Tags

, , , , , , ,


lidia e dega

Vaga Luz – Lídia Engelberg e Edgar Campos (divulgação)

Um casal de atores descalços usa roupas confortáveis que remetem a trajes de trabalho, roupa de ensaio. Uma banqueta e uma cadeira pontuam e compõem o espaço que revela-se múltiplo conforme ações ocorrem em tempos distintos. A iluminação, desenhada por Thiago Zanotta, acompanha o minimalismo da montagem e os atores, sem maquiagem ou qualquer outro adereço, usam corpo e voz em lampejos de momentos humanos onde a memória é o mote para, em “vaga luz” recriar momentos, fatos, pessoas.

Edgar Campos e Lídia Engelberg são os atores criadores de “Vaga Luz”, a peça em que dividem texto e concepção com o diretor, Antônio Januzelli, apresentada neste último sábado, dia 25 de maio, na Sala Multiúso do Instituto Cultural Itaú, em São Paulo. Ao final da apresentação houve um bate-papo com os presentes.

Após buscarem metaforicamente acontecimentos esparsos mantidos inteiros ou fragmentados, os atores apresentam esses em solos distintos, mantendo-se como dupla em olhares cúmplices, ações, sons e movimentos complementares. Vasculham tempos distintos, diferentes fases e situações humanas, investigadas cenicamente ao serem simultaneamente narradas e interpretadas. “Vaga Luz” vai se desvelando e complementando-se no que suscita do público, memórias similares que complementam cada momento vivido, construído com precisão artesanal pelos atores. Na medida em que o espetáculo se desenvolve a dupla contracena e cresce em profundidade, levando a plateia para dentro de situações e lembranças próprias.

O bate-papo após a peça demorou para engatar. O público em silêncio, lentamente digerindo o que havia sido apresentado. No ar, mais que a dúvida entre o que era texto criado para a cena e o que era lembrança, estava a sensação de passado presente também através de outras vizinhas, avós, irmãos, resgatados no exercício da memória apresentados em cena. Memória suscitando memórias, o irmão é aquele que dividiu a infância conosco e a vizinha é aquela amiga da mãe da gente.

Edgar Campos e Lídia Engelberg desenvolveram a peça ao longo dos últimos anos, em pesquisa paciente que, somada ao trabalho com a direção e à preparação vocal de Andrea Kaiser, resultou no momento atual, onde o público passa a refletir, discutir e acrescentar a própria percepção à montagem. O casal tem uma vida comum e trajetórias profissionais distintas e é esse caminhar que fica evidente no domínio do corpo, da voz, matéria fundamental da criação do espaço, situando o tempo de cada ação, dosando a emoção para manter um ritmo e uma tensão que permeiam todo o espetáculo, prendendo e levando junto a plateia.

Em tempos bicudos, quando o país vive crises constantes, “Vaga Luz”, produzido pela “Café Produções Culturais” é teatro em essência, valorizando sobretudo a função do ator, criador e dono de sua obra. Ambos se bastam e dispensam elementos que seriam supérfluos quando o que se busca é o que está, o que permaneceu dentro de cada um. Que faça uma longa e bela carreira, digna do trabalho empreendido até agora.

Até mais!