Pequeno Memorial para o Doutor Fernando de Melo

em

Estou escrevendo porque alguém consertou o meu braço. Uma queda e um cotovelo esfacelado. Pronto atendimento, procedimentos iniciais e a cirurgia marcada. Seria algo para, no máximo, uma hora. Dado à gravidade do problema foram mais de três. Uma semana após a cirurgia, já no consultório, o médico não conseguiu disfarçar a ansiedade: – Você consegue mover os dedos? Mexa os dedos. Observando, concluiu: – Graças a Deus. Deu certo, disse-me o Doutor Fernando de Melo.

Hoje fui surpreendido com a notícia do falecimento do ortopedista, Doutor Fernando de Melo, ocorrido no último dia 06 de setembro. Mais um acontecimento neste triste 2020. Enquanto conversava sobre o ocorrido, não deixei de pensar na ironia de um mundo com imensas possibilidades de comunicação. Não pude dar adeus ao meu amigo, pois foi assim que nosso relacionamento se desenvolveu e cresceu em mais de 10 anos de convivência.

O Doutor Fernando era um sujeito expansivo, alegre, extrovertido. Invariavelmente levantava-se de sua mesa, no consultório, para vir alegremente buscar o paciente da próxima consulta. Nesse ínterim, saudava os demais, brincava com os colegas, tomava um café. Éramos recebidos com alegria e sem nenhuma pressa. Isso implicava em atrasos, mas quem iria reclamar por saber que o médico estava interessado em tratar-nos como indivíduos, como amigos, não como mais um paciente. Creio que todos são gratos por esse tratamento, por esse comportamento afetivo, profundo, interessado.

Dentro do consultório a primeira pergunta: – O que você me conta? E eu, chegado a uma boa conversa, falava de viagens, de teatro, da família… trocávamos informações e colocávamos a conversa em dia, antes de outra pergunta: – O que está acontecendo, por que você veio aqui? Seguia-se um atendimento atento, detalhado. E ao longo dos anos ele cuidou dos meus joelhos, da coluna, do braço quebrado. Este foi o mais trabalhoso!

– Vou conversar com as meninas para que elas não peguem leve com você. Precisa trabalhar, cara! Você está novo. Toma aí, mais dez sessões de fisioterapia. Volta depois e pode ter certeza que vai receber mais. Temos muito o que fazer para consertar esse braço – disse-me ao longo de meses. As meninas eram as fisioterapeutas do CAP – A Clínica Dr. Alberto Pastore. No meu caso, a menina, Claudia Collado. Eu fazia estrepolias ao acertar sessões para ser atendido por ela. – Um anjo, dizia ele. Acho que ela está te mimando demais. Precisa pegar pesado!

Doutor humano, um dia me falou da doença, do tratamento, de como as coisas estavam. Mantinha uma postura positiva, elogiava os colegas dos quais, naqueles momentos, havia se tornado paciente. – Vou conviver com isso. Ficar atento. Seguir em frente. A gente tem que se cuidar.

A doença voltou, traiçoeira, fatal. Guardarei todas as lembranças desse médico, com muito carinho, com toda a minha gratidão. Em um de nossos últimos encontros presenciais (agora tem essa expressão entre amigos) eu estava com duas, das minhas três irmãs. Ele nos recebeu com o sorriso largo e sincero de sempre, o jeito brincalhão que fez minhas irmãs elogiarem e perceberem o ser humano integro, sem deixar a simpatia de lado, contando a elas: – Vocês não imaginam como ele ficou! Os ossinhos todos quebrados! Tiramos e montamos em cima de uma mesa, como quebra-cabeça. Depois colocamos no lugar. E já tirou os parafusos! Virando-se para mim, já escrevi neste blog, ele concluiu, sobre os tais parafusos: “– Vai no hospital! Pega! Faça um chaveiro! São seus. Significam o quanto você está melhor”.

Para o Doutor Fernando de Melo fiquei devendo um almoço, feito por mim, com o braço consertado por ele. Veio a pandemia e não cumpri minha promessa. Mais que uma refeição, expresso minha gratidão eterna por estar aqui, com meu braço direito funcionando direitinho, como ele previu.

Aos familiares meus profundos sentimentos de pesar e consternação. Todas as homenagens são pequenas para esse grande médico. Que Deus o receba e que ele possa seguir além, feliz e sorridente, amigo como sempre foi.

3 comentários Adicione o seu

  1. Walcenis disse:

    As nossas orações para esse grande ser humano MEDICO. Descanse em paz!

  2. Ronaldo Pedro disse:

    Convivi com Dr. Fernando por 12 anos, grande sujeito. Me ajudou numa operação que precisei para um parente que aguardava há meses e ele resolveu. Que Deus o tenha

  3. Essa é mais uma notícia triste, muito triste, que se agrega neste ano de impensadas e irrecuperáveis perdas. À familia, meus sentimentos. Ao doutor Fernando, meu respeito e profunda admiração.

Deixe uma resposta para Simone Gonzalez Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s