Quem me quer sem memória

(A força de um poema de Lêdo Ido: arma nesses tempos de luta pela educação.)

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Quem tapa minha boca
Não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
e, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.

Lêdo Ido, ‘Precauções Inúteis’ in “Melhores Poemas”.

 

Autor: valdoresende

As formas de expressão dominam minha vida. E aqui, neste blog, pretendo escrever sobre elas, sobre meu cotidiano, as coisas e pessoas que curto. Sou professor, escritor, diretor teatral, mestre em artes visuais pela UNESP e um pouco mais. Frutos de uma vida, graças a Deus, intensa.

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