Daquela manhã

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Naquele período o país vivia a Copa do Mundo, o campeonato que estava em pleno andamento na França. O futebol era o país. Tornava-me estrangeiro ao evitar o assunto; alienígena por deixar de assistir a um único jogo. A expectativa antes de cada partida, a tensão durante a mesma e a comemoração após a vitória aqueciam os frios dias de julho. Os torcedores alucinados, consumindo rios de cerveja antes e durante cada jogo, extravasavam a tensão dos noventa minutos em carreatas barulhentas e intermináveis; após cada vitória, a cidade, vestida de verde e amarelo, dançava ao ritmo de aplausos frenéticos, tremendo o solo pelos saltos descontrolados de cada torcedor, ensurdecida pelo espocar de fogos de artifício. Minutos de imensa felicidade a cada gol.

Passado o jogo, em meio à comemoração, iniciava-se a busca dos noticiários para rever cada lance e a cata dos jornais diários para ler mais, ter mais, esticar ao máximo a alegria proporcionada pelo time nacional. As crianças viviam à procura de figurinhas para completar um álbum, com todos os participantes do campeonato; adesivos plásticos, camisetas, miniaturas de plástico dos atletas, tudo relacionado com o local do evento, a França, e às diferentes equipes, principalmente a brasileira, era comercializado. Ao abrir a janela da minha sala deparava-me com uma imensa bandeira brasileira pintada sobre o asfalto. O principal símbolo nacional, estático na rua, tremulava hasteado no topo dos edifícios, em inúmeras janelas de apartamentos vizinhos.

Sempre assim no meu país: vive-se o futebol; consome-se futebol; tudo o mais fica para depois, absolutamente colocado em segundo plano. Eu já vivera outras copas; criança, ouvia os jogos pelo rádio e acreditava ser outro jogo, à noite, dias depois, quando a televisão passava o tape. Ocorriam-me também, às vezes, lembranças dos tempos de Garrastazu Médici; o que eu tinha vivido como adolescente tricampeão e o que vim a saber posteriormente…

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CAPA OFICIAL baixa

 

 

 

(O texto acima abre o segundo capítulo do meu romance “dois meninos – limbo” lançado pela Elipse, arte e afins. Quem estiver interessado em obter o livro pode entrar em contato aqui pelo blog https://valdoresende.com/loja/ ou via e-mail: valdoresende@uol.com.br . A foto acima, que ilustra este post é de Flávio Monteiro).

 

Até mais!

 

São Paulo, cidade de romance

Um trecho dos tantos sobre São Paulo em “dois meninos – Limbo”, para expressar todo o amor por nossa cidade. Feliz aniversário, São Paulo!

dois meninos divulgação

…  Para um mineiro que não gosta das coisas passageiras, a solução possível foi seguir o fluxo evitando ventos que provocavam barreiras intransponíveis. Morei no Alto de Pinheiros, na Vila Mariana, na Bela Vista, Paraíso, Ipiranga, no Brás, Mooca… mapeei a cidade e fui tornando-a minha, tomando-a palmo a palmo. Respirei com volúpia entre as alamedas de seus bairros arborizados, suei em bicas ou tiritei de frio sob o concreto de apartamentos, dormi embalado com os sinos do Mosteiro de São Bento e, como um comum nordestino, durante longa temporada bati o ponto todos os domingos na feira sob o viaduto da Radial, ao lado da Baixada do Glicério. Ironicamente fui vizinho da Marquesa de Santos e de Dona Olívia Penteado, em pensões ordinárias ao lado da Sé e em Higienópolis. Tive tardes de leitura no mirante da Lapa e, como o mais nobre dos paus-de-arara, subi a Rua Augusta, sobre os cacarecos que chamava de móveis, entulhados na carroceria de um caminhão, em direção ao Baronesa de Arari, na Avenida Paulista(…).

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Dois Meninos – Limbo (ISBN 978-85—68591-00-0) é romance de Valdo Resende, publicado pela editora Elipse, Arte e Afins.

O cenário do romance é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade,  as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade.

Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

Para conhecer ou adquirir o livre acesse a página do autor: https://valdoresende.com/loja/

 

 

Amanhã, no Rio de Janeiro

Há momentos em que o óbvio é o bastante. Óbvio gostar do Rio de Janeiro tanto quanto lembrar Tom Jobim e o seu “Samba do Avião”. Alguém conhece música melhor para quem chega ao Rio? É amanhã. Estarei lá e, desde já, “minha alma canta…”

Depois, no sábado, dia 11, estarei no Papos & Ideias  conversando sobre O Homoerotismo na Literatura Brasileira”. O evento marca o lançamento do meu romance Dois Meninos – Limbo para os cariocas. Começaremos às 17h00min. Aguardo os amigos e conhecidos na Livraria Saraiva Shopping Rio Sul. O endereço é avenida Lauro Muller, 116 – Botafogo – Rio de Janeiro – RJ.

Até lá!

Sete Meninas Sobre Dois Meninos

meninasSete meninas, mulheres especiais, escreveram publicamente e/ou enviaram mensagens sobre meu livro, o romance Dois Meninos – Limbo. Estou feliz! Coloquei em ordem alfabética, pra ser justo. A descrição inicial do livro é de Marise De Chirico:

Somos transportados para a São Paulo dos anos de 1990, com sua noite frenética e o assombro do surgimento da AIDS. Infiltrado nesse cotidiano de medo e incertezas, o texto descortina a história de dois meninos, a amizade, a solidariedade e o amor.

Angélica Leytwiller (música)

“O livro é realmente maravilhoso, competente, audacioso e histórico. Forte, intenso e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade comovente…”

Kelly Cristiane Silva (pedagogia)

“Me fez chorar como há muito não chorava lendo algo… Envolvente, sensível, mas com toda
Originalidade do autor.”

Lisa Yoko (artes)

“Tenho certeza que também sua carreira como escritor será muito bem sucedida, Valdo Resende!”

Marise de Chirico (design)

“Fiquei imantada de amor, de tristeza, de alegria… coisa da vida, mesmo!”

Monica Birchler Vanzella Meira (marketing)

“Creio que um grande escritor tem o dom e o poder de recontar as paixões humanas, mesmo aquelas que não viveu. Mas neste romance, meu caro, sua alma está nele.”

Nina Borges do Amaral (letras)

“Do romance de Valdo Resende, fica a triste constatação do preconceito e do descaso de toda uma sociedade em relação aos portadores do vírus HIV, mas também a promessa de um futuro em que as batalhas não mais sejam necessárias…”

Vânia Maria Lourenço Sanches (história)

“João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro… Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”.

Obrigado, meninas!

Papos & Ideias. “Dois Meninos – Limbo” no Rio de Janeiro

O release do evento no Rio de Janeiro; todos estão convidados:

CAPA OFICIAL baixa

Dia 11 de abril, na Livraria Saraiva Mega Store- Shopping RioSul, Sábado das 17h00min às 18h30min, Valdo Resende, autor do romance “Dois Meninos – Limbo”, participará do bate-papo “Papos & Ideias”. O tema do encontro será “O Homoerotismo na Literatura Brasileira”. Em seguida ocorrerá uma sessão de autógrafos do romance que chega oficialmente ao Rio de Janeiro. O endereço é Avenida Lauro Muller, 116 – Botafogo.

O Homoerotismo na Literatura Brasileira

Relações homoafetivas têm sido destaques em novelas de sucesso; geram discussões acaloradas e provocam reações diversas em diferentes setores da sociedade. No entanto as narrativas homoeróticas ainda são tabus nos compêndios de história da literatura brasileira. Timidamente abordadas, essas narrativas são minimizadas quando não excluídas ou discriminadas.

Nas últimas décadas percebe-se um aumento considerável na produção e edição de textos que abordam o universo gay, tratados como nicho mercadológico ao lado de segmentos similares; constituindo-se em pluralidade literária geram debates sobre a existência ou não de literaturas específicas para mulheres, negros ou homossexuais. Quando o pesquisador busca aprofundar-se na questão encontra basicamente os mesmos autores, percorrendo um caminho que cita Adolfo Caminha (Bom-Crioulo) em seus primórdios chegando até Caio Fernando Abreu (Morangos Mofados e, entre outros, Quem tem medo de Dulce Veiga?).

No Papos & Ideias promovido pela Saraiva, Valdo Resende, partindo de uma breve síntese do Homoerotismo na Literatura Brasileira, pretende revisitar clássicos como Grande Sertão – Veredas, de Guimarães Rosa e Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso. Considerando obras de autores consagrados como Machado de Assis e Mário de Andrade, Valdo Resende colocará em pauta autores cuja produção está em andamento, posto que vivos e atuantes: Kadu Lago (Confissões ao Mar), Luís Capucho (Cinema Orly) e Nelson Luiz de Carvalho (Apartamento 41).

Diferentes mazelas enfrentadas por nossa gente estão na literatura brasileira: Cangaço, seca, tuberculose e migrações são exemplos de situações enfrentadas pelo brasileiro comum, e a AIDS tem um triste destaque nas últimas décadas, marcando presença ainda hoje. Dados governamentais estimam 734 mil pessoas com o vírus HIV em território nacional. A AIDS é tragédia contemporânea presente com nuances distintas em romances como “Mamãe me adora”, de Luis Capucho e “Dois Meninos – Limbo”, o romance de estreia de Valdo Resende.

“DOIS MENINOS – LIMBO” O Romance

Um menino é pintor. Atua em um mercado marginal sem frequentar críticas, resenhas de jornais e revistas especializadas. Faz uma arte popular, comercializada em feiras públicas, ao ar livre e em poucas galerias particulares.

Outro menino é crítico de arte. Frequenta museus, formou-se na universidade e especializou-se no estrangeiro. Discute arte e promove exposições e mostras.

“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre o pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente, escolhe elaborar uma produção popular, dentro das tradições acadêmicas que elegeram gêneros como a paisagem, o retrato e a natureza-morta como fontes para um trabalho pretensamente artístico, mas que visa fundamentalmente a sobrevivência através da comercialização dos resultados. No encontro com o crítico de arte dá-se o conflito pessoal e profissional.

O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade,  as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

SERVIÇO

Papos & Ideias – O Homoerotismo na Literatura Brasileira

Lançamento: Dois Meninos – Limbo ISBN 978-85—68591-00-0

Data: 11 de abril de 2015

Horário: 17h00min às 18h00min

Local: Saraiva Mega Store Shopping Rio Sul

Avenida Lauro Muller, 116 – Botafogo

CEP: 22290-160 – Rio de Janeiro – RJ

Telefone (21) 2543-7002

SOBRE VALDO RESENDE

Mestre em Artes Visuais é mineiro de Uberaba (1955). Lá começou a escrever para teatro e, radicado em São Paulo, é professor universitário e continua com atividades teatrais.

No blog https://valdoresende.com/ publica regularmente crônicas, contos, divulga eventos artísticos e, entre outros gêneros, a poesia.

Estreou na coletânea de contos Alterego, organizada por Octavio Cariello para a Terracota e, na área de marketing, idealizou o livro “Um Profissional para 2020”, publicado pela B4Editores.

O encontro marcado

Fernando Sabino
Fernando Sabino

Principal romance de Fernando Sabino (1923-2004), “O Encontro Marcado” foi, durante muito tempo um dos meus livros de cabeceira. Tomei como determinação de vida uma frase contida no texto que encerra a primeira parte do livro:

“Não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei”

Perguntas do tipo “o que é que os outros vão pensar?” sempre me deixaram irritado e pautar minha vida pela vontade alheia nunca foi o ideal. Revoltado com os desatinos capitalistas tomava como norte as palavras de Eduardo Marciano, a personagem de Sabino:

Também tenho o meu preço, mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos — hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus.

… meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve…

Eu era jovem demais para recear partir e quando saí de casa tinha prazer e alegria em vir embora, achando que tudo podia ser suave e sem cobranças.

…ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas…

Descobri, ao longo da vida e de muitas perdas, o real peso da frase que encerra a primeira parte do romance. Agora, que o tempo cobra cada segundo, penso em Fernando Sabino, n’O Encontro Marcado, e no que ainda pode ocorrer, mesmo sabendo que:

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

Até mais!

Nota:

O Encontro Marcado foi lançado em 1956. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.

A peleja entre a inocência e a culpa

No dia em que o mundo reflete sobre a AIDS,  buscando alertar para os perigos da doença, publico o texto escrito por Vania Maria Lourenço Sanches; são reflexões feitas após leitura dos originais de “dois meninos – limbo”, meu primeiro romance.

A PELEJA ENTRE A INOCÊNCIA E A CULPA

 dois meninos vania

João tinha acabado de nascer. Dependia de todos para sua sobrevivência, porque não podia andar, nem comer sozinho, não falava – nada. João era um pedacinho de gente, bochechas rosadas, olhar cativante era, enfim, um bebe feliz. Ainda não precisava fazer escolhas, ainda não precisava fazer nada. Não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a vida. Essa vinha com uma certeza contagiante em cada sorriso, em cada som balbuciado, em cada carinha que derretia a todos que o via com o mais profundo amor. João tinha a vida pela frente, sonhos, projetos, esperança, um mundo para conhecer, uma vida para viver. João era só sorrisos e alegria. João simbolizava o que a vida tem de melhor – o novo, a oportunidade,
todas as possibilidades por vir.

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João, outro João, tinha acabado de receber a notícia, ia depender de todos para sua sobrevivência, porque não poderia lidar com aquela nova realidade sozinho, talvez não pudesse andar, talvez não pudesse comer, talvez sua comunicação com o mundo ficasse comprometida. Mas, o que mais afetava João era a dor da culpa por suas escolhas, agora não podia fazer mais nada – era fato consumado – o exame positivo, o fantasma tinha virado algoz e dali para adiante ele não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a morte. Essa vinha com uma certeza contundente em cada olhar vazio, em cada palavra não dita, em cada expressão de desespero que apunhalava a todos que o via. João tinha a morte pela frente, encarando, acuando, tirando-lhe a esperança, apagando seus sonhos, interrompendo seus projetos. João era só dor e desespero. João simbolizava o que o ser humano tem de pior – o preconceito, a incompreensão, o fim de todas as possibilidades.

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Um dia, por um desses momentos breves da vida, João encontrou João. João, o outro João, estava tão fragilizado que pensou não poder segurar João, que havia acabado de nascer, em seus braços; afinal ele era soro positivo e isso poderia macular aquela “alma pura”, ele se culpava tão ou mais que os outros, ele se punia tão ou mais que os outros que não admitia a possibilidade de qualquer contato com aquele pequeno ser tão limpo das maldades do mundo. Mas João na sua inocência apenas olhava para João e fazia carinhas, fazia barulhinhos, fazia gracinhas e não se importava de ficar no colo de João, porque, para João, eram apenas braços que ainda passavam amor, calor, ele não via a dor, ele não via a culpa, ele não via.

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João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro. Por um daqueles momentos breves da vida, esse João teve paz, sentiu que ainda havia esperança, esqueceu-se da culpa e acalentou o João que, em seus braços, adormeceu feliz. Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”. Fiquei pensando em tantos meninos por aí, pelejando entre a inocência e a culpa.

Vania Maria Lourenço Sanches