Padre Líbero Zappone, nosso “Coronel”

Pe. Líbero, em montagem com fotos obtidas nas redes sociais.

Éramos jovens e faltava experiência para uma melhor percepção da vida, das pessoas. Crescidos sob tutela de muitos padres, não era muito fácil distinguir com profundidade o que e quem era cada um dos sacerdotes. A simpatia de uns, as brincadeiras de outros, até a rabugice de poucos, o distanciamento, tudo era percebido de maneira um tanto emocional. Todavia, tivemos a argúcia mínima necessária para perceber que o Padre Líbero Zappone era especial. Um sujeito ímpar.

Em plena década de 70 apelidar alguém de “Coronel” não era propriamente um elogio. Provavelmente esse apelido foi dado por Fátima Borges. Sob a ditadura militar, apareceu-nos um padre que não pedia, mandava. E a gente obedecia, pois as ordens do Coronel eram muito claras e tinham como objetivo nos fazer crescer. Exemplo: Fátima e eu judiávamos de violões encontrados na sacristia, antes e após reuniões. Vem o Coronel e nos dá um mês para aprender a tocar e acompanhar os colegas durante a missa. Um mês! E lá fomos nós atrás de aulas, muito estudo, muito nervosismo e, obviamente não apresentamos um concerto. Chegou a tal missa e lá estávamos junto ao grupo, outros violões dando força. Fafá começaria ali uma linda trajetória musical.

Outras ordens dadas pelo Pe. Líbero colocaram o enorme grupo de jovens da paróquia em intensa atividade. “Na próxima quermesse, vocês serão os festeiros”. Para quem não sabe, ou não se lembra, festeiros são fieis encarregados da organização das quermesses. Pessoas experientes, negociantes, comerciantes capazes de administrar um evento que, durante nove dias, deve arrecadar dinheiro para as obras da paróquia. Encaramos a tarefa. O que a gente não sabia nos foi ensinado pelos pais, por amigos. Deu certo, tanto que depois ele nos levou a repetir a dose.

O Coronel priorizava o conhecimento. E a fé, com lucidez. Lembro-me dele conversando por diversas ocasiões com um “crente”, que hoje chamaríamos evangélico. Cada um munido de sua Bíblia, as conversas entre ambos eram acaloradas, intensas. Na minha estúpida postura de jovem argumentava com o Coronel: “Não é uma perda de tempo conversar com esse sujeito?”. O padre me deu uma lição que ainda hoje procuro seguir. “Eu aprendo com ele, reforço o que sei. Respeito o lado dele”. Recordo um dos temas, os dois citando versículos sobre os nomes de Deus, o que me leva agora a pensar que o outro deveria ser Testemunha de Jeová, pois era esse o nome pelo qual insistia. O Coronel, calmo, ensinava o outro a localizar Javé no livro santo.

Pessoalmente, o Padre Líbero provocou dois momentos que marcariam minha trajetória futura. Ele me mandou (de novo!) preparar uma homilia para a missa das nove, que era a “Missa dos Jovens”. Eu deveria comentar a Parábola do Semeador. “A missa não é só do padre! É de todos nós. Todos somos responsáveis”. E lá fui eu, jovenzinho, enfrentar a casa cheia, como eram todas as missas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba. Recordo ter estudado muito. De ter redigido o texto, decorado, feito resumo, conferido em Mateus, Marcos e Lucas, e fiz. O Coronel…  pediu-me nova empreitada, mais aprofundada. Muniu-me de livros e um imenso dicionário de teologia para elaborar uma dissertação sobre Revelação. Eu saí das narrativas bíblicas para o exercício da exegese, um começo para futuras palestras, aulas, vida acadêmica.

Creio que cada um dos participantes do grupo de jovens da paróquia tem uma história para contar, uma experiência particular. O Padre Líbero nos dividiu em equipes, cada uma delas responsável por um trabalho de apoio às atividades de formação e aprofundamento cristão. Com Maria Amélia Cruz e Terezinha Benetolo desenvolvemos trabalhos e apresentamos para a paróquia o que foram as Cartas de Medellin, o Concílio Vaticano II, e outros temas em uma tal “Equipe de Integração”. Com Ronaldo Feliciano de Assis, encarregado de atividade teatral, colaborei na montagem do que veio a ser o meu primeiro trabalho cênico, norteando toda a minha vida a partir de então. Quais serão as lembranças do Paulinho Silveira, do Getúlio, de tantos outros que por lá passaram.

O Padre Líbero nos levava a sério. E conversava conosco de maneira adulta. Com ele aprendi a diferença entre Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. E o papel que cada um estava tendo naquele momento da ditadura. Ele apontava o que pensava de cada um, qualidades, defeitos. Tempos depois, fui recebido por ele na Vila Luzita, em Santo André. Era 1977, creio eu, e o lugar era um bairro em formação. “É aqui, junto aos que necessitam que devemos estar”. Já então percebia as diferenças entre ele e os demais padres de nossa convivência. Pouco antes ele havia recusado uma paróquia prontinha, bonitinha, lá em Campinas, mas de difícil acesso ao povo. Optou pela vila em formação onde, literalmente, tudo estava por ser feito.

Anos depois, ele já atuando em Socorro, no interior de São Paulo, fomos, Fátima e eu, visitá-lo. Não nos surpreendemos em encontrar na paróquia um grupo de jovens cuidando de uma emissora de rádio criada pelo Coronel. “Eles que tomam conta”, nos disse, com inegável orgulho. Nem foi surpresa conhecer o conjunto residencial que ele, com recursos e trabalho dos grupos da paróquia, estava construindo e que se destinava aos mais necessitados. Durante o trajeto de volta comentamos sobre aquela grande figura. Uma coerência rara!  Um cristão digno da fé que professava. Um líder como poucos.

Hoje recebi a notícia do falecimento do Padre Líbero Zappone. Quem me participou desse triste acontecimento foi minha irmã Walderez. Ele foi o padre que celebrou o casamento dela. Nas fotos do álbum, os noivos e o celebrante, guardamos o registro da presença desse notável sacerdote em nossa família. Muitos paroquianos terão fotos de batismo, de primeira comunhão. Na cidade de Socorro, onde foi pároco por mais de três décadas, as redes sociais registram o afeto e o apreço pelo sacerdote.

Como última lembrança, quero guardar inúmeras caminhadas curtas, um vai e vem no pátio da paróquia (onde ainda não havia quadra, nem o salão construído sobre esta). Ele estava lá, nas tardes de todos os dias, indo e vindo com seu terço, ou o breviário, ou conversando com alguém. “Coronel, preciso falar com você”, e ele, “Venha, vamos caminhar. Pode falar”. E ali eu exercia o sacramento da confissão, sem fórmulas, sem madeira ou tecido me impedindo de perceber o olhar atento, a voz calma, mas decidida, opinando sobre o que ele achava melhor para minha situação. Às vezes, alguém nos interrompia. Continuaríamos depois. Ou então, ele encerrava o assunto com um “vamos rezar” e andávamos, em silêncio, sem penitências ou castigos. Que Deus o receba, Padre Líbero! Em minha lembrança, a figura de um sacerdote extraordinário que, com pulso firme e um especial carisma, conseguiu com que nós, jovens, o obedecêssemos.

Até mais, Coronel!

A menina do vestido branco de listras verdes

Em tempos de consumo bobo, quando se usa uma roupa por festa, um par de sapatos por ocasião, onde repetir um vestido é motivo de notícia de jornal, o pensamento dele volta e meia recai na menina do vestido branco de listras verdes. A mais linda de todas, a que ele nunca esqueceu.

Havia terrenos baldios, campos de futebol de várzea, quadras de chão batido. E o pátio da escola, as crianças naturalmente divididas em grupos, por idade. As brincadeiras alucinantes com a duração do intervalo, que todos chamavam recreio, onde a imaginação superava a falta de brinquedos, de aparelhos de ginástica, de quadras poliesportivas. Outro pátio, da igreja, onde se alternavam folguedos entre uma e outra das quermesses anuais.

Mexericos paroquiais, ele não esquece que soube dela por um fiasco na folclórica coroação da santa no mês de maio. A competição corria solta entre as meninas nos meses de maio, Nossa Senhora das Graças, e no mês de outubro, Nossa Senhora Aparecida. As mães faziam sua parte, vestindo as garotas de anjo que, ensaiadas pacientemente por uma moça de nome Isabel, a Belinha, faziam o encerramento das manifestações religiosas de cada quermesse. Encerrando a novena havia a procissão pelas ruas do bairro, a missa e a coroação. Depois dessa, a festa era no pátio.

Onde ele ouviu a maledicência? Quem teria dito? “Que fiasco, na hora do solo, cadê a voz? A Belinha deve estar furiosa”. O nome da cantora joãogilbertiana ficou na memória, e tempos depois foi ligada a figura à fofoca. Ele, conheceu a indignação. Só podia ser inveja! Uma menina linda como aquela, com aqueles olhos negros, o cabelo ondulado encostando nos ombros! Bonita demais! Delicada, educada. Certamente a igreja inteira emudeceu quando ela cantou seu pequeno solo, oferecendo um lírio à santa.

E havia um vestido branco de listras verdes. Manga três quartos, gola canoa. Onde se aprende nome de mangas e golas? Foi depois, certamente. Quem vai querer saber o nome de detalhes de um vestido? O que importava era a menina dentro do vestido, cheia de graça, tímida e recatada, mas sempre sorridente, os olhos brilhantes. A roupa de anjo para coroar a santa deve ter sido outra, claro, e é fato, ela não foi mais vista entre o elenco de pequenas cantoras. Ele dando de ombros. Perderam uma voz linda! Um verdadeiro rosto angelical.

Foram as mesmas ou outras faladeiras que o fizeram perceber uma mudança de comportamento. Aquele vestido branco de listras verdes, que era roupa de domingo, agora estava sendo usado também nas reuniões que as meninas tinham às quartas-feiras, na paróquia. Verdade seja registrada, ninguém botou reparo no fato de a menina repetir roupa. A curiosidade é que cresceu entre as futuras alcoviteiras. Para quem a menina estaria se vestindo na quarta com as roupas domingueiras?

Eram tempos em que se brincava mais, sem pressões para namoros e pegações. Havia a percepção do interesse que, via de regra, não ficava em sigilo. Fulano gosta de fulana! Fulana quer namorar fulano! Foram tempos de alegrias singelas, contentamento imenso dele em saber-se correspondido pela menina suave que, grande vantagem, jamais se perdia no meio de tantas! De longe, ou no meio da gentarada da missa, entre as crianças todas era ela a única, a que se distinguia aos olhos e ao coração. O povo do branding aprendeu com ela e seu vestido branco listrado que fazia com que ela se tornasse única.

Outra menina, um divisor de águas. Uma vizinha que gostava de brincar e levar meninos para um canto. Beijo na boca cheio de gosto de saliva, mão sendo encaminhada para dentro do segredo protegido pela calcinha, mão avançando dentro do short, manuseando o que encontrava e provocando descobertas. Será que a primeira, a eleita do vestido branco de listra verdes, tinha algum amigo para descobrir coisas? O divisor de águas foi percebido depois, um divisor de meninas. As mais quietinhas e as mais afoitas. Quem faz o que, só na calada se sabe.

O tempo rodou num instante, cantava o Chico embalando a vida que corria, célere. O pequeno casal teve momentos pífios e acabou que ficaram em cidades distintas, voltaram para a mesma Uberaba, novamente se distanciaram e cada um tomou seu rumo, seguiu sua via. Foram diminuindo os fatos, cresceram os intervalos entre notícias e nem foi notado que possíveis sonhos e desejos não se realizariam. Foram engavetados e escapolem em datas imprevisíveis.

O nome ele não esqueceu. Décadas passadas, é construção do imaginário um rosto, um cabelo, os olhos. A voz, como afirmam por aí, foi a primeira a cair em completo esquecimento.  Às vezes ele pensa na menina do vestido branco de listras verdes. Favoreceu as lembranças à tona nesses últimos tempos conviver com uma moça de mesmo nome. Também gentil, linda, de maneiras afetuosas. Bem humorada. A moça de agora, cheia de características agradáveis, o levou a indagações sobre a outra, aquela de quando ele havia acabado de ser criança.

Onde foi parar a tal menina, mulher, agora uma senhora de setenta anos? A vida costuma ser generosa para pessoas bonitas e então, ele pensa, ela é feliz. Ou foi feliz! E um aperto no peito rejeita o fim, pois fim não teve. Foi afastamento, teve e tem distância. Não dá para ter certeza de distância física, pois ela pode morar na próxima esquina, sem que o acaso os coloque frente a frente. Seria surreal que ela morasse logo ali, perto da Igreja da Aparecida. É devaneio bobo para preencher vazios, o imenso vazio causado pelo tempo.

Nessas reviravoltas de roda mundo, roda gigante, roda moinho e pião, ele percebeu que algumas coisas se tornaram sonhos. Como é sonho a linda história do menino que se apaixonou por uma menina com seu vestido de gola canoa e mangas três quartos. Ela tinha um sorriso suave, uma voz mansa. Os olhos imensos, brilhantes, o rosto emoldurado pelo cabelo preto, ondulado.

Ele reconheceu ter na vida um vasto escaninho, cheio de sessões, de memórias de todas as categorias.  Quase tudo aparentemente esquecido, mas sempre prestes à vir à tona, registrado no cerne, na pele. A tal menina, na verdade, sempre deu as caras fora do escaninho, ele admite! Também reconhece que tal garota esteve entre os sonhos preferidos, as lembranças prediletas. Um sonho bom que, quando retorna, enche a vida de outros sonhos guardados, outras lembranças adjacentes. Ele mesmo tem colocado a memória de listras verdes de lado, puxando do nicho transversal do escaninho a afoita, a menina que se adivinhava mulher e o ensinou os primeiros passos das segredos do sexo.

Valdo Resende 16/08/2025

Notas: Imagem obtida com IA. Quando Chico Buarque gravou Roda-Viva, o casal de meninos do conto estava com 13 anos.

Garimpo de causos e da história

Foi um final de semana reativando lembranças; uma série de reencontros propiciados por um escritor. Quando fui presenteado por Jennifer Monteiro com o livro “Princesinha da Farinha Podre: Aventureiros, bandidos, caubóis e sonhadores no velho oeste das Minas Gerais” soube de imediato tratar-se de Uberaba. Os que lá nasceram guardam expressões como Princesinha do Sertão, Arraial da Farinha Podre, Freguesia Santo Antônio e quantas mais a memória permite.

Ainda não conheci o autor, André Borges Lopes. Estou longe de Uberaba e há três anos não moro mais em São Paulo, onde ele reside. Virtualmente conheço um pouco do trabalho do site Uberaba em Fotos. Sem demora mergulhei no livro da maneira que mais gosto. Primeiro lendo as informações de capa, contracapa, sumário, olhando demoradamente as ilustrações e já me emocionando com fotos como a da Ponte do Rio Grande em construção (págs. 62/63), e entre outras, a do presidente Juscelino Kubitscheck caminhando pela Fábrica da Produtos Ceres, lá no Boa Vista, onde nasci. Depois fui para os causos.

Tenho apreço pela memória e pelo registro de lembranças via exercício da oralidade e da escrita*. De imediato salta à percepção uma grande qualidade do autor de Princesinha do Sertão: o rigor da pesquisa. Historiador, André Borges Lopes deixa evidente o aproveitamento do que aprendeu. Não apenas cita o fato e as fontes, mas vai além, publicando documentos que comprovam por onde pesquisou e a veracidade do que nos conta. E o faz enquanto jornalista, garimpando história que embasa o que poderia ser apenas causo.

O livro propicia a uberabenses encontros com gente quase esquecida, como Dona Chiquinha, sempre lembrada por agradinhos duvidosos. Para pessoas de outros lugares há notícias de, por exemplo, Ataliba Nogueira, até então um nome de escola em Campinas, onde meus primos estudaram. Os mais velhos se lembrarão de Calafate, no caminho de ferro para atravessar o Rio Grande em direção ao estado de São Paulo.

Tive lembranças muito fortes por ter atravessado com meu pai, à pé, por várias vezes a ponte do Rio Grande. E, caríssimo André Borges, nunca me esqueci dos sinais de bala nas estruturas da ponte. Atente! Sinais, não perfurações, mostrados por meu pai. Óbvio que, menino, acreditei. E meu avô materno, mestre de linhas da Mogiana, nos deixou relatos de como os funcionários da ferrovia tiveram de se submeter aos combatentes em 1930, em 1932.

Tão fortes quanto, mas bem amenas, são as lembranças que guardo da gameleira quando, passando por lá com minha mãe, parávamos na Padaria Espéria de sucrilhos cheirosos e inesquecíveis. E as doze horas de trem de Uberaba até Campinas não pesavam para crianças em férias. Pesa hoje o tempo absurdo entre Santos e Uberaba, o monopólio antes da companhia férrea agora é de empresa de ônibus.

As crônicas reunidas no livro lembram e suscitam recordações. Informam com clareza e honestidade. As sutilezas interpretativas já no título e subtítulo do livro nos remetem à realidade. A terrinha que amamos tem lá suas histórias que, não bastasse a virulência de quem praticou atrocidades, há o acréscimo da criatividade do ser comum. O exemplo mais notável são as atribuições dadas pela população ao “monstro de Capinópolis”. Eita, povo criativo!

Foi um final de semana em Uberaba sem sair da sala do meu apartamento. Uma viagem que me levou até a Guerra do Paraguai, me trouxe de volta os patuás com lascas de madeira da cruz de Cristo, quando me vi demarcando o Distrito Federal e, entre um tempo e outro, me escondendo dos tiroteios que de vez em quando rolam pela cidade.

Meu obrigado a Jennifer Monteiro e Fernando Brengel pelo livro. Parabéns ao autor André Borges Lopes pelo trabalho. Espero que esse seja lido por muitos outros, de Uberaba e de todo o Brasil. Indicado aos que gostam de boas histórias, fundamentadas na História e registradas com talento e competência.

Até mais!

*No livro O vai e vem da memória, que vou pedir a Jennifer encaminhar um exemplar ao André Borges Lopes, exercitei e registrei lembranças desse mesma Uberaba que, sem dúvida, merece livros e mais livros sobre sua gente, seus bairros, toda a cidade.

Amor nas alturas

É certo que pouca gente da família sabia o que era pré-primário quando ele, arrumadinho no uniforme de calça azul e camisa branca, foi levado para a escola. No segundo dia de aula, outros tempos, já foi sozinho, o irmão mais velho indo até a esquina e apontando o rumo do Grupo Escolar. No terceiro dia nem isso, e ele encontrou Eliana, uma coleguinha linda, vestidinho verde e determinada: vamos ser namorados! E seguiram, mãozinhas dadas. Logo envolvidos na rígida divisão meninos e meninas se separaram.

Primeira paixão, de verdade, veio três anos depois. Já senhor de si, indo brincar em campos de várzea do bairro, em terrenos baldios. A turma da igreja era misturada e em um jogo de queimada ele acertou uma bola bem no rosto de Carolina. As lágrimas desceram de olhos negros, enormes, emoldurados por cabelo levemente ondulado, caindo suavemente sobre os ombros. Ele se apaixonou naquele momento e, culpa maior, ouviu de uma aprendiz de alcoviteira um “logo a Carolina, que gosta de você?”.

Seguiram-se dois, três anos de paquera, pequenas conversas, infinitos olhares. Ela era caçula de pais e irmãos rígidos, só iria namorar após os dezesseis anos. Flertavam de longe. Velhos tempos quando todos os estratagemas eram bem-vindos. De bicicleta ele corria da própria escola para a saída da outra, para ver Carolina. Nas missas chegava cedo para tentar sentar-se próximo, nunca um ao lado do outro. Durante quermesses trocavam correios-elegantes. Nas férias escolares, sem tolerar ficar tanto tempo sem ver a menina, ele “assentava praça” na esquina próxima de onde ela morava.

As coisas pioraram quando Carolina, aos quatorze, tornou-se babá de uma criança de gente rica, lá do centro da cidade. Vê-la passou a ser raridade, mas o afeto dele era alimentado em sonhos e devaneios de menino romântico, amores de outros aprendidos em novelas de rádio. Um dia ficariam juntos. Todavia, as coisas pioraram mais quando ele foi estudar em outra cidade, outro estado. O namoro, suspenso com o emprego da menina, tornou-se quimera, mera possibilidade futura.

Longe da família, dos amigos do bairro. cresceu taciturno, voltado para os estudos e nada mais. Um Werther tupiniquim, digno seguidor da personagem de Goethe, com o adendo da falta de contato e do total desconhecimento de como estava a vida de Carolina. Os ventos tomaram rumo de volta e ele retornou para a casa dos pais após dois transformadores anos. O final da adolescência fizera dele um rapaz esguio, um metro e sessenta de altura, os cabelos compridos e as roupas coloridas dos anos de 1970.

Foi a irmã que o atualizou: Carolina estava sozinha, de babá tornara-se dama de companhia da avó da criança, trabalhando e morando no mesmo endereço. Ele não previu que o reencontro seria em tão pouco tempo. O clube da cidade realizou uma reunião dançante, as baladas de então, e ao comparecer ele a viu de longe sentada junto a amigos. O coração acelerou, a boca ficou seca. Ele não era mais o menino que ficava distante. Tinha que mostrar maturidade, segurança. Precisava tirá-la para dançar, o que não foi possível momentaneamente, pois só se ouvia rock e um monte de gente fazendo a coreografia do momento.

Ele foi até ao bar. Um conhaque o ajudaria a conseguir falar, a língua presa na boca seca. Enquanto aguardava não tirava o olho de Carolina que decididamente o reconhecera, mas não apresentava o mesmo olhar de antigamente. Estaria com algum namorado? Teria se apaixonado por outro rapaz? Por que não sorria leve, como antes, indicando que ele poderia se aproximar, chegar até a ela?

Ah, aqueles bailes! Havia sempre momentos alternados em que o conjunto musical presente tocava ou música lenta, ou música dançante. Os apaixonados preferiam as seleções de músicas lentas, românticas, propícias para convidar uma garota e sentir a proximidade dos corpos, o perfume, a maciez do cabelo. E havia uma história, talvez lenda, que o casal precisa acertar sincronicamente os passos de dança, com naturalidade, sem atropelos. Se não dessem certo ao dançar, jamais dariam certo no amor. Ele matutava enquanto bebericava a bebida, a mão dentro do bolso segurando nervosamente uma bala de hortelã. Precisava de um hálito agradável ao se aproximar de Carolina. Quando essa música vai parar?

No intervalo o balcão do bar ficava lotado, os banheiros congestionados e o vozerio tomava conta do ambiente. Percebia-se uma rápida abertura do que poderia se chamar momento de caça. Os olhares buscando prováveis parceiros para a próxima seleção que, com certeza, seria de músicas lentas, românticas. Os mais ansiosos já se aproximavam de suas escolhidas, buscando manterem-se à frente de possíveis concorrentes. Ele, olhando Carolina lá de longe, preferiu esperar a música começar, ver o que aconteceria.

Quando o grupo musical atacou uma canção dos Bee Gees ele viu um sujeito aproximando-se, convidando e recebendo recusa de Carolina. Sentiu-se o mais feliz dos homens e tomou a direção da mesa onde estava aquela paixão de tantos anos. Chegou tímido, sem saber o que dizer e balbuciou: “Vamos dançar?” Ela sorriu com a suavidade dos primeiros tempos e respondeu: “Prefiro que você se sente aqui. Vamos conversar”.

Ele tremia ao tentar segurar a mão de Carolina que, com delicadeza e decisão o conteve. “Não vai dar certo, desculpe! Não posso aceitar. É impossível”. Ele olhou sem entender e aguardando ansiosamente uma explicação que veio sem rodeios. “Você não cresceu. Eu cresci demais! Vai ficar muito esquisito. Lamento. Se você me der licença, vou ao banheiro. Na volta, não gostaria de encontrá-lo aqui”. E ele, consciente de seus 1,60m de altura viu uma mulher enorme, elegante, que só então ele percebeu que ela se encolhera na cadeira. Atravessando o salão ia uma moça que poderia apoiar-se na cabeça dele para acertar o sapato, coçar o pé.

Naquela noite ele descobriu que Werther era só um personagem romântico. E que os amores distantes podem resultar em falsetas. Poderia beber, poderia chorar, poderia guardar aquela história e a lembrança do amor frustrado. Preferiu ir para o outro lado do salão. Encontrou e convidou uma garota para dançar. Para essa, ele até que era alto. Muito alto!

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Nota: imagem produzida com IA.

D. Maria, dos cachorros e dos parangolés

Era uma época boa, quando cachorros eram amigos do homem. Ninguém carecia de passear com eles catando cocô pelas ruas. Precisavam de carinho, de comida, não dessas rações, Deus me livre do que são feitas… Os cãezinhos viviam livres e felizes pelos quintais e vizinhança das casas. Na minha família atendiam por nomes como Sheik, Bilu, Japi. A maioria era vira-lata, os melhores para fazerem barulho quando alguém invadia a propriedade. Eram dois, no máximo, por residência, exceto pelas dezenas que viviam e acompanhavam D. Maria.

Era uma festa constante. D. Maria caminhando rumo à padaria, à venda, ou sabe-se lá para onde, acompanhada por cerca de duas dezenas de cachorros. De todos os tamanhos e diferentes raças. Ela conversava com todos e os múltiplos latidos, vários abanando os rabos, dificultavam a gente identificar a quem ela se dirigia. Ouvia-se de longe o barulho e crianças, como eu, corriam para a porta de casa para ver a passagem da Dona Maria dos Cachorros.

Uns a chamavam de Velha Suja, ou Porca; outros de Doida Varrida. O que a memória guarda é de longas saias, blusas largas e panos jogados sobre o corpo que, mais tarde, um artista chamou de parangolés. D. Maria dos Parangolés e seus cachorros, todos parados comportadamente na porta da padaria enquanto ela pegava seus pães. Na porta do açougue era uma algazarra, os bichos querendo entrar e a mulher impedindo-os e pedindo o que queria lá do meio da rua. Alguns clientes irritados com o avanço dos cachorros perante o cheiro de sangue eram ignorados, Dona Maria fazendo de conta que não os ouvia. Vez ou outra o açougueiro jogava um pedaço de carne no meio da rua. Os cãezinhos corriam alucinados. Junto com eles a Dona Maria, corria preocupada para o meio da rua, impedindo a passagem de carros e similares, protegendo a matilha.

Mamãe contava que aquela mulher escolheu viver com os cães. O marido era cachaceiro inveterado e judiava dela e dos filhos. Esses, cresceram e foram embora. Nunca voltaram e ela não teria ido atrás de nenhum deles. Um dia ela tomou coragem e, armada de um porrete, botou o marido pra correr, já então com o apoio de alguns cachorros que, defendendo a dona, partiram pra cima do homem. Foi quando passou a acolher todos os cães que apareciam por lá. Uns, levados pelos vizinhos, outros bem filhotinhos eram abandonados na porta da casa.

Vivendo entre os animais, conversando com eles, foi se afastando dos vizinhos, só se comunicando mesmo com fornecedores. O padeiro, o açougueiro; verduras, não. Cultivava em horta própria, assim como frutas vinham do pomar do fundo do quintal. De onde vinha a renda, não se cogitava. Talvez algum filho mandasse algum dinheiro; talvez ela possuísse alguma reserva proveniente de herança. O que era certo é que vivia tomando conta de si e dos cães, passeando alegremente com os bichinhos em meio a festa e cuidados. De sua passagem pelo passeio em frente da nossa casa ouvia-se os latidos e, acima desses, a voz da mulher chamando para perto de si aquele que descia para a rua.

Sem dar bola para os vizinhos, esses também se esqueciam dela, deixando-a em sossegada paz. Às vezes ela passava dias sem sair de casa, mas era vista cuidando do quintal, brincando com os bichos. Entrou para a história o dia em que se ouviu cachorros uivando, lamentando o corpo caído no meio da sala. Quem escutou disse que eram como um choro desesperado, dolorido. Quem viu, guardou a imagem de alguns cachorros lambendo a dona, como se tentando reanimá-la.

A notícia ruim se espalhou feito raio e como mágica o marido retornou. Tomou conta dos funerais e, anunciando a venda do imóvel, avisou aos curiosos que apareceram no velório que daria um fim na cachorrada. Alguns animais foram levados embora, adotados no mesmo dia. Outros foram vistos pelas ruas, dias depois. Sem os cuidados da dona trataram de dar rumo na vida. As ruas do bairro ficaram mais tristes e silenciosas.

De Dona Maria dos Cachorros ficou por muito tempo a lembrança. Diziam por lá pelo Boa Vista, em Uberaba, que quando malditos donos tiravam filhotes das mães e os jogavam em um canto qualquer, via-se nas noites um vulto de mulher, cheia de parangolés, alimentando-os e colocando-os no colo para ninar. Houve até gente que disse ter ouvido acalantos na voz da mulher, o que poucos acreditaram. É lenda, diziam. É bonito, mas é lenda. Deixem Dona Maria descansar em paz!

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Nota: Imagem criada com IA.

A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )

Papai faz cem anos!

Mineiro daqueles que falam muito pouco, em seus últimos anos entre nós, em todo 20 de fevereiro papai permanecia ao lado do telefone. Valdonei ligava, eu também. Ele nos ouvia e passava o telefone adiante: Sua mãe quer falar com você. Ficava na dele, aguardando as filhas e os netos que no final da tarde estariam por lá, comemorando no “cantinho do fuxico”, conversando sem parar enquanto ele, já com o radinho de pilha em mãos, punha-se a ouvir modas caipiras.

Não fosse minha irmã Walcenis, eu não me daria conta dos cem anos que meu pai faria nesse recente 20 de fevereiro. Cem anos! Desses, papai viveu mais de oito décadas entre nós e certamente, se tivesse que destacar fatos marcantes ocorridos desde 1924, ele não se esqueceria do rádio. Papai cresceu junto com o rádio. Viu o apogeu da Rádio Nacional e acompanhou os fatos mais importantes durante sua juventude ouvindo as caixas enormes, depois, já adulto, os pequeninos radinhos a pilha.

Certamente vieram pelo rádio as notícias da Segunda Grande Guerra, iniciada quando meu pai estava com 15 anos. O que teria pensado o jovem sertanejo vivendo no pedaço de terra dos pais, lá em Araguari, nas Minas Gerais? Mais, ainda, por que deveria ele pegar em armas e ir para a Europa participar de uma contenda que, provavelmente, não tinha certeza nem mesmo de como começou?

Também foi pelo rádio que papai ouviu as vitórias da Seleção Brasileira. O Brasil campeão mundial de futebol em 1958, Bi em 1962. A televisão era uma geringonça cheia de chuviscos, muito distante do cinema. Então, o negócio era ouvir os jogos pelo rádio e, eventualmente, ver as imagens pelo cinema. Não que papai tivesse hábito de ir ao cinema; a única história que me ocorre era que, em tempos de quaresma, no parque de diversões onde trabalhava projetavam cotidianamente uma “fita”: A Paixão de Cristo. Minha irmã Waldênia, já em idade de ficar sentadinha vendo o filme, ficava indignada com aquele sujeito que vinha todo o dia para a cidade onde acabava apanhando muito.

Um Parque de Diversões entrou na nossa família em fatos que os detalhes se foram com os personagens, todos já falecidos. O certo é que um irmão mais velho de Papai, Tio João, se encantou com uma bela senhora e caiu no mundo com o Parque de Diversões onde a dita cuja trabalhava, deixando a tranquilidade da fazenda em Araguari para conhecer as praças do país. Lá pelas tantas, meu pai decidiu acompanhar o irmão.

Espírito livre, papai não devia curtir os limites da fazenda e da vida no campo. Não gostou também das imposições dos padres, tendo estudado em um seminário, coisa comum aos meninos de então. Em 1945 foi convocado para a II Grande Guerra. Estava com 21 anos e com boa sorte, já que aquele ano também foi o fim do conflito armado. Em seguida papai trabalhou por um tempo na Companhia Goiás de Estradas de Ferro e, até onde guardo as histórias todas, de lá saiu indo trabalhar com o irmão no parque de diversões.

Há notícias de Lorena, no Vale do Paraíba, onde minha mãe, Laura, foi aprender com o marido coisas que o pai não permitia. Subir em árvores, andar de bicicleta, atirar com arma de fogo. No tal parque papai cuidada de um stand de tiro ao alvo. Tiros de chumbo e de rolha, em busca do praticante contar vantagens e ganhar pequenos brindes. Houve uma passagem por Ribeirão Preto, já fora do parque e veio a decisão de morar em Uberaba.

Fiz as contas (nunca fui bom em matemática!): Papai chegou em Uberaba com 31 anos e cinco filhos. O quinto, euzinho, na barriga de minha mãe, nascendo em junho de 1955. O sexto, Wander, veio anos depois. Além da filharada, trouxe na bagagem uma barraca e as espingardas, desde então participando de festas e quermesses da cidade com a barraca de tiro ao alvo do Bino. Atividade insuficiente pra manter todo mundo, Papai montou uma oficina no quintal. Conhecimento adquirido na infância e nas oficinas da estrada de ferro, passou a fabricar ferraduras – colocando-as nos animais – portões, dobradiças e outras peças sob demanda.

Papai não gostava de patrões. Deu um duro danado para não se submeter a terceiros. Criativo, aproveitou o espaço do quintal e a oficina para criar seu próprio parque. Uma por uma foram criadas as barracas, a maioria delas pintadas pacientemente pela minha irmã caçula, Walderez. Na medida em que o quintal ficou pequeno com os brinquedos todos, papai utilizou o pátio da Paróquia de Nossa Senhora das Graças para a montagem final, em acordo com o vigário de então, Padre Nicola Ruggi. O homem já tinha pisado na lua quando o parque foi inaugurado em uma quermesse paroquial. De lá meu pai saiu para percorrer todos os bairros da cidade, todas as cidades da região.

O parquinho fez meu pai conhecido em Uberaba. Pessoalmente, já morando fora, eu adorava descer de um ônibus na rodoviária, entrar em um taxi e pedir: me leva pra casa do Bino! Todos conheciam meu pai e a maioria foi gente amiga. Isto não implica ter sido ele obrigado a defender seu negócio, muitas vezes com os próprios braços, de arruaceiros e ladrões. Invariavelmente, quando ocorria algo do gênero, ele chegava em casa e, mesmo sendo altas horas, chamava todos os filhos e contava detalhadamente o ocorrido. Se o caso fosse engraçado, via-se lágrimas, pois meu pai era daqueles que chorava de tanto rir.

A parte do século vivida por meu pai nesse plano terreno ocorreu muita coisa. E o menino que nasceu na pequena Estrela do Sul, no Triangulo Mineiro, certamente não pensava em coisas como televisão ou mudança de capital. Papai gostava de Juscelino Kubitschek. Quando estava bem vestido se comparava ao líder político. Quanto aos demais políticos, tratava-os como mineiro, raposa que sorria para todos e raramente revelava o próprio voto.

Aos poucos papai foi mudando. Os filhos crescendo, os primeiros netos aparecendo, ele deixou a oficina pelo parque. Do fundo do quintal só surgia, sem que jamais soubéssemos de onde, forquilhas, borrachas e elásticos para papai fazer e premiar crianças visitantes com estilingues. Quieto, silencioso, a certeza de que ele gostara da criança estava naquele ato: fazer e presentear o brinquedo. Aos mais velhos, amigos meus e de meus irmãos, aparentemente sisudo, em pouco atribuía um apelido. Em dado momento, quando minha irmã apresentou o namorado, papai indagou sério: outro? E saia rindo, deixando que explicassem o jeito de ele ser.

Outras mudanças no século, a televisão acabando com os pequenos circos e parques, e papai vendeu o Parque Boa Vista, ficando apenas a barraca em ponto fixo, no Bairro da Abadia, da santa predileta do meu pai. Quando a procissão da Abadia, vindo do município de Água Suja passava por nossa rua papai era um dos que enfeitavam com arcos de bambu e bandeirolas, além de soltar fogos durante a passagem da santa, protetora do seu trabalho. E foi perto dela que trabalhou, até se aposentar.

Uma cachaça com os amigos, muita música no radinho de pilha e silêncio. Papai observava o mundo aos setenta, oitenta anos. Via noticiários, assistia ao futebol, mas creio que era difícil para ele acompanhar todas as mudanças que a virada do século estava impondo aos mais velhos. Os filhos formados, indo mais longe do que ele fora, as mulheres mais livres, assumindo o mercado de trabalho, a internet chegando e tornando tudo mais rápido, mais urgente. Às vezes rugia, lembrando o homem que usava os próprios braços, sempre armados para defender a família. Na maioria do tempo ficava quieto, sem nunca deixar de fazer peraltices, como prender um chapéu de palha na ponta de um bambu para colher frutas do quintal do vizinho ou, quando a cozinha vazia, invadir a geladeira para obter generosas porções de doce de leite. Após ser pego, ria. E no dia seguinte, mesmo tendo tomado a sobremesa, dizia para a Walcenis com a maior cara de pau:  Sua mãe não me deu doce!

Papai lutou pela vida à maneira dele. Nos aniversários dizia sempre, consegui mais um ano! Quando a doença chegou, lutou bravamente, incluindo nessa uma fuga do hospital, pois queria ir para casa. Viu a morte de Chico Xavier, em 2002, junto com a festa brasileira por mais uma Copa do Mundo. Um médico amigo conversava regularmente com ele sobre a doutrina espírita, que ele vira crescer em Uberaba, desde os tempos de trabalho conjunto de Waldo Vieira e Chico Xavier. Provavelmente essas conversas ajudaram-no em sua passagem, deixando com minha mãe o desejo de ter o velório feito na varanda, onde a família gostava de se reunir, com os portões abertos, para um adeus aos amigos.

Papai faleceu em 2005. Faria 100 anos em 2024. Tanta coisa tem acontecido nesse mundo. Desses 19 anos passados de sua morte, papai esteve e se mantém presente em nossas vidas, em nossos corações. E na vida de outros, amigos, conhecidos e, provável, seu nome anda até na boca de quem não sabe quem ele foi. Papai é nome de rua! Saber haver uma Rua Felisbino Francisco de Resende, o Bino, deve tê-lo feito feliz, honrado com as homenagens. Um momento em que, com certeza, ele deve ter sorrido e estufado o peito para dizer com a maior tranquilidade: Que nem o Juscelino Kubitschek!

Feliz centenário, Papai!