
É cansativo ligar a tv ou qualquer outro meio de comunicação e perceber a quantidade de “informação” unilateral. Na atual linha adotada pelas redes de TV tem-se a predominância do que Boni, o pai, chama de jornalismo hard. No caso, hard é eufemismo para “mundo cão”, uma expressão utilizada em tempos idos para caracterizar emissoras que se chafurdavam na miséria alheia para ganhar audiência. Usando a palavra em inglês parece sofisticado, mas é só para camuflar a ideia que caracteriza o jornalismo hard: vamos noticiar violência em todos os níveis! É o que dá audiência.
Obviamente que uma guerra é de interesse geral. Um conflito entre dois ou mais países nos afeta direta, ou indiretamente. O que nós, pobres mortais, precisamos de nos atentar é para o fato de não haver em tais contendas santos e demônios. Há diferentes lados e, sobretudo, há motivos para que um conflito chegue a uma guerra. E além de um conflito, também há assuntos tão contundentes quanto! É só ver o tratamento dado pela nossa mídia ao terremoto no Afeganistão comparando com a guerra envolvendo Israel e Palestina.
Velho hábito, passo os olhos por todo o jornal, revista ou site antes de parar para ler. Seja qual notícia for. E no final de semana os primeiros números já davam a dimensão da tragédia: na mesma passada de olhos soube que morreram 260 pessoas em Israel e cerca de 1.200 em um terremoto no Afeganistão. Sabia que esses números cresceriam e neste momento, paro de escrever para tentar atualizar perdas humanas: Subiram para mais de 2.500 mortos no Afeganistão. No conflito Israel/Palestina entra a já conhecida “guerra de informação”: o tenente-coronel Richard Hecht, informa o UOL, contou que os corpos de 1.500 terroristas foram localizados no sul de Israel. Ou seja, o dito cujo, em meio aos acontecimentos dos últimos quatro dias é capaz de afirmar que todos os mortos são terroristas? Desisto temporariamente de atualizar perdas.
Livre pensar, é só pensar, dizia Millôr Fernandes. E como não pensar? Resolvi assistir ao Fantástico nesse último domingo, 8 de outubro. Ingênuo (irritantemente ainda sou!), resolvi ver o programa na esperança de saber o que acontecia no Afeganistão. O programa teceu todo um rosário de histórias contadas por vítimas israelenses. As vítimas importam, mas qual é o motivo do conflito? O que provocou atitudes tão extremas? Ações dos dois adversários são interessantes, mas qual é o motivo do conflito, devemos insistir. Rasteiro, após consequências do ataque o programa optou por mostrar a bela Sabrina Sato na Fontana de Trevi e, depois, ao lado da Ilze Scamparini, escondida atrás de imensos óculos escuros. Em seguida, mais um tempo de trivialidades para o programa limitar-se ao que todos já sabiam: Um terremoto mata mais de 1000 pessoas no Afeganistão.
Parece que a guerra é mais importante que o terremoto. E na tal guerra, recebemos mais relatos de Israel do que de Palestinos. Nada de novo. Na guerra entre Rússia e Ucrânia só recebemos notícias dos mortos e feridos ucranianos, embora recebamos também notícias de ataques à Rússia. Assim como pendem para o lado Ucraniano, agora pendem para Israel. E eu, que sou apenas um mineiro curioso, gostaria de ter informações do que chamam “jornalismo neutro” (uma voz interior está aqui às gargalhadas murmurando: Bobinho!). Quero saber os motivos. Conhecer a história!
O “bobinho” aqui ainda é teimoso feito jumento. Irei espernear enquanto tiver vivo. O planeta é redondo e, portanto, não existe um lado. Os ventos sopram para norte e sul, leste e oeste. O sol nos ilumina enquanto giramos recebendo todas as possibilidades de temperatura ao longo do ano. As águas parecem correr para uma única direção, mas no meio do caminho evaporam para depois, em forma de chuva regar o mesmo espaço por onde passaram. E se algo impede essa normalidade da natureza, cabe identificar o motivo! Também nas guerras! Nos conflitos. Ninguém é santo, ninguém é demônio. Assim vale a expressão batida, mas absolutamente verdadeira: Nada é por acaso. Resta continuar mineiro e como tal, cismado olhar para jornais, revistas, sites, emissoras de tv com aquele olhar desconfiado, que pede mais que uma mera história para boi dormir. Qual é mesmo o outro lado?




