“O dia D” voltar para Minas

anhanguera/valdoresende

Todo aquele que é da minha geração, tendo saído da casa dos pais e vindo para longe, trouxe na bagagem da memória duas canções; uma que nos afasta das origens colocando-nos reféns do destino; desnudando vontades, anseios e escancarando uma felicidade como prêmio nos versos finais:

Eu por aqui vou indo muito bem, de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.

Quando jovem ostentamos uma coragem farsesca e somos portadores de grandes doses de petulância e autossuficiência. A canção acima começa assim:

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui…

“Mamãe, coragem” é de Caetano Veloso e Torquato Neto. Este mesmo Torquato Neto escreveu os versos de “Todo dia é dia D”, praticamente antítese da primeira canção, também guardada na bagagem da memória. Os versos são fortes em contraponto com uma melodia suave, criada por Carlos Pinto:

Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia D.

Saí de casa com 17 anos, 1972, mesmo ano em que Torquato Neto ligou o gás e suicidou-se. Ele estava com 28 anos. Eu já conhecia a música “Mamãe, coragem”, do disco “Tropicália ou panis et circensis”, de 1968. Um tempo depois de levar as primeiras aulas de “a vida como ela é”, ouvi “Todo dia é dia D”, música que saiu em um compacto simples, em 1973, junto com o livro “Os últimos dias de Paupéria”, coletânea de textos de Torquato Neto organizada por Waly Salomão e Ana Maria Duarte (essa foi esposa do compositor).

Eis que o tempo passou e continuei, sempre, cantarolando as duas canções. Sempre Gal Costa em “Mamãe, Coragem”, sempre Gilberto Gil em “Todo dia é dia D”. De repente, do inesperado vem uma proposta de trabalho e me chega um “dia D” voltar para Minas Gerais.

“…todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser…”

Este 2014 é para muitos o ano que começa agora, depois do carnaval; o ano de Copa do Mundo, de eleições. Na minha história é o ano de voltar e realizar um trabalho em minha terra. E este é o x da questão: voltar e realizar um trabalho em Minas Gerais. Nos próximos meses estarei geminianamente dividindo-me entre lá e aqui. O que farei? Depois eu conto. Tenham paciência; a mesma que tive durante todos esses anos aguardando a hora de voltar.

Boa semana para todos.

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Quem canta, canta João Bosco!

“-Topas encarar esse concurso?” Cantar as canções de João Bosco. É isso! Só que há que ser no mínimo ótimo para cantar composições solo ou aquelas feitas, por exemplo, em parceria com gente do naipe de Aldir Blanc.

Se fosse só uma pergunta – Quem é o melhor intérprete de João Bosco? – em uma brincadeira dessas que a gente faz em tardes chuvosas, ainda sim seria um páreo duro. Eu sugiro um empate triplo: Elis Regina, Zizi Possi e o próprio João Bosco, que canta como ninguém suas próprias criações.

João Bosco é o grande homenageado da 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Criado por José Maurício Machline, ao longo de todos esses anos o evento já homenageou a nata da música brasileira:  o ano  passado foi Noel Rosa. Antes dele, gente como Vinicius de Moraes. Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento e muitos outros.

Entre as homenagens para João Bosco foi preparado um concurso para intérpretes das canções do grande mestre. Não pense que são próprias apenas as vozes tipo Elis e Zizi. Se você tem um vozeirão à Clementina de Jesus, Maria Alcina ou Ângela Maria, pode encarar. E é claro que se o próprio João Bosco está entre os grandes intérpretes de suas canções, todos os rapazes podem soltar a voz.

Está no site do evento: “Grave sua interpretação em vídeo de uma das canções deste grande ícone da Música Brasileira, publique no Youtube e envie o link para nós, não aceitamos videoclip, o candidato deve estar cantando a canção no momento da gravação. Se você gosta da obra de João Bosco e não tem discos gravados pode participar. O grande vencedor receberá um prêmio em dinheiro e um troféu no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao lado dos grandes nomes da música brasileira!”

Olha que chance! Você cantando “Corsário” no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, de repente, vai que a Zizi Possi resolve subir e cantar junto? E já pensou, você cantando “Memória da Pele” perante Maria Bethânia? Pensando bem, não é uma boa idéia. Nessas, elas superam até o próprio João Bosco. E também, não vá cair na besteira de se achar “a bala que matou Kennedy” tentando levar a grana com “O Bêbado e o Equilibrista”! Essa, malandro, só mesmo a Elis Regina.  Agora, vamos à outras possibilidades…

Se você canta, mas canta mesmo, ataque de “Bala com bala”, “Cobra criada”, ”Linha de passe”… Essas são para quem tem excelente domínio da arte de interpretar. Outra possibilidade para grandes intérpretes é a de dar a própria versão de canções, diria eu, inusitadas, que só autores da categoria de João Bosco são capazes de criar; são músicas para quem tem verve humorística, como “A nível de…”, “Abigail caiu do Céu” e por aí vai.

João Bosco é muito bom, ótimo. Dentro das próprias possibilidades vocais, tornou-se um intérprete impar para canções como “Jade” ou “Papel Machê”. Agora há uma boa chance para os cantores que estão em início de carreira, ou aguardando uma boa oportunidade. Portanto, entre no site, cumpra o regulamento, grave a canção e saia divulgando para todo mundo. Pode ser que, por essas tramas da sorte, você não ganhe o prêmio; todavia, ser capaz de cantar bem as canções de João Bosco já é um feito e tanto. Boa sorte!

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Bom final de semana para todos.

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As canções citadas:

Corsário – João Bosco – Aldir Blanc

Memória da pele – João Bosco – Waly Salomão

O Bêbado e o equilibrista – João Bosco – Aldir Blanc

Bala com bala – João Bosco – Aldir Blanc

Cobra criada – João Bosco – Paulo Emílio

Linha de Passe – João Bosco, Paulo Emilio – Aldir Blanc

A nível de… – João Bosco – Aldir Blanc

Abigail caiu do céu – João Bosco – Aldir Blanc

Jade – João Bosco

Papel Machê – João Bosco – Capinan

O realejo e a minha boa fortuna

A única coisa que esperamos, indo ao médico, é receber a notícia de que está tudo bem. Aí, a vida é bela e o rio Nilo continua tranqüilo, a viagem na nave permanece suave. Essas brincadeiras tipo “tranqüilo no Nilo”, “suave na nave” ou “de boa na lagoa” aprendi com um amigo querido e foi mais ou menos assim que voltei da consulta.

Literalmente, quando estava “de bobeira na ladeira” foi que vi o homem com o seu realejo. A ladeira, do bairro Liberdade, em São Paulo. E a visão do senhor com a velha geringonça trouxe de volta uma das canções que aprendi na infância.

… já vendi tanta alegria

Vendi sonhos a varejo

Ninguém mais quer hoje em dia

Acreditar no realejo…

Cantarolando mentalmente e assim me distanciando, senti de imediata a sensação de oportunidade perdida. Poxa, o realejo estava ali. Era poeticamente real e eu estava perdendo a chance de saber o que me aguarda, qual sina ou destino tenho pela frente.

Sua sorte, seu desejo

Ninguém mais veio tirar

Então eu vendo um realejo

Quem vai levar?…

Voltei e, timidamente, pedi para tirar uma foto. Prontamente o Senhor Luiz Carlos – nome nada exótico para um portador de destinos via realejo – consentiu e, em seguida, apresentou-me sua companheira de trabalho: “- Cristina! Venha para fora posar pro moço! Venha, Cristina!”.

Luiz Carlos e Cristina

Fiquei ali, diante de uma papagaia chamada Cristina, conversando com o Senhor Luiz Carlos que, orgulhosamente, informou-me ser paulistano, morador de Itaquera. “– A máquina veio da Argentina e há muito está comigo”. A idade da máquina, visível até na foto, era reforçada por uma música tão fanhosa, que lembrava uma rabeca estranha, uma gaita desafinada. Todavia, eu já estava tomado pela ansiedade em conhecer a minha sorte.

“- Cristina! tire a sorte do moço! Venha, Cristina! Escolha direito, escolha com cuidado, sem pressa. É a sorte do moço, Cristina!”

“- Agora, Cristina, carimbe a sorte do moço. Venha, menina! Muito bom, Cristina! Seja feliz, moço!”‘

Agradeci e retomei meu caminho, segurando o pequeno papel como se este fosse um talismã, uma jóia raríssima, um recado dos deuses para os dias que me restam no planeta. Quis me distanciar e, em uma praça, diante de um belíssimo e florido arvoredo, li o recado que me foi entregue pela papagaia Cristina:

“Tenha V. Sa. muito cuidado com as pessoas que tratam em sua casa ou fora dela; os aduladores deixe-os a um lado porque são eles que o estão a explorar; mas não tem que fazer caso; o seu nascimento anuncia a glória sobre os seus inimigos. V. Sa. será surpreendido; terá uma herança inesperada e a soma de dinheiro que receber causar-lhe-á muita alegria; com esse dinheiro ganhará V. Sa. muito, e, sem que o saiba, será senhor de muitos bens.”

Puxa vida! Que maravilha! Voltando do médico com a saúde em dia, encontrei o homem do realejo que veio informar-me que serei vitorioso ante meus inimigos e ainda dono de muitos bens! Pouco me importou a tarde sem sol, a tempestade anunciada. Como trilha sonora em cinema reli o papel enquanto recordava outra bela canção:

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

A mensagem termina assim: V. Sa. tem tido muitos pesares até agora, mas doravante será perseguido pela fortuna. Terá sorte na loteria com o número… (será que tenho algum inimigo lendo este texto? Melhor guardar segredo.)

Dentro de casa já tinha tido o calor diminuído pelas primeiras gotas de chuva caídas sobre meu corpo. Mas eu estava serenado, feliz por morar em São Paulo e, em uma tarde qualquer de uma quinta-feira do mês de março, poder encontrar o homem do realejo e ter a certeza de que a fortuna me espera. Como viver e não dividir tudo isso?

Recostado em uma mureta, lendo minha sorte bem em frente ao arvoredo que ignora o outono.

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

… no coração do meu corpo um porta-jóias existe

Dentro dele um talismã sem par…

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Bom final de semana!

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Notas: A primeira música citada é “Realejo”, de Chico Buarque de Holanda. A segunda é “Talismã”, de Waly Salomão e Caetano Veloso.