Nosso Deus, o celular

nosso deus, o celular

Nesta manhã li que uma mãe atirou o filho na parede porque ficou nervosa ao ver a criança mexer no celular. O garoto, de dois anos, faleceu. Ela escondeu o menino de dois anos no interior de um sofá e, depois, acionou a polícia denunciando o desaparecimento da criança. O fato nos dá a medida extrema do lugar ocupado pelo poderoso aparelho em nosso cotidiano.

Tenho a impressão de que o menor uso do celular, na atualidade, está no objeto como meio de comunicação em si, indispensável. O que é realmente necessário dizer ao nosso interlocutor? Se alguém diz que vai para algum lugar, quando nos comprometemos a comparecer a tal encontro, qual a real necessidade de ligações do tipo “estou saindo”, “estou no trânsito” “já estou aqui”? Ontem presenciei quatro ligações “importantíssimas” de uma companheira de viagem. Na rodoviária: “- já estou dentro do ônibus”; após a partida: “-Acabamos de sair”; uma hora e pouco depois: “- Onde você estava, porque não atendeu? Fiquei ligando, ligando… já passamos Ribeirão Preto”. Mais tarde: “- Já passamos Jundiaí” e, poucos minutos depois: “-Entramos na Marginal”. Não me cabe julgar o que cada um classifica como importante para ser comunicado. Casos como o que presenciei ontem, penso, são para psicólogos.

O celular comporta um monte de joguinhos. Também li que esses passatempos são ótimos e atendem diferentes tipos de necessidades. Aqui, acredito que é só estabelecer o que é passatempo e distinguir isso de vício que tá tudo bem. Vício, é bom lembrar, instala-se sorrateiramente em nossas vidas. Afirmamos que bebemos socialmente, fumamos só um pouquinho e todos nós sabemos como, sem controle, onde isso vai parar.

Quando dizem que o celular é instrumento de trabalho, parceiro para alguns, ele não deixa seu caráter fundamental de meio de comunicação. Acessamos nossas contas bancárias, participamos de reuniões estando do outro lado do planeta, vendemos e compramos tanto o necessário quanto o cacareco inútil e por aí vai. O celular, e todo avançado derivado desse, é o grande e poderoso meio de comunicação do século XXI.

O ser humano nunca se contentou em ser um minúsculo ponto diante da grandiosidade do planeta. Na atual fase da nossa civilização extrapolamos os limites físicos e criamos um mundo virtual. Estamos neste através da informática, com infinitas possibilidades, limitada para um considerável contingente que se contenta em usufruir tão somente das redes sociais. Tenho a impressão de que é aqui que reencontro a mãe do garoto assassinado em Minas Gerais.

Pessoas que residem em cidades praieiras convivem com a falsa igualdade propiciada pelo traje de banho. Seminus, bronzeados, alegres ao sol, parecemos todos iguais perante um belo verão. Temos essa possibilidade “melhorada” no mundo virtual. Tiramos as manchas da pele, as rugas e somos amigos de personalidades importantes, de artistas. Nas redes sociais esbanjamos felicidade; a comida é farta, a bebida é abundante. Ampliamos nosso mundinho para milhares de amigos e, suprassumo da rede, somos seguidos por outros. Nas redes, conta mais quem tem maior número de seguidores. Quando isso não ocorre, contentamo-nos em seguir, em fazer parte da vida de quem admiramos. Nas redes sociais podemos simular o mundo que queremos.

O telefone de antigamente era pra falar com o parente distante, chamar o médico, a polícia, os bombeiros. Usávamos o dito cujo até para conversar com amigos, mas tínhamos o limite da conta telefônica – sempre caríssima! – e a restrição da família, já que era raro mais que um aparelho por residência. Hoje, quase todo mundo tem telefone. Smartphone é o termo adequado. Isso é muito bom; um inquietante receio é o de que algumas pessoas, como a tal mãe, tenha só o tal smartphone. Um aparelho que subverte a realidade da pessoa colocando-a em um mundo por essa idealizado. Quando esse mundo é ameaçado a reação é brutal e, horror dos horrores, uma mãe joga o pequeno filho na parede.

Seria estúpido condenar à fogueira tanto o celular quanto seus usuários. A história já teve sua cota de fogueiras que só fizeram retardar, por pouco tempo, o avanço propiciado por novos objetos, novas tecnologias. Longe de proibir, de impedir, cabe educar. Esse triste fato volta a fazer com que se bata na mesma tecla da educação, da formação adequada que é direito de todo e qualquer cidadão. O processo educacional é algo demorado e grandes transformações  levam tempo. Mas não custa insistir na reflexão. Todas as instituições que buscam o bem comum podem discutir e orientar as pessoas para o uso adequado do celular, da internet e similares. O assassinato do garoto mineiro é um ápice, a ponta de um iceberg que tende a crescer.

 

Até mais!

3 comentários sobre “Nosso Deus, o celular

  1. Enquanto não houver uma mudança drástica no modo como nossos governantes tratam a educação, casos como esse, serão apenas mais um. Triste. Grande análise Valdo.

  2. Maria Isabel

    Valdo, boa reflexão, principalmente porque você chega à questão da educação. Acho até melhor o termo formação, porque talvez confunda menos com educação formal, e eu penso que muito além da educação formal o que faz falta é a formação de valores, de caráter. Também o amadurecimento. Essa mãe de 19 anos, se não estou enganada, não estava preparada para ter um filho, assim como muitas outras mães (e pais também) mais jovens, mais velhas, muito mais velhas ou da mesma idade. Elas encaram os pequenos filhos como adultos, só que adultos sobre quem têm total poder. Na maior parte do tempo, os filhos são vistos como estorvo. O celular é um objeto onipresente e muitos o consideram seu bem mais precioso, mas me arrisco a dizer que a atrocidade poderia ter ocorrido também se o filho estivesse brincando com o batom ou a presilha de cabelo. Triste assim.

  3. Mestre Valdo, isso é um ser egoísta.

    Tende a aumentar mediante a falta de cultura das pessoas, concluo que;

    Essa mãe, possivelmente foi uma criança desregrada, que na sua adolescência virou mãe, sem perfil ou sequer instinto materno, abdicou da existência do filho por causa da merda do celular.

    Eu quero é mais que o meu filho quebre mais ainda meu celular, porque rolar na grama com ele e as brincadeiras que faço tem um sorriso cujo valor é incalculável!

    Como sempre, texto excelente.

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