E NO MUNDO DIZEM QUE SÃO TANTOS…

Saltimbancos como somos nós!

Aos 17 anos descobri que parcelas de um povo assumem as características de quem os governa. Há uma parcela de oportunistas que aguardam o momento certo para entrar na onda ou sair dela. Há uma parte da população que se mantém apática, outra que ignora o entorno, outra ainda que “está em Nárnia” e, entre outras posturas, há os que não se contentam e batem de frente com seus governos.

A aula que recebi, aos 17 anos, foi de gente fascista, autoritária, que por absoluta estupidez se achava superior aos demais. Como os governos vigentes. Eram tempos de ditadura e conheci a metodologia de então quando fui sequestrado para que me obrigassem a dar a informação que queriam. Simples assim! Sem diálogo, sem debate, sem discussão. Um adolescente se nega a dizer o que sabe e é sequestrado em um bar de esquina, diante de seis testemunhas, levado a força, aterrorizado sob ameaças absurdas, sendo espancado e tendo como “herança” três anos de colete ortopédico e uma coluna que sinaliza problemas ainda hoje.

Eram tempos de ditadura militar! De um lado o meu pai, homem simples e trabalhador. Do outro, uma “família de gente de bem”. Dinheiro e posição social. Um sistema judiciário complicado, advogados subornados pela outra parte e, 10 anos após – DEZ ANOS! – o processo foi arquivado por insuficiência de provas. Seis testemunhas oculares, um exame de corpo de delito que comprovou o descolamento de cartilagem de uma vértebra e, entre outras, um bilhete que me obrigaram a escrever, apresentado como documento de que eu tivesse ido por vontade própria não constituíram provas. A justiça é cega…

Anos depois, já no ABC paulista, entrei pela primeira vez em uma favela. O cheiro de esgoto a céu aberto era esquecido quando servido o café fresquinho feito por senhoras asseadas. Mães, como a minha! Nunca me esqueci do chão varrido, dos móveis velhos e quebrados, mas limpos e enfeitados com toalhinhas bordadas, pintadas! Nas paredes, reproduzi depois em uma peça de teatro, uma página dupla de revista com um time de futebol – invariavelmente o Corinthians! – e uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Desde então soube que nas favelas, que hoje chamamos comunidades, vivem seres humanos como eu, como todos nós.

Foi no ABC, especificamente em Santo André, que descobri a luta de pessoas por um pedaço de terra para morar. E foi lá também que após uma tempestade, em um mês de janeiro que me traumatizou, estive envolvido em uma ação de crianças soterradas sob dois metros cúbicos de barro, após o barraco ter caído morro abaixo com as fortes chuvas. Por outro lado, os moradores do bairro enfrentavam ações de despejo de gente inescrupulosa, interessada em lucro, mesmo que este fosse a custo da morte de outros.

Final dos anos de 1970, já se fazia fundamental novas atitudes perante o fracasso dos governos militares. Os trabalhadores reconheciam sua força que, grande descoberta, crescia com braços parados. As greves voltavam ao cenário após anos de ditadura feroz e Lula era o norteador de quem desejava lutar por uma vida melhor para si, os seus e o próximo. Os patrões só nos ouvem quando tomamos atitudes como a greve. O movimento culminou no surgimento de um partido político e tenho orgulho em ter participado de ações que arrecadaram assinaturas para o reconhecimento do PT, o Partido dos Trabalhadores.

Esse é o meu lado. O de quem trabalha. Nunca tive dúvidas de que além das batalhas externas ao PT haveria outras, talvez piores, internas. Decepções, desânimo, desalento fizeram parte de um universo onde trabalhadores também são oportunistas, apáticos, autoritários, corruptos. Mas acima de tudo são lutadores, batalhadores, sonhadores. Sobreviventes!

Mais tempo na roda e vi um estádio lotado de torcedores mandando Dilma Rousseff “tomar no cu”. Não me surpreendeu o absurdo silêncio de quem, antes, já havia se calado perante ofensas públicas à Luiza Erundina. O país misógino exteriorizava apenas uma de suas faces, acrescidas de outras na onda que levou Lula para a prisão e, em seguida, a eleição do sujeito que a partir de ontem está prestes a deixar Brasília.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo […]

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Negros, Nordestinos, Artistas, Cientistas, Médicos, Religiosos, Juízes do Supremo! Todos estiveram – e ainda estão – sob a mira de fascistas para quem nada vale exceto a palavra de alguns obtusos. Voltei aos meus 17 anos, percebendo agora a verdadeira dimensão das ações de gente tenebrosa. A diferença é que não me senti só. Estive em Fortaleza há poucos dias e tanto em um casamento quanto em uma festa de aniversário estiveram presentes os sinais de mudança. Notícias de todos os lados davam conta de união contra o fascismo vigente. Nunca estivemos sós. Apenas acuados por uma pandemia aguardando o momento certo de agir.

Só um dia depois e a euforia está passando. Que ninguém se engane! Há um país para ser reconstruído. E se o outro lado não percebeu, o lado que se apossou de cores e símbolos nacionais como seus, o país também é nosso! De quem não aceita 100 anos de sigilo, de quem reconhece a importância tanto da ciência quanto da religião. De quem nutre imenso amor pela liberdade, pelo direito de ir e vir! O Brasil é feito de gente de todas as raças. Nesta eleição mostramos ao mundo que podemos nos unir frente ao perigo do autoritarismo e da tirania.

Seria bom que o tema da canção que escolhi como título e abertura deste texto fosse pleno. Todos juntos! Não estamos. E, dentre todos os projetos políticos e sociais necessários, talvez o mais urgente e importante seja este: reunir o maior número possível de brasileiros sob o abrigo da democracia, a segurança do conhecimento científico, o conforto da religião, a confiança na lei. Uma tarefa dificílima, mas, isso é certo, vale a pena. Todas as penas!

.-.-.-.-.-.-.

Notas:

A foto acima, com Chico Buarque e Lula, foi copiada da página do Facebook do Presidente eleito.

O título e o verso que abre este texto é da música TODOS JUNTOS, da peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, Sergio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov. Ouça a belíssima interpretação de Mônica Salmaso

“Volver a los 17” é canção de Violeta Parra, que admiro nas vozes de Mercedes Sosa e Milton Nascimento.

Caminito Valdo Resende

A proibição aos artistas de rua

Uma manchete de jornal pode provocar alguns equívocos; por exemplo, no último dia 30 de novembro foi publicado que “SP TEM A MENOR TAXA DE DESEMPREGO EM 20 ANOS, SEGUNDO DIEESE”. Que ótimo, pensaria o ingênuo cidadão, até que lendo todo o texto, a informação seja numericamente esclarecida: na região metropolitana de São Paulo o contingente de desempregados foi estimado em 1,06 milhão de pessoas.

Outra notícia do ano passado, que continua repetindo e repercutindo nas redes sociais: “ARTISTAS DE RUA SÃO EXPULSOS DA PAULISTA”. São jovens músicos, instrumentistas e  “performers” variados. Nesta última categoria estão malabaristas, bailarinos e estátuas-vivas.

A proibição aos artistas de rua veio a partir de uma tal “Operação Delegada”. Nesta, policiais militares trabalham na folga para a prefeitura, coibindo o comércio ambulante irregular. As autoridades disseram ao Jornal da Tarde que “quando há qualquer tipo de exploração comercial, caracteriza-se um evento e há a necessidade de autorização da Prefeitura, que é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”.

Se a Prefeitura “é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”, porque não o faz?  Precisaríamos de um plebiscito para isso? Quanto tempo seria necessário para redigir um documento que permita a artistas trabalharem nas ruas, bastando para isso um cadastro na Secretaria de Cultura do município?

O prefeito desta cidade esteve muito ocupado criando um novo partido político e um artista de rua não garante milhares de votos; então, é mais fácil coibir do que regularizar e permitir que um desempregado possa garantir seu sustento. As proibições são mais ágeis que as soluções e assim temos conflitos imensos, como aqueles recentes ocorridos na região da Rua 25 de Março.

Caminito Valdo Resende
No Caminito quase dancei um tango!

O que falta a essas “autoridades” é uma visão mais ampla do que a arte pode fazer com um determinado local. Artistas caracterizam espaços urbanos e valorizam estes para além das fronteiras do próprio país. É de conhecimento mundial o quanto um artista valoriza uma região.

Na “Piazza Navona”, em Roma, músicos eruditos caminham pela antiga praça. Com um sinal gentil pedem licença e quando obtida, aproximam-se das mesas dos bares, colocadas no passeio público e tocam Vivaldi, Mozart ou outro grande autor.

O “Caminito” é atração imperdível em Buenos Aires com seus dançarinos e músicos de tango. Cantam, tocam e dançam para os turistas nas esquinas, convivendo harmoniosamente com os profissionais que exercem a mesma atividade nos bares e restaurantes locais.

Piazza Navona Valdo Resende
Walcenis, de boina preta, tomando sorvete na Piazza Navona

Tenho um amigo que vai anualmente para “Colônia”, na Alemanha, para trabalhar como estátua-viva. Ele fica em frente à famosa catedral da cidade e nesses últimos anos nunca foi coagido pelas autoridades alemãs. E é bom citar que ele tem visto apenas como turista.

Tratar artistas de rua como mero “comércio ambulante” é lamentável. É desconhecer uma tradição milenar que legou-nos poetas, menestréis, saltimbancos que enriqueceram a cultura humana com o fruto de um trabalho árduo.

Tenho um imenso respeito pelos artistas de rua. Pelos nossos cantadores nordestinos, nossos poetas de cordel; artistas que têm um extraordinário domínio de seu ofício, este quase sempre aprendido via tradição familiar. São improvisadores incríveis e, notável ainda, em um país ainda marcado pelo analfabetismo, improvisam em versos!

Outro dia, passando pela Praça da Sé, parei para ouvir por alguns minutos um rapaz com um violão, interpretando Raul Seixas. A música suavizando o caos de veículos motorizados, religiosos pregando aos borbotões. Em outro momento, na mesma região, um grupo típico nordestino  – zabumba, acordeom e triangulo – animava alguns transeuntes que dançavam, como se o calçadão fosse um belo salão de festas.

O que me conforta é saber que o atual prefeito irá passar, será esquecido da mesma forma que não nos lembramos dos artistas de rua. Só que estes permanecerão. É a história que nos permite afirmar isto. A tenebrosa Idade Média não acabou com os menestréis e a indústria do entretenimento não acabou com a arte de rua. Seria bom que as autoridades e os responsáveis pela “Operação Delegada” refletissem sobre essas questões.

Bom final de semana!