Sabiá, um Sonho Impossível

sabia sonho impossível

Duas canções, um nome: Chico Buarque. Desde quando conheci “A Banda” que Chico passou a ser minha referência de letrista na música brasileira. Essas duas canções, Sabiá e Sonho Impossível, estão comigo dualisticamente. Tentarei voltar… nunca deixarei de sonhar.  Talvez eu volte, pode não ser um sonho impossível. Melhor que falar, ouvir.

Sabiá, na voz inesquecível de Clara Nunes!

Sonho Impossível, na primeira gravação de Maria Bethânia.

 

Até mais!

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Nota:

Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores, compositores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar. As duas canções acima são: Sabiá (Chico Buarque e Tom Jobim) e Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972)

 

Canta Brasil!

Esperar destaque para a música brasileira de um programa denominado The Voice é chover no molhado. Somos colonizados e há muitos, entre nós, que pensam que “gritar” em inglês faz do sujeito um grande cantor. O certo é que há um número considerável de brasileiros que entendem parcamente o que diz – canta – cada candidato; assim, pouco importa se o indivíduo pronuncia parcamente ou porcamente.

Nossa música é sofisticada; muito sofisticada! O suficiente para avaliar qualquer cantor, qualquer tipo em qualquer região vocal e sob diferentes aspectos. Por exemplo: quantos concorrentes do The Voice cantariam bem o “Brasileirinho” (Waldir Azevedo – Pereira da Costa) ou o “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu – Eurico Barreiros)? Sem firulas, sem exageros, pois não há necessidade disso. Precisa ter folego, dicção privilegiada, capacidade de interpretação acima do comum para interpretar tais canções.

Os concorrentes, dizem, gostam de mostrar extensão vocal. Bom, para esses, há ótimas possibilidades: “Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso), “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro) e “Rebento” (Gilberto Gil) são apenas algumas possibilidades. Entre as mais difíceis considero “Rosa-dos-Ventos”(Chico Buarque), “Sabiá” (Tom Jobim – Chico Buarque), “Eu te amo” (Caetano Veloso) e entre muitas canções de Milton Nascimento, gostaria de ver alguém encarando “Saudade dos aviões da Panair”. (Dele, Milton, com Fernando Brant, também conhecida como “Conversando no bar”).

 

Estou comemorando antecipadamente o “dia do samba” (dia 2 próximo) e quero mais samba, mais chorinho, samba-canção, enfim, de mais música brasileira. Em se tratando de samba, por exemplo, os candidatos de concursos vocais – se querem mostrar que realmente cantam – deveriam arriscar um “Cai dentro” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) que, por sinal, só ficou excelente na voz de Elis Regina.

Sinto que esta é uma batalha perdida (apenas uma batalha!). O tempo costuma vencer todos os candidatos que, com suas músicas estrangeiras, caem no esquecimento. Sempre lembraremos Ney Matogrosso, Elza Soares (Hoje lembrada no The Voice pela excelente Cristal), Vicente Celestino, Gal Costa, Maria Bethânia, Nelson Gonçalves, Tom Zé, Maysa e, é claro, João Gilberto. Estou lembrando alguns grandes interpretes brasileiros que, com toda a certeza, em um ou outro momento cantaram música estrangeira. Todavia, gente como Maria Bethânia não será lembrada por “What is new”; esses intérpretes formidáveis (e podem aumentar a lista!) serão lembrados por sussurros afinados cantando Bossa Nova ou pela voz colocada com perfeição na personalíssima cadência do samba.

Há muito tempo um grande cantor, tão grande que foi chamado de “Rei da Voz”, gravou “Canta Brasil”. O nome desse cantor é Francisco Alves. Depois, veio a gravação de Ângela Maria e, bem depois, Gal Costa regravou a mesma canção, que é de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser. Vou concluir este post com a letra deste samba exaltação, pois sinto muita falta dessas canções na nossa televisão; quem sabe, em algum programa, o nosso Brasil musical possa ser prioridade!

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros E os negros trouxeram de longe reservas de pranto Os brancos falaram de amor em suas canções E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto

 

Brasil, minha voz enternecida Já dourou os teus brasões Na expressão mais comovida Das mais ardentes canções

 

Também, na beleza deste céu Onde o azul é mais azul Na aquarela do Brasil Eu cantei de norte a sul

 

Mas agora o teu cantar Meu Brasil quero escutar Nas preces da sertaneja Nas ondas do rio-mar

 

Oh! Este rio turbilhão Entre selvas e rojão Continente a caminhar No céu, no mar, na terra! Canta Brasil!!

 

Bom final de semana para todos!

Cacaso, o letrista

Cacaso
Cacaso

Antonio Carlos Ferreira de Brito, o Cacaso, nasceu em Uberaba em 1944. Suas criações estão imortalizadas nas vozes de Elis Regina, Maria Bethânia, Simone, Lucinha Lins, Fafá de Belém, Nana Caymmi… Lá em Uberaba, quando adolescente, não conheci a obra do poeta e compositor, letrista de primeira. Foi depois, já aqui em São Paulo, que a música de Cacaso entrou na minha vida.

São as trapaças da sorte, são as graças da paixão

Pra se combinar comigo tem que ter opinião

São as desgraças da sorte, são as traças da paixão

Quem quiser casar comigo tem que ter bom coração…

(Face a face – Sueli Costa e Cacaso)

Parceiro de Sueli Costa, Edu Lobo, Tom Jobim, Francis Hime, Djavan e muitos outros, as letras de Cacaso cantam paixões densas, amores desesperados e, paralelamente, revelam os tempos difíceis vividos pelo país sob a ditadura militar. O período conturbado aparece até em canções aparentemente leves, mas que revelam os princípios do cidadão e compositor.

Sou brasileiro de estatura mediana

Gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer

Porque no amor quem perde quase sempre ganha

Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder

Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero

Não tolero lero-lero devo nada pra ninguém

(Lero-lero – Edu Lobo e Cacaso)

Foi através de Maria Bethânia, com seu repertório esplêndido, que prestei atenção no letrista Cacaso, posto que já estava familiarizado com o trabalho de Sueli Costa, a parceira do compositor em “Amor, amor”. Bethânia gravou Cacaso em 1976, no disco “Pássaro Proibido”.

Quando o mar

quando o mar tem mais segredo

não é quando ele se agita

nem é quando é tempestade

nem é quando é ventania

quando o mar tem mais segredo

é quando é calmaria…

(Amor amor – Sueli Costa e Cacaso)

Tempos depois de conhecer a música de Cacaso na voz de Bethânia ouvi Elis Regina cantar “Meio termo” no disco “Transversal do tempo”, de 1978. A interpretação de Elis é avassaladora para a música de Lourenço Baeta com letra de Cacaso. Impossível não transcrever toda a letra dessa belíssima e triste canção.

Ah! como eu tenho me enganado

como tenho me matado

por ter demais confiado

nas evidências do amor

como tenho andado certo

como tenho andado errado

por seu carinho inseguro

por meu caminho deserto

como tenho me encontrado

como tenho descoberto

a sombra leve da morte

passando sempre por perto

o sentimento mais breve

rola no ar e descreve a eterna cicatriz

mais uma vez,

mais de uma vez,

quase que fui feliz!

(Meio termo – Lourenço Baeta e Cacaso)

Cacaso faleceu de enfarte, ainda jovem, em 27 de dezembro de 1987, no Rio de Janeiro, cidade onde viveu desde os 11 anos. Lá estudou filosofia e tornou-se professor de teoria literária. Além da crítica e da paixão exasperada ele soube dosar suas criações com invejável humor.

Quem me vê assim cantando

Não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo

Que tem a boca pintada

Que tem as unhas pintadas

Que tem as asas pintadas…

(Dentro de mim – Sueli Costa e Cacaso)

O poeta Cacaso será tema para outro texto, em outro momento. Aqui faço questão de reativar lembranças do letrista e compositor; uma singela homenagem ao conterrâneo que enriqueceu com verve poética a música popular brasileira.

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Até mais!

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Animações para um aniversário.

Quando vi as capas de discos no site “Animated Albums” fiquei fissurado na ideia de ter a brincadeira com algumas capas de discos brasileiros. Estava no Papolog e Paulo Simões me ofereceu como presente algumas capas com animações simples, puro divertimento. Um presente para não ser esquecido e permanecer online. Vamos aos gifs:

Começando com os olhos do Chico Buarque? “Olhos nos olhos – verdes, amarelos, vermelhos – Quero ver o que você diz! Quero ver como suporta me ver tão feliz!”

Chico Buarque_FINAL

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E se é pra brincar com olhares, Adoniran me traduziu: “De tanto levar flechada do teu olhar, meu peito parece até sabe o que?…

Adoniran Barbosa_FINAL

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E depois de Adoniran, que compôs “Bom dia, Tristeza” junto com Vinícius de Moraes, música imortalizada na voz de Maysa vejamos os inesquecíveis e expressivos olhos da cantora.  “Se todos fossem iguais a Maysa, que maravilha viver…”

maysa_final

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“Batidas na porta da frente, é o tempo! Eu bebo um pouquinho…” pra aguentar todas as fortes emoções que Nana Caymmi propicia. É barra!

Nana_FINAL

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Pra aguentar a saudade de tudo, apelo pro Carcará, aquele que “pega, mata e come”.  E vou seguindo, levando a vida com lembranças de Nara, Zé Keti e João de Vale. Somos todos de “Opinião”.

Nara

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E se é pra lembrar, com reverência e respeito, vamos sempre colocar acima, onde merecem! Tom Jobim e Elis Regina.

elis e tom

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Mas aniversário é dia festa! E “você precisa saber da piscina, da margarina, da gasolina” com toda a trupe da Tropicália.

Tropicalia

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Brincar um pouquinho no doce encontro de Caetano Veloso e Gal Costa…

gal e caetano

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E deixar cair uma lágrima, pura emoção, como Maria Bethânia, afinal, amanhã é o dia do nosso aniversário. Gosto de comemorar meu natalício pensando que em algum lugar há uma festa pelos aniversários de Bethânia, Paul McCartney e, sendo assim, não escreverei por aqui. Vou bebemorar!

Maria Bethania

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 Obrigado ao Paulo Simões, pelo trabalho legal e divertido.

Até mais!

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Clara Nunes, sempre!

Clara Nunes

30 anos sem Clara Nunes! Na próxima terça-feira lembramos aquela que está entre as maiores sambistas brasileiras, mineiríssima Clara das Gerais, falecida em 02 de abril de 1983. Uma morte ingrata para uma jovem com apenas 40 anos de vida, que colhia os frutos de uma carreira de imenso e merecido sucesso.

Algumas faces dessa cantora inesquecível: Quando a gente pensa em  forró, quem se lembra de Clara Nunes em “Feira de Mangaio”, “Viola de Penedo”, com a mais pura e esfuziante alegria nordestina? A brasilidade da cantora atravessa regiões e ela manda bem no forró do mestre Sivuca.

“Fumo de rolo, arreio e cangalha

Eu tenho pra vender, quem quer comprar

Bolo de milho, broa e cocada

Eu tenho pra vender, quem quer comprar…”

Se for para lembrar alguém que gravou grandes poetas, aparece o nome de Clara Nunes em canções como “Tu que me deste o teu cuidado” (Manuel Bandeira) e “Ai,quem me dera” (Vinícius de Moraes)? Esta canção do grande mestre tem poucos registros; quem conhece a gravação de Clara Nunes entende a dificuldade em sobrepujar a interpretação da cantora.

“Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais…

Creio que algo irá ser dito sobre os grandes sambas, os sucessos estrondosos. Quero, aqui, enfatizar a cantora de diferentes “Brasis”. Em rodas de capoeira, por exemplo, encontramos invariavelmente muitos marmanjos suados, desafinados, mas com muita ginga. Dá para imaginar, no meio dos caras, a voz límpida e afinada de Clara Nunes em “Fuzuê”?

“Eh, fuzuê

Parede de barro

Não vai me prender…”

Entrando no que há de mais representativo em Minas Gerais, a cantora da terra entrou de sola na obra de Guimarães Rosa, dá para somar a voz de Clara Nunes e um falar todo sertanejo em “Sagarana”?

“… quem quiser que cante outra

Mas à moda dos gerais

Buriti: rei das veredas

Guimarães: buritizais!”

É fácil pensar em Clara Nunes  entre as maiores cantoras desse país. Dona de uma enorme extensão vocal, ela soube usar esse potencial com um repertório caracterizado pela grande diversidade. Nos discos de Clara Nunes tem fado e rancho; tem jongo, valsa, bolero e… Samba!

Os sambas cantados por Clara Nunes são antológicos. Para voltar às raízes africanas ela foi além da Bahia; foi para Angola, assumindo contas, pulseiras, turbantes e gingado, muito balanço e força rítmica.

Admiro seu jeito mineiro de ser feminista. Criou seu teatro, para ter e propiciar um lugar de trabalho e gostava de ser independente. Teve um olhar atento para compositoras como d. Ivone lara, assim como realizou gravações memoráveis com Clementina De Jesus, juntas homenageando a Menininha Do Gantois.

Pra registrar preferências, tenho duas paixões na voz de Clara Nunes: “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque) e “Basta um dia” (da peça Gota D’Água, Chico Buarque e Ruy Guerra). Todas as outras que me perdoem, mas nessas, só ouço a grande cantora mineira.

30 anos sem Clara Nunes. Ficaram os vários discos e a voz inesquecível que Alcione chama de volta, como ninguém:

“Clara

Abre o pano do passado

Tira a preta do serrado

Põe Rei Congo no Gongá

Anda

Canta o samba verdadeiro

Faz o que mandou o mineiro,

Ó mineira!”

Clara Nunes é para ser lembrada; sempre!

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Até!

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Notas Musicais:

Feira de Mangaio – Glorinha Gadelha / Sivuca

Ai, quem me dera! – Vinícius de Moraes

Fuzuê – Romildo S. Bastos/ Toninho

Sagarana – João de Aquino/Paulo César Pinheiro.

Mineira– João Nogueira/Paulo César Pinheiro.

Mulheres brasileiríssimas

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Para o dia 8 de março saí passeando pela música, lembrando as mulheres todas do nosso imaginário, ícones do nosso povo, exemplos da nossa gente, presentes na música brasileira de todos os tempos. Meu caminho, o abecedário…

No “A” encontrei “Ana Júlia”, “Aurora”, “Ana de Amsterdã”, a trágica “Angélica”e a judiada “Amélia”, com freqüência execrada como alienada, acomodada, sem vontade própria. Eu gosto de vê-la como companheira (coisa difícil de encontrar hoje em dia!).

Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Não vê que eu sou um pobre rapaz…

Deixei “Amélia” no tempo e fui para o “B” e, de cara, recordei “Benvinda”, muito doce e “Bárbara”, muito forte. Esbarrei em “Beth Balanço”, mas parei mesmo em “Beatriz” que é, talvez, uma das mais belas composições de CHICO BUARQUE.

Sim, me leva sempre, Beatriz

Me ensina a não andar com os pés no chão

Para sempre é sempre por um triz

Ai, diz quantos desastres tem na minha mão

Diz se é perigoso ser feliz…

As moças que não percebem o tempo passando são lembradas no “C”de “Carolina”. Mas aqui é legal assinalar a doce poesia de JOYCE, homenageando suas filha Clara e Ana em “Clareana”. Corro rápido para o “D”, de “Dona” que, tenho bem certeza, era música que meu irmão apreciava. Nessa letra tem a “Dinorah”, a “Domingas” a “Doralinda”, mas esse citado irmão ficaria chateado se eu deixasse de citar “Diana”:

Não se esqueça meu amor

Que quem mais te amou fui eu

Sempre foi o seu calor

Que minha alma aqueceu

E num sonho para dois

Viveremos a cantar

A cantar o amor, Diana!

A letra “E” anda meio pobrinha… Só encontrei uma “Valsa de Eurídice”, linda demais pra ter outra. Deixei a tristeza de “Eurídice” e fui rapidinho encontrar “Flora”, na letra “F”. Flora, a da vida real, é a esposa do GILBERTO GIL. Certamente apaixonada pelo cara, por toda a eternidade, depois de tão soberba homenagem.

Toda aquela luz acesa

Na doçura e na beleza

Terei sono, com certeza

Debaixo da tua sombra

Ô, Flora…

Depois da ternura de GIL por sua esposa, chego num ícone de mulher, criada nesse Brasil moreno, imortalizada por JORGE AMADO em seu romance. O “G” só pode ser de “Gabriela”. “Glória, Glorinha” que me perdoe e até GAL, que tem seu nome em música, mas “Gabriela” é o máximo! E tem “Cantiga por Gabriela” “Tema de Amor de Gabriela”… Tudo muito bom, com a assinatura do mestre maior, TOM JOBIM.

Molha tua boca na minha boca

A tua boca é meu doce, é meu sal

Mas quem sou eu nessa vida tão louca

Mais um palhaço no teu carnaval

“H” é letra da “Helena” na voz do grande TAIGUARA, de grata lembrança. Os ecos das risadas de “Irene” ecoam pelo “I” e por todo abecedário musical; todavia a triste história de “Iracema” é que será aqui mencionada também por lembrar uma grande mulher, CLARA NUNES, intérprete definitiva da música de ADONIRAN BARBOSA.

E hoje ela vive lá no céu

E ela vive bem juntinho de nosso Senhor

De lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos

Iracema, eu perdi oseu retrato.

“Januária” deve ter visto tudo da janela, ambas com “J”. Aqui tem uma música que gosto muito, “Joana, a Francesa” e sempre recordo a “Jezebel” na poderosa voz de LENNY EVERSON. Tocando em frente, chego no “K” de “Kátia Flávia, a Godiva do Irajá”e charmosa louraça belzebu, com suas calcinhas rendadas.

Pulo rapidinho para o “L” de “Luiza”. Mulheres fortes nessa letra: “Luz Del Fuego”, “Lindonéia” e, é claro, “Lady Laura” (Aqui mando um beijo pra minha mamãe!)

Quantas vezes me sinto perdido

No meio da noite

Com problemas e angústias

Que só gente grande é que tem

Me afagando os cabelos

Você certamente diria

Amanhã de manhã você vai se sair muito bem…

“Maricotinha” é fresquinha, não gosta de chuva. “Marina” pintou o rosto e o pai, DORIVAL CAYMMI não gostou. Nesse “M” tão forte e poderoso, fica a minha senhora do engenho, a “Maria Bethânia”. Há um disco maravilhoso, produzido por ELBA RAMALHO, todo em homenagem à grande mãe de todos nós, Maria, a cheia de graça. MILTON NASCIMENTO e FERNANDO BRANT fizeram a música representativa de todas as Marias do Brasil, na interpretação impecável de ELIS REGINA.

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida…

Encontrei, no “N”, a “Nina” de DANIELA MERCURY e no “O”, Olga. Aqui, gosto de brincar com o “se você fosse sincera, ô, ô, ô, ô ORORA”, que o MUSSUM cantava, divertindo meio mundo. Andei mais, que esse post está ficando imenso, e cheguei no “P” de Patrícia, do CAETANO VELOSO.Resolvi seguir em frente, pois, no “Q”,não encontrei ninguém, indo direto para a próxima letra.

“R” lembra a “Rita Baiana”; uma personagem e tanto, diferente da outra, “A Rita”, que “levou seu retrato, seu prato, seu trapo, que papel!”

Das tantas “Rosas” desse país, a “Rosa de Hiroshima” lembra um momento triste da humanidade, mas hoje é dia de alegrias e eu fico aqui é com “A Rosa” safada, danada da gota, cantada por CHICO BUARQUE e DJAVAN.

A falsa limpou a minha carteira

Maneira, pagou a nossa despesa

Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa

A gueixa

Que coisa mais amorosa

A Rosa….

No “S” todo mundo lembra-se de pedir “Oh!Suzana” não chore… Mas, legal mesmo é lembrar da cigana mais famosa dos últimos anos; de todo o povo querendo, junto com SIDNEY MAGAL, ver “Sandra Rosa Madalena” sorrir e cantar.

Ela é bonita, seus cabelos muito negros

E o seu corpo faz meu corpo delirar

O seu olhar desperta em mim uma vontade

De enlouquecer, de me perder, de me entregar…

Das cantigas de roda CHICO BUARQUE resgatou uma “Terezinha” que viveu grandes amores. Aqui, encontro “Tati”, a garota, e chego ao tango, esse maravilhoso e caliente ritmo. Tango, no “T”, só o “Tango pra Tereza” na voz de ANGELA MARIA, uma entre as grandes cantoras brasileiras de todos os tempos. Tem outra, a “Tereza da Praia”. Duas Terezas, urbanas, mas a “Cabocla Tereza”, de JOÃO PACÍFICO, é imbatível.

Senti meu sangue ferver

Jurei a Tereza matar

O meu alazão arriei

E ela fui procurar

Agora já me vinguei

É esse o fim de um amor

Essa cabocla eu matei

É a minha história, dotô!

No “U” também não encontrei nenhuma Úrsula ou similar. Em “V”, os talentosos JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC contaram a história de “Violeta de Belford Roxo”, uma santinha que engravidou de um sargento, vizinho… Sem querer fofocar, fui para o “X” da Xica que manda, a “Xica daSilva” de JORGE BENJOR.

Pra ninguém me chamar de radical coloquei Diana, uma música estrangeira nesse abecedário. Não será a única. No “Y”, quem pode deixar “Yolanda” de fora?

Se alguma vez me sinto derrotado

Eu abro mão do sol de cada dia

Rezando o credo que tu me ensinaste

Olho teu rosto e digo à ventania

Yolanda, Yolanda

Eternamente, Yolanda

Chegamos ao “Z”, de ZEZÉ MOTTA, e a música que RITALEE fez para homenagear nossa atriz e cantora, que deu cara, voz e uma imagem definitiva para a “Xica da Silva”.  Ave, ZEZÉ MOTTA!

Esse abecedário não pretende ser completo. Antes de concluí-lo, outras músicas já aparecem, mas eu paro por aqui, mandando um beijo para todas as mulheres que permeiam minha vida, e a vida de todos nós.

Feliz dia Internacional da Mulher!

Beijos!

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Primeira festa para Vinicius de Moraes

A logomarca oficial do enredo da União da Ilha
A logomarca oficial do enredo da União da Ilha

Será no dia 10 de fevereiro, no sambódromo carioca, com o desfile da União da Ilha. Com o enredo “Vinicius no plural – Paixão, poesia e carnaval”, a escola pretende comemorar o centenário do poeta, escritor e compositor Vinicius de Moraes. Nascido em 19 de outubro de 1913, o “Poetinha” foi, aos noves anos, morar com a família na Ilha do Governador. Este foi o mote que deu origem e motivação para o enredo da escola União da Ilha.

Vinicius de Moraes, sozinho, criou alguns dos mais belos poemas da literatura nacional. Junto aos parceiros Carlos Lyra, Tom Jobim, Edu Lobo, Ary Barroso, Francis Hime, Baden Powell e, entre outros, Chico Buarque, Vinicius revolucionou a música brasileira com a Bossa Nova, afros-sambas e outros grupos de composições notáveis, como a série infantil denominada A Arca de Noé, já em parceria com Toquinho.

O enredo da União da Ilha foi feito por um grupo de compositores (Ginho, Júnior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra).  Uma colcha de retalhos que pretende lembrar alguns fatos relativos ao poeta. O enredo funciona para quem já conhece tais fatos.

Ó PÁTRIA AMADA, RECEBE ESSE MENESTREL!

VOZ DO MORRO NA FOLIA, ORFEU CHEGOU, RAIOU O DIA!

LEVOU A BOSSA NO “TOM” D’ALEGRIA

SE É CANTO DE OSSANHA MENINA, ENTÃO NÃO VÁ!

UM BERIMBAU VAI ECOAR…

VEM, MEU CAMARÁ!

A União da Ilha enfrenta um imenso desafio. Vinicius de Moraes é patrimônio de todo aquele que ama poesia. Criar uma letra para homenagear o poeta é tarefa difícil. Arquibancada de sambódromo não é lugar para ficar buscando o significado de cada verso. O público quer, quando possível, cantar e sambar. O samba de enredo em questão vai dar muito mote pra comentarista de televisão; tomara que a escola consiga levantar o sambódromo.

Embora estranhando a letra (veja e ouça o samba de enredo clicando aqui) estou torcendo para que a União da Ilha faça um belíssimo carnaval. Pela própria União da Ilha, pelo público brasileiro, mas, sobretudo por Vinicius de Moraes. Em um país de escassos leitores, onde educação é prioridade apenas em discurso político, é muito bom ter um poeta como enredo de carnaval.

Vinicius de Moraes deixou pompas e circunstâncias para subir aos palcos, aproximando a poesia das letras de canções. É um dos principais responsáveis pela condição única da música brasileira em transitar entre o popular e o erudito, unindo em suas composições a expressão das três grandes raças que formam nosso povo. Vinícius soube ser criança e brincar nas  canções feito um menino, assim como foi o religioso que ensinou-nos a respeitar os orixás. Também foi o cantor da beleza feminina, dos encontros e desencontros amorosos. Foi grande entre os maiores porque, entre todos, certamente foi o que mais soube aproximar-se de todos nós.

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Até mais!

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