Deus não é brasileiro!

Por que raios Deus seria brasileiro? Se a gente parar um instante para pensar no tamanho do universo observável – 93 bilhões de anos-luz – e na quantidade provável de planetas – mais de cinco mil, segundo o deus Google – é muita pretensão querer que o onipotente e onisciente tenha tal nacionalidade. Quiçá haja algo que justifique uma atenção especial do Senhor para com esse país dentro desse planetinha. “Dá licença, ser, vá procurar tua turma!”, creio ter captado agora essa mensagem divina.

Pensar Deus nos moldes humanos significa que ele está atento aos puns que devem ser evitados, segundo a boa educação: “Graças a Deus segurei meu peido!” Euzinho já ouvi essa frase fantástica. Assim como nunca me esqueci de que, mediante todos os problemas do planeta, sem contar o universo, Deus costumava dar uma paradinha para aparecer para Senna em curvas de autódromos mundo afora. Lembram-se dessa?

Colocamos Deus diariamente em lados opostos. O exemplo mais contundente que me ocorre são as partidas de futebol. E me resta pensar no que o atleta pensa após a derrota do time, tendo ele pedido ajoelhado e publicamente. O craque do momento cogita que Deus não perdoa quem não paga impostos? O outro pensa ter perdido por ser um assediador babaca, estuprador criminoso? Sendo o futebol esporte coletivo é bem provável que o crédito do pecado vá para outro e, ao contrário, quando o time vence é por Deus ser generoso para com criminosos bons de bola.

Com absoluta certeza, Deus é mais paciente que Jó. Na recente manifestação oficial da democracia brasileira ele foi obrigado a ouvir preces desesperadas de gente pedindo interferência no resultado das eleições. Se eu fosse Deus, mandaria à merda. No entanto Ele prefere deixar essa gente por aí, rezando para o vazio, para que tenham a possibilidade de aprender a respeitar a vontade da maioria. Mas, Deus me perdoe, eles não vão aprender nada. E na oscilação de poder entre um lado e outro, cada lado continuará afirmando que o Senhor é brasileiro. Isso merecia punição!

O princípio de Deus está além da nossa pobre e precária percepção. Se Ele criou tudo, obviamente que Sua origem é outra. Provavelmente tenha nascido em algum lugar tão bonito quanto a Bahia, brincado em verdes montanhas como as de Minas Gerais, tomado banho em águas cristalinas como… Não tem muito mais água cristalina não. Estão praticamente contaminadas! Tomar banho, mesmo sendo Deus, e a pereba é certa. Há que tratar a água! E ele ficaria constrangido em ter como conterrâneo o baiano que se bronzeou para levantar mais grana para a campanha. O Falso Pardo Magalhães perdeu! E gosto de acreditar que tenha sido castigo de Deus. E as verdes montanhas, não só de Minas, estão sendo dizimadas por conta de extração de minério. Não há lugar para Deus e humano brincar.

Enquanto cismo com essas esquisitices, o Palmeiras acaba de ganhar um campeonato, estamos próximos de uma Copa e, Deus do Céu, estou adorando a ação das torcidas liberando estradas daqueles que, com certeza, estão rezando o “Pai Nosso” e, nesta oração, repetindo como bestas humanas que são um “Seja feita a tua vontade”. Sim, pior que tudo, ao invés do silêncio da meditação e de prece por inspiração para entender Seus desígnios, esses brasileiros acham que sabem qual é a Sua vontade. Algum esperto disse para que acreditassem e eles acreditam. Creem que a terra é plana, creem que vacina causa autismo, creem na mamadeira de piroca e que teremos que comer cachorro para sobreviver. – Não! Diz o senhor! – Vocês continuarão exterminando galinhas, vacas, porcos, patos! Cachorro, não!

Seja de onde for, do que ou de quem tenha herdado, a principal característica de Deus é a paciência. E é acreditando na paciência divina que eu, brasileiro, vou me deliciar com o momento em que Deus está do meu lado. Do nosso lado! Do lado da maioria de milhões de brasileiros que votaram em um nordestino porreta, pernambucano de Caetés. Ao outro lado resta dizer: rezem, mas não se esqueçam de que estão pedindo pela vontade divina, por justiça (essa também está do nosso lado, embora a gente saiba que marrecos andam por aí) e, sobretudo, rezem para que ele continue sendo paciente para com esse país problemático, esse planeta destemperado e louco. Basta uma piscada e Ele resolve tudo, transformando naquilo que está na Bíblia: do pó viemos, ao pó voltaremos.

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Nota: a imagem é detalhe da obra Os Amantes, de Magritte.

O último texto

Foto: Flávio Monteiro

Não bastasse a pandemia, longe do fim com mais de 500 mortes diárias apenas em nosso país, agora pesa sobre nossa cabeça a possibilidade de uma guerra atômica. Não tendo real noção da abrangência de um ataque nuclear, seja de que lado for, não podemos afirmar que estaremos aqui no próximo mês, ou mesmo, no pior quadro, pode ser que tudo termine amanhã. E daí, penso: caso possível, diante do fato qual seria a indagação do universo?

Considerando a idade da Terra, acima dos 6 bilhões de anos, e levando-se em conta que o planeta segue transformando-se, indiferente às mazelas que provocamos sobre a superfície terráquea, o que são os poucos milhares de anos dessa coisa chamada ser humano diante da imensidão do tempo do planeta, da galáxia? E o que importa, o que somos nós perante toda a Via Láctea e outras possíveis vias por nós desconhecidas?

Das criações divinas que, até onde vai nossa compreensão estão em harmonia, consoantes com entornos, com o que lhes é necessário, o ser humano é a coisa que deu errado. Um equívoco. Se há um Deus e se ele criou o espaço infinito, de imensurável beleza, o primeiro erro humano foi acreditar-se imagem e semelhança de Deus. Sejamos honestos! Entremos em nossos quartos e nus, diante de um espelho, encaremos quem realmente somos. Antes disso, um alerta: o que se acredita ser beleza é, constantemente, consequência de delírio emotivo materno. E, segundo alerta, para um exame de consciência livremo-nos de todas as certezas caso não estejam carregadas das dúvidas que geram crescimento.

O espelho honesto refletirá um ser obtuso e, se brasileiro, limitado à polarização vigente. Incapaz de refletir em direção às causas, limita-se a mexer e remexer feridas, “torcendo” por um ou outro, criminalizando um ou outro para esquecer rapidamente o desastre presente, transferindo posturas e interesses para a próxima catástrofe. Produto pensado para consumir, vai para o arquivo dos acontecimentos situações tipo as enchentes em Petrópolis, o ser humano na belíssima praia brutalmente espancado até a morte e a iminente guerra atômica… neste momento em que escrevo, a contenda amenizada por uma partida de futebol – ouço os gritos frenéticos da torcida e, mais a noite, tudo momentaneamente deixado de lado pela competição da hora na televisão.

Esse brasileiro, perante o espelho, dificilmente levará em conta seu estado em função de uma ditadura militar, que excluiu da rede escolar a reflexão propiciada pela filosofia ou que é resultante da vigente educação neoliberal formando tecnicistas com rara capacidade de interpretação, e quase nula capacidade de fazer ciência. Costuma ficar indignado com situações como a do ser humano que viaja para fazer turismo sexual em plena guerra, mas em seguida se diverte perguntando via meme “qual mundo deixaremos para a Rainha Elizabeth?”.

Vizinhos residentes acima da minha cabeça jogam ovos em frequentadores do bar em frente. Esses mesmos vizinhos, incapazes de seguir normas mínimas como dia e hora para recolher o lixo, frequentam outro boteco, da esquina, e lá discutem o destino do conflito mundial entre um copo e outro de cerveja, assoviando para uma bunda ocasional que desce pela avenida. Nos grandes ou pequenos fatos, somos sempre os mesmos.

Nu perante o espelho vejo-me piada divina. Brinquedo que, não dando certo, será apagado da face do planeta. O certo é que este prosseguirá, os continentes afastando-se fisicamente em programa que desconhecemos qual fim. Grandes merdas uma guerra atômica! Dane-se o fim da humanidade. O que serão estes tristes episódios no histórico de bilhões e bilhões de anos vividos pelo planeta? Uma mancha, alguns resquícios entre camadas e camadas que formadas, destruídas e reformadas, constituem-se na massa que flutua em equilíbrio com o sol, em harmonia jamais atingida pelo ser humano.

Prestes a sucumbir ao desalento, continuo olhando para o espelho e imagino-me distanciando do quarto, do edifício, da esfera terrestre. Tento ignorar limitações e viajo por galáxias, atravesso buracos negros, encontro milhares de outros planetas, navego pelo multiverso e, insano, olho para trás, tentando visualizar a terra, aquela que “por mais distante, o errante navegante jamais esqueceria”. E antes da última viagem, certamente há um único e derradeiro texto a ser escrito, uma única palavra direcionada ao Responsável pela coisa toda:

Socorro!