Tags

, , , , , , ,

burocracialu

Deus criou o mundo e o demônio criou a burocracia. Nenhuma novidade na afirmativa; todavia, deixar a burocracia em paz é compactuar com a estupidez humana. Segue, então, uma cornetada nos burocratas tupiniquins.

Carro estacionado indevidamente é guinchado pela CET, a Companhia de Engenharia de Tráfego. Ok! Cumpra-se a lei, mas… Como resgatar um carro?

Dirija-se ao Detran – no caso em questão, o que está ao lado da Estação Armênia; no prédio as informações são fornecidas por funcionários, estrategicamente sofrendo em pé, em áreas que dão acesso aos diferentes setores. A primeira informante nos indica um local onde há uma fila. Em quinze minutos fomos atendidos. A moça simpática, sorriso largo, limita-se a dizer: – Não é aqui, é no primeiro andar. O que são quinze minutos?

Sem escadas rolantes, sem placas sinalizadoras iniciamos uma peregrinação pelo primeiro andar. A segunda informante nada sabia; pediu ajuda para uma colega, também muito sorridente: – Não é aqui, senhores, é no térreo! Achamos melhor desobedecer e tentar outras portas, outros informantes e, enfim, a primeira vitória: encontramos o local e a segunda fila.

O atendente era baixinho, calvo, com uma expressão de total aversão aos seres humanos e maior ainda ao diálogo. Econômico ao extremo, limitava-se a frases lacônicas: “- falta o recibo”, “- precisa o comprovante”, “- não é neste guichê”. Sem olhar para as pessoas, cumprimentava-as com um “- Os documentos!”, às vezes com um olhar de ódio quando o cidadão demorava em apresentar o solicitado. Se o indivíduo tinha dúvidas o atendente, sem alteração, apontava uma lista com um indicador gordo e peludo: “- São esses!” Qualquer argumentação dos que buscavam resgatar carros era derrubada sempre com a mesma frase, pronunciada no mesmo tom.

“- Falta o recibo do carro”, foi o que nos disse, já chamando o próximo da fila. Saímos para buscar o tal papel, amaldiçoando o fato de alguém querer pagar uma taxa, uma multa, mas para receber o sistema quer mais um papel.

Meia hora depois (Benditas motos!) voltamos. O mesmo atendente não esboçou o menor sinal de já nos ter visto em algum momento. Calculou os débitos, apresentou uma declaração para que tomássemos ciência do que estávamos fazendo e sentenciou meu amigo: “- Vá ao banco, pague, faça um xerox do comprovante, dos recibos, do documento do carro, do RG e retorne aqui.”

Banco no Detran só o do Brasil. Não entendo ainda os bancos não aceitarem debitar a partir de cartões de outras instituições. Sem a grana total, sem caixas eletrônicos de outros bancos, saímos visitando os Armênios, procurando uma agência e, após esta, uma copiadora, já que no Detran não há como fazer cópias xerográficas.

A fila agora esta maior, bem maior; a demora ainda aumentou quando um sujeito (veja minha indisposição, já não o denomino cidadão!) resolveu contestar uma multa. Impossível descrever com precisão o absurdo da cena; o sujeitinho descabelando-se, nervoso, prestes a partir para as vias de fato e o servidor baixinho e careca retrucando sempre com a mesma frase: “- Pagou a multa? Mostre o recibo.” Do outro lado o homem falava, gesticulava, desesperava-se e o baixinho, impávido: “- Pagou a multa? Mostre o recibo.”

Para quase alívio dos enfileirados o multado foi embora; quase, pois quando todos sonhavam um passinho a frente,surge uma senhora imensa, ostentando uma barriga grávida com o garbo de um carro alegórico. Cheia dos direitos da maternidade, fez-nos esperar outro tanto. O motoboy, com as mãos cheias de documentos rosnou a piada de gosto duvidoso que, amenizando, transcrevo assim : “- Ela transa e a gente se ferra!”. A jovem mãe, digna, ignorou.

Tudo pago e copiado, deixamos as cópias e recebemos um quarto papel, carimbado e assinado, com o dedo gordo e peludo indicando-nos outro local (- OUTRO LOCAL!) onde retirar o carro. Próximo da Ponte Aricanduva, quinze ou vinte quilômetros além.

Outro local, outro guichê e o papel carimbado e assinado não é suficiente. Outra moça, com expressão indiferente, solicitou todos os documentos. Outra vez? Ela pegou a papelada e virou-se para fazer mais cópias (O governo deve ter um acordo com a Xérox!). O Brasil é grande, então dá para construir duas imensas salas em locais diferentes para armazenar cópias da mesma coisa.

Acabou? Vamos pegar o carro? Ainda não. Deus do céu, não terminou! A moça apresenta mais um papel, amarelo, com um sorriso sádico: a notificação da multa para o motorista infrator que chegará na residência do mesmo.

As soluções são tão óbvias! Certamente toda a jornada – seis horas e meia – é castigo aos infratores. O demônio presente através da simpatia profissional de cada atendente. Passei horas pensando em agilidade, rapidez, bom senso e quando cheguei em casa, noite avançada após aulas noturnas, encontrei o bairro todo apagado. A pobre síndica sendo pressionada por um morador do décimo andar, tomava ares do atendente baixinho, calvo, repetindo sempre a mesma frase: “- A Eletropaulo não tem previsão de horário.” Entrei no apartamento em penumbra e tive a impressão de ver um semblante sorridente, olhando-me com ares de vitorioso. Era o demônio da burocracia, também imperando na noite de São Paulo.

.

Bom feriado para todos!

.