em um mundo por essa idealizado. Quando esse mundo é ameaçado a reação é brutal e, horror dos horrores, uma mãe joga o pequeno filho na parede.

Seria estúpido condenar à fogueira tanto o celular quanto seus usuários. A história já teve sua cota de fogueiras que só fizeram retardar, por pouco tempo, o avanço propiciado por novos objetos, novas tecnologias. Longe de proibir, de impedir, cabe educar. Esse triste fato volta a fazer com que se bata na mesma tecla da educação, da formação adequada que é direito de todo e qualquer cidadão. O processo educacional é algo demorado e grandes transformações  levam tempo. Mas não custa insistir na reflexão. Todas as instituições que buscam o bem comum podem discutir e orientar as pessoas para o uso adequado do celular, da internet e similares. O assassinato do garoto mineiro é um ápice, a ponta de um iceberg que tende a crescer.

 

Até mais!