Sapeando na internet vi um vídeo com Wanderléa participando do novo programa do Danilo Gentili. Antes vi a campanha publicitária com a participação dela, sobre o trânsito em São Paulo. Agora, estava também na reprise do Globo de Ouro, no canal Viva. Três vezes Wanderléa que, por final, fez aniversário neste dia 5. Junho, finalmente, começou. E Wanderléa vem reforçar a lembrança de minha avó materna, que também fazia aniversário neste dia. Wanderléa, Erasmo Carlos e minha avó. Que trio!
Vovó comemorava o próprio aniversário e o de todos nós, crianças, fazendo sequilhos. Recentemente encontrei sequilhos industrializados; tive ímpetos assassinos por chamarem aquilo de sequilho. Como os feitos por minha avó só encontrei, em tempos recentes, no Estado do Maranhão. Especificamente em um simpático hotel em Imperatriz, quando de passagem para Açailândia. O café da manhã no hotel, em Imperatriz, foi com toda uma série de bolos, pães e outras preciosidades, como o sequilho, tudo feito na hora. Após o café, andando pelo centro da cidade fiquei impressionado com a quantidade de lojas vendendo vestidos típicos das festas juninas.
Quem é do norte, nordeste, vive as festas de junho com uma intensidade mil vezes maior que no sudeste. É gostoso brincar com o folclore que envolve o primeiro santo de junho, Antônio, o casamenteiro. Na véspera do dia 13 ainda há moças que acreditam nos poderes do santo para arranjar-lhes um marido. Logo depois, dia 24, vem São João, o Batista; aquele que batizou Jesus Cristo e para o qual se acende a fogueira, avisando Maria, a mãe de Cristo, sobre o nascimento do filho de Isabel.
Entre 13 e 24 de junho, outros artistas, todos bem amados: Chico Buarque, no dia 17; Maria Bethânia, Isabella Rossellini e Paul McCartney no dia 18; Jean-Paul Sartre no dia 21; Meryl Streep no dia 22. No dia 23 é o dia de Elza Soares. Só feras! Grandes feras! Juntinho com São João, no dia 24, por exemplo, nada mais, nada menos que Bob Dylan.
Junho de Sartre, Guimarães Rosa e Saint-Exupéry
Caminhando para o final do mês, as festas continuam para prestar homenagens também a São Pedro, o dono da porta do céu. Próximos dessa data, sintomaticamente, grandes figuras, acima do comportamento dos comuns: João Carlos Martins, o maestro, faz aniversário dia 25 e em seguida, 26, Gilberto Gil. Depois de Gil, dia 27, Guimarães Rosa, antecedendo Raul Seixas que é do dia 28. No próprio dia de São Pedro, lembramos Antoine de Saint-Exupéry. Finalmente, se o mês de junho começa, no dia primeiro, com a loira Marilyn Monroe, termina com a perturbadora morenice de Dira Paes, no dia 30.
É fatal voltar ao passado em Junho. Um tanto de melancolia; rever o passado, pensar naquilo que vem pela frente. É como me sinto neste mês do meu aniversário; repensando o presente, vendo o que é possível fazer no futuro. Se eu penso em artistas e santos, mais que vaidade, tem a vontade ser como eles. Tento ser legal para um dia, quem sabe, estar entre eles quando alguém, no meio da noite, escrever sobre o próprio mês de nascimento. Por enquanto, nem santo, nem artista; apenas humano. Com vontade de ser melhor. Já está de bom tamanho; ou não…
Se a moda pega… Uma decisão judicial determinou que um cidadão – pai de alguém – não deu afeto suficiente para uma cidadã – filha do tal pai – e o preço desse afeto, alicerçado em danos morais e baseado nas posses do dito pai, foi estipulado pela justiça em 415 mil, depois, pelos trâmites que só os iniciados entendem, a quantia caiu para 200 mil.
Imaginei a acareação perante o meritíssimo e, de pronto, recordei Wanderléa com o braço erguido:
“– Por favor, pare agora, sr. Juiz!” Ops! Não é por aqui; vamos voltar ao pai e a filha:
Filha – Senhor juiz, meu pai não gosta de mim!
Pai – Gosto sim.
Filha – Não gosta o suficiente!
E aí, pelos critérios mercadológicos do capitalismo, a moça justifica razões pelo pouco afeto do pai.
Filha – Não ganhei 12 pares de sapatos, não ganhei 24 bonecas, não fui 36 vezes à praia, não ganhei 48 ovos de páscoa…
O juiz certamente somou todos os valores dos referidos produtos mais roupas, material de higiene, absorventes íntimos, maquiagem, pílula e… O que mais? Ah! Material escolar e um ou dois livros daqueles de religião (formação moral cristã para ensinar o que é afeto?).
Outra forma de mensurar o afeto é, parece, pela presença. Faltou no terceiro aniversário, não presenciou a primeira palavra, nem viu quando a criança tirou a primeira catota do nariz… Se presença física é sinal de afeto, coitados dos viajantes, sempre distantes do seio familiar! Vão deixar muita grana perante os tribunais!
Surrealismo é pouco para classificar a situação; dadaísmo? Sei lá; o que é perceptível é que a justiça abre um precedente, no mínimo, interessante. Se a tal filha ganhar o processo em todas as instâncias haverá, a partir disso, jurisprudência – ou seja, outros juízes, baseados nessa sentença poderão dar ganho de causa quando houver reivindicações similares. Ou seja, toda e qualquer pessoa poderá alegar afeto insuficiente de outra e compensar isso com grana.
Namorado, noivo, marido, pai, filho, amigo, primo, empregada, vizinha, todo mundo enfim pode processar alguém por não se sentir amado o suficiente. É melhor que golpe do baú, já que nem precisa casar; melhor que golpe da barriga, já que não é necessário desmanchar o corpinho para levantar uns trocados. Do jeito que vai, logo, logo, alguém processará a vizinha por esta manter a perereca presa na gaiola… Que falta de afeto para com o próximo!
Eu gostaria de saber o que é que as pessoas estão pensando sobre isso. Cá entre nós, no Brasil não pode dar um tapinha na criança (sem eufemismo!) e já é possível colocar preço em afeto – o de pai, já sabemos, fica em 200 mil reais. Seria legal que a justiça divulgasse os critérios para essa situação. Afinal, a grande pergunta, que teima em não sair da minha cabeça, continua: como é que se mede afeto? E quanto custa um carinho, um afago?
O Brasil perdeu de uma só tacada, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Jorge Goulart, Ederaldo Gentil e Ademilde Fonseca. Muita gente boa. A Rede Globo prestou merecidas homenagens ao humorista e até resgatou – no calor da hora – o programa A Escolinha do Professor Raimundo para o horário das manhãs. Aqueles que têm boa memória irão recordar que Chico Anysio andou reclamando a falta de espaço que não lhe foi dado, nos últimos anos. Que a emissora aproveite do momento para faturar um pouco mais é inevitável; pelo menos reverencia a memória de um funcionário que deu muita audiência e dinheiro para a família Marinho.
Jornais, telejornais e revistas lembraram a obra do genial Millôr Fernandes. Ele está em uma das chamadas de capa da Revista Veja. Em todos os lugares há entrevista de familiares, publicação ou leitura de frases do humorista Millôr e, entre diferentes homenagens, os depoimentos de profissionais, parceiros de longos anos do teatrólogo que, além de textos próprios, deixou excelentes traduções de peças de Wiliam Shakespeare.
Não queria ser o mar
Me bastava a fonte
Muito menos ser a rosa
Simplesmente o espinho
Não queria ser o caminho
Porém o atalho
Muito menos ser a chuva
Apenas o orvalho…
Dos outros três artistas falecidos falaram menos. Bem menos. Jorge Goulart foi um dos reis do rádio, é um dos artistas mais cantados em todo país, compositor e cantor de um mega sucesso: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”. Também foi o primeiro a gravar “A voz do morro”. Ederaldo Gentil foi um compositor baiano, falecido neste 30 de março. Em 1975 o Brasil inteiro cantou e, ainda hoje, “O ouro e a madeira” é um dos mais belos sambas de todos os tempos; o autor do samba cujos versos estão aqui, neste post, foi Ederaldo Gentil, que foi também parceiro do célebre Batatinha,.
…Não queria ser o dia
Só a alvorada
Muito menos ser o campo
Me bastava o grão
Não queria ser a vida
Porém o momento
Muito menos ser concerto
Apenas a canção…
Ademilde Fonseca está entre um tipo de intérpretes muito peculiares. Um país do tamanho do nosso possibilita uma voz regionalíssima como a de Elba Ramalho, ou uma voz absolutamente diferenciada como a de Tetê Espindola. Ademilde é aquela da articulação primorosa, com um domínio absurdo sobre a palavra cantada.
Qual teria sido o destino de chorinhos como “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” sem as palavras cantadas primorosamente por Ademilde Fonseca? Apreciamos demais uma série de músicas instrumentais, entre elas alguns chorinhos admiráveis. Mas, “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” lembramos fácil graças ao abençoado fôlego de Ademilde. Aposto que a maioria dos que lêem este blog conhece o balanço do ritmo gostoso, eternizado por Ademilde Fonseca.
“O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico ta comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer é mais minhoca e não fubá…”
(Alberico Barreiros e Zequinha de Abreu)
“O brasileiro quando é do choro É entusiasmado quando cai no samba, Não fica abafado e é um desacato Quando chega no salão…”
(Waldir Azevedo e Pereira Costa)
Ademilde Fonseca foi a Rainha do Choro. Um ritmo entre os únicos verdadeiramente brasileiros. Sendo Ademilde uma das poucas que canta choro com propriedade, merece todas as homenagens. O cenário da música brasileira está cheio de umas “mocorongas” que balbuciam letras, com ar de enfado, simulando um distanciamento que é falso, estudado.
Uma geração abaixo de Ademilde Fonseca consegue cantar com dignidade essas canções: Wanderléa, Baby do Brasil, Maria Alcina e Gal Costa estão entre as poucas cantoras com competência para cantar chorinhos. Das novíssimas cantoras, será que tem alguma que se habilita? Mas, sem aquele arzinho “mocorongo”, olhando de soslaio e pensando que é “diva”. Bem, o bom de tudo é saber que os versos de Ederaldo permanecerão, assim como Ademilde Fonseca, que será para todo o sempre aquela que deu voz ao choro.
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Até mais!
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Notas:
1) Jorge Goulart faleceu em 17 de março. Chico Anysio faleceu em 23 de março. Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca faleceram em 27 de março. Ederaldo Gentil faleceu no dia 30.
2) “O ouro e a madeira” foi um imenso sucesso na voz do grupo “Nosso Samba”.
3) “A cabeleira do Zezé” de Roberto Faissal e João Roberto Kelly foi originalmente gravada em 1964.
4) Ademilde gravou Tico-tico no fubá em 1942. Brasileirinho foi gravado pela cantora em 1950.
O lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia celebra a carreira de uma das mais importantes cantoras da nossa história. “Oásis de Bethânia” é o título do novo trabalho, que tem na capa uma imagem do semi-árido brasileiro, em pleno sertão nordestino. Para a imprensa justificou a capa: “- Preciso lembrar que existe esse lugar no meu país. Isso me coloca do tamanho que eu sou”. Essa é a Bethânia, a mulher admirável, a mulher brasileira.
Ouvindo as dez faixas do cd, reforço a certeza de que a discografia de Maria Bethânia sintetiza toda a música do país. Não é exagero afirmar que conhecer Bethânia é conhecer nossa música. Nos discos da cantora todos os ritmos, todas as regiões, todos os maiores compositores de nossa história. De Noel Rosa a Chico Buarque, Bethânia, que lançou em disco o irmão Caetano Veloso, canta Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ari Barroso, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues, D. Ivone Lara, Joyce, Edu Lobo, Alceu Valença…
Poxa, são 50 álbuns. A lista desse Oásis de qualidade que é a carreira de Maria Bethânia cabe muito mais nomes. De Luiz Gonzaga a Gonzaguinha, tem também Djavan, Gilberto Gil, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Roberto Mendes, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Haroldo Barbosa, Moraes Moreira, Dominguinhos e, que me perdoem todos os outros, vou encerrar essa lista primária com Vinícius de Moraes e Tom Jobim.
Além dos maiores compositores brasileiros, Maria Bethânia celebrou, em seus discos, as grandes cantoras do país, sempre respeitosamente reverenciadas por ela. As duas cantoras mais presentes em seus discos são Gal Costa e Dalva de Oliveira. Com a amiga Gal, muitas gravações em dupla, com sucessos memoráveis, como “Sonho Meu”. De Dalva, Bethânia resgatou boa parte do repertório da mais notável cantora da era do rádio; inclusive no presente álbum, Dalva de Oliveira é lembrada através de “Calúnia” (Marino Pinto e Paulo Soledade).
Muitas outras cantoras estão nos discos, álbuns ou DVDs de Maria Bethânia. Nara Leão, Alcione, Miúcha, Sandra de Sá, Wanderléa, a cubana Omara Portuondo, a francesa Jeanne Moreau, Dona Ivone Lara e, entre muitas outras, Ângela Maria e a divina Elizeth Cardoso. Como fez com Dalva de Oliveira, Maria Bethânia relembrou em outros discos as canções de Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Maysa, Isaura Garcia, Elis Regina…
Minha cantora preferida é incansável. Além dos próprios discos, Bethânia produziu outras cantoras, como D. Edith do Prato e a jovem Martinália e prepara, para breve, um Songbook com oito CDs dedicados à obra de Chico Buarque. Este sempre esteve nos discos da cantora. No atual, ela gravou “O Velho Francisco” com Lenine, um dos grandes momentos do álbum. Apesar de tudo o que já gravou de Chico Buarque, Maria Bethânia quer mais. Pretende abordar todas as diferentes faces do grande compositor brasileiro.
O trabalho constante de Maria Bethânia é o que faz da “Senhora do Engenho” a menina baiana que roda a saia pelos palcos do mundo todo, com uma graça e presença inconfundíveis. Estou, propositalmente, falando pouco sobre o atual disco, pois o lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia é fato para lembrar aspectos de uma carreira brilhante, única.
Oásis é onde o caminhante do deserto mata a sede. Oásis é o lugar agradável, paradisíaco, pleno de água e sombra e conforto. O “Oásis de Bethânia” é a caatinga nordestina, o pampa gaúcho, a chapada mineira, a mata e o sertão brasileiro. A obra de Bethânia é o oásis de qualidade das nossas canções.
Maria Bethânia incomoda muita gente. Quando todo mundo engole, economiza palavras, Bethânia nos brinda com a poesia de Fernando Pessoa, Castro Alves e torna populares os densos temas de Clarice Lispector. Incomoda, porque enquanto incontáveis artistas se rendem as leis de consumo, Bethânia grava Villa Lobos, revive Catulo da Paixão Cearense, e torna populares os pontos de Oxossi, Iansã.
Enfim, se milhares de brasileiros entregam-se a uma aposentadoria precoce, vivendo apaticamente em função de um copo de cerveja, um jogo de futebol ou um ordinário programa de televisão, de outro lado, uma jovem senhora baiana, de 65 anos, nos dá claros sinais de que está longe de parar. Gravou o 50º e prepara oito novos álbuns para o próximo ano. Depois; bom, depois virão outros e mais outros e, tomara, muitos outros!
Ontem, lembramos a morte de Elis. Em post anterior recordei Nara Leão– que faz aniversário no dia em que Elis morreu – e também Maysa. Três cantoras que namoraram, em épocas distintas, o mesmo homem. Li uma matéria publicada no UOL chamando a atenção para a “rivalidade” entre Elis e Nara. Incomodou bastante a agressão ao integrante da banda Restart. Daí a reflexão!
As "rivais" que vendem discos e lotam shows
Tudo indica que é condição do ser humano querer ser o melhor. Alguns confundem melhor com “os mais bonitos”, os “mais gostosos” e por aí vai. Se a coisa caminha pelas tramas do gosto – pessoal, autônomo, ou mediante a adoção de patamares acordados por um grupo – o indivíduo precisa ter a clareza da relatividade da situação que elege o mais bonito, a mais gostosa, os mais “tudo”.
Há que se ficar alerta e não confundir o melhor com resultados circunstanciais, como a audiência de um programa de TV ou a vendagem de discos, livros ou revistas; o melhor pode ser medido, aferido, comparado, estabelecido a partir de regras precisas. Mesmo gostando de alguém – a querida Nara Leão, por exemplo – são padrões reconhecidos em todo o planeta que determinam Elis Regina como melhor cantora. Afinação, extensão vocal com domínio de graves e agudos e além de uma incapacidade incrível de, ritmicamente, dividir uma música, ou seja, colocar a frase verbal de forma peculiar dentro da melodia estão entre os itens que caracterizam Elis Regina.
Com a Bossa Nova, João Gilberto acabou com a tirania do “dó de peito”, das vozes volumosas. Um caminho onde Nara Leão reinou com absoluta tranqüilidade. E aqui cabe citar uma qualidade de Nara: a capacidade de interpretar uma canção com total suavidade e leveza. As trajetórias musicais de Elis Regina e Nara Leão são parecidas, mas distintas, pois ambas são dotadas de personalidade e caráter ímpar.
A rivalidade é uma coisa forte, intrincada, na vida de todos nós. Vamos lembrar algumas?
Começa geralmente na escola um certo Meninos X Meninas que na vida adulta resulta em Homem X mulher; passa pela rivalidade de cidades como Rio de Janeiro x São Paulo ou lá, na terrinha, Uberaba x Uberlândia. Chega aos grandes inimigos do futebol Corinthians X Palmeiras, bem local, e às eternas disputas entre Brasil X Argentina, Uruguai, Franceses, Ingleses, Italianos… Continuando em quase todos os aspectos da atividade humana.
Martinha e Wanderléa. As "rivais" da Jovem Guarda.
No campo da música há rivalidades históricas! São facilmente lembradas: Marlene X Emilinha Borba, nos tempos áureos do rádio; Nara Leão X Elis Regina na época da Bossa Nova; Wanderléa X Martinha durante a Jovem Guarda; Maria Bethânia X Elis Regina nos anos 70; Maria Bethânia (de novo!) X Simone nos anos 80…Recentemente, Sandy X Wanessa e atualmente, Ivete Sangalo X Claudia Leitte.
Psicólogos afirmam que a rivalidade entre mulheres é uma coisa velada e que entre homens é escancarada. Dois bons exemplos: Roberto Carlos e Paulo Sérgio, na Jovem Guarda, levando RC a gravar um disco, “O Inimitável”, em franca guerra contra o “rival”. Outro exemplo, em outra área, as farpas constantes no embate Pelé x Maradona.
É bom notar – fácil obter isso em pesquisa – que são revistas, jornais e similares que criam essas rivalidades e vendem absurdo com elas. Estão quentes na memória as insinuações quanto à pinimbas entre Ivete Sangalo e Claudia Leitte; as duas correm para desmentir desafetos. Ou seja, vende-se a “briga” e fatura-se um pouco mais, com a “reconciliação”.
Há, por outro lado, rivalidades verdadeiras, advindas de choque entre indivíduos de um mesmo grupo buscando impor sua maneira de ser, de criar. O mundo do Rock é rico em histórias, algumas irreconciliáveis. Pessoas que iniciaram um trabalho e que, com o conflito estabelecido, deram outro rumo às próprias carreiras. O mais clássico dos exemplos, John Lennon X McCartney e, no Brasil, Rita Lee X Arnaldo Batista. A lista poderia crescer bastante!
Lamentamos o fim dos Beatles, o rompimento entre os primeiros integrantes de Os Mutantes. Mas, é bom ressaltar que nesse tipo de conflito continuamos ganhando. Cada indivíduo, no caminho escolhido, deixou ou tem deixado um trabalho digno dos grupos onde tudo começou. Com esse tipo de rivalidade, ganhamos. Com pinimbas criadas pela imprensa, ganha o dono do jornal! Embora seja fato certa cumplicidade entre a imprensa e alguns “rivais”.
Há artistas que só aparecem quando brigam com alguém, enquanto outros artistas passam ao largo dessa história de rivalidades. Gal Costa, por exemplo, foi amiga de Elis Regina e é amiga de Maria Bethânia. Ninguém conseguiu estabelecer uma briga entre Gal e quem quer que seja. É constatável historicamente que Bethânia espetava Elis afirmando ser “Gal é a melhor cantora do Brasil”. Gal, tranquila desde sempre, canta. Longe das encrencas das colegas.
Gal Costa soube neutralizar fofoqueiros sendo amiga de Elis e de Bethânia, assim como Ivete Sangalo soube neutralizar uma possível rivalidade com Daniela Mercury, declarando-se sempre fã da colega. Uma tática infalível, que não vingou em relação à Claudia Leitte.
Hoje é reconhecida a falsa rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba nos tempos da Rádio Nacional
Verdadeiras ou falsas, as rivalidades resultam em sofrimento para aqueles que estão vivendo a situação, os próprios rivais. Gera frustração, tristeza, ciúme, inveja. No futebol, por exemplo, gera violência e morte; mas, como ficariam os programas esportivos sem esse aspecto? Complicado… Principalmente quando certos fãs confundem as coisas e resolvem jogar pedras em cantores e músicos.
É necessário que o indivíduo reconheça no artista, ou no time de futebol, as qualidades que tornam esses os melhores. Sem confundir com afeto, simpatia. Se não gostamos de um artista, basta evitá-lo. Agora, atirar pedra – Literalmente! – em um artista é, além de um crime, uma demonstração absurda de baixa auto-estima. Se for necessária violência para que reconheçam o “seu” artista como melhor, que raio de artista é esse? E que público é esse!
Um artista é bom ou ruim. Outra coisa é afeto. O que não pode é alimentar a rivalidade baixando o nível e chegando à violência. No futebol esta, em grande parte, é fruto de uma “guerra” alimentada em programas esportivos de rádio e televisão. Há que se rever os “jogos de vida e morte” para que estes não cheguem aos shows de música. Se vaias são desagradáveis; pedradas são inaceitáveis.
No próximo dia 12 será inaugurado o Teatro Grande Otelo no bairro Campos Elíseos, em São Paulo. Inserido no complexo dos padres Salesianos ( colégio, igreja e centro cultural) a nova casa presta homenagem ao ator e comediante Grande Otelo, um dos maiores artistas brasileiros.
Mineiro de Uberlândia, Grande Otelo (1915-1993) é referência de comédia no cinema nacional; em dupla com outro comediante, Oscarito, o ator fez história nos musicais e chanchadas. Grande Otelo tinha uma característica fundamental para o bom comediante: sabia rir de si mesmo. E fazendo piada com suas características pessoais, Grande Otelo tirou partido de um charme ingênuo e – a história prova – avassalador. Sim, rindo de si próprio, imprimia um jeito todo especial de seduzir; dava certo.
Não há grande atriz ou vedete – aquelas mulheres gostosas do Teatro de Revista, ou Teatro Rebolado – que não tenham feito um número com Grande Otelo. Também as melhores cantoras dividiram o palco com o artista. De Carmen Miranda e Elizeth Cardoso passando por Ângela Maria, Gal Costa e Wanderléa.
O clássico dos clássicos de Grande Otelo foi Boneca de Piche. Sabe-se lá como seria isso hoje, nos tempos de um duvidoso politicamente correto. Fico imaginando as reações dos proibidores de plantão se Otelo, ainda vivo, subisse em um palco, com alguma parceira da hora, para interpretar essa criação de Ary Barroso e Luiz Iglésias. Para lembrar Boneca de Piche, vejam o artista com Betty Faria:
Sem abandonar as comédias, Grande Otelo estraçalhou em filmes e novelas. Destas recordo uma, ele atuando com Marília Pêra, cumprimentando-a com sotaque italiano em “Uma Rosa Com Amor”. Grande Otelo podia tudo. De italiano do Bexiga a Macunaíma, passando por um sambista em cena histórica no filme “Rio, Zona Norte” quando, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o ator mineiro interpreta um sambista que mostra, emocionado, uma criação pessoal para a grande Ângela Maria. A música é “Malvadeza Durão”, um senhor samba de Zé Keti. Vale a pena ver e rever.
De todos os momentos de Grande Otelo, registrados em vídeo e disponíveis no Youtube, não dá pra deixar de fora o encontro do mestre com Gal Costa. Era o ano de 1981 e, idade avançada, o ator já não tinha a mesma voz, mas mantinha-se afinado e resolvia tudo com graça e malandragem. Ao lado da extraordinária cantora, esbanja sedução. E Gal, com toda a sensualidade que sempre marcou sua carreira ataca, brejeira, faceira, evidenciando a plenitude da mulher brasileira, devolvendo charme e sedução ao parceiro. Um momento histórico.
São Paulo vai homenagear Grande Otelo. Deixo, abaixo, a programação de inauguração do teatro. Tomara venha, em breve, uma exposição, uma ampla mostra da carreira desse ator que merece sempre ser lembrado e reverenciado.