Marcelo Lazzaratto, ator e diretor em TEBAS. Foto: João Caldas.
Começou neste dia 9 e irá até o 18 de setembro o MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas aqui em Santos. 13 países estarão representados no evento que conta com palestras, exposições, instalações, teatros em espaços fechados e abertos. É a sexta edição do festival em 12 anos.
Difícil comparecer em todas as ações. Ingressos rapidamente esgotados de algumas, além de sessões simultâneas. Por isso escolhi alguns trabalhos para indicar e, quando possível, comentar ao longo desses próximos dias.
1ª Indicação: TEBAS, no Teatro Brás Cubas –
Tebas, o espetáculo da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, tem como diretor Marcelo Lazzaratto que concebe a dramaturgia e atua como Édipo, personagem-chave na recriação da trilogia tebana: Édipo-Rei, Édipo em Colono e Antígona se entrelaçam “sem uma relação necessária de causa e efeito. E o coro, interpretado por um único ator, perpassa os tempos assim como Édipo. Ao fim e ao cabo, sabe-se que são os cidadãos comuns que atravessam as épocas e seus imaginários, geração seguida de geração, sempre sujeitos aos governantes e aos seus sistemas de governo”.
Grupo Paulista, a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico está na estrada há 22 anos, tendo desenvolvido 18 espetáculos.
Atores da Cia. Carolina Fabri, Marcelo Lazzaratto, Pedro Haddad, Rodrigo Spina, Tathiana Botth e Thaís Rossi
Atores convidados Eduardo Okamoto, Marina Vieira e Rita Gullo
10 SET ∙ SÁBADO ∙ 20H00
TEATRO BRÁS CUBAS
Av. Senador Pinheiro Machado, 48 – Vila Mathias, Santos – SP
Com frio ou calor, chuva ou sol, esse mineiro que vos escreve, morando em Santos, caminha cotidianamente pela orla atlântica. Invariavelmente esse passeio é feito sobre a calçada que limita jardim e praia. São sete quilômetros de jardim, praia e mar. Obviamente que não caminho tanto assim. Vou um cadiquim para cá, um cadiquim para lá, sento-me para ver navios, distraído em alguns momentos por pássaros e gente.
Não sei nadar. “Como assim?” já ouvi muitas vezes. Presumo com certeza não ser o único a dominar tal coisa, mas invariavelmente informo ser de Minas Gerais. Talvez por isso, pelo menos por enquanto, meus joelhos continuam virgens da água marinha. E vivo bem sem nadar. Sei andar, corro, já dancei muito, mas nadar… não nado. E tenho a quem puxar.
Ulysses e Bino
Este rapaz elegante, de terno claro, é o Bino, meu pai. Esteve assim aqui em Santos, lá pela primeira metade do século passado, antes de eu ter nascido. Veio em visita aos meus tios que, vindos de Portugal, moravam por aqui. Este, ao lado do meu pai, é o Tio Ulysses, casado com Isaura, irmã caçula de minha mãe. Tenho vaga lembrança de terem morado na Praia José Menino.
Sou capaz de apostar que nenhum santista viu as pernocas do meu pai. Nem os cariocas, pois quando papai visitava o Rio de Janeiro – uma dessas viagens me lembro bem – era nessa “estica” que ele caminhava por Copacabana e outras praias mais.
Não tenho nenhuma informação de meu pai tomando banho em lagos ou rios. E, todo mundo sabe, rio é o que não falta em Minas Gerais. Todavia, em um aspecto saí a meu pai. Nem rio, nem lago, nem mar, nem piscina. Chuveiro a gente gosta. Muito! Quanto a mares, rios e lagos, que fiquem lá com todo o respeito e cuidado que merecem. Gente como nós se contenta em olhar, sentir o cheiro, a brisa.
Poderia estender esse texto com mil razões, outro tanto de conjecturas sobre tal situação. Bobagem. Ou então que fique para outra hora. Só me incomoda quando alguém vem questionar por que vou de meias e sandálias nas caminhadas à beira-mar. Vou como quero, mas como nem tudo é tão rígido, celebro alguns avanços: tenho feito caminhadas molhando os pés naquele ponto em que as ondas se desmancham na areia. Às vezes, chegam até as canelas e até já chegaram bem próximas do joelho. Chupa, Michael Phelps!
Outro dia fiquei presenciando uma ressaca, admirando vários surfistas em ação. Deslizando sobre as ondas como seres mágicos, alguns terminando o trajeto me lembrando Charles Chaplin nas trapalhadas de Carlitos. Nesse mesmo dia um morador da praia – já percebi que há vários por aqui – foi resolutamente bêbado caminhando em direção ao mar. Passos trôpegos, transferi a preocupação para os companheiros do sujeito em caso de afogamento e fiquei observando. Ele caminhou até a água ir acima da cintura, pulando ondas e, de repente, retornando o corpo em viravoltas desconexas junto a uma onda mais forte. Levantou-se como se fosse um herói olímpico, gritou obscenidades para os colegas e retornou, calmamente, para o local de origem.
Naquele dia deixei surfistas, moradores e, como tenho feito, voltei para casa, sequinho, sequinho. Com certeza nadar deve ser muito bom. Mas, além de ser filho do Bino, não tenho pressa. Estou morando por aqui há tão pouco tempo! Quem sabe, em algum momento, eu não venha narrar algumas braçadas celebrando um dia de sol no mar?
Não sei de onde vem o fascínio pelo ir e vir de navios que, nesse momento da vida, tenho observado entrando ou saindo pelo canal marítimo que liga o oceano ao porto de Santos. Talvez da infância quando, em dias de muita chuva e enxurradas, meu irmão Valdonei e eu fazíamos barquinhos de papel que, invariavelmente, não chegavam até a esquina mais próxima. Afundavam! Buscávamos papel mais resistente e, às vezes, até conseguíamos um que fosse impermeável.
Ver barquinhos descer rua abaixo em corredeiras pluviais e imaginar até onde chegariam era um exercício de fantasia. Não havia bueiros no bairro e sabíamos que parte da enxurrada descia por toda a extensão da avenida enquanto a outra, pela Rua João Pinheiro, tomava rumo ao centro da cidade. Barquinhos mais resistentes chegavam no ponto onde a enxurrada se dividia e era esse o limite até onde ia meu irmão, acompanhando as canoinhas que, pura imaginação, eram barcos, grandes navios.
Lá pelas tantas, na adolescência, tive ideia de que não seria bom ficar estacionado, vendo barcos e vida a passar. Uma das minhas canções preferidas de então termina com versos cantados magistralmente por Maria Bethânia:
Não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento!
A mesma canção, de Capinam e Jards Macalé, também diz:
Não quero ficar dando adeus às coisas passando
Eu quero é passar com elas…
Quantas vezes ouvi Movimento dos Barcos? Não sei! O que sei é que a ideia de estacionar era apavorante tanto quanto a possibilidade de perder algo que a vida pudesse me propiciar. “Eu quero é passar com elas”, pensava enquanto exercia atividades teatrais, educativas, jornalísticas, religiosas, literárias… Um turbilhão de coisas invariavelmente feitas simultaneamente que me levaram a pensar que não sabia, não conseguia meditar.
Voltas que o mundo dá. Mineiro de Minas Gerais, que não sabe nadar nem brincar em piscina de criança, me vejo sentado em diversos pontos do imenso e belo jardim da orla santista, completamente absorto, fascinado pelo eterno movimento das ondas que chegam e se desmancham na areia. Vejo respeitosamente a imensidão que me apequena. Eita, marzão grande, sô! Evito pensar no que ele esconde e nada do que possa estar ali à espreita me assusta, posto que é o mesmo respeito que me mantém distante, mal molhando os pés.
O mar tem me permitido altos níveis de alheamento. Sei lá para onde vão os pensamentos, os desejos, as vontades, os anseios. Tudo se resume a entrar em sintonia com o movimento das águas, no ritmo de ondas às vezes altas, outras meros marulhos. Perco o olhar no infinito, onde mar e céu se encontram e mantenho contato com a realidade a cada navio que passa. Como se cada embarcação me perguntasse de onde vim, para onde vou, o que eu quero. E eu quero é continuar a olhar o mar, a ver navios.
Lá atrás, trabalhando para a gente do Pará e do Maranhão, homenageei Luís da Câmara Cascudo em personagem que chamei “Cascudinho”, nome que me vem quando penso no estudioso brasileiro. Foi Cascudinho, li na coluna Sobre Palavras, do Sérgio Rodrigues, que dá duas versões para a expressão a ver navios. Uma diz de um rico dono de navios que desafiou Deus e este teria dado uma lição no sujeito naufragando as embarcações. Outra, refere crença na volta de D. Sebastião, o rei português que morreu em batalha.
Humildemente sugiro ressignificar a velha expressão “Ficar a ver navios”. Passa a ser um processo de meditação para iniciantes onde o sujeito entra em estado de contemplação observando o oceano. Devidamente acomodado de frente para o mar, sob sombra ou sol, conforme a temperatura pedir. E como o pensamento teima em funcionar, tirar do alheamento, deixe-se levar pelo ir e vir das grandes embarcações.
Outro dia veio uma com o nome Grimaldi. Deve ser da família de Mônaco; Amauri é o nome do meu novo amigo, que me ensina coisas do mar: aquelas que se parecem com grande caixa, acho feias, carregam grãos. Todas têm uma linha que determina para o observador se estão vazias ou carregadas. Aquelas cheias de grandes contêineres me lembram lego. Para logo chegará um grande navio da China. Tiveram que alargar o canal quando veio pela primeira vez…
Passatempo bom, ver navios. Não tenho o menor interesse em saber para onde vão, de onde vieram. Apenas desejo que façam boa viagem e, quando chegando, que não tragam nada de mal.
Quanto tempo vou levar para dar um jeito de me “empoleirar” em um desses “trens grandes”, rumo a não sei onde?
Quando as coisas andam sem cor e se a sensação é de vida estagnada, o jeito é seguir o conselho da minha dileta Márcia Gomes Lorenzoni: “É preciso dar um ziriguidum na vida!” Para deixar claro, seria algo tipo dar um up, diriam atuais adolescentes, ou sair da caixa como indica o coaching da hora colocando-nos “in” ou “out” em relação a quase tudo. Todavia, ao invés de um “up”, a gente pode carecer mesmo é de ir para os lados e, alerto, um bom ziriguidum pode ocorrer dentro, em cima, embaixo ou fora da caixa.
Li que aos 60 e poucos de idade a gente passa a priorizar arnica e canela de velho aos bons hidratantes. É vero! Aos 65, aposentados por idade, agradecemos não ver luzes brancas no final de túneis com vultos desconhecidos vindo nos buscar. E quando em meio ao período em que sessenta se confunde com “cê senta e fica quieto”, vieram: um acidente, uma demissão e uma pandemia, levando-me, como diria Belchior, a ficar “mais angustiado que o goleiro na hora do gol”.
Bobagem enfrentar o tempo. Ainda mais porque, sendo abstração humana, o tempo ignora relógios, calendários. Ele simplesmente segue em frente e já sabemos nosso destino nessa dimensão. Daí que a gente corre o risco de ser um tal velho, aquele da canção de Chico Buarque:
O velho sem conselhos
De joelhos, de partida
Carrega com certeza
Todo o peso dessa vida…
Eu hein! Na real, penso que a vida só pesa quando olhamos para trás, já que não temos ideia do que teremos pela frente. Assim, o passado é lastro (gosto dos lastros que me norteiam!), mas o tempo que nos virá é o que merece maior atenção, planejamento, cuidado… Quanto tempo? Não sei. Pode ser uma semana, uma ou mais décadas, ou… Segundos (Nãooooo!)! Quem quiser que meça, ou tente medir o tempo que lhe reste. Eu vou é viver e, de preferência, com um grande ziriguidum!
Ziriguidum, para alguns, pode ser um corte de cabelo, uns copos de cerveja a mais, uma noite alucinante de sexo, uma tentativa de crime perfeito, uma surra no vizinho chato… Euzinho, que nasci no mesmo dia em que D. Maria Bethânia, curto coisas mais intensas (para lembrar Sonia Braga em Aquarius), e posso até aceitar “uma pedra falsa, um sonho de valsa” desde que seja para viver uma grande paixão por alguém como Gal, cantando Folhetim (Chico, sempre ele!).
Todos as situações dos 60 em diante, citadas acima, levaram-me primeiro ao fundo do poço, intensamente! Fazendo vir à tona o Álvares de Azevedo que carrego desde a infância:
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã…
E, mineiro, comecei a matutar. Recordando Marcinha, só sairia dessa com um bom ziriguidum. Depois de pensar, repensar, planejar, discutir, desistir, insistir, recomeçar, tudo num círculo constante vivenciado ao lado do Flávio Monteiro até que a decisão viesse. O ziriguidum! E euzinho, estagnado e velhinho da Bela Vista, com meu boné italiano e cachecol enrolado no pescoço, passei a cantarolar Raul Seixas:
Ah! Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar…
Os sinais foram dados neste mesmo blog, também nas redes sociais. “Estou em Santos, sou de Santos. Cidade que escolhi como destino”. Concretamente e NÃO definitivo, pois continuarei aberto a outros possíveis ziriguiduns. Aos 67, que chegarão em breve, continuarei contando histórias, certamente com o mar entre os protagonistas. Aliás, Dorival Caymmi não me tem saído da cabeça e dos lábios, murmurando canções pelas praias da cidade:
Andei, por andar andei
E todo caminho deu no mar
Andei, pelo mar andei
Nas águas de Dona Janaína…
Ziriguidum é bom, recomendo a todos, todas e todes. Não importa a idade! Outras faces deste momento que vivo virão por aqui em uma série de textos que, segundo prometi ao Edison Derito, deverá ter por título “Um mineiro em Santos”. Espero continuar com a atenção de quem me leu até aqui!
Dois eventos do Arte na Comunidade 3, no próximo final de semana, ocorrerão nas cidades de Santos e Cubatão, encerrando as etapas de apresentações públicas na Baixada Santista. Veja abaixo a programação em cada cidade, marquem na agenda e compareçam. Aguardamos todos vocês.
Descer caminhando pela Estrada Velha de Santos é uma das coisas que ainda sonho fazer. Gosto de verde, gosto de montanhas e fico sempre fascinado com a Serra do Mar. Desde criança guardo na memória uma imagem da Via Anchieta e, sonho dois, gostaria demais de sobrevoar a região de helicóptero, ou de balão, e ver lá de cima todos os detalhes dessas obras fenomenais: Anchieta, Imigrantes, a via férrea, a Estrada Velha e, é claro, toda a imensidão verde.
Provavelmente é o que podemos chamar de destino o que nos leva para bem perto daquilo que amamos. E assim estou trabalhando na Baixada Santista e passando pela Serra com uma frequência nunca imaginada. Mais que passar por esse prodígio da natureza, o convite de Sonia Kavantan levou-me a estudar e pesquisar a região priorizando os cinco municípios que estão recebendo o Projeto Arte na Comunidade 3: Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Santos e São Vicente.
Fui lá atrás, nos tempos dos homens do sambaqui, passei pelos nossos indígenas, relembrei a chegada dos europeus… e a Serra permeando tudo, deixando mais do que evidente os motivos da expressão usada por Dinah Silveira de Queiroz: A Muralha. Hoje subi a Serra do Mar. Entre a rodoviária de Santos e a estação do Jabaquara não passou uma hora. Atravessei a muralha que, certamente, ainda guarda incontáveis segredos.
Quando desci para ensaiar, na sexta, veio uma necessidade maior de fixar algumas imagens, mesmo que através da janela do ônibus. Uma brincadeira despretensiosa. A montagem teatral com a qual concluiremos o Arte na Comunidade 3 na Baixada Santista tem por título BRINCANDO ENTRE A SERRA E O MAR. A peça sintetiza os trabalhos anteriores que realizamos nas cinco cidades visitadas. Agora somamos aos aspectos históricos e característicos de cada município outros, da Serra e de toda a Baixada.
O sonho de descer a Serra não está adiado. Continua sonho. Todavia, a intimidade cresceu e a admiração e o fascínio também. Sei que as fotos não são as melhores. Algumas ficarão neste post e outras na minha página, no Facebook. Que Sebastião Salgado me perdoe, mas elas estão aqui apenas para alimentar o sonho de todo aquele que, como eu, ama e sonha em caminhar por esse lugar.