Floresta dos Mistérios estreia dia 7

Trabalhei com Márcio Araújo na montagem de Uma Festa Para Ramiro, quando o artista assinou os figurinos. Também autor, diretor, ator e produtor, Márcio inicia nova viagem teatral com um espetáculo que promete. Vejam o texto abaixo da divulgação do infantil Floresta dos Mistérios.

Floresta dos Mistérios
Foto divulgação: Silvia Machado

Idealizado, escrito e dirigido por Márcio Araújo, o espetáculo infantil Floresta dos Mistérios estreia dia 7 de setembro, às 16 horas no Teatro Alfa. Totalmente inclusivo, com áudio-descrição e libras, em todas as sessões, o espetáculo utiliza bonecos manipulados que representam as crianças, cada uma com uma deficiência: surdez, síndrome de Down e paralisia cerebral. São essas crianças (Guta, Rafa e Duda) que enfrentarão a prefeita da cidade de Micrópolis (Marta Lúcia). Ela quer derrubar a floresta dos encantados para a construção de uma grande fábrica.

Nessa defesa em favor da floresta, as crianças contracenam com seres folclóricos como o Saci Pererê, a sereia Iara e o Boitatá, com os quais se identificam e criam laços afetivos em função das necessidades especiais de cada criança. Unidos, eles enfrentam a ganância da prefeita.

Criados por Márcio Pontes, referência no teatro de animação, os bonecos têm o tamanho real das crianças, as músicas, de Márcio Araújo, compostas para o espetáculo e cantadas ao vivo, aliadas ao cenário de Nani Brisque, ajudam a contar essa história de superação, inclusão e magia.

“É muito importante dar representatividade a todas as pessoas, sobretudo às minorias, para que o mundo possa conviver em harmonia. Além disso, discutir com o público a questão do desmatamento e do meio ambiente é essencial nesse momento”, afirma Márcio Araújo.

Com produção e idealização da Humanize Produções e Marujo Produções, o espetáculo amplia a discussão sobre a inclusão social, defesa do meio ambiente e reflete também acerca da tecnologia/desenvolvimento e sustentabilidade. É  apresentado pelo Ministério da Cidadania e Volkswagen Financial Services.

Ficha Técnica

Texto e direção – Márcio Araújo. Elenco – Clayton Bonardi, Daniel Costa, Daniela Schitini, Débora Vivan, Mateus Menezes, Wesley Leal e Marizilda Rosa. Criação de bonecos – Márcio Pontes.  Músicas – Márcio Araújo e Tato Fischer. Arranjos musicais – Gabriel Moreira. Iluminação – Wagner Freire. Cenário – Nani Brisque. Produção Executiva e idealização – Humanize Produções e Marujo Produções

Serviço

Espetáculo infantil – Floresta dos Mistérios

Estreia dia 7 de setembro, sábado, às 16h na Sala B do Teatro AlfaCapacidade: 204 lugares. Temporada: De 7 de setembro a 20 de outubro. Sábados e domingos, às 16h. Duração: 60 min. Classificação etária: Livre. Recomendado para crianças a partir de 4 anos.

Teatro Alfa – Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. (11) 5693-4000. Site: www.teatroalfa.com.br Ingresso rápido ou pelos telefones: 11 5693-4000 | 0300 789-3377.

Auto da Esperança, o meu começo.

Outro dia, Marilene Justino postou uma foto no Facebook e ficou evidente a ação do tempo. Era uma foto, de uma peça, feita em um ano que ninguém mais sabia qual. A imagem trouxe lembranças, fez-nos contatar pessoas distantes… A história é algo que se perde se não há registro. É a história de como o teatro entrou em minha vida, quando estava em um grupo de jovens e sonhava mudar o mundo.

Auto da Esperança Valdo Resende
O “Auto da Esperança”, teatro para um grupo de jovens.

Houve um grupo de jovens na Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Bairro Boa Vista, em Uberaba, MG. Surgiu na esteira dos movimentos de liderança cristã, inspirados na Ação Operária Católica francesa, buscando aproximar Igreja e juventude. Era a década de 1970. Os Padres Somascos nos deram espaço e apoio intelectual. O grupo estudava diferentes temas e participava de várias ações dentro da paróquia. Entre essas ações, anualmente fazíamos um encontro de aprofundamento, exclusivo para os participantes do grupo de jovens.

O “Auto da Esperança”, nossa primeira investida em teatro, foi um presente para os participantes do encontro anual de jovens. Ronaldo Feliciano de Assis ficou responsável por criar um momento teatral, em segredo, para ser apresentado no início da tarde. Um mês antes ele veio até minha casa, pedindo ajuda, pois nada havia saído do papel. Eu também não sabia fazer teatro; mas éramos jovens…

Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado
Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado

Em dezembro de 1975 ocorreu o encontro. Após o almoço foi preparado uma série de atividades lúdicas para o pessoal do grupo. A equipe “sumiu” entre uma brincadeira e outra, dirigindo-se para o salão de palestras onde ocorreria a apresentação. No local havia um anfiteatro, mas não nos foi permitido usar o auditório, muito menos o palco. Descobrimos, logo na primeira tentativa de montagem, que o mundo não é nada fácil para quem faz teatro.  Mas éramos jovens e… Estreamos utilizando grandes mesas de reunião como palco.

Uma colagem foi o que apresentamos. O filme Godspell (1973, Direção de David Greene), um musical da Broadway, adaptação do Evangelho de São Mateus, e o disco Sinal Fechado (Chico Buarque, 1974) foram as duas bases para nossa montagem, por nós denominada Auto da Esperança. Todo o pessoal envolvido manteve segredo e nossos amigos e demais convidados para o encontro foram surpreendidos com nossa apresentação.

Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.
Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.

Gostaria muito de coletar as impressões daqueles que participaram daquele momento, fundamental para a minha vida. O início de uma paixão que dura até hoje e, mesmo não sendo minha principal atividade profissional, o teatro é o canal através do qual me manifesto artisticamente. Neste exato momento estou com um novo texto, lá no querido e distante Pará, com montagem já em fase de produção. Estou no Pará; essa expressão possível porque um dia estive em Uberaba, com a Equipe de Teatro Nossa Senhora das Graças, fazendo o Auto da Esperança.

O teatro surgiu em minha vida dando-me uma grande lição, naquela agora longínqua tarde em minha cidade. A estréia do nosso grupo foi recebida com uma ovação espetacular, sucesso absoluto. A vaidade bateu forte e eu estava pronto para colher os frutos do sucesso. Escrevera o texto, escolhera as músicas, definira figurino, cenário… Eu era “o máximo”! Os atores foram abraçados, beijados, saudados como grandes naquele dia. Eu fui ignorado. Ninguém sabia o que eu havia feito. Não devo ter conseguido esconder a cara de decepção. Foi o Pe. Américo Veccia o único a cumprimentar-me após a apresentação. E aproveitou para dizer-me que eu considerasse que as pessoas presentes não estavam habituadas com autores, diretores e outras funções teatrais invisíveis.

Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.
Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.

Naquele dia, como era costume, o encontro terminou com uma missa. Durante essa, fui carinhosamente abraçado por todos os atores, por todo o pessoal do teatro. O segundo presente que recebi naquele dia. O primeiro veio com o aprendizado do teatro enquanto forma de expressão artística, não local para alimentar vaidades. Foi muito bom!

A semente cresceu. Entre os palestrantes daquele dia estavam professores da Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, que nos convidaram para uma apresentação para o pessoal do curso de letras. Fizemos muitas outras apresentações, em diferentes lugares, a equipe já aumentada, alterada com a presença de novos colaboradores, como prova a foto de 1976, feita em Goiânia, após uma apresentação na cidade.

Fizemos peças para apresentações durante as cerimônias litúrgicas e outras montagens que foram apresentadas no bairro, em toda Uberaba e em várias cidades da região. Uma história singela que envolveu muitas vidas, determinando caminhos para muita gente.

O Auto da Esperança, Valdo Resende, em Goiânia
Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, “Eulindo”, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Eu gostaria de pedir aos meus amigos que fizeram parte desse trabalho para que registrassem logo abaixo, nos comentários, suas impressões e recordações dessa fase de nossas vidas. Um jeito de lembrar, uma forma de preservar nossa memória através de lembranças fundamentais do que fomos um dia, base do que somos agora. Pode ser que meus amigos não concordem, ou que não tenham as mesmas lembranças. Fazer o que; como diz o velho ditado, minha memória…

Entrou por uma porta
Saiu pela outra, quase nua
Quem quiser que conte a sua!

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Boa semana para todos!

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O mundo que vem por aí

Um imenso e inusitado barulho, nesse final de semana, levou-me a pensar no fim do mundo. O som intenso, desagradável e inesperado fez-me, por segundos, acreditar que o fim seria assim, chegando como surpresa; visita inesperada e inevitável, já que a mesma sabe que estamos em casa. Fiquei bem quietinho, sem verbalizar meu receio e comecei a sonhar com um novo planeta, um mundo idealizado em meus sonhos.

Teatro de Marionetes da República Tcheca. Foto: Valdo Resende
Teatro de Marionetes da República Tcheca. Foto: Valdo Resende

Creio que eu manteria nesse novo mundo, os velhos castelos, monarcas de reinos distantes, reis e rainhas do maracatu e do congado. Soberanos justos, leais, honestos, que assumiriam o reino como extensão da própria família; que chamariam súditos de filhos e que seriam capazes de dar a própria vida pelos seus.

Marionetes de Praga Foto Valdo Resende

Sendo impensável um mundo sem música, eu impediria o fim de todos os bons instrumentistas. Junto com eles os compositores, os cantores para todos os tipos de gente, cantando em todos os ritmos, preservando as boas canções de todos os tempos. Músicos que fariam de seu trabalho a trilha sonora das gentes; que permaneceriam em todas as situações, colocando música em cada momento.

A exposição foi denominada "Gepetos de Praga", referência ao criador de Pinóquio.
A exposição foi denominada “Gepetos de Praga”, referência ao personagem criador de Pinóquio.

Nesse velho novo mundo, o dever deveria equilibrar-se com o lazer. O fruto do trabalho renderia uma vida agradável para patrões e empregados que, nesses tempos, assumiriam a condição de parceiros. Seria fundamental que na mudança, para que valha a pena mudar, os indivíduos entendessem que vivemos em uma cadeia onde somos absolutamente necessários uns aos outros.

Gepetos de Praga

No meu rápido esboço de mundo pensei nas idéias e pessoas divergentes que poderiam surgir. Alguns poderiam ansiar pelo poder, pela posse e inevitáveis lutas viriam. Portanto, do mundo que já temos, seria fundamental levar os heróis, os bravos, os sonhadores; todos prontos garantindo a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Que coisa boa, antiga…

foto valdo resende

Sábado, o mundo que esbocei na noite de insônia, apareceu materializado em marionetes vindas da República Tcheca, expostas no Centro Cultural da Caixa, logo ali, na Praça da Sé. Estava ali a mistura de sonho e realidade aprendida nos livros, em romances, em filmes e, sobretudo, no teatro. Conversei rapidamente com as monitoras que, preparando uma oficina, contaram-me do teatro que se faz em Praga.

Teatro de fantoches

Recordei, então, a época em que fiz teatro com fantoches e, diante dos expressivos bonecos tchecos, contei para a menina minha lembrança de Palomares, a impressionante e inesquecível montagem de Ana Maria Amaral. Os bonecos não são apenas personagens de aventuras, contos de fadas, comédias. Em Palomares, Ana Maria Amaral mostrou todas as possibilidades dramáticas de uma montagem com bonecos através da narrativa do incidente nuclear no vilarejo espanhol.

Ali, observando e brincando, nem comentei com o amigo, autor de algumas das fotos que estão aqui, sobre meus devaneios de fim de mundo. Todavia, enquanto tentava manipular o boneco fiquei pensando no que eu faria caso me fosse dado o poder para recomeçar…

Valdo Resende

Muito difícil manipular um boneco! Como pensar um novo mundo deixando para trás a tragédia grega, a comédia dell’arte, o teatro de Shakespeare, de Molière e, entre todos os outros, o Teatro de Marionetes de Praga? Decididamente, pouco tenho a acrescentar para uma nova vida, para um mundo que vem por aí. Talvez seja melhor pensar menos em fim de mundo e trabalhar mais, melhorando esse que temos. Afinal a insônia passou, a exposição acabou e o mundo tai, bonitinho tanto quanto é possível em uma segunda-feira.

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Boa semana!

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