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A solução de todos os problemas estava bem ali, próxima da Rua Domingos de Moraes.  Estava escrito em verde, todas as letras em verde, deixando o papel esverdeado de esperança. A sensitiva resolveria tudo. E lá fui com Vanilda, a tatuada, buscar resolver a vida da minha amiga. Sempre é bom lembrar que Vanilda é companheira de longa data; portadora de cinco tatuagens, apaixonada por música brasileira e por um bom trago, quando em boa companhia. Vanilda era presença constante nos meus escritos passados. Pediu-me que parasse.

– Odeio fama, Vavá!

Veio pedir-me companhia na consulta com a tal sensitiva. Concordei; desde que pudesse contar a história. Ela soltou palavrões, palavrões e mais palavrões… Tomamos rumo da Vila Mariana, eu insistindo para que ela me dissesse as razões da consulta.

– Estou com problemas financeiros, Vavá!

– A Dilma vetou um monte de coisas das diretrizes orçamentárias do país.

Vanilda lançou um olhar fulminante, desses que transmitem insultos, ignorando minha observação, continuando a dizer as razões em buscar ajuda espiritual.

– Meu namorado não aparece, minha mãe aparece sempre pra me encher, no meu trabalho tem uma “zinha”, mais infeliz que eu, me botando olho gordo.

– Como você sabe que a outra te coloca olho gordo, Vanilda?

– A gente sente, ora essa!

– Se sente, para que ir até a sensitiva?

Palavrões, insultos verbalizados, ameaças, chantagens e um “pelo amor de Deus, eu só quero a sua companhia silenciosa” e repetiu a expressão silenciosa, acentuando cada sílaba. Amuado, calei a boca e voltei a ler o papelzinho, peça eficiente; Vanilda era a comprovação da eficácia publicitária. Vinte reais a consulta.

– Vinte reais? Vanilda, isso não é muito popular?

– Você disse bem, me chamo Vanilda. Não sou Elizabeth, aquela de Windsor, rainha e partner do agente 007.  Você não prometeu que ficaria calado?

Eu não havia prometido. Estava sendo constrangido. E assim chegamos a um velho casarão em uma travessa da Rua Domingos de Morais. Estava caindo aos pedaços, sendo este um sinal evidente da ineficácia da sensitiva. Pensei em argumentar sobre a incapacidade da guru em resolver os próprios problemas financeiros; olhando para minha amiga, vi que estava tensa e só me manifestei quando ela balbuciou:

– O que é que eu estou fazendo aqui?

– Por problemas financeiros, seu namorado não aparece, sua mãe que aparece toda hora e para afastar a zinha do olho gordo!

– E amigo filho da mãe que fica me zoneando. Sabia que ela cura impotência?

Vanilda soltou o impropério justamente quando atravessávamos o portão, entrando direto em um espaço cheio de cadeiras ocupadas pelos clientes da sensitiva. Todos os olhares avaliaram o “impotente” que, para garantir a potência, mandou a amiga para aqueles lugares que o baixo calão permite, virando as costas e deixando-a sozinha, entre olhares curiosos. Uma senhorinha, empertigada e altiva, chamou a atenção de Vanilda.

– Isto não se faz. Vá pedir desculpas! Ande!

O “ande” foi tão alto e tão decisivo, que Vanilda correu e puxou-me pela mão, rindo.

– Vavá, volte ou a velhinha vai me bater!

– Você gosta de apanhar que eu sei!

– Nem bêbada! Vamos parar com isso, por favor. Viemos resolver problemas, não aumentá-los.

– Viemos, cara pálida? Você não namora, não tem grana, não se livra da mãe, nem da zinha do olho gordo! Viemos?

A frase foi pequena vingança pelo recente impotente. Já estávamos de volta ao lar da “poderosa vidente das águas místicas”, e assim todos souberam os motivos que levaram Vanilda a consulta. A senhorinha empertigada solidarizou-se com minha amiga:

– Eu também estou sem namorado, minha filha. Vim consultar através dos búzios africanos. Eles irão indicar-me o que fazer para acabar com a solidão.

Um senhor, desse tipo bem bonachão, gordinho simpático, mostrou cumplicidade.

– Devo tanto, minha filha! Tenho tanta conta pra pagar! A sensitiva prometeu orientação para que eu resolva tudo. Estamos fazendo um trabalho.

– Quanto ela cobrou? Perguntei, sob olhar de censura de Vanilda, acompanhado de um beliscão.

– Sou marceneiro; estou pagando com pequenos trabalhos na cozinha e no banheiro aqui da casa.

Uma moça daquele tipo gostosona, 90cm daqui, 110cm ali no meio, tudo muito evidente por roupas justas, curtas, decotadas, entrou na conversa:

– Inveja é triste, não é? Olha, estou fazendo os banhos indicados pelo guia. Minhas colegas de firma não se agüentam, é pura inveja. A senhora fez muito bem em vir buscar proteção.

A moça aproximou-se, sentando ao meu lado e encostando a coxa generosa em minhas pernas. Vanilda arrepiou! Ciúmes sempre foi um grande problema para minha amiga!

– Querida, não carece testar a potência dele. Falei na hora da raiva. Cai fora!

A senhorinha empertigada voltou a exercitar a solidariedade à Vanilda:

– Isso, minha filha, muito bem. Por conta de uma piranha assim que fiquei sozinha.

A citação do peixe carnívoro provocou enorme bate-boca. Vanilda e a senhoria versus a jovem gostosona. O bafafá só não foi longe por conta da interferência da própria sensitiva, a vidente das águas místicas. Vestida de cigana da Rua 25 de Março, ou seja, saia e blusa estampadas de chita, bijuterias ordinárias e pintura exagerada, exigiu silêncio absoluto sob pena de não atender ninguém. Os presentes, certamente sofrendo com as próprias necessidades, calaram-se totalmente. Muitos e muitos minutos correram até que Vanilda fosse atendida.

O tempo passando e eu matutando sobre meu carma em pagar micos em nome da amizade. Vinte minutos de consulta e percebi vozes alteradas; aliás, a voz de Vanilda alterada.

– Não vou fazer chapinha de jeito nenhum!

A voz da minha amiga soou mais alta;

– Não vou morar com minha mãe!

Por fim, gritando, minha amiga saiu da sala, repetindo a última frase:

– Nem morta eu tiro minhas tatuagens! Nem morta! Vavá! Tire-me daqui! Leve-me para longe dessa caloteira!

Levantei para acompanhá-la quando a sensitiva nos alcançou, com voz que era puro ódio:

– Vai sair sem pagar, senhora? Quem é a caloteira aqui!

Vanilda soltou, sem respirar, dezessete palavrões. Somou pragas, desafiou os guias da outra e, pagando, saiu pisando duro, ignorando a bela tarde ensolarada da Vila Mariana. Conhecendo minha amiga, esperei que ela me dissesse a razão da tempestade.

– Vavá, para resolver problemas financeiros, eu devo morar com minha mãe; ou seja, transferir as dívidas para minha pobre mãe. A zinha do olho gordo tem inveja dos meus cabelos anelados, sabia disso? Portanto, para acabar com isso devo fazer chapinha. Que sensitiva é essa?

Eu já não segurava o riso. E Vanilda completou:

– E só terei meu namorado de volta após procurar um cirurgião plástico e tirar minhas tatuagens. Olha só, que vidente de meia tigela! E soltou palavrões, muitos palavrões enquanto ríamos muito. A vidente deveria ter perguntado a profissão do namorado de Vanilda. O gajo é o autor das cinco tatuagens ostentadas pela moça.

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Boa semana para todos!

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