São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.

A sensitiva da Vila Mariana

A solução de todos os problemas estava bem ali, próxima da Rua Domingos de Moraes.  Estava escrito em verde, todas as letras em verde, deixando o papel esverdeado de esperança. A sensitiva resolveria tudo. E lá fui com Vanilda, a tatuada, buscar resolver a vida da minha amiga. Sempre é bom lembrar que Vanilda é companheira de longa data; portadora de cinco tatuagens, apaixonada por música brasileira e por um bom trago, quando em boa companhia. Vanilda era presença constante nos meus escritos passados. Pediu-me que parasse.

– Odeio fama, Vavá!

Veio pedir-me companhia na consulta com a tal sensitiva. Concordei; desde que pudesse contar a história. Ela soltou palavrões, palavrões e mais palavrões… Tomamos rumo da Vila Mariana, eu insistindo para que ela me dissesse as razões da consulta.

– Estou com problemas financeiros, Vavá!

– A Dilma vetou um monte de coisas das diretrizes orçamentárias do país.

Vanilda lançou um olhar fulminante, desses que transmitem insultos, ignorando minha observação, continuando a dizer as razões em buscar ajuda espiritual.

– Meu namorado não aparece, minha mãe aparece sempre pra me encher, no meu trabalho tem uma “zinha”, mais infeliz que eu, me botando olho gordo.

– Como você sabe que a outra te coloca olho gordo, Vanilda?

– A gente sente, ora essa!

– Se sente, para que ir até a sensitiva?

Palavrões, insultos verbalizados, ameaças, chantagens e um “pelo amor de Deus, eu só quero a sua companhia silenciosa” e repetiu a expressão silenciosa, acentuando cada sílaba. Amuado, calei a boca e voltei a ler o papelzinho, peça eficiente; Vanilda era a comprovação da eficácia publicitária. Vinte reais a consulta.

– Vinte reais? Vanilda, isso não é muito popular?

– Você disse bem, me chamo Vanilda. Não sou Elizabeth, aquela de Windsor, rainha e partner do agente 007.  Você não prometeu que ficaria calado?

Eu não havia prometido. Estava sendo constrangido. E assim chegamos a um velho casarão em uma travessa da Rua Domingos de Morais. Estava caindo aos pedaços, sendo este um sinal evidente da ineficácia da sensitiva. Pensei em argumentar sobre a incapacidade da guru em resolver os próprios problemas financeiros; olhando para minha amiga, vi que estava tensa e só me manifestei quando ela balbuciou:

– O que é que eu estou fazendo aqui?

– Por problemas financeiros, seu namorado não aparece, sua mãe que aparece toda hora e para afastar a zinha do olho gordo!

– E amigo filho da mãe que fica me zoneando. Sabia que ela cura impotência?

Vanilda soltou o impropério justamente quando atravessávamos o portão, entrando direto em um espaço cheio de cadeiras ocupadas pelos clientes da sensitiva. Todos os olhares avaliaram o “impotente” que, para garantir a potência, mandou a amiga para aqueles lugares que o baixo calão permite, virando as costas e deixando-a sozinha, entre olhares curiosos. Uma senhorinha, empertigada e altiva, chamou a atenção de Vanilda.

– Isto não se faz. Vá pedir desculpas! Ande!

O “ande” foi tão alto e tão decisivo, que Vanilda correu e puxou-me pela mão, rindo.

– Vavá, volte ou a velhinha vai me bater!

– Você gosta de apanhar que eu sei!

– Nem bêbada! Vamos parar com isso, por favor. Viemos resolver problemas, não aumentá-los.

– Viemos, cara pálida? Você não namora, não tem grana, não se livra da mãe, nem da zinha do olho gordo! Viemos?

A frase foi pequena vingança pelo recente impotente. Já estávamos de volta ao lar da “poderosa vidente das águas místicas”, e assim todos souberam os motivos que levaram Vanilda a consulta. A senhorinha empertigada solidarizou-se com minha amiga:

– Eu também estou sem namorado, minha filha. Vim consultar através dos búzios africanos. Eles irão indicar-me o que fazer para acabar com a solidão.

Um senhor, desse tipo bem bonachão, gordinho simpático, mostrou cumplicidade.

– Devo tanto, minha filha! Tenho tanta conta pra pagar! A sensitiva prometeu orientação para que eu resolva tudo. Estamos fazendo um trabalho.

– Quanto ela cobrou? Perguntei, sob olhar de censura de Vanilda, acompanhado de um beliscão.

– Sou marceneiro; estou pagando com pequenos trabalhos na cozinha e no banheiro aqui da casa.

Uma moça daquele tipo gostosona, 90cm daqui, 110cm ali no meio, tudo muito evidente por roupas justas, curtas, decotadas, entrou na conversa:

– Inveja é triste, não é? Olha, estou fazendo os banhos indicados pelo guia. Minhas colegas de firma não se agüentam, é pura inveja. A senhora fez muito bem em vir buscar proteção.

A moça aproximou-se, sentando ao meu lado e encostando a coxa generosa em minhas pernas. Vanilda arrepiou! Ciúmes sempre foi um grande problema para minha amiga!

– Querida, não carece testar a potência dele. Falei na hora da raiva. Cai fora!

A senhorinha empertigada voltou a exercitar a solidariedade à Vanilda:

– Isso, minha filha, muito bem. Por conta de uma piranha assim que fiquei sozinha.

A citação do peixe carnívoro provocou enorme bate-boca. Vanilda e a senhoria versus a jovem gostosona. O bafafá só não foi longe por conta da interferência da própria sensitiva, a vidente das águas místicas. Vestida de cigana da Rua 25 de Março, ou seja, saia e blusa estampadas de chita, bijuterias ordinárias e pintura exagerada, exigiu silêncio absoluto sob pena de não atender ninguém. Os presentes, certamente sofrendo com as próprias necessidades, calaram-se totalmente. Muitos e muitos minutos correram até que Vanilda fosse atendida.

O tempo passando e eu matutando sobre meu carma em pagar micos em nome da amizade. Vinte minutos de consulta e percebi vozes alteradas; aliás, a voz de Vanilda alterada.

– Não vou fazer chapinha de jeito nenhum!

A voz da minha amiga soou mais alta;

– Não vou morar com minha mãe!

Por fim, gritando, minha amiga saiu da sala, repetindo a última frase:

– Nem morta eu tiro minhas tatuagens! Nem morta! Vavá! Tire-me daqui! Leve-me para longe dessa caloteira!

Levantei para acompanhá-la quando a sensitiva nos alcançou, com voz que era puro ódio:

– Vai sair sem pagar, senhora? Quem é a caloteira aqui!

Vanilda soltou, sem respirar, dezessete palavrões. Somou pragas, desafiou os guias da outra e, pagando, saiu pisando duro, ignorando a bela tarde ensolarada da Vila Mariana. Conhecendo minha amiga, esperei que ela me dissesse a razão da tempestade.

– Vavá, para resolver problemas financeiros, eu devo morar com minha mãe; ou seja, transferir as dívidas para minha pobre mãe. A zinha do olho gordo tem inveja dos meus cabelos anelados, sabia disso? Portanto, para acabar com isso devo fazer chapinha. Que sensitiva é essa?

Eu já não segurava o riso. E Vanilda completou:

– E só terei meu namorado de volta após procurar um cirurgião plástico e tirar minhas tatuagens. Olha só, que vidente de meia tigela! E soltou palavrões, muitos palavrões enquanto ríamos muito. A vidente deveria ter perguntado a profissão do namorado de Vanilda. O gajo é o autor das cinco tatuagens ostentadas pela moça.

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Boa semana para todos!

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São Paulo de bicicleta

A bicicleta oferecida aos alunos dos CEUs de São Paulo

Em breve poderemos ter muitos novos ciclistas pelas ruas da cidade. Soube da novidade através de Carlos Vitor, meu aluno, que será um dos monitores que formarão crianças ciclistas na cidade de São Paulo.  Os professores ensinarão crianças a andar de bicicleta e, além de equilíbrio e pedaladas, serão dadas aulas sobre normas de trânsito e manutenção das próprias bicicletas. O melhor de tudo, em minha opinião, é que cada turma formará um comboio, acompanhada pelo monitor, percorrendo o trajeto de casa até a escola.

O projeto municipal será implantado em todos os CEUs, os Centros de Educação Unificada. No final de 2012 cada um, dos 45 CEUs tem como meta formar 100 alunos, totalizando 4500 novos ciclistas pela cidade. O projeto tem o que há de inovador em termos de educação, cidadania e sustentabilidade; as bicicletas serão de bambu e cada comboio terá uma ciclo-rota, definida e comunicada à população local, facilitando a segurança dos pequenos ciclistas, devidamente uniformizados e, portanto, facilmente identificados.

É um orgulho para nossa São Paulo: a primeira cidade a ter uma escola desse gênero. Baseado em experiência dinamarquesa – de lá veio o especialista em mobilidade urbana Mikael Colville-Andersen, o formato da escola paulistana é mundialmente inédito. Andersen é o autor da proposta “Copenhagenize”  “para inspirar as cidades de todo o mundo a se tornarem amigas dos ciclistas, como é a capital da Dinamarca, onde 37% da população (500 mil pessoas) usa a bicicleta como meio de transporte todos os dias” (clique aqui para ver matéria sobre o assunto). São Paulo começa com milhares de crianças e, tomara que a moda pegue, teremos uma cidade mais humana, mais limpa.

Eu adoraria ir e voltar de bicicleta para o trabalho. Como saio por volta das 23h da universidade, tenho medo. A segurança da cidade precisa melhorar para que possamos trafegar sem comboio. O respeito ao trânsito também. Venho na contramão da maioria dos meus alunos e assim, vou adiando meu retorno ao simpático veículo, pelo qual sou apaixonado desde criança.

Papai tinha uma bicicleta antiga, adquirida de vendedores de peixe da cidade de Santos. Era quase toda de ferro e acompanhou meu pai muito antes de eu nascer, permanecendo em nossa família até há pouco tempo. De bicicleta fui, incontáveis vezes, para os arredores da cidade de Uberaba. Na minha adolescência, Amoroso Costa era um bairro distante – o nome via de um posto de parada da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro; ia até lá e gostava de ir além, em um local que chamávamos Rodolfo Paixão. A estrada era de terra e nesse local havia um cruzamento que, hoje, é a Avenida Nossa Senhora do Desterro, bastante urbanizada.

Fafá, amiga de sempre, foi minha companheira de algumas aventuras com nossas bicicletas. Saíamos passeando pela região e, por algumas vezes, abandonamos as estradas em aventura doida, pedalando sobre capim, descendo pirambeiras e atravessando córregos. Inventamos qualquer coisa que hoje denominam esporte radical, bike não sei das quantas. Nós apenas nos divertíamos. As cicatrizes em nossas pernas eram as testemunhas das viagens juvenis.

Já em São Paulo, início dos anos 80 e morando na Vila Mariana, gostava de pedalar saindo da Rua Dona Júlia, onde ficava minha casa e ia até o final da Avenida Paulista. De lá, voltava, passava pela Vila Mariana indo até ao Jabaquara. Tudo isso de madrugada. Era delicioso e um passeio e tanto no verão sempre quente. Depois, a violência foi aumentando e o receio do perigo levou-me a abandonar o hábito.

Carlos Vitor: Know-how até para pilotar carrinho de supermercado

Penso em voltar a pedalar. Disse ao Carlos Vitor, na boa, que fiquei com inveja do maravilhoso emprego que ele conseguiu. E estou torcendo muito para que tudo dê certo. Quero que São Paulo seja a Copenhagen sul-americana. Espero que todo o país imite a cidade, criando seus próprios projetos, pensando em escolas de bicicleta que atendam aos hábitos e à geografia locais. Cidadãos saudáveis, diminuição de poluentes e melhoria no trânsito. Lamento que alguns, nesta segunda-feira, lerão este post após um congestionamentozinho básico antes de chegarem ao trabalho. Mais um bom motivo para aderir, divulgar e aplaudir esta idéia.

Boa semana!

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