O não como resposta

Destruição em Brasília (Crédito da imagem: Ricardo Stuckert)

Certamente muito será pensado e refletido sobre os ataques criminosos ocorridos em Brasília nesse 08 de janeiro. A primeira e triste constatação é que tal fato expõe a incapacidade humana de viver em harmonia. Somos animais e chegamos a ser violentos quando nossas vontades não são satisfeitas. Carecemos da imposição de um imenso complexo de leis para que possamos conviver minimamente em paz.

Trabalhando com educação por mais de trinta anos recordo uma companheira, Regina Cavalieri, que ao dirigir e coordenar uma instituição com milhares de alunos ficava (e ainda fica!) estarrecida com a incapacidade de algumas famílias na educação dos filhos. E dentre vários aspectos vivenciados pela professora quero especificar um: a incapacidade de certos alunos em ouvir o “não”. São expressões geradoras de imensos conflitos no dia a dia da educadora quando a ela compete dizer: “Não pode!”, “Não é permitido!”, “É o regulamento!”, “São as normas!”, “Está no contrato!”. Essas expressões, ou similares, são verdadeira morte para alguns alunos que, perceptivelmente, nunca foram contrariados.

São conflitos advindos de situações simples, tipo respeitar um horário ou cumprir datas. Há as situações complexas, onde a integridade e a honestidade estão presentes: “eu não estava olhando para a prova do meu colega” e, drama dos dramas, “como o professor me deu nota baixa?”. Esses alunos quando contrariados em suas expectativas têm no professor um inimigo e, infelizmente, muitos contam com o apoio dos pais: “O senhor é muito rígido, isso não é educar!” diz o pedagogo formado pelo WhatsApp.

Caríssima Regina, quantos ontem, em Brasília, estão entre os que não aceitam um não como resposta? Perderam! Não terão seu candidato no poder! Não estão acima das leis! Não estão acima da ciência! Não estão acima do Estado Democrático de Direito! Não podem invadir! Não podem quebrar! Não podem roubar! Quebraram e destruíram como se aquilo não fossem deles, pois a pátria e a família deles são outras, permissivas, que não suportam propósitos não atendidos.

É difícil para qualquer pessoa dizer um “não”. Ter determinação, princípios e coragem para, evitando a admiração fácil de bajuladores e interesseiros, dizer “Não” em função de algo estabelecido e acordado socialmente. Ter força e coragem para, ignorando possíveis e transitórias vantagens, manter um não como resposta. Também é difícil para um casal, despreparado, estabelecer os limites necessários para a educação de filhos. O “você pode tudo” de incautos e irresponsáveis causa, entre outras sensações, uma frustração que, fora de limites, gera a violência e o crime.

Em Brasília houve destruição e barbárie onde uma turba, ignorando princípios básicos até mesmo de autopreservação, cometeu e expos seus crimes nas redes sociais. Mais que inconsequência e burrice, o que fica evidente é que tais indivíduos não aceitam o não, a perda, a derrota. Ensandecidos, certamente serão refreados pela força da lei e ficarão por aí, acuados, revoltados, aguardando uma nova oportunidade. Ou alguém acredita que essa gente possa mudar? Com transformações ou não, o que se espera é não ter que conviver com a falta de limites dessa gente e, portanto, para uma convivência minimamente possível é necessário que todos paguem pelos crimes cometidos.

Ontem fui lembrado por uma ex-aluna para quem lecionei História da Arte. Karina Morgon estava indignada pela destruição, entre outras, da tela de Di Cavalcanti. Seria possível afirmar que a sensação da moça decorreu do conhecimento. Não! A universidade deu a ela uma dimensão social do objeto, um valor advindo da inserção desse objeto no mercado e na história da arte. Mas não fomos nós, professores, que ensinamos a ela os princípios básicos do respeito ao outro, da necessidade de cuidar e preservar o bem coletivo, de aceitar derrotas, de conviver com perdas e, acima de tudo, respeitar o outro. Aqui entraram outros componentes sociais como a família, a religião, outras escolas e cursos, o esporte, outros grupos. Tudo que, ao que parece, a turba de vândalos não demonstra ter tido.

Tá certo, Seo Leôncio?

Quando o personagem principal da novela Pantanal se recusa a falar em política, dá o que pensar. O mais óbvio, e espero que não passe desapercebido aos noveleiros de plantão, é a omissão em colocar todos os pingos nos “is” da questão já que, entre os principais anunciantes da Globo, está o famigerado “agro é pop”. Marcos Palmeira, brilhante ator, faz até que a gente concorde que, ao invés de uma morte comum, a personagem José Leôncio vire espírito de luz, um encantado. Ele e Osmar Prado (Velho do rio) são destaques na novela em que Isabel Teixeira (Bruaca) roubou a cena tornando-se o principal destaque feminino.

Novela, a gente sabe, não é território de educação, exceto para o que não compromete. Para ficar no reino do faz de conta e bancar a legalzinha, certinha, tudo o que é ruim está longe da fazenda, para fazendeiros que não tem nome e endereço. A família Leôncio faz tudo certinho no que se refere ao meio ambiente, à criação de gado. Se bobear, vira tudo santo… E toca o berrante, e toca a boiada! E Maria Bethânia nos faz acreditar que somos todos filhos do Pantanal. Segunda-feira começa outra novela e o Maranhão entrará em cena.

A população distraída com as eleições, alguns só com a novela, nem percebeu o bloqueio de R$ 2,4 bilhões na educação. DOIS DIAS ANTES DAS ELEIÇÕES! Bora entender e lembrar fatos: Quinta-feira aconteceu um debate que foi até de madrugada. Sexta-feira os candidatos correram para ultimar tentativas de voto e, como é hábito desse governo, aproveitando a distração, “passou boi, passou boiada” e fez o corte no orçamento. O segundo! Em junho o governo federal já havia feito outro corte.

Quem sai perdendo? Prioritariamente o pobre! Alunos de baixa renda, usuários dos restaurantes das instituições e, no geral, nos Campi faltará água, luz e verba para pesquisas (para novas vacinas, por exemplo).

Pobre país! Na novela de maior audiência, onde não se vê dinheiro circulando, os jovens personagens são seres absolutamente geniais. Sem estudo especializado, os filhos de ambas as fazendas cuidam de tudo. Tudo! Sabem de tudo, como se cuidar de gado não demandasse, no mínimo, prática. Aliás, quem tem prática e a partir dela um conhecimento extraordinário é chamado de peão. Os outros, pilotam aviões, instalam internet e tocam berrante. Olha como é fácil! O filho mais velho chegou de carona, dizendo-se Zé Ninguém para, em seguida, tornar-se político, pronunciar falas sobre direito melhor que advogado, enfim… basta ter dinheiro para saber das coisas.

Para a maioria da população o estudo é fundamental! Nem todo mundo pode seguir os rumos do pai e virar o que quiser. Muito porque os pais, pretendendo vida melhor para a prole, prefere que os filhos progridam, façam outra coisa. Vi, na minha carreira como professor universitário, a mudança de “clientela” das universidades privadas. Se no princípio tive como alunos os filhos de famílias abastadas, com a abertura de unidades em diferentes bairros e cidades mais o surgimento de programas sociais vi, só na universidade onde trabalhei mais tempo – 26 anos –, o número de alunos ultrapassar os 200 mil.

Por mais delicado que uma educação massiva possa ser, pois com ela ocorrem problemas diversos. Dois exemplos: profissionais qualificados – Professores. Não basta abrir escola, há que se ter gente habilitada – e para exemplificar nas duas pontas da situação, a absorção dos alunos formados pelo mercado. É preciso que abram frentes de trabalho para todos, principalmente os que não tem pais políticos, donos de fazenda, de casas comerciais ou polos industriais.

A chance de uma pessoa progredir sem ser alfabetizada é mínima. Há que, no mínimo, aprender a redigir mensagens e ou formular essas em gravações de WhatsApp. E para ficar nos prestadores de serviço, ter no celular mapas para orientar destino sem saber lê-los não resolve muito. Rola por aí notícias de empreendedorismo e ideias de meritocracia! A matemática é o que nos faz realizar contas mínimas sobre quanto teremos para chegar ao final do mês, quantos anos teremos que trabalhar para adquirir casa própria. E por aí vai…

Cortar verbas na educação é, fundamentalmente, manter o pobre no lugar onde está. Vai afetar pouco a população de classe média, essa que paga convênio médico absurdo. Corta o convênio para pagar o colégio. Deixa-se para depois colocar o aparelho para alinhar dentes tortos e, para depois, também fica a plástica para cortar aqui, aumentar ali… Classe média faz dívidas e pensa que tem casa e carro, quando na real passa metade da vida pagando prestações da casa e a vida inteira pagando prestações do carro. Esnoba a escola pública e paga fortunas para escolas particulares, brigando todo início de ano por conta do preço do material escolar e do aumento das mensalidades.

Quando professor e indo para o trabalho de trem, descendo na Estação Água Branca, em São Paulo, o que mais me incomodava era perceber a quantidade imensa de jovens voltando do trabalho PARA CASA. Poucos iam para uma escola, colégio ou faculdade. Quantos mais por aí? Milhares, milhões? A falta de escola nos leva a ter um número incalculável de pessoas com dificuldades de interpretação de texto, de percepção de contexto, dos pretextos e intertextos dentro de uma determinada mensagem. Está nessa situação uma razão contundente dos efeitos de fake news absurdas. Está na falta de uma educação apurada a dificuldade em entender que em cena como a “última viagem do pai com os filhos, o que Marcos Palmeira fez foi uma ode a princípios básicos da famigerada Tradição, Família e Propriedade. Quantos fãs da novela se perguntam o real significado da personagem terminar falas e cenas com um “tá certo”?

Próxima semana começa nova novela. A educação continuará com seus problemas… E se a gente não fizer algo, terminaremos nossos problemas da mesma forma que o Seo Leôncio. Só que, a gente sabe, “NÃO TÁ CERTO!”

O País dos Doutores!!!

Talvez o Brasil seja no mundo, e proporcionalmente, o país com mais doutores… sem doutorado. O sujeito é bacharel aqui, possui uma licenciatura ali, ou simplesmente usa terno e gravata e já é recebido prontamente com um: “Pois não, doutor!”. Há casos em que o sujeito, filho de um patrão, também recebe o título na forma de tratamento e, carinhosamente, vira “doutorzinho”. Também há situações em que o indivíduo, devidamente paramentado, abre um consultório médico ou dentário e… “Com licença, doutor!”

Conhecimento, ninguém nega, é sinônimo de poder; então, alguns setores habituados a não dividirem o pão dificultam o conhecimento aos que não tem, nem meios para comprar esse alimento, nem para pagar uma escola. História: De 1500 até 1759 os brasileiros foram educados basicamente pelos Jesuítas, que nos tornaram um país católico (E tem imbecil apregoando que a escola não é ideológica). E toca a ignorar as manifestações religiosas indígenas, a abafar as religiões que entraram no país junto com os africanos escravizados. Os mais abastados estudavam em Portugal.

Constituição Brasileira, a gente vê todo o dia, é algo discutível. Uns não cumprem, outros querem acabar com ela, outros a ignoram… A Constituição de 1824 assegurou instrução primária e gratuita a todos os cidadãos (300 depois da invasão portuguesa!). Se considerarmos a pesquisa do IBGE de 1918, que nos informa que temos 11,3 milhões de analfabetos, podemos afirmar que desde 1824 não respeitamos a Constituição Brasileira. Ora, em meados dos 1800 criaram os cursos de Direito. Nessas, o aluno ficava estudando durante longos cinco anos. Quem vai deixar de chamar de doutor a um sujeito tão estudioso? Só que o indivíduo saía das escolas como bacharel. Bacharel é o indivíduo graduado! O iletrado não sabia disso, passou a chamar o sujeito de doutor…

Para se ter uma ideia da importância do Direito, em nosso país, chegamos ao 38º Presidente e, desses, 21 cursaram Direito. Tancredo Neves, o que foi sem ter sido, também cursou Direito, o que elevaria para 22 “doutores” na presidência? Não. Da lista, apenas dois (2) cumpriram exigências acadêmicas para tanto: Afonso Pena e Michel Temer. Entre os Presidentes oriundos de outras áreas temos um único doutor, o Fernando Henrique Cardoso. O médico Juscelino Kubitschek foi especialista em urologia. Não foi doutor. Mas… quantos não chamam de doutor aos bacharéis em medicina?

E aí… apareceu uma cidadã, Damares Alves, que segundo o Jornal Folha de São Paulo, a dita senhora costumava apresentar-se como Mestre em Educação e Direito. Confrontada, ela apelou para os céus, de onde segundo ela vem os títulos de mestres, e não em instituições que oferecem Mestrado.

E agora… apareceu um cidadão, convidado para o Ministério da Educação. Carlos Alberto Decotelli quase chegou lá, ao doutorado, obtendo os créditos para o título. Créditos, nunca é demais informar, é um conjunto de atividades exigidas para o bacharel, ou licenciado, antecedendo a avaliação final, quando o pretendente defende publicamente uma tese. Esse “publicamente” da tese é de fundamental importância. Pois pode haver contestação. Não havendo, o sujeito se torna indiscutivelmente um doutor.

Bom, estamos no Brasil onde, segundo Ari Barroso, coqueiro dá coco. Então, para você, que chegou até aqui, meu muito obrigado, algumas perguntas e possíveis reflexões após as mesmas:

– Em relação à Damares, estão fazendo ou não maior escarcéu que com o Sr. Decotelli?

– O plágio do cidadão de bem Sergio Moro vai ficar por isso mesmo? Sim, o juiz impoluto apresentou artigo com plágio. A culpa está sendo creditada à Beathrys Ricci Emerich, parceira do ex-ministro na redação do artigo.

– Beathrys é ou não é nome decidido em sessões de numerologia?

– Se tivemos dois presidentes sem formação universitária, Café Filho e Lula da Silva, um senhor graduado, Mestre pela Fundação Getúlio Vargas, com créditos aprovados para doutorado, não pode ser Ministro?

Orientação para possíveis respostas, por gentileza, pesquisem: Falsidade ideológica, má-fé, estelionato, falcatrua, fraude, embuste… enfim, mau-caratismo.

Até mais.

Ensinar criatividade

Neste final de semanas demos o start ao lançamento do curso de Criatividade e Inovação no Ambiente Corporativo, através da Competency do Brasil. Volto a lecionar uma matéria que adoro e que, há muito, venho pesquisando, estudando e buscando aperfeiçoamento. Escolhi imagens de 1998 para ilustrar este post, quando já dava aulas práticas e teóricas de criatividade na Unip, no curso de Propaganda e Marketing.

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Lúcia foi quem me presenteou com as fotos! 

O melhor livro que conheço sobre o assunto só sairia quatro anos depois, quando Domenico de Masi publicou La Fantasia e la Concretezza. A edição brasileira saiu no ano seguinte com o nome Criatividade e Grupos Criativos entregando, já no título, um dos aspectos caros ao autor: a criatividade enquanto fruto de uma coletividade.

Penso no indivíduo criativo como aquele que, frente aos problemas, sabe buscar soluções, criá-las e, quem sabe, até inovando aspectos antes não percebidos ou registrados. Fundamentalmente, quando se trata de ensino da criatividade, acredito que o educador deve respeitar a evolução do aluno (o que é novidade para este pode ser algo já manjado para alguém experiente), alertando o mesmo para a necessidade contínua de ampliar e aprofundar o próprio repertório.

O indivíduo criativo raramente trabalha só, daí a importância do grupo, do ambiente, da sociedade na qual ele está inserido. Todos nós precisamos de parcerias, imprescindíveis em todas as épocas, para todo e qualquer ramo da atividade humana. Qual a real importância do Papa Júlio II na vida e obra de Michelangelo? Quem foi a figurinista responsável pelo vestuário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa durante o Tropicalismo? Quem foi o editor que leu com atenção devida a obra de Guimarães Rosa?

Sobram exemplos no estudo da criatividade enquanto fato coletivo, resultado de parcerias. Ecoam até hoje os efeitos dos 18 anos de parceria entre a inglesa Margot Fonteyn e o russo Rudolf Nureyev. Os indivíduos que olham o futebol com a frieza profissional necessária sabem da importância de médicos, massagistas, treinadores, além dos próprios parceiros de gramado no reinado de Pelé. E, outro aspecto não menos importante: a fundamental contribuição de pedreiros, engenheiros e demais profissionais da construção civil na concretização dos fantásticos projetos de Oscar Niemeyer.

É pensando nesse tipo de situações que busco exercitar e ensinar a criatividade, via algo que Domenico de Masi colocou em palavras e que sigo com dedicação e seriedade: “EDUCAR UM JOVEM OU UM EXECUTIVO PARA A CRIATIVIDADE HOJE SIGNIFICA AJUDÁ-LO A IDENTIFICAR SUA VOCAÇÃO AUTÊNTICA, ENSINÁ-LO A ESCOLHER OS PARCEIROS ADEQUADOS, A ENCONTRAR OU CRIAR UM CONTEXTO MAIS PROPÍCIO À CRIATIVIDADE, A DESCOBRIR FORMAS DE EXPLORAR OS VÁRIOS ASPECTOS DO PROBLEMA QUE O PREOCUPA, DE FAZER COM QUE SUA MENTE FIQUE RELAXADA E DE COMO ESTIMULÁ-LA ATÉ QUE ELA DÊ LUZ À UMA IDÉIA JUSTA”.

O mundo de hoje não está fácil. Só pra se ter uma ideia do que me ocorre a partir da proposição de De Masi: IDENTIFICAR A VOCAÇÃO AUTÊNTICA implica em refletir sobre muitas variáveis que vão desde o aspecto financeiro, passando pela região geográfica em que se está inserido, ou as implicações sociais de nossas escolhas. Ensinar alguém a escolher PARCEIROS ADEQUADOS envolve desde interesses, tempo e lugar, quanto família, igreja, negócios e por aí vai, sendo que os demais aspectos sugeridos (CONTEXTO, FORMAS DE EXPLORAÇÃO DO PROBLEMA, RELAXAMENTO E MEIOS DE ESTIMULAR A PRÓPRIA MENTE) deverão merecer abordagem semelhante para o exercício da criatividade individual e coletiva.

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Esse assunto me apaixona. E penso que seja do interesse geral e, especificamente, daqueles que frequentam este blog. Pretendo um post semanal – SEMPRE DE DOMINGO PARA SEGUNDA – sobre o assunto. Comente, envie sugestões, dúvidas. Vamos ter uma ideia mais ampla do assunto e de como penso tratar o mesmo em situação de ensino. Sugestões são bem-vindas!

Para quem estiver interessado no curso, entre e veja possibilidades no site www.competency.com.br.

Até mais!

PS: Aos meus alunos, do curso cujas fotos estão acima, meu forte abraço e a lembrança carinhosa que levarei enquanto estiver por aqui!

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Quem me quer sem memória

(A força de um poema de Lêdo Ido: arma nesses tempos de luta pela educação.)

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Quem tapa minha boca
Não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
e, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.

Lêdo Ido, ‘Precauções Inúteis’ in “Melhores Poemas”.

 

A falta que faz um não

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Lecionando há mais de 20 anos tenho notado com preocupante frequência o transtorno que é, para determinados alunos, ouvir um não. Não é percepção isolada; a coordenadora do curso em que atuo também é diretora de uma unidade com mais de doze mil estudantes; ela reitera esse fato e narra, constantemente, os transtornos enfrentados por alguns jovens diante de um não.

Ter todo e qualquer desejo satisfeito é, certamente, cultura doméstica; reflexo de uma sociedade permissiva. Satisfazer os desejos da criança é consenso propagado por psicologia de almanaque ordinário, amplamente divulgado via superficiais programas de televisão. Nesses, temos overdose de direitos divulgados e quando um simples dever é mencionado, como por exemplo, estudar,  vem a imposição da necessidade de “intensa motivação”. Não é raro ver reportagens sobre a necessidade de “motivação” para que as pessoas cumpram seus deveres na escola ou na vida profissional. Estudar é prioridade para conseguir um bom trabalho e este é fundamental para que o indivíduo viva bem.

O ato de comer, que é necessidade vital, também é decidido pelo pimpolho que escolhe entre frutas e hambúrgueres gordurosos, legumes e batatas fritas industrializadas. Parece que a obesidade infantil é um problema, mas os pais “não podem impor” bons hábitos à criança perante o risco de traumas e problemas similares.

Esse texto é simples; não se pretende tese de doutorado, mas exposição e discussão de ideias. O viver à vontade conduziu uma parcela considerável da moçada para um brutal hedonismo – o prazer como bem supremo – e, assim, convivemos com uma geração que tudo faz pela cotidiana diversão, pelo constante gozo; a aparência é valor supremo e o consumo é a grande meta; mesmo quando o “objeto” a ser consumido é outro ser humano.

Uma simples regra de educação básica – não use o telefone dentro da igreja – torna-se grande cavalo de batalha: afinal, o que é mais importante que a banalidade de um telefonema cujo conteúdo frequente é “já saí” ou “estou chegando”? Por conta de situações desse tipo há grandes atritos em sala de aula, em teatros, cinemas, hospitais… Não se pode dizer não aos aparelhinhos “da hora”.

O mínimo que ocorre quando se impõe um não é presenciar uma torrente de lágrimas. Minha cara diretora que o diga. É dizer não e o mundo acaba. E se há um lado que garante a ordem e as regras de uma instituição, resta chamar ajuda de quem sempre disse sim: e temos, na universidade, pais agindo como se as crianças – jovens maiores de idade – precisassem do socorro para defendê-las perante os terríveis monstros que dizem não. Não é exagero, nem eufemismo. É situação cotidiana presenciar, em plena universidade, pais e mães querendo burlar o sistema em função das vontades e dos prazeres dos pimpolhos.

A questão, às vezes, é maior. Caso da situação vivida pelo país onde uma senhora foi eleita pela maioria para governar todos nós. Como é que alguns entre os que perderam, e que nunca ouviram um não, vão conviver com essa realidade? Esperneiam, colocam defeitos absurdos nos adversários e na impossibilidade de chamar a mãe, estão chamando a polícia, os militares.

Qualquer menção a fatos históricos e muitos indivíduos usam um idiota “não é do meu tempo” para esconder o tamanho da ignorância. É bem provável que esses seres não tenham lá grandes informações sobre o que foi o regime militar. Talvez pensem que os homens armados chegarão tipo papai e mamãe, e “passarão a mão na cabeça”, atendendo às solicitações das crianças para pôr fim à democracia no país.

Chamar militar para derrubar presidente, e caso isso se concretize, será ATO DE FORÇA.  Como nem todos aceitarão tal situação voltarão sessões de torturas, teremos covas lotadas de “desaparecidos”, as celas cheias de presos políticos e a mordaça, via censura, para todo aquele que tiver algo contrário a dizer. Militares sabem, como ninguém, dizer não. Para eles, a resposta ideal é o “- sim, senhor”.

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Militares devem garantir segurança e ordem quando chamados. Jovens não devem ser usados como massa de manobra por aqueles que almejam unicamente o poder, não medindo meios para isso. Este é um bom momento para dizer não. NÃO! Não teremos militares derrubando um governante eleito democraticamente. Não teremos a força para atender às veleidades de gente que desconhece o que é respeitar a vontade do outro. Não separaremos o país via preconceitos imbecis e sim, SIM, aguardaremos as próximas eleições e, se queremos reverter a situação, está na hora de começar a trabalhar para isso.

Até mais!

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Nosso Deus, o celular

nosso deus, o celular

Nesta manhã li que uma mãe atirou o filho na parede porque ficou nervosa ao ver a criança mexer no celular. O garoto, de dois anos, faleceu. Ela escondeu o menino de dois anos no interior de um sofá e, depois, acionou a polícia denunciando o desaparecimento da criança. O fato nos dá a medida extrema do lugar ocupado pelo poderoso aparelho em nosso cotidiano.

Tenho a impressão de que o menor uso do celular, na atualidade, está no objeto como meio de comunicação em si, indispensável. O que é realmente necessário dizer ao nosso interlocutor? Se alguém diz que vai para algum lugar, quando nos comprometemos a comparecer a tal encontro, qual a real necessidade de ligações do tipo “estou saindo”, “estou no trânsito” “já estou aqui”? Ontem presenciei quatro ligações “importantíssimas” de uma companheira de viagem. Na rodoviária: “- já estou dentro do ônibus”; após a partida: “-Acabamos de sair”; uma hora e pouco depois: “- Onde você estava, porque não atendeu? Fiquei ligando, ligando… já passamos Ribeirão Preto”. Mais tarde: “- Já passamos Jundiaí” e, poucos minutos depois: “-Entramos na Marginal”. Não me cabe julgar o que cada um classifica como importante para ser comunicado. Casos como o que presenciei ontem, penso, são para psicólogos.

O celular comporta um monte de joguinhos. Também li que esses passatempos são ótimos e atendem diferentes tipos de necessidades. Aqui, acredito que é só estabelecer o que é passatempo e distinguir isso de vício que tá tudo bem. Vício, é bom lembrar, instala-se sorrateiramente em nossas vidas. Afirmamos que bebemos socialmente, fumamos só um pouquinho e todos nós sabemos como, sem controle, onde isso vai parar.

Quando dizem que o celular é instrumento de trabalho, parceiro para alguns, ele não deixa seu caráter fundamental de meio de comunicação. Acessamos nossas contas bancárias, participamos de reuniões estando do outro lado do planeta, vendemos e compramos tanto o necessário quanto o cacareco inútil e por aí vai. O celular, e todo avançado derivado desse, é o grande e poderoso meio de comunicação do século XXI.

O ser humano nunca se contentou em ser um minúsculo ponto diante da grandiosidade do planeta. Na atual fase da nossa civilização extrapolamos os limites físicos e criamos um mundo virtual. Estamos neste através da informática, com infinitas possibilidades, limitada para um considerável contingente que se contenta em usufruir tão somente das redes sociais. Tenho a impressão de que é aqui que reencontro a mãe do garoto assassinado em Minas Gerais.

Pessoas que residem em cidades praieiras convivem com a falsa igualdade propiciada pelo traje de banho. Seminus, bronzeados, alegres ao sol, parecemos todos iguais perante um belo verão. Temos essa possibilidade “melhorada” no mundo virtual. Tiramos as manchas da pele, as rugas e somos amigos de personalidades importantes, de artistas. Nas redes sociais esbanjamos felicidade; a comida é farta, a bebida é abundante. Ampliamos nosso mundinho para milhares de amigos e, suprassumo da rede, somos seguidos por outros. Nas redes, conta mais quem tem maior número de seguidores. Quando isso não ocorre, contentamo-nos em seguir, em fazer parte da vida de quem admiramos. Nas redes sociais podemos simular o mundo que queremos.

O telefone de antigamente era pra falar com o parente distante, chamar o médico, a polícia, os bombeiros. Usávamos o dito cujo até para conversar com amigos, mas tínhamos o limite da conta telefônica – sempre caríssima! – e a restrição da família, já que era raro mais que um aparelho por residência. Hoje, quase todo mundo tem telefone. Smartphone é o termo adequado. Isso é muito bom; um inquietante receio é o de que algumas pessoas, como a tal mãe, tenha só o tal smartphone. Um aparelho que subverte a realidade da pessoa colocando-a em um mundo por essa idealizado. Quando esse mundo é ameaçado a reação é brutal e, horror dos horrores, uma mãe joga o pequeno filho na parede.

Seria estúpido condenar à fogueira tanto o celular quanto seus usuários. A história já teve sua cota de fogueiras que só fizeram retardar, por pouco tempo, o avanço propiciado por novos objetos, novas tecnologias. Longe de proibir, de impedir, cabe educar. Esse triste fato volta a fazer com que se bata na mesma tecla da educação, da formação adequada que é direito de todo e qualquer cidadão. O processo educacional é algo demorado e grandes transformações  levam tempo. Mas não custa insistir na reflexão. Todas as instituições que buscam o bem comum podem discutir e orientar as pessoas para o uso adequado do celular, da internet e similares. O assassinato do garoto mineiro é um ápice, a ponta de um iceberg que tende a crescer.

 

Até mais!