Manhã na Rua 7 de abril. Até quando?

7 de abril
Rua 7 de Abril, tranquilamente abandonada.

O centro da cidade de São Paulo aparenta ter momentos de tranquilidade. Principalmente no chamado “centro velho” onde ainda há ruas e avenidas que indicam calma e sossego se o olhar for distraído ou condescendente. Combinei de encontrar um amigo na Rua 7 de abril, numa das manhãs da semana que passou. Sobrou indignação após a permanência momentânea em uma das ruas centrais da cidade mais rica da América do Sul.

Não conheci os momentos de glória da Rua 7 de Abril quando nela estava a sede dos Diários Associados e, dentro dessa, o MASP, Museu de Arte de São Paulo, hoje com o acréscimo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Uma homenagem ao dono dos Diários Associados, responsável pela implantação da televisão no Brasil. Pois foi ali, na mesma sede, em 1950, que foram ao ar as primeiras imagens da TV TUPI, mudando a partir de então a comunicação no país e os hábitos dos brasileiros.

Pela Rua 7 de abril, nos anos de 1950, certamente passaram os maiores magnatas da cidade, em determinado momento portando obras de arte para “doação” ao MASP. Os parênteses na doação estão aí para assinalar histórias que insinuam ameaças, chantagens, troca de influências e sabe lá o que mais, dentro da teia de poder manipulada por Chateaubriand que, como todo grande homem da comunicação do país tinha ligação com a Presidência da República, no caso de Chatô, Getúlio Vargas.

Conheci a 7 de Abril já no final dos anos de 1970 e por lá estive inúmeras vezes nos anos seguintes, frequentando outra sede, da companhia de telefones. Lá era um dos locais ideais para fazer interurbanos (para as crianças de agora, chamadas telefônicas para outros municípios) em cabines que garantiam o mínimo de conforto, segurança e privacidade. Nos últimos anos ainda fui lá visitando um amigo em loja de serviços de reprografia com ênfase no popular “xerox”.

Voltar na semana passada foi triste, melancólico. Transformada em calçadão, com pequenas ilhas de convivência criadas com bancos de madeira e floreiras, a rua evidencia descaso da administração municipal pela quantidade de sujeira no ambiente. Lixeiras sobrecarregas são visitadas por infelizes e, uma atitude estranha: quando em duplas, o primeiro sujeito olha, mexe, procura algo antes de seguir caminho enquanto o outro faz o mesmo, checando ou procurando algo diferente do primeiro.

Usuário constante, o vendedor ambulante vem com um saco cheio de lixo sem conseguir descarregar os resíduos. Um ou outro transeunte joga um papel, ou qualquer outro objeto de pequeno porte na lixeira, o que me alegra pelo gesto educado e civilizado. Isso não se pode dizer de fumantes, os responsáveis por quantidade absurda de bitucas que, em próxima chuva, colaborarão para as enchentes na cidade.

Aguardei meu colega ao lado de duas agências bancárias e, em frente a essas, pude observar três lojas absolutamente iguais de capas para aparelhos celulares. Diante da loja central um casal de policiais, ciclistas, a bermuda fazendo parte do uniforme. O rapaz mantinha-se alheio enquanto a colega, por mais de vinte e cinco minutos, falou sem cessar ao telefone. Ambos ignoraram o sujeito que veio até a mim oferecendo maconha, para usar ou vender. Agradeci como aprendido em casa, educadamente, e o pseudo traficante se foi (levava mais para aviãozinho). Indignado passei a cronometrar o tempo da policial ao telefone e reitero, mais de vinte e cinco minutos!

Em contraponto à comunicativa policial, é raro ver alguém com o celular em mãos. E notei isso graças ao aviso de uma vizinha, sentada próxima, quando peguei meu aparelho para ver se já havia algum recado de quem eu esperava: “- Senhor, guarde seu telefone. Cuidado com assaltos. Se quiser usar, entre em alguma loja!” Foi o que fiz um pouco mais tarde quando o aparelho tocou anunciando a chegada do amigo ao encontro marcado.

Deixei a Rua 7 de Abril. Voltando para casa pude notar e confirmar que algumas ruas do meu bairro estão no mesmo diapasão. Ainda no caminho, passando pela Rua Major Diogo, vi mais uma vez a sede do TBC – TEATRO BRASILEIRO DE COMÉDIA, tão abandonado quanto a Rua 7 de Abril. Ah, São Paulo, cidade amada! Ah, conterrâneos, nascidos ou vindos de outros locais, como eu! Quando aprenderemos a escolher melhor nossos administradores? Quando exigiremos com veemência que não deixem a cidade imersa em sujeira e abandono?

Até mais.

Sérgio, Cesária e Joãozinho

Começo a semana homenageando três grandes figuras, cada uma delas ligada à uma área, das três principais áreas deste blog. O teatro ficou sem Sérgio Britto, a música de Cabo Verde ficou sem Cesária Évora e o carnaval brasileiro perdeu um grande gênio, o artista plástico Joãozinho Trinta.

Sérgio entre Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi, na época do Teatro dos Sete

O nome de Sérgio Britto me é familiar deste criança; ele foi diretor da novela A Muralha, exibida pela extinta TV Excelsior, em 1969. Fiquei encantado com a saga dos Bandeirantes e recordo estes bravos primeiros paulistas desbravando o Brasil. Recordo dessa novela um ataque à casa grande, com os homens fora, e a defesa sendo feita por mulheres. Duas atrizes já tinham total domínio do ofício e garantiam grandes cenas: Nathália Thimberg e Fernanda Montenegro. Estas têm suas histórias profissionais ligadas a Sérgio Britto. No TBC, no Teatro de Arena, no Teatro dos Sete. Escreveram a história do teatro brasileiro do século XX e continuam, neste XXI.

Conheci Sérgio Britto nas minhas andanças por São Paulo. Era simpático, falante, educado. Parecia sempre disposto a contar histórias do seu passado, da sua profissão. Uma generosidade em transmitir o que sabia que foi sistematizada na CAL – Casa de Arte das Laranjeiras, a escola da qual foi um dos fundadores e que está entre as nossas principais instituições de ensino de teatro.

Também tive o privilégio de ver um show de Cesária Évora. Convidado pela também cantora Angélica Leutwiller fui conhecer a cantora de Cabo Verde. A apresentação foi inesquecível. Cesária pareceu-me uma mulher vivida, sofrida; nada do glamour que possa sugerir a expressão “Diva dos pés descalços”, como foi chamada em vida. Creio que o vídeo fale por si. A voz límpida, afinada, sobretudo uma voz forte e ao mesmo tempo de uma doçura incrível.

Daquele show de Cesária Évora guardei a lembrança da mulher tranquila que, com um sorriso sincero e simultaneamente gaiato, interrompeu o espetáculo por alguns minutos, anunciando que precisava ir “la fora” fumar. Voltou para concluir o show com voz tranquila, colocando Cabo Verde no mapa musical das minhas preferências.

Assim como Cesária Évora fez seu país ser lembrado por todos os lugares onde passou, Joãozinho Trinta colocou a escola de samba Beija-flor de Nilópolis na história do samba, marcando definitivamente o carnaval do Rio de Janeiro.

O carnaval de Joãozinho Trinta: Irreverência e protesto com humor

Joãozinho Trinta encarna um tipo diferente de artista, ligado às artes plásticas, com um invejável domínio de composição visual. Há que se considerar que um desfile de escola de samba é um monte de coisas: teatro, ópera, dança, enfim é um grande espetáculo com uma única apresentação. Compor dezenas de alas, alguns carros alegóricos, destaques diversos e colocar tudo isto em uma passarela com harmonia, beleza e ritmo contagiante não é coisa para qualquer mortal.

O carnavalesco Joãozinho Trinta será lembrado pelos imensos carros alegóricos com mulheres espetaculares; pela ousadia de, impedido de colocar uma escultura do Cristo Redentor – veja foto acima – responder com elegância e fé ao ato de proibição originado da própria igreja católica. Também será lembrado pela alegria, pelas referências ao seu amado Maranhão, sempre com a alegria que caracteriza sua gente.

Três diferentes grandes artistas. Sérgio Britto, Cesária Évora, Joãozinho Trinta. Os três falecidos no mesmo dia, 17 de dezembro de 2011. Vale lembrar, sobretudo homenagear e agradecer pelos incontáveis momentos de arte que nos proporcionaram.

Vamos em frente! Boa semana para todos.

Santa Bárbara, Iansã e a história de Zé-do-Burro

No dia 4 de dezembro vou no mercado levar

Na Baixa do Sapateiro flores pra santa de lá

Bárbara santa guerreira, quero a você exaltar

É Iansã verdadeira! A padroeira de lá…

(Dia 4 de dezembro – Tião Motorista)

Salvador está em festa neste domingo, dia 4 de dezembro. Tudo começa muito cedo; ao amanhecer há queima de fogos, missa e depois vem procissão. Santa Bárbara é celebrada nas igrejas da velha cidade; Iansã nos terreiros de candomblé. Na alma do povo simples Santa Bárbara e Iansã são uma só.

Santa Bárbara é a padroeira dos mercados, Iansã é a senhora dos raios e das tempestades. E na alegria inerente ao povo baiano a festa ganha espaço. Muito caruru, que é oferenda à Orixá, e muito samba de roda, maculelê e capoeira. “Êpahei, minha mãe! É seu dia!”

Madrugada, Zé-do-Burro chega carregando a cruz. É seguido pela mulher, Rosa.

Foi nesse cenário de fé que Dias Gomes situou a história de Zé-do-Burro, “O Pagador de Promessas”. Zé tinha um burro, Nicolau, que adoeceu. Nicolau tinha “alma de gente”, era o melhor amigo de Zé-do-Burro. Pelo burro Zé prometeu levar uma cruz nas costas até a igreja de Santa Bárbara, no dia dedicado à Santa. A cruz teria o mesmo tamanho da cruz de Cristo. O burro sarou e a promessa deveria ser cumprida. O grande conflito será estabelecido entre o homem simples e o vigário da paróquia. O representante da igreja não permite que Zé-do-Burro pague a promessa, feita no candomblé de Maria de Iansã.

Estréia no TBC. Leonardo Vilar e Natália Timberg

A peça estreou aqui na Bela Vista, no Teatro Brasileiro de Comédia, no dia 29 de Julho de 1960. A interpretação de Leonardo Vilar é marcante e pode ser confirmada ainda hoje, via versão cinematográfica, em filme dirigido por Anselmo Duarte. A peça ganhou muitos prêmios e recebeu montagens em todos os continentes, tornando-se um marco da história do teatro brasileiro. Também o filme, premiado em 1962 com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, é destaque na trajetória do cinema brasileiro.

O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, 1962
O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, 1962

Sobre a peça, o próprio Dias Gomes escreveu: ”O Pagador de Promessas” nasceu, principalmente, dessa consciência que tenho de ser explorado e impotente para fazer uso da liberdade que, em princípio, me é concedida. Da luta que travo com a sociedade, quando desejo fazer valer o meu direito de escolha, para seguir o meu próprio caminho e não aquele que ela me impõe. Do conflito interior em que me debato permanentemente, sabendo que o preço da minha sobrevivência é a prostituição total ou parcial.

Leonardo Vilar no embate com Dionísio Azevedo, o "Padre Olavo"

A peça “O Pagador de Promessas” pode ser descrita como o embate entre a intolerância, representada pelo padre, e a teimosia, fortalecida pela fé mítica de Zé-do-Burro. Com maestria, Dias Gomes nos coloca ao lado do homem simples em luta contra o grande sistema. Há momentos em que somos meros curiosos perante o drama do homem comum; ele é simplório demais, ingênuo, “burro”. Todavia é movido por algo que mexe com todos nós: foi agraciado pela Santa; o que pode ocorrer se não pagar a promessa? Medo e culpa são sensações vividas, conhecidas por todos nós. E somos brasileiros, qual o problema? Que razão tem o padre para impedir o pobre homem de pagar a tal promessa?

Glória Menezes foi Rosa, a esposa, no filme dirigido por Anselmo Duarte

Escrita no final dos anos de 1950, a peça é um claro documento das brutais diferenças entre o homem rural e o homem urbano. Zé enfrenta a cidade e tem, no máximo, a simpatia de alguns para com sua causa. Sobram interesses particulares; revelam-se desejos mesquinhos; a cidade observa curiosa e atenta ao embate entre o padre e o sertanejo simplório. A civilização urbana é prostituida, vendida. Resta ao homem simples viver o drama da fidelidade aos próprios princípios. Nesse mundo, tão bem retratado pelo autor da peça, não há lugar para heróis. O final de Zé-do-Burro é trágico.

Uma versão da TV Globo com José Mayer está em DVD

Dia 4 de dezembro é dia de Iansã, Bárbara Santa Guerreira! Êpahei! Um domingo de festa com caruru e samba de roda. Iansã, que é aquela que luta pelos seus, possa defender-nos de todo o mal, principalmente do tenebroso sentimento de intolerância que tanto afeta nosso cotidiano, mesmo sem que sejamos “pagadores de promessas”.

Bom final de semana!

Teatros do Bexiga em uma caminhada

O Bexiga tem tanta história! Um levantamento afetivo, resultado de uma caminhada com objetivos. Não sei ir por aí, feito alma penada. Resolvi caminhar pelos teatros próximos da minha casa (Tenho sorte, graças a Deus!) e quem quiser o roteiro real, posso até fornecer. O roteiro afetivo começa pelo TBC, o primeiro que fotografei.

Resultado da legislação que limpou a cidade, proibindo os grandes e exagerados cartazes, outro dia percebi o quanto é bonita a arquitetura do Teatro Brasileiro de Comédia. Fundado em 1948 por Franco Zampari, foi templo de Cacilda Becker e Fernanda Montenegro. O contraste entre diferentes épocas é próprio do bairro; por isso escolhi o Teatro Ruth Escobar para figurar ao lado do TBC. A atriz e empresária Ruth Escobar levantou grana com seus patrícios portugueses para construir o local, que é um verdadeiro Centro Cultural.

Quando cheguei por aqui… bem, são os teatros da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio que marcam o período em que passei a morar em São Paulo. Era o final dos anos 70. O atual Teatro Bibi Ferreira tinha um outro nome; no jardim, recordo bem, dois cartazes enormes com fotos de Arlete Montenegro e Carlos Arena. Não vi o espetáculo. Era mais um migrante procurando emprego e tentando sobreviver na megalópole.

No Teatro Brigadeiro, que já foi Teatro Jardel Filho, no mesmo período, Paulo Autran estava em cartaz ao lado de Eva Wilma. A peça era “Pato com Laranja”. Também foi depois que vim a conhecer esses dois grandes atores. No Ágora, que já foi o Teatro do Bexiga, fiz uma entrevista com Caíque Ferreira, quando o falecido ator encenou Giovanni, um clássico de James Baldwin.

O Teatro Abril, que com o nome Paramount foi um marco da nossa televisão, especialmente os históricos programas da TV Record, conheci como cinema. Hoje, no Teatro Abril, são apresentados grandes musicais internacionais e é por esses e outros que chamam o Bexiga de Broadway brasileira.

A Broadway, ao que tudo indica, tem muito dinheiro. Por aqui, ele não sobra. Vide o Teatro Imprensa! E é a mesma crise que levou à escassez de espetáculos no Teatro Mars, onde Ulisses Cruz fez uma montagem genial de “Pantaleão e as visitadoras”. Nem tudo é crise; pelo menos houve dinheiro para reformar o Teatro Sergio Cardoso onde, atualmente, Glória Menezes está em cartaz com a peça “Ensina-me a viver”. Todavia quero registrar que foi neste teatro que vi, pela primeira vez, o Stuttgart Ballet. Inesquecível o som das sapatilhas dos bailarinos, em inusitada percussão paralela ao som vindo da orquestra.

Há outros teatros no Bairro, nas adjacências, na vizinhança. Os que estão por aqui foram registrados em uma caminhada. Sobe morro, desce morro, caminha, caminha, caminha… quem sabe o corpo entra em forma! Outras tardes de exercício físico virão e, maquininha em punho, farei outros registros. Quero finalizar este com o Teatro Oficina.

O Teatro Oficina está completando 50 anos. O diretor José Celso Martinez Corrêa é a grande figura do local. Atualmente os artistas do Oficina realizam uma “Macumba antropófaga”, continuando a histórica trajetória de resistência do Teatro. O atual trabalho é  homenagem a Oswald de Andrade e  comemora o aniversário do grupo Uzyna Uzona, responsável pelos trabalhos do Oficina.

Só para esclarecer, pois a história é longa, minha participação no teatro foi com uma peça que escrevi e dirigi, chamada “Os Pintores”, encenada por um grupo de operários de Santo André, no ABC Paulista. Foi uma única apresentação. Para nós, naquele momento, uma grande vitória. Fazendo o caminho inverso, sentimo-nos Bandeirantes invadindo a cidade.

Até sexta!

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