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A única coisa que esperamos, indo ao médico, é receber a notícia de que está tudo bem. Aí, a vida é bela e o rio Nilo continua tranqüilo, a viagem na nave permanece suave. Essas brincadeiras tipo “tranqüilo no Nilo”, “suave na nave” ou “de boa na lagoa” aprendi com um amigo querido e foi mais ou menos assim que voltei da consulta.

Literalmente, quando estava “de bobeira na ladeira” foi que vi o homem com o seu realejo. A ladeira, do bairro Liberdade, em São Paulo. E a visão do senhor com a velha geringonça trouxe de volta uma das canções que aprendi na infância.

… já vendi tanta alegria

Vendi sonhos a varejo

Ninguém mais quer hoje em dia

Acreditar no realejo…

Cantarolando mentalmente e assim me distanciando, senti de imediata a sensação de oportunidade perdida. Poxa, o realejo estava ali. Era poeticamente real e eu estava perdendo a chance de saber o que me aguarda, qual sina ou destino tenho pela frente.

Sua sorte, seu desejo

Ninguém mais veio tirar

Então eu vendo um realejo

Quem vai levar?…

Voltei e, timidamente, pedi para tirar uma foto. Prontamente o Senhor Luiz Carlos – nome nada exótico para um portador de destinos via realejo – consentiu e, em seguida, apresentou-me sua companheira de trabalho: “- Cristina! Venha para fora posar pro moço! Venha, Cristina!”.

Luiz Carlos e Cristina

Fiquei ali, diante de uma papagaia chamada Cristina, conversando com o Senhor Luiz Carlos que, orgulhosamente, informou-me ser paulistano, morador de Itaquera. “– A máquina veio da Argentina e há muito está comigo”. A idade da máquina, visível até na foto, era reforçada por uma música tão fanhosa, que lembrava uma rabeca estranha, uma gaita desafinada. Todavia, eu já estava tomado pela ansiedade em conhecer a minha sorte.

“- Cristina! tire a sorte do moço! Venha, Cristina! Escolha direito, escolha com cuidado, sem pressa. É a sorte do moço, Cristina!”

“- Agora, Cristina, carimbe a sorte do moço. Venha, menina! Muito bom, Cristina! Seja feliz, moço!”‘

Agradeci e retomei meu caminho, segurando o pequeno papel como se este fosse um talismã, uma jóia raríssima, um recado dos deuses para os dias que me restam no planeta. Quis me distanciar e, em uma praça, diante de um belíssimo e florido arvoredo, li o recado que me foi entregue pela papagaia Cristina:

“Tenha V. Sa. muito cuidado com as pessoas que tratam em sua casa ou fora dela; os aduladores deixe-os a um lado porque são eles que o estão a explorar; mas não tem que fazer caso; o seu nascimento anuncia a glória sobre os seus inimigos. V. Sa. será surpreendido; terá uma herança inesperada e a soma de dinheiro que receber causar-lhe-á muita alegria; com esse dinheiro ganhará V. Sa. muito, e, sem que o saiba, será senhor de muitos bens.”

Puxa vida! Que maravilha! Voltando do médico com a saúde em dia, encontrei o homem do realejo que veio informar-me que serei vitorioso ante meus inimigos e ainda dono de muitos bens! Pouco me importou a tarde sem sol, a tempestade anunciada. Como trilha sonora em cinema reli o papel enquanto recordava outra bela canção:

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

A mensagem termina assim: V. Sa. tem tido muitos pesares até agora, mas doravante será perseguido pela fortuna. Terá sorte na loteria com o número… (será que tenho algum inimigo lendo este texto? Melhor guardar segredo.)

Dentro de casa já tinha tido o calor diminuído pelas primeiras gotas de chuva caídas sobre meu corpo. Mas eu estava serenado, feliz por morar em São Paulo e, em uma tarde qualquer de uma quinta-feira do mês de março, poder encontrar o homem do realejo e ter a certeza de que a fortuna me espera. Como viver e não dividir tudo isso?

Recostado em uma mureta, lendo minha sorte bem em frente ao arvoredo que ignora o outono.

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

… no coração do meu corpo um porta-jóias existe

Dentro dele um talismã sem par…

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Bom final de semana!

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Notas: A primeira música citada é “Realejo”, de Chico Buarque de Holanda. A segunda é “Talismã”, de Waly Salomão e Caetano Veloso.