Virada Cultural, o congestionamento de shows

Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal
Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal

Revitalizar o centro velho de São Paulo é tarefa para gigantes. Hoje, no começo da tarde, passando pela Avenida Senador Queiroz tive a impressão de que a região estava sendo tomada pela triste turba dos viciados em crack. Ocorre que recentemente presenciei outros grupos similares na Praça Clóvis, bem ao lado da Praça da Sé, e também nas imediações da Praça Júlio Prestes, onde ficará o palco principal da Virada Cultural.

Durante 24 horas ocorrerão mais de mil shows na Virada Cultural 2013. Mil! Nos demais 364 dias do ano tudo fica como sempre e a maioria das pessoas fogem da região. Obviamente que não seria viável ter shows todos os dias; mas se os shows ocorressem semanalmente, seriam mais de cinqüenta; mensalmente, seriam mais de 80 shows. Todavia, haveria real interesse em revitalizar a região? Poderiam, por exemplo, melhorar a limpeza das ruas durante todo o ano; para aqueles que, como eu, passam diariamente por lá, já seria uma ação admirável.

A Virada Cultural, nos atuais moldes, faz um grande alarde. A ideia veio de Paris e, lógico, como continuamos colonizados, não há o que discutir. Os franceses sabem tudo…  Assim, temos um evento que é quantitativamente impressionante. Mais de mil shows em dezenas de palcos espalhados por vários pontos do centro velho. Para dar uma ideia aos que não moram em Sampa optei por montar uma listinha do que eu gostaria de ver:

No Palco da Praça Júlio Prestes:

18h (sábado) – Daniela Mercury e Zimbo Trio
21h (sábado) – Gal Costa
6h (domingo) – Elza Soares e Gaby Amarantos

No Palco do Theatro Municipal, onde os shows reproduzirão discos completos:

21h (sábado) – Fagner: “Manera Fru-Fru Manera” (1973)
3h (domingo) – Ângela Rô Rô: “Ângela Rô Rô” (1979)
6h (domingo) – Walter Franco: “Revólver” (1975)
9h (domingo) – Wanderléa: “Wanderléa… Maravilhosa” (1972)
12h (domingo) – Jorge Mautner: “Jorge Mautner” (1974)
15h (domingo) – Eumir Deodato: “Deodato 2” (1973)

No Palco do Largo do Arouche:

17h (domingo) – Fafá de Belém

Observando a pequena relação só tenho de optar entre Gal Costa e Fagner. No mais seria necessário apenas ter saúde para uma maratona de vinte e quatro horas de shows. E antes que alguém me chame de velho devo afirmar que a Virada Cultural é ótima para quem consome quantidade. Acontece que gosto de música; prefiro ouvir e não gosto de cantar enquanto meus artistas queridos estão cantando. Adoro ouvi-los e a possibilidade de dormir, por exemplo, durante o show de Jorge Mautner é, no mínimo, constrangedora.

Há tantos outros que gostaria de ver! Ano passado passei por vários lugares. Sempre lamentando, como agora, o que não teria condições de ver e me perguntando, como hoje, porque não podemos ter 50 shows por semana. Com cinco dezenas de shows semanais haveria a possibilidade de um mesmo tanto de estilos, de formas expressivas. A Virada Cultural repete, infelizmente, o que nos faz sofrer durante todo o tempo: é só mais um dia de congestionamento em São Paulo. Um imenso congestionamento de shows.

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Boa diversão e bom final de semana para todos!

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Recolher outro livro… Qual o problema, Roberto Carlos?

capa-do-livro-jovem-guarda-mod

Pela segunda vez o “Rei” tenta tirar um livro de circulação. Em 2007 ele conseguiu que a biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo César de Araújo, fosse recolhida das livrarias. Agora, os advogados contratados por RC tentam o mesmo com outro livro, “Jovem Guarda: moda, música e juventude”, de Maíra Zimmermann, da editora Estação das Letras e Cores.

As alegações são as mesmas de sempre: “fatos de foro íntimo e pessoal do cantor”. Acontece que o livro de Maíra Zimmermann é uma obra acadêmica; ou seja, é “resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida pela autora no programa de mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac”. Sendo obra acadêmica é uma pesquisa detalhada, exposta com detalhes nas 529 notas de rodapé, documentada em fontes e referências bibliográficas que ocupam mais de 10 páginas.

Será que RC chegou a ver o tal livro? Será que consegue perceber a diferença entre um trabalho de mestrado e uma revista ordinária de fofocas? O problema seria dinheiro?

Alguns números: A editora informa ter colocado mil exemplares à venda. Comprei um exemplar hoje (e se bater alguém na minha porta, pedindo de volta, só entrego com ordem de juiz!) por 48,00 reais. Assim, mantendo esse preço e vendendo toda a tiragem, a editora receberá 48.000,00. Se o contrato foi na base de 10% para o autor, Maíra Zimmermann poderá receber a fortuna de 4.800,00 reais.

Do processo que moveu contra Paulo César de Araújo, segundo este, RC alegou estar perdendo dinheiro, já que “fãs deixariam de comprar o CD para comprar a biografia. Ele pediu multa de 500.000 reais por dia em que o livro seguisse circulando e pediria uma indenização ao final do processo, que foi encerrado com o recolhimento das 11.000 cópias ainda disponíveis do livro”.

Já foi notificado que RC fez contrato com a editora Leya, que publicará uma “biografia autorizada” e que o projeto inclui filme sobre a vida do cantor. É um direito dele, sem dúvida, mas essa história de biografia autorizada… Certamente o livro não dirá que RC gravou “Quero que vá tudo para o inferno”, já que o cidadão não fala a palavra inferno, nem permite que outro cantor grave a música. Seria isso?

Roberto Carlos, como todo ser humano, tem direitos autorais e concordo que administre seus bens, seus segredos e fatos pessoais conforme suas convicções. Todavia, a Jovem Guarda não é propriedade dele. Se alguns artistas desse período influenciaram as pessoas através do modo de vestir, de cortar ou deixar crescer o cabelo, de usar adereços, de expressarem-se através de gestos e expressões peculiares, enfim, se fizeram história, essa história é de toda uma nação, não de um indivíduo. E é disso que trata o livro “Jovem Guarda: Moda, música e juventude”.

Não vi nada publicado na imprensa sobre a quarta capa do livro de Maíra Zimmermann conter texto assinado por Wanderléa. Sim, a “maninha do rei” colaborou com o livro e diz, entre outras coisas, que “Seu conteúdo vem me trazer a dimensão da minha atuação nesse contexto”; mais além, a cantora afirma: “nossa participação foi válida, acrescentando valores de troca, experiência e referência para tantas vidas”. Que pena que RC queira tirar de circulação algo, segundo Wanderléa, “tão minucioso e verdadeiro”.

Só para completar: o livro cita muita gente; só para ficar na esfera de cantores notáveis no período: Wanderley Cardoso, Martinha, Celly Campello, Eduardo Araújo, Ronnie Von, Vanusa, Rosemary, Ari Sanches, George Freedman, Os Incríveis e dezenas de outros que, junto com Roberto Carlos, fizeram a história que também é a história de milhões de brasileiros.

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Até mais!

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As rainhas do ziriguidum e do borogodó

Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.
Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.

Tem um monte de gente que procura justificar a própria ignorância com a expressão “não é do meu tempo”. De quebra o preconceito embutido, como se o tempo presente fosse a maior das maravilhas… Cada época tem a sua beleza e hoje estou interessado em grandes mulheres, para um carnaval do balacobaco. Com muito ziriguidum!

Hoje eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar

Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…

Balacobaco só sabe o que é quem tem borogodó. E só quem tem borogodó é capaz de dar um ziriguidum. Tudo esclarecido um carnaval com “it” pode começar com versos acima, cantados por LINDA BATISTA. A primeira grande Rainha do Rádio.

O Brasil tem uma queda pela monarquia, adora eleger rainhas da primavera, do carnaval, do rock, do rebolado… Na chamada era de ouro do rádio elegia-se uma rainha por ano.

LINDA BATISTA foi Rainha do Rádio mantendo o título por onze anos (1937/1948) e, contratada da toda poderosa Rádio Nacional colecionou casacos de peles e carros de luxo. Rainha é rainha! E como essas histórias de monarquia são hereditárias, LINDA transferiu a coroa para a irmã caçula, DIRCINHA BATISTA.

Lá vai o meu trolinho

Vai rodando de mansinho

Pela estrada além

Vai levando pro seu ninho

Meu amor, o meu carinho

Que eu não troco por ninguém…

As irmãs Batista eram do balacobaco. Amadas até por Getúlio Vargas, ficaram meio esquecidas na transição do rádio para a televisão. Já na época havia também o “culto ao novo”. Veio com a Bossa Nova e, posteriormente, com a Jovem Guarda; um fenômeno  que colocou em plano secundário outros grandes astros do rádio como, por exemplo, MARLENE.

Lata d’água na cabeça

Lá vai Maria

Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria…

MARLENE, entre todas as rainhas do rádio, foi a que teve a carreira mais interessante, após a tal fase de ouro. Como atriz protagonizou novelas e peças teatrais. No disco “A Ópera do Malandro” temos dois registros dessa cantora incrível; uma filha de italianos (nascida aqui no “meu” Bexiga!) que canta sambas com o maior borogodó!

MARLENE foi estrela de um dos primeiros programas de carnaval que assisti pela televisão. O nome do programa era “Big Show Royal” e a cantora aparecia com um biquíni deixando evidente o quanto ela era capaz de um ziriguidum. Lembro que minha mãe não gostava; “- Essa mulher é muito escandalosa!”, reclamava. A cantora tinha um jeito de garota levada, mas levada mesmo era EMILINHA BORBA.

Se a canoa não virar

Olê, olé, olá

Eu chego lá

Rema, rema, rema remador

Quero ver depressa o meu amor…

EMILINHA BORBA reinou por 27 anos na Rádio Nacional. Foi campeã em correspondência por 19 anos e capa de 350 revistas. Isso é coisa de rainha! Vencedora de inúmeros carnavais, seus sucessos continuam por todos os bailes do país. “Chiquita Bacana”, “Tomara que Chova”, “Vai com Jeito” e, entre muitos outros, até uma “Mulata Yê, Yê, Yê”…

Mulata Bossa Nova

Caiu no hully gully

E só dá ela

Ye, ye, ye…

Na Passarela!

As cantoras do rádio brigavam feio pelo título de “Rainha”. O voto era popular e as “cédulas eleitorais” vendidas junto com a Revista do Rádio. Em 1949 a Companhia Antártica Paulista resolveu patrocinar MARLENE, dando a grana para a compra de votos. A cantora paulista conseguiu mais de 500 mil votos e sua vitória deu início a uma “guerra histérica” entre seus fãs e os de EMILINHA BORBA. Virou lenda!

Tivemos muitas “rainhas do rádio”. ÂNGELA MARIA, CARMÉLIA ALVES e DÓRIS MONTEIRO estão entre elas. Nenhuma, entretanto, foi grande como DALVA DE OLIVEIRA. Essa “rainha do rádio” foi também a “rainha da voz” e é, por muitos, considerada a maior cantora do Brasil. Nosso país é ou não é chegadão nessa tal monarquia?

Tanto riso, oh, quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

rainhasdoradio2

DALVA DE OLIVEIRA faz com que eu recorde meu pai. Eu era criança e adorava WANDERLÉA com suas pernas (Isso é borogodó!), a cabeleira loira e a dança, ingenuamente sensual (Mas, cheia de ziriguidum!).  Sei lá o que eu estava fazendo; deixei de lado e atendi ao chamado de papai para, no programa FLÁVIO CAVALCANTE, assistir uma apresentação de DALVA: “- Vem cá; veja o que é uma grande cantora!”

Naquele programa ela cantou “Kalu” e, com ÂNGELA MARIA, “Ave Maria no Morro”. As duas grandes cantoras, cheias de borogodó, mandaram ver na melodia e letra de HERIVELTO MARTINS. Quando chegou o momento do maior agudo, ANGELA afastou-se do microfone, dizendo para DALVA: “- Agora é com você!”. E lá foi aquela mulher, magrinha, frágil, soltando seus “agudos fulminantes”, para lembrar a expressão certeira de HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO.

Nossas rainhas, se não estão na memória de muita gente, permanecem nas canções, nas marchinhas. Imaginem o tamanho do balacobaco com todas elas no mesmo palco? Dá até pra imaginar plumas (dizer penas, pra rainhas, não dá!) voando pra todo lado. Por outro lado, penso que DALVA DE OLIVEIRA mandaria seu melhor agudo, pra que tudo terminasse numa boa:

Bandeira branca, amor

Não posso mais

Pela saudade que me invade

Eu peço paz

Saudade mal de amor, de amor

Saudade dor que dói demais

Vem meu amor, bandeira branca,

Eu peço paz.

 .

Até mais!

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Notas:

Os versos acima são, respectivamente:

O Primeiro Clarim – Rutinaldo e Klécius Caldas, 1970 – LINDA BATISTA.
Upa, Upa!(Meu Trolinho) Ary Barroso, 1940 – DIRCINHA BATISTA.
Lata D’água – Luiz Antonio e Jota Junior –1952 – MARLENE.
Chiquita Bacana (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1949), Tomara que Chova (Paquito e Romeu Gentil, 1951) “Vai com Jeito”(João de Barro, 1957) e “Mulata Yê, Yê, Yê” (João Roberto Kelly, 1965) – EMILINHA BORBA.
Máscara Negra – Pereira Matos e Zé Kéti, 1967 – DALVA DE OLIVEIRA.
Bandeira Branca – Laércio Alves e Max Nunes, 1970 – DALVA DE OLIVEIRA.

. Publicado originalmente no Papolog em 14/02/2009.  

– Roberto, não traga de volta o LP!

single, cd, e no comercial a expressão “compacto duplo”

Quando vi o comercial divulgando o “Compacto Duplo” de Roberto Carlos, pensei: – Bingo! Esses indivíduos sabem com quem estão falando. A mensagem estava endereçada para pessoas que sabem exatamente o que é um Compacto Duplo e que, certamente, estranhariam a expressão “CD – Single”.

Já nos habituamos com a expressão CD, que é Compact Disc, e ele vem “virgem” ou cheio de músicas, de imagens e diferentes possíveis arquivos. Agora, “CD – Single” é sempre uma dúvida, já que o dito cujo vem com uma ou várias canções. A mensagem do novo trabalho “Roberto Carlos – Esse cara sou eu” revive uma expressão que os milhões de fãs do Rei entendem bem. Se o “Brasa” lançasse um compacto simples, viriam duas canções. No atual, compacto duplo, vem quatro. A única vantagem do presente objeto: não precisa “Virar” o disco. As quatro canções, sabemos bem, estão na mesma face.

Há tantas expressões estrangeiras no mercado! Chega a irritar, principalmente quando percebemos que a idéia é “agregar valor”, ou seja, tornar a bugiganga mais cara por conta do “single”, saca! Vamos ao exemplo: o mais recente CD do cantor, “Roberto Carlos em Jerusalém”, é duplo (ou seja, dois CDs no álbum) com 11 canções no CD 1 e outras 11 canções no CD 2, e está sendo vendido por  R$ 39,80, num site que está aberto aqui, enquanto escrevo.  O CD – Single, com apenas 4 canções e dessas, duas inéditas,  custa R$ 9,90, no mesmo site. Façam as contas!

Sem mesquinharia! Não há dinheiro que pague uma boa música. O que compramos é uma reprodução, podendo ouvir quantas vezes quisermos, onde e como der vontade. O ruim é alguém mudar o nome da coisa e cobrar muito mais caro, porque o velho compacto vira “single”. Essa é uma boa forma de incentivar a pirataria, porque o povo não é trouxa e já percebeu, há muito, que gente de má fé tenta vender “singles”, como se um “single” fosse melhor que uma “canção”!

Os negociantes estão aí, sempre tentando tirar a grana da gente. Nesse momento presenciamos a volta de um nome – Compacto Duplo – em um formato diferenciado por um preço alto. O pior é retirarem um produto do mercado, alegando que o novo é melhor e, em seguida, voltam com o tal produto, agora tornado “cult” (olha aí, novamente o valor agregado!) e por isso, cobram um preço mais que abusivo.

CD e Vinil, preços absolutamente distintos para o “produto”

Para exemplificar, minha amada, idolatrada, salve, salve, Maria Bethânia: A cantora lançou o CD “Oásis de Bethânia”; belíssimo e com a qualidade que faz dela uma das mais respeitadas intérpretes desse país. O CD está por razoáveis R$ 29,90 no mercado online. Este é o 50º disco da cantora e, para comemorar a data, a gravadora (leia-se negociante!) lançou um vinil.

Vinil é o nome que popularizam para o antigo LP, ou Long-Play. Faço parte de uma geração que comprou LPs de Roberto Carlos, Wanderléa, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento e, entre outras feras, é claro, Maria Bethânia. LP era um “discão” com cerca de 6 músicas de cada lado. O vinil é o material de que são feitos os tais LPs que sumiram um tempo do mercado após o surgimento do CD, com suposta nova tecnologia, melhor som, melhor qualidade, etc. O vinil era material que riscava, furava, quebrava, enfim, algo velho e acabado.

Depois que o mercado foi infestado de CDs e até de outros formatos, resolveram reviver o LP, dizendo que este é maravilhoso, sensacional, com um som diferenciado e único e, provavelmente, por todas essas excelentes qualidades, custa  no mínimo duas vezes mais que o CD. Exemplo básico: “Oásis de Bethânia”, o CD, custa R$ 29,90. “Oásis de Bethânia”, o vinil, custa R$ 68,90. Estão me chamando de otário?

A tecnologia avança e o CD já é quase passado. Convivemos atualmente com o mp3 e outras mumunhas digitais. A “decadência” do CD já é anunciada e, provavelmente, ele desaparecerá para, algum tempo depois, voltar “cult”, como o antigo LP, atual Vinil. Quanto custaria um vinil de Roberto Carlos?

Pague quem quiser; pague mais caro quem puder. E prossigam com a “viagem na maionese” divagando sobre as diferenças sonoras entre o 78rpm (só os mais velhos conhecem este), o LP, o compacto simples, o duplo, o CD, o mp3…  E toda a aparelhagem necessária para que esses objetos possam cumprir a função. A boa música, até que merece. Mas é bom não esquecer aquela canção interpretada com propriedade por Elis Regina que dizia:

…nossos ídolos ainda são os mesmos

E as aparências não enganam não

Estão em casa guardados por Deus

Contando o vil metal…

Alguns desses ídolos, é bom prestar atenção, reclamam da falta de liberdade para gravar o que, quando, como entendem. Todavia, ficam caladinhos quando a discussão envolve o preço do disco, seja no formato que for, em suas belas casas, “contando o vil metal”. Roberto Carlos vende CDs e Compactos Duplos, assim como Maria Bethânia vende CD e Vinil. Se Roberto lançar um vinil, a máquina publicitária fará voltar o LP para o falar cotidiano. Tudo bem, desde que não esqueçamos que são meras peças da grande indústria que fatura alto, camuflando mesmices sob formatos diferenciados.

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Bom final de semana

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Nota:

Os versos acima são da música “Como nossos pais”, de Belchior.

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Eu quis falar do meu amor

Penso não ser o único maluco a guardar na cachola trechos de canções, frases melódicas acompanhadas de letra ou não. Poderia elaborar uma bela lista caso soubesse o nome da canção, os autores, os intérpretes. Obviamente que algumas dessas canções caminham comigo desde a infância, ouvindo minha mãe ou minhas irmãs cantarolando enquanto trabalhavam, outras vieram das minhas andanças por aí.

A tarde reservou-me agradável surpresa quando comecei a ouvir e reconheci uma canção do tempo em que fui adolescente. Foi como algo de há muito perdido que, de repente voltou e, junto ao som, imagens com total nitidez.

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor

E dizer quanto eu espero

Envolver-te em meus braços

Vendo o dia amanhecer

Fui adolescente típico. Daqueles que ficam trancados horas no banheiro, outro tanto frente ao espelho; também estive entre os que adoram a madrugada como refúgio seguro para viver “longe do olhar dos adultos”, que teimam em intrometer-se onde não são chamados.

Chacrinha com Wanderléa, na TV tanto quanto na rádio Globo.

Altas horas, todos recolhidos, meu irmão tendo ido para Brasília, reinava absoluto em meu quarto e, através do rádio, viajava todas as noites para o Rio de Janeiro. Ouvia o programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, via Rádio Globo AM. O famoso apresentador estava em casa, já que foi no rádio onde iniciou a carreira. Não posso precisar as horas, mas eram altas, muito altas horas. Papai acordava de madrugada e vendo a luz acesa no quarto dava-me broncas homéricas, obrigando-me a desligar o rádio e ir dormir. Habituei-me a colocar um pano para impedir a luz de atravessar pelas frestas da porta e ouvia baixinho, a música que voltou na tarde deste domingo para reavivar lembranças.

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar

Se eu perder os seus carinhos

Vou sofrer demais sozinho

E de saudade vou morrer

Desse período, ainda em Uberaba, algumas músicas permaneceram fortes na lembrança e poderia jurar que “Eu quis falar do meu amor” seria dessa época. Acontece que é uma gravação de Junho de 1973. Junho não é mês que esqueço, já que nasci no próprio e, em 1973 eu estava às voltas com o serviço militar, já distante de Uberaba, morando com meus avôs, em Campinas, no interior de São Paulo.

Se alguém me perguntasse uma música de 1973 eu diria “Goodbye, Yellow Brick Road”, de Elton John e todo o LP “Drama, 3º Ato”, gravado ao vivo por Maria Bethânia. Venho mantendo essas e muitas outras canções na memória e, de vez em quando, fico cantarolando algumas e outras; entre essas outras…

Nesse momento

Nosso romance começou

Todo esse tempo

Eu quis falar do meu amor…

Wanderléa, muito além da Jovem Guarda.

Hoje, ouvindo os primeiros acordes da canção fui mágica e rapidamente transportado no tempo, no espaço. Foi um agradabilíssimo encontro com a velha canção que não sabia mais de quem era, quem cantava, que nome tinha.  “Eu quis falar do meu amor” é de Roberto Correa e Jon Lemos e foi gravada em 1973 por Wanderléa. Essa e outras canções estão na caixa “Wanderléa Anos 70”. São seis CDs e parei no primeiro, embevecido com a canção da qual guardava fragmentos na memória. Sobre os CDs, sobre as demais canções escrevo em outro momento. Agora, por enquanto, “Eu quis falar do meu amor”…  E que amor, Wanderléa!

Eu te amo tanto

Que eu não sei como explicar

Todo esse encanto

Que vem fazer eu te adorar…

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Boa semana para todos!

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Nota: Encontrei uma reprodução no Youtube. Para conhecer a canção clique aqui.

Momento de usar a memória

Cresci ouvindo dizer que o Brasil é um país sem memória, sempre achando que este é um argumento frágil. E o tempo vem provando que essa é uma premissa falsa. Um exemplo é Wanderléa cantando “Prova de fogo” ou estrelando comercial da prefeitura de São Paulo com “Pare o casamento”, tentando parar os motoristas amalucados e apressados da cidade. As duas músicas têm no mínimo quatro décadas, já que são da primeira fase da carreira da cantora, comemorando cinqüentenário profissional neste ano (Wanderléa gravou o primeiro disco em 1962).

Outro cinqüentenário é o de Milton Nascimento. O compositor está em turnê com o show Milton Nascimento – 50 Anos de Carreira. No repertório estão clássicos do início da carreira, como “Cais” e “Travessia”, estão ao lado de outras, a maioria da década de 1970, comprovando a longevidade da memória do público quando o assunto é música de qualidade.

Além de considerar a vasta lista de eventos comemorando centenários de ícones (Jorge Amado, Luis Gonzaga, Nelson Rodrigues…) e de outros artistas como Herivelto Martins (1912 – 1992), é possível brincar com outros aspectos da memória nacional: Garrincha e Pelé são eternos ídolos, ao lado de uma galeria imensa de atletas do futebol, do automobilismo, do boxe e de outras categorias esportivas. O brasileiro também lembra heroínas, vilãs televisivas assim como os folhetins que consagraram tais criaturas. Regina Duarte, ao que tudo indica, jamais se livrará do fato de ser a “namoradinha do Brasil”.

Se a memória nacional funciona para tantos fatos, porque temos tantas dificuldades em perceber certas artimanhas políticas? Puxando pela memória é fácil comprovar que já vimos fatos como este, quando D. Dilma promete conta de luz mais barata; também já sabemos que a ética dos nossos políticos permite, por exemplo, que D. Marta apareça na TV apoiando candidato para ganhar ministério. Não é bastante sintomático que a presidenta anuncie redução do preço da energia em período de eleição? E que políticos virem amigos de outros por interesses absolutamente pessoais?

Qualquer pessoa com algumas décadas de vida fará uma considerável lista de falcatruas, promessas vãs, mentiras. Em um dos piores momentos de nossa história, um governo imposto pela força criou um slogan perverso: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Implicitamente levando nossa gente a aturar certos problemas, já que o amor, quando verdadeiro, é incondicional. As grandes decepções com nossos líderes levaram nossa gente a não gostar de política, a ter político como sinônimo de coisa ruim.

Brasileiro gosta de recordar coisas boas. A Jovem Guarda de Wanderléa, o Clube da Esquina de Milton Nascimento… As Copas do Mundo, os campeonatos de automobilismo, as interpretações memoráveis de atores e atrizes nacionais.

Recentemente, inventaram o dito que “brasileiro não desiste nunca”. Gosto de acreditar nisso. Por isso exerço meu direito de não desistir de alimentar idéias sobre políticos honestos, Partidos éticos. Se nós, brasileiros, temos dificuldades em nomear bons políticos; se não há registros em nossa memória de ótimos Partidos políticos, que pelo menos não nos esqueçamos de que é nosso o poder de escolha. E nada melhor do que a memória para conduzir nossa escolha. O melhor critério então é: o que você sabe realmente sobre o candidato que quer o seu voto? Se sua memória falhar, a Internet está aqui .

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Até mais!

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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