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Imagine que alguém te tira da tua casa e te coloca dezesseis quilômetros além. Por exemplo, seria como se me tirassem da Bela Vista, aqui em São Paulo, e me levassem para morar em Artur Alvim, na Zona Leste. Esses dezesseis quilômetros são a distância média entre o Maracanã e Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

O velho prédio e, ao fundo, parte do Maracanã

O velho prédio e, ao fundo, parte do Maracanã

(Veja outras fotos do local clicando aqui.)

Na capital fluminense estão desalojando os índios da chamada aldeia maracanã e colocando-os, provisoriamente, em contêineres (grifo meu), em algum lugar de Jacarepaguá.  A recepção no tal local não poderia ser das melhores:  “Os índios chegaram por volta das 11h. Uma hora depois uma forte chuva alagou o local. Usando rodos, eles tentavam retirar a água acumulada.” (Veja notícia completa aqui)

Coloco-me no lugar dessa gente e sinto o quanto seria ruim ficar distante de vizinhos, amigos, de todo um ambiente ao qual estou acostumado, tendo aqui adquirido inúmeros hábitos. E tudo por tramoias financeiras, especulação imobiliária e, o que é pior, pode ser um mero capricho de alguém. A Aldeia Maracanã (antigo Museu do Índio) cede lugar aos interesses em relação à Copa do Mundo. Fala-se em área de mobilidade exigida pela FIFA e na construção de um Museu Olímpico.

Seria muita ironia demolir um museu para construir outro. Para ser um museu olímpico careceríamos de maiores vitórias no certame que justificassem tal construção. E nem penso que seja o local ideal para um “Museu da Copa” pelo simples fato de que não se constroem monumentos para lembrar derrotas; afinal, sem mágoas, mas foi no Maracanã que perdemos a primeira Copa em terras tupiniquins.

“Área de mobilidade” é uma expressão bem mais interessante junto aos especuladores imobiliários. Mobilidade, no Rio de Janeiro, é um problema tão antigo quanto a famosa Avenida Brasil, que dá acesso à cidade com rara facilidade de trânsito aos que nela trafegam. Portanto, ter um espaço junto ao famoso estádio acrescido de “área de mobilidade” torna muito mais caro qualquer imóvel da região.

Pessoas mais cordatas dirão que é um caso para a justiça. No nosso país a justiça facilita muito a vida de quem tem poder, de quem tem dinheiro. De todas as ironias, a mais cruel é tratar índios como invasores, já que eles tomaram posse do local. Historicamente invadimos esta terra, matamos milhares de índios, escravizamos outro tanto, empurramos muitos para mata adentro e como somos bonzinhos, cristãos, criamos posteriormente a FUNAI para defender os interesses dessa gente. Agora, por conta da Copa do Mundo, qual o problema em desalojar algumas famílias e colocá-las em contêineres? O que são dezesseis quilômetros se considerarmos 513 anos de massacres?

Não sou militante das causas indígenas. Sou um cidadão brasileiro instalado em apartamento próprio, espaçoso e arejado. Penso no barulho da chuva caindo sobre um contêiner de zinco, tanto quanto receio o famoso sol carioca beirando aos 40 graus e, como é outono, posso esperar madrugadas geladas no terreno lamacento de Jacarepaguá. Isso é parte do meu triste Brasil.

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Uma semana de paz para todos.

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