Um Sábado com Domingo no Parque

Pura emoção: junto à Orquestra de Câmara da ECA/USP, com arranjos e regência do Maestro Gil Jardim, Gilberto Gil canta Domingo no Parque. Suavemente os sons invadem a Sala São Paulo e dou-me conta de ser esta a primeira vez que ouço ao vivo a música, originalmente apresentada no Festival da Record de 1967. O choro vem fácil e sinto o apoio que vem da amiga que me propiciou tal evento. Careço de outra canção pra sintetizar esse momento: “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual” diz a letra de Caetano Veloso em “Os mais doces bárbaros”.

Tal e qual é a beleza de Domingo no Parque na voz madura e segura de seu criador. João, José e Juliana estão em um parque, onde o triangulo amoroso será desfeito tragicamente. As frases melódicas são precisas e realçam a história ocorrida em algum domingo, no parque de diversões onde a roda gigante gira, feito a roda do destino. Os versos evocam imagens com a precisão da poesia. O fim é, infelizmente, comum ainda hoje: resolvido com a lâmina de uma faca.

Gil e os mutantes
Gilberto Gil e Os Mutantes, em 1967

Nada igual! Não estavam lá Os Mutantes fazendo coro com Gilberto Gil. E o novo arranjo, embora belíssimo, continua fazendo lembrar e reverenciar o original de Rogério Duprat. Um encontro impossível com a morte de Duprat, em 2006, e com os rumos sem retorno dos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Batista, cada vez mais distantes de Rita Lee. No entanto… Criador e criatura! Gilberto Gil é um dos máximos compositores que somam letra e música com beleza e emoção. E há mais: o cantor! Dono de um timbre inequívoco, a voz conhecida de décadas está ali, fazendo a emoção atingir altíssimos graus.

Gilberto Gil brilhou em noite que estiveram presentes a cantora Vanessa Moreno com Fi Maróstica, e a fadista Carminho, duas mulheres extraordinárias. O Concerto Letras de Luz, no Dia Internacional da Língua Portuguesa comemorou o 10º aniversário do Instituto EDP, encarregado de ações socioculturais do Grupo EDP, que tem origem em Portugal.

Gil e os demais artistas
Gilberto Gil, Carminho, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, e o maestro Gil Jardim, os artistas do Concerto Letras de Luz

A voz de Vanessa Moreno surpreendeu ao cantar Expresso 2222 e Carminho, lembrando Amália Rodrigues com Saudades do Brasil em Portugal, de Vinícius de Moraes, segue a tradição das grandes cantoras portuguesas. A Orquestra de Câmara da ECA/USP fez um memorável O Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos. O final do show reuniu todos os artistas presentes que fizeram o bis com Panis et Circenses e, novamente emocionaram, em interpretação que lembrou Os Mutantes e a Tropicália.

Foi um sábado feliz. Com Vinho do Porto, Pastel de Belém, alguns amigos e a companhia pra lá de especial da Sonia Kavantan (Obrigado, Sonia! Obrigado EDP!). Tudo muito bom!

Já na Bela Vista quando desci do carro da minha amiga, enquanto caminhava solitário na rua deserta, madrugada de domingo, pensei em Gil, na Ribeira que vi de passagem, lá em Salvador, no parque de diversões do meu pai e da canção, que tive o privilégio de ouvir…

Olha o sangue na mão (ê, José)

Juliana no chão (ê, José)

Outro corpo caído (ê, José)

Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)

Não tem mais construção (ê, João)

Não tem mais brincadeira (ê, José)

Não tem mais confusão (ê, João).

Boa semana para todos!

Ah! Para rever Domingo no Parque no Festival da Record:

 

Até!

Cariello e Cariello. Iguais e diferentes

Há muitos irmãos dentro de uma mesma atividade ou profissão. Certamente o ambiente familiar, a convivência, favorece o despertar de interesses similares; se esquecermos as artes, vamos encontrar gente em todas as áreas dividindo a profissão com os próprios irmãos. Todavia, dentro do universo artístico, nos encantamos quando há uma incontestável e imensa quantidade de membros talentosos em uma mesma família.

Chico Buarque, desenhado por Octavio Cariello, divide o palco com as irmãs Miucha e Cristina

A música é pródiga em propiciar trabalho para irmãos. Os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Batista fizeram história com a banda Os Mutantes, assim como os baianos Caetano Veloso e Maria Bethânia têm uma carreira sólida marcada por inúmeros êxitos. Se dois é pouco, temos o “Trio Esperança”, formado por cantoras fantásticas; há outro trio, Caymmi, mais conhecido como Família Caymmi, formado por Dori, Danilo e Nana Caymmi. Sim, há que se atentar para o grande pai, Dorival. Ok; há todas as outras duplas, aquelas que se ligam via “&”; vou deixá-las para outro momento, pois há uma certa peculiaridade entre os artistas abordados neste post.

Provavelmente há muitos artistas plásticos dentro de uma mesma família. Desenhistas, designers, ilustradores… A cidade de São Paulo é o berço dos gêmeos Paulo e Chico Caruso, que já entraram para a história, destacando-se entre os cartunistas brasileiros.  Recife é o berço dos irmãos Octavio e Sergio Cariello. Como todos os artistas citados acima, os irmãos Cariello trafegam pelas mesmas formas expressivas em vias muito distintas. Esta, talvez, seja a característica mais impressionante de toda essa gente. Abençoados com os mesmos dons, traçam os próprios passos.

Não conheço Sergio Cariello e não tenho receio em afirmar que sou o melhor amigo de Octavio Cariello. O primeiro mudou-se para os EUA, lá desenvolveu uma carreira de sucesso e, de lá, seu trabalho ganhou outras praças, chegando ao Brasil. Nos próximos dias Sergio Cariello estará em São Paulo e no Rio de Janeiro em eventos que destacarão, provavelmente, a maior empreitada do artista. Sergio Cariello ilustrou nada mais, nada menos do que a Bíblia.

Projeto desenvolvido pela David C. Cook, a “Bíblia em Ação” foi totalmente ilustrada pelo artista brasileiro que, hoje, reside na Flórida. São 750 páginas com mais de 200 narrativas, na mesma ordem do original sagrado. Antes de chegar a esse projeto, Sergio Cariello ganhou o respeito dos americanos trabalhando para as gigantes editoras Marvel e DC Comics.

Octavio Cariello saiu de Recife para São Paulo. Chegando por aqui logo conquistou admiração e respeito, sendo eleito por seus pares como um dos maiores desenhistas brasileiros. Ficou conhecido nacionalmente desenhando novas charges para o “Amigo da Onça” e ganhou o mundo em publicações internacionais, chegando a desenhar parte da saga “Entrevista com o Vampiro”, original de Anne Rice.

Pude contar com o talento de Octavio Cariello quando dirigi a peça “A História de Lampião Jr. e Maria Bonitinha”, original de Januária Alves, produzido pela Kavantan & Associados. Foi ele o responsável por toda a programação visual da montagem – cartazes, convites, programa, anúncios – o que contribuiu para o sucesso do nosso trabalho. Os caminhos de Octavio conduziram-no para a literatura e, meses atrás, escrevi sobre o lançamento de Tueris, o romance escrito por ele. Antes, Octávio foi o responsável pela minha estréia em livro, quando organizou a coletânea Alterego, onde participei com um conto.

Os caminhos desses irmãos são brilhantes. Com capacidade expressiva similar, cada um percorreu um caminho peculiar, único. Pessoas iguais, com os mesmos talentos, oriundas de um mesmo lar, tiveram a possibilidade de buscar um caminho próprio, onde se realizam e são felizes. Isso é muito bom!

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Bom feriado!

Notas:

Octávio Cariello divide o que sabe com seus alunos na Quanta, academia de artes. Anote informações sobre a vinda de Sergio ao Brasil:

…Fá, Sol, Lá, Si Vai Dona Doida!

Rita em capa de disco gravado em 1970

Preparar esse pé de meia

Pra enfrentar a velhice

E se leva a vida inteira

Pra saber que é uma boboquice…

Não precisa olhar calendário. De manhã, bem antes do horário bancário, quando há uma fila de aposentados na porta da agência estamos no quinto dia útil. Logo, logo, em uma dessas filas, não é que a gente pode dar de cara com dona Rita Lee?

…Deolinda dos sem rainha

Deusa pagã do Butantã

Heavy metal de Santa Izildinha

Joana dark do lexotan

Bendita Rita da lua cheia

Rogai por mim nesse começo do fim…

Foi estranho ver e ouvir a própria Rita Lee anunciando aposentadoria dos palcos. Há pouco soube de outra cantora, Nana Caymmi, também falando de afastamento. Ok! Todo mundo tem o direito de parar e, como disse a própria Nana, querer “… ver o sol nascer de forma diferente; e essa casa em Minas corresponde a tudo que eu preciso.” A Minas, de Nana, é Minas Gerais mesmo, onde a cantora escolheu viver. São Paulo é a terra de Rita Lee e é por aqui que ela deverá ficar.

Esta foi outra capa, em 1980

Rita Lee pretende parar com os shows. Da música – ela mesma disse – não se afastará nunca. De qualquer forma é estranho, muito estranho. Fico imaginando Rita Lee na fila do SUS, sentadinha em banco especial do metrô, na fila preferencial dos supermercados, farmácias… E nos bancos, recebendo o “fantástico” e “imenso” salário pago aos aposentados brasileiros!

Como vai você?

Assim como eu

Uma pessoa comum

Um filho de Deus

Nessa canoa furada

Remando contra a maré

Não acredito em nada

Até duvido da fé…

Ultimamente Rita Lee tem usado o Twitter para colocar a boca no trombone. Sem shows, mais tempo terá para o Corinthians, os bichinhos de estimação, os netos e, certamente, para a música. Aos 64 anos, a menina que encantou com a banda Os Mutantes e transformou-se, segundo Caetano Veloso, “na mais completa tradução” de Sampa, das mulheres de Sampa, fez uma trajetória única, plena de êxitos e agora, sem condições físicas, afasta-se dos palcos. Não deixa de ser melancólico.

A Roling Stone celebra a longa carreira de Rita Lee

Em 1972, ainda jovenzinha e com Os Mutantes, Rita Lee gravou “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”. Essa música bateu na lembrança, na medida em que tomei conhecimento do anúncio da aposentadoria. Sem dramas, sem desespero. Apenas isso:

Hoje é o primeiro dia

Do resto da sua vida

E da minha também

E então

Sente no meu colo.

E assim o tempo passou e o hoje tem sido vivido por Rita Lee. De tantas mudanças que podemos verificar na vida da cantora e compositora, esta é, no final das contas, apenas mais uma: Rita Lee se aposenta dos palcos. Tudo bem! Vamos nessa, sempre bailando…

... Como se baila na tribo

Baila comigo, lá no meu esconderijo.

Boa semana para todos.

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Notas musicais:

As músicas citadas neste post, respectivamente: Dona Doida – Rita Lee/Roberto de Carvalho (o título do post é verso  desta canção); Pé de Meia – Rita Lee; Santa Rita de Sampa – Rita Lee/Roberto de Carvalho; Nem Luxo Nem Lixo – Rita Lee/Roberto de Carvalho; Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida – Arnaldo Baptista/Sergio Baptista;  Baila Comigo –  Rita Lee