A ilusão da permanência

Encontrando velhos conhecidos são comuns as expressões “você continua o mesmo!”, “Você não mudou nada!” ou similares. Parece-me que a maioria espera que concordemos, que retribuamos com um “você também”. Não é incomum um tom de ressentimento ao afirmarmos que “fulano mudou demais”, “beltrana não é a mesma de antes”. Essas constatações carregam um tom de traição, um sentimento de derrota: “Envelheceu, né!”.

Para com as pessoas públicas costumamos exigir maior permanência. Maria Bethânia diminuiu em muito as corridinhas pelo palco. Ganhou elegância no andar e no gracioso gesto com que reverencia e agradece ao público. Há quem cobre dela os motivos dos fios brancos! Wanderléa, sempre linda, teima em evitar as “provas de fogo” e os “pare o casamento”, cantando Sueli Costa ou gravando chorinhos, o trabalho atual. Os viúvos da Jovem Guarda saem desolados do show. “Wanderléa mudou muito”! É melhor o show de Roberto Carlos, onde “Emoções” não faltarão.

Estranhamento nacional, a postura política da ex-namoradinha do Brasil revelou uma pessoa bem esquisita, traição brutal às personagens meigas e carinhosas de tantas novelas. Ela mantém a postura, o jeito de menear a cabeça, o sorriso aberto, a caricatura que, o tempo clareou, esconde uma mulher bem diferente. Imediatamente passou a ser chamada de velha!  Para alguns, talvez, a suprema ofensa para as mudanças percebidas e a vaidade de Regina Duarte.

Parece que as mudanças não são bem-vindas justamente por nos obrigarem a enfrentarmos as nossas próprias mudanças. Os muitos quilos, as muitas rugas, todos os pelos e cabelos esbranquiçados, a ausência de viço na pele, estão entre as evidências que disfarces, pinturas e maquiagens os mais evidentes só fazem acentuar.

Todo mundo tem espelho e momentos de encarar os efeitos do tempo. A visão cotidiana nos ilude fazendo com que nos sintamos os mesmos, o que não evita nosso espanto quando encaramos fotos antigas que acentuam as mudanças que carregamos, e que caminham, aliadas ao tempo, nos transformando. Infinitamente pior que o espelho são os males que atingem os nossos corpos, incapazes de manter a permanência que mora na nossa vontade. Consultórios e clínicas entram no nosso cotidiano proporcionalmente ao tempo que estamos no planeta. Mais tempo, mais médicos.

Estamos de passagem e a expressão “viagem” ao invés de “morte” é bem melhor. Também há quem prefira “experiente” a “velho”. A realidade, por pior e difícil que possa parecer, é o que temos e, portanto, melhor que a ilusão. Não somos mais os mesmos! Nossos ídolos não são mais os mesmos. Aceitar essa questão é o que nos possibilita maior empatia para com fases da vida de todos – jovens, adultos ou velhos. O que é absurdo é constatar o universo em movimento, as transformações contínuas da natureza e pensar que nos mantivemos imutáveis.  Como se houvesse um dia para tomar consciência de si e fixar tal data. Que bobagem!

P.S. 1 – É óbvio que quem vos escreve já passou dos 60. Gosto de Bethânia desde Carcará, de Roberto, desde O Calhambeque e de Wanderléa, desde O tempo do amor. Assisti quase todas as novelas protagonizadas por Regina Duarte, e atualmente tento esquecer a decepção para não espinafrar a atriz.

P.S. 2 – Acredito estar de passagem e estou lendo textos sobre projeções da consciência. A ideia de experiências fora do corpo físico me atraem cada vez mais. Penso sempre em viagens astrais observando o movimento de nuvens no céu sobre o mar.

P.S. 3 – A decisão em escrever o texto acima foi após ter visto vídeos de fragmentos recuperados da Jovem Guarda. Como Roberto Carlos e Wanderléa mudaram!

Todo mundo deveria ter uma amiga como a Elza

Este é o meu 901o post neste blog! E devo levar uns puxões de orelha por ainda não ter escrito sobre Maria Elza Sigrist. Por aqui sempre celebrei a amizade e os grandes amigos e se Elza ficou de fora até aqui é por estar reservado a ela um momento especial para este blog.

Há controvérsias sobre quando a conheci, se foi em 77 ou 79. Do século passado! A gente ri dessas coisas do tempo, da idade, quando o que interessa é estarmos juntos após longos intervalos, mas sempre cúmplices, sempre uma imensa e carinhosa amizade.

Do que ficou da primeira lembrança foi uma frase inesperada de uma mulher linda. Aquele tipo europeu: loira, 1,75, olhos claros, corpo esguio. Um mulherão que séria, e com o devido peso, soltou a frase embargada: “Viver é muito difícil!”. Não me recordo o assunto daquela aula, daquele curso, dos demais alunos. O que ficou em minha vida foi Elza. Ali, naquele momento e com aquela frase que se concretizou nossa amizade.

Forte, Elza não admitia meios-termos, por exemplo, quando desconheciam sua profissão e as respectivas funções de uma Secretária Executiva. Com orgulho e competência, Elza ostentava o trabalho desempenhado em multinacionais lá em Campinas, interior de São Paulo, onde ainda mora. “Imagina se sou menininha de recados! Sou uma Secretária Executiva!” o que, entre outras peculiaridades, era manter gavetas vazias. “Jogo tudo fora! Guardo por três, quatro meses, ninguém pediu, não serve para nada, jogo fora!”

O desapego para com papeis também facilitou mudar de cidade quando o diretor da poderosa Johnson veio para São Paulo. Não abriu mão da secretária e Elza veio morar no Bexiga. A moça alta e bem vestida chamou a atenção da vizinhança e foi avisada pelo porteiro: “D. Elza, a senhora ponha um lenço na cabeça, um chinelo de dedo e vá caminhar pela vizinhança. Assim saberão que a senhora é daqui e a gente evita assaltos”. Ela obedeceu e, devidamente paramentada, visitou açougue, quitanda, padaria, supermercado.  

Inquieta, um dia fui me encontrar com Elza na Praça da Sé. Ela vinha com razoável frequência comprar joias naqueles prédios sombrios, dos quais muita gente tem medo. “Vendo tudo para a mulherada lá da empresa. Vou de mesa e mesa e não sobra nada!” Essa característica de ter uma conversa fácil, sempre objetiva, faz com que ela se oriente pela cidade, pelos lugares onde visita. “Olha que chic! Tive covid em Paris! Fiquei trancada, me tratei, deu tudo certo.”

Um dia, bem antes da pandemia, chegou o momento da aposentadoria. “Uma porcaria! Imagina só a aposentadoria. Prestei concurso e fui ser professora primária aos 60 anos! Você acredita?” Acredito, e imagino o jeito sincero e despachado ensinando inglês para as crianças da escola pública. Não só o magistério, ao invés de fazer terapia, estudou psicanálise. “Melhorei muito e já tive muitos clientes. Atendi até online, durante a pandemia”. Imagino-a nas tarefas, sempre objetiva, indo direto ao ponto. “Ah, não gosto de enrolar, não”.

De repente nos reencontramos. Quanto tempo sem que nos víssemos! Outras tantas controvérsias. Sabíamos da morte de nossos pais, da perda de irmãos. De quem estava casado, quem se separou. O que interessa é seguir em frente: “Quero ler seus livros!” E os leu, com longos telefonemas entre um e outro, no meio de capítulos, fazendo o escritor ir ao céu. Aliás, é bom registrar, quando tive um conto premiado e publicado em uma revista, lá em 1982, foi Elza a primeira a ler e a me dar notícia. Ela estava de férias! “Valdo, li seu conto! Parabéns”. Ler é um vício e, neste momento, deve ter terminado a biografia da Clarice Lispector, escrita por Benjamim Moser.

Elza gosta de falar da família, dos pais, do empenho desses para que ela fosse estudar, da vida dura vivida com dignidade. Do trabalho feito com presteza, das dificuldades em, sendo mulher, viver e enfrentar situações delicadas no mercado de trabalho. Inquieta sempre, segue os rumos da política e lamenta os equívocos de quem está lá, pensando que a terra é plana.

Sendo uma moça feliz, é claro que namora. E foi há poucos dias, quando eu pensava que ela estivesse ainda em tratamento, recebi a notícia. “Estou no Rio!”. Sei bem a motivação carioca e respeitando o momento feliz vivenciado por minha amiga evitei falar do meu atual problema de saúde. Só quando ela voltou é que, com a gravidade de quem nasceu no mesmo dia que Maria Bethânia, narrei minha situação, aguardando a piedade e o consolo da amiga que transcrevo parcialmente abaixo:

“Oi, Valdo, querido! Grande coisa você tá me contando! Esse zumbido, é difícil alguma pessoa que tenha passado dos 60 anos não ter, viu meu querido! Eu já tenho, minha irmã tem muito mais forte que eu e a gente aprende a conviver com isso. Não esquente a cabeça!” Aqui ela, terapeuta e ex-funcionária da Johnson & Johnson,  tratou de me recomendar um remédio para momentos de crise. E após o medicamento, com nome genérico e comercial, concluiu: “E dê-se por feliz, tá bom, querido, vai escutando o barulhinho aí e desliga. Beijo!” E riu, concluindo a gravação.

Meu “drama” foi por água abaixo! E voltei a pensar na boa sorte de ter uma amiga assim, direta, cheia de bom humor e empatia. É assim, a gente tem essas coisas que o tempo nos dá. E que bom estarmos vivos para, se não conseguimos evitar as chateações da vida, em contrapartida temos amizades como a de Maria Elza Sigrist, que nos leva a dormir tranquilos para, acordados, olharmos para o lado bom de viver.

Para Elza e todos os amigos que me acompanham nesses 901 posts!

Obrigado!

Onde criminosos se dão bem!

Certamente os deuses do futebol são amorais. Também residem longe, muito longe da ética. O que importa aos tais deuses é que nada, nem ninguém, atrapalhe a eficiência de um time. Mesmo que, para a vitória almejada, seja necessário ignorar a presença de criminosos em campo, ou nas laterais, orientando e dirigindo as agremiações. Os deuses do futebol são os mais fiéis seguidores de Maquiavel, vivenciando a máxima: Os fins justificam os meios.

A fé nos tais deuses e os seguidores da cartilha determinada pelos mesmos é atitude de muita gente incauta, os tais torcedores obcecados pela camisa. Não raciocinam; torcem! E quando raciocinam fazem vistas grossas para crimes e falcatruas de ídolos, ou dos dirigentes desses. Quando questionados costumam sair com a mais ordinária das colocações: Mas isso não é futebol! Não preciso aprofundar que pouco interessa o crime caso o criminoso seja hábil no drible, artilheiro no campeonato.

Sustentação maior aos deuses do futebol vem da imprensa. Desviam o assunto, dão pequenas notas, defendem os tais criminosos e, principalmente, apagam o acontecimento relegando o mesmo ao esquecimento. Exemplo contundente o incêndio no vestuário do Flamengo, no Rio de Janeiro. Pobres meninos que morreram queimados! Pobres familiares que choram suas perdas.

Estupradores, assediadores, pais que abandonam filhos, sonegadores de impostos: criminosos e crimes mais comuns e constantes no nosso futebol. A imprensa até notifica alguma coisa, como o fato de Robinho estar chateado pela presença da polícia na porta de sua casa, constrangendo o pobrezinho que não havia entregado o passaporte, determinação da justiça.

Histórias envolvendo o universo de futebol vêm de longe e nossos maiores ídolos não ficaram distantes de situações controversas. A filha que Pelé só reconheceu juridicamente é triste exemplo. Garrincha, diz a lenda, foi pai em diversos países, abandonando a família aqui no Brasil e mantendo-se distante também dos tais filhos estrangeiros. Elza Soares pagou preço alto em situação em que a atitude fundamental deveria ter partido do jogador. Ao longo dos anos me habituei com caras feias quando comento tais fatos. Nunca deixei de admirar esses que considero os maiores atletas do nosso futebol, todavia, é bom salientar que aqueles tempos sendo outros, o mal que fizeram é o mesmo que alguns outros ainda fazem.

As coisas estão mudando nesse momento em que uma notícia alastra-se quase que instantaneamente, tendo mudado um pouco as coisas. Além do atleta condenado na Itália temos um outro caso contundente em andamento, na Espanha. Que a justiça seja feita e que cada um cumpra o que for determinado. E por estarmos em um mundo novo, onde novas questões são colocadas e novas posturas são exigidas, cumprir pena não basta. É preciso que o envolvido em crime, após cumprir determinações legais, adote ações diferenciadas para que a coisa não se repita.

Novas atitudes, é o mínimo que se pede do atual técnico do Corinthians, o exemplo da hora de profissional de futebol envolvido em história tenebrosa. E não é, hipocritamente, vestir camisa com imagem de Nossa Senhora. É sim, assumir o que fez, desculpar-se e trabalhar em ações contra pedofilia, contra assédio a menores. Se o sujeito “não fez nada” estando presente no quarto onde ocorreu o crime, que o faça agora. Investir contra tal técnico não é vingança, é exigência de uma posição honesta e de ações concretas lutando para evitar que isso se repita.

Finalmente, apelo para a melhor arma que temos para mudar a postura de cartolas e seus comparsas. Boicotemos os patrocinadores! Sejam de atletas ou times, duas respostas contundentes podemos dar: denunciar e boicotar! Lugar de criminoso é no banco dos réus, respondendo à justiça. E fora do banco, na cadeia ou fora dela, atuando em prol de vítimas de tais crimes.

Os órfãos de Glória Perez

É muita família incompleta! A Brisa de Lucy Alves é mãe, mas não tem pai nem mãe. Chiara, da estreante Jade Picon não tem mãe; Ari, o Chay Suede, não tem pai. Faz tempo que não aparece tanto órfão em uma única novela. E não são poucos!

Entre as personagens centrais sem pai nem mãe estão: a Núbia (Drica Moraes), a Guida (Alessandra Negrini), o Oto (Rômulo Estrela), a Talita (Dandara Mariana), o Moretti (Rodrigo Lombardi), o Guerra (Humberto Martins), a Cidália (Cássia Kiss), Gil (Rafael Losso), Stênio (Alexandre Nero), Heloísa (Giovanna Antonelli), o professor Dante (Marcos Caruso) e por aí vai. Tem mais! É só checar as personagens. Quem segue a novela Travessia, de Glória Perez, deve ter percebido essa estranha quantidade de gente solta no mundo. Sem lastro, sem raízes.

Antes que D. Glória Perez me pergunte se eu fiz o “L”, informo que sim, fiz, e já pondero: Ah, mas tem família sim! a Tia Cotinha, de Ana Lúcia Torres lembra a Margarida, namorada do Pato Donald. Muitos sobrinhos sem eira nem beira. Todos caem no colo da tia. Rudá tem mãe, tia, padrasto e nenhum pai para defendê-lo! As moças, irmãs, ficaram sós no mundo, já que não há menção de outro familiar. Há uma família atual, formada por Lais (Indira Nascimento) e Dimas (Ailton Graça) e um casal de filhos que enfrenta o vício do menino em jogos virtuais. Uma avozinha, um avô, faria um bom jogo entre as crianças e os pais.

Mais que a orfandade geral, pais e avós costumam roubar a cena em novelas. Que me perdoem os mais jovens, mas, os veteranos garantem momentos de puro deleite para nós, noveleiros. Aproveito e saio de Travessia para homenagear Renata Sorrah em Vai na fé. Não sobra para ninguém quando a atriz assume a atriz na novela (Se não entendeu a frase é porque ainda não teve o prazer de ver a Sorrah dando show!). Voltemos à Travessia.

Tenho cá com meus botões que elenco de novela é uma escala onde o topo, tomando Travessia como exemplo, está ocupado por Ana Lúcia Torre, Marcos Caruso, Cássia Kis e Drica Moraes. Esse grupo de atores faz, literalmente, todo e qualquer tipo de personagem com brilho único e se sobressai de longe aos demais. Infelizmente estão órfãos, ou sozinhos, embora resvalem aqui e ali em possíveis relações.

Nem de longe ocorre, em Travessia, a possibilidade de um embate como o criado pela mesma autora em Caminho das Índias, envolvendo D. Laura Cardoso (Laksmi) e Lima Duarte (Shankar), que protagonizaram cenas memoráveis, de absoluta emoção. Também de Glória, em O Clone tivemos momentos belíssimos entre Stênio Garcia (Tio Ali) e Jandira Martini (Zoraide), tão intensas e belas quanto outras, na mesma novela, protagonizadas por Nívea Maria (Edna) e Juca de Oliveira (Prof. Albieri).

Glória Perez sabe escrever para atores veteranos e colocá-los em cenas que transbordam beleza e talento. Se não o faz, em Travessia, creio ser por conta da COVID. Sim, a maldita pandemia que criou protocolos e limitou o trabalho de atores mais velhos. Provavelmente a autora terminou a sinopse em pleno caos da doença e foi tirando aqui, cortando ali, deixando de lado os núcleos familiares profundos que apresentou em novelas anteriores. Tenho também cá comigo que foi a emissora quem limitou as personagens feitas por atores mais velhos. Do contrário, por que colocar tanta gente órfã na mesma história? Aí fica aquela coisa estranha, de gente sem lastro, sem memória.

Vou nessa! Hoje tem o casamento, ou não, da neta do Chico Buarque, que entrou na história como pesquisadora. Também sem pai, nem mãe, nem ninguém. Vejo Clara Buarque e fico com saudade da Marieta Severo e de tanta gente boa que está em casa.

Até mais!

Vambora julgar!

O Juízo final – Michelangelo – Capela Sistina

Condenações e erros judiciais me remetem imediatamente ao caso dos irmãos Naves, em Araguari, MG. Dois irmãos, Sebastião e Joaquim Naves, foram acusados de matar um primo, Benedito Pereira Caetano. Dos detalhes criados pelo imaginário dos acusadores consta que o sujeito teria sido enforcado às margens do Rio das Velhas, sendo dependurado por uma corda, cada irmão segurando uma extremidade. A história é tensa, cheia da violência de que o ser humano é capaz de imaginar. Vou deixar abaixo o vídeo com o filme baseado na história, em memorável interpretação de Juca de Oliveira e Raul Cortez. E, caro leitor, por gentileza, não me julgue pelo “spoiler” (palavrinha horrorosa): o tal Benedito foi encontrado anos depois, vivinho da silva.

Essa história foi contada e recontada em minha família. Meus pais se conheceram e se casaram em Araguari, onde em seguida nasceu minha irmã mais velha. No colégio onde estudei em Uberaba trabalhou uma parenta dos Naves, Ana Rosa. O caso dos irmãos Naves sempre foi mote para a máxima de Jesus Cristo: “Não julgueis, e não sereis julgados” (Lucas 6:37). Longe de mim bancar o impoluto, sem erros. Julgar é ato reflexo. A gente se depara com a notícia e, conforme a extensão do espanto, vem a ânsia em julgar, ou melhor, em condenar! Mas seria possível exercitar uma refreada básica nos julgamentos? Difícil!

O que me move a escrever e refletir sobre o tema é o conhecimento. Aquele que não temos sobre o que, ou quem julgamos. Então, mais que a possibilidade do erro que, em si, já é terrível e também outro crime, é o que sabemos sobre aquilo sobre o qual sentenciamos. Há uma diferença imensa entre exigir apuração dos fatos, tomar medidas judiciais, aguardar solução cabível de autoridades competentes e pronunciar sentença. A questão se amplia com a força da Internet, já que os julgamentos precipitados podem gerar – há vários exemplos concretos – massacres de inocentes.

Em “Nada de novo no front”, o livro de Erich Maria Remarque que está com versão nos cinemas, um professor incita alunos a irem para a guerra. Ele mesmo não vai para as trincheiras. Nos tempos atuais, influenciar e incitar os outros parece ser ato comum e constante nas redes sociais. E as consequências, como no filme, pouco importam ao “influencer”. Dá-se o veredito permanecendo no raso, na margem, na aparência da capa, no disse-me-disse ouvido de não sei quem. No cotidiano da rede inventaram um tal “cancelamento”, pois, ao que isso indica, o maior sofrimento que se pode fazer ao outro na atualidade é condená-lo ao ostracismo. E os influencers seguem a vida, aguardando outra ação “condenável” para aumentar likes, seguidores, engajamento.

No cotidiano fora das redes outras verdades favorecem julgamentos e vereditos; talvez, o maior motor disso é a crença de que “só jesus salva” e estar “no lado certo da história”; a religião do outro é sempre a errada e o respeito só devo aos meus irmãos de fé. As religiões determinando comportamentos geram angus de caroço imensos, aceitos ou não pela “sociedade”. Aqui, entre aspas, para assinalar que quase sempre se usa a expressão “a sociedade não aceita” para se eximir de um “Eu não suporto tal coisa”. Já sobre o “lado certo da história”, resta dizer que será sempre o de quem fala. Esquerda, direita, centro, acima e abaixo, mais ou menos, o que diz o ideólogo do partido é o que é correto.

Enquanto escrevo me sinto mal. Critico o ato de julgar julgando e tento refletir, buscando discernir entre o que é crítica e o que é julgamento. No frigir dos ovos, repito, o que mais me incomoda é condenar sem conhecimento. E lá vai a bomba! Permita-se um mínimo de honestidade e responda sem consultar a imensa enciclopédia que é a internet:  O que é o Tibete? Quais são os hábitos e costumes principais do povo tibetano? Economicamente, como sobrevivem? Caracterize a geografia, cite as fronteiras e por aí vai… Enfim, sou ocidental e a atitude do Dalai-Lama me é assustadora. Taí um bom momento, prometo, para estudar o significado de Dalai-lama, sabendo que lama, no título do sujeito, é falso cognato.

Bom julgamento!

Cariello por Cariello ou da unicidade da arte

Artbook41 – divulgação

Quando mergulhamos profundamente em uma determinada forma ou expressão artística percebemos, no mínimo, o que distingue profundamente uma da outra. Essa distinção facilita nova percepção: do quanto a arte é necessária e do quanto as artes no seu conjunto colaboram no entendimento humano. Antes de entrar no trabalho de Octavio Cariello, que me leva a refletir neste texto, quero pontuar três ideias:

Pobre artista de teatro quando não entende, ou não concretiza o teatro enquanto interação com a plateia. O jogo se estabelece e se completa na relação direta, pulsante, quente ou fria, trágica ou cômica. Sem o contato estabelecido com o receptor costuma ocorrer, frequentemente, o exibicionismo ordinário.

Infeliz o músico que não sabe ouvir, o ser, o objeto, o animal, a natureza, o mundo! Quem não ouve não faz do som percebido a matéria prima do ofício, não aprende a explorar suficientemente as possibilidades da voz, do instrumento. Quem não ouve consegue harmonizar?

Não seguirei exemplificando sobre as demais formas artísticas. Penso na hierarquia das artes, uma necessidade tão pobremente humana em colocar algo acima de algo. Penso no obsoleto conservador que insiste em recusar aquilo que não está nos cânones clássicos.  E provoco conscientemente: Seja lá qual for a importância da arquitetura ou da poesia, nem uma nem outra resolveu problemas básicos humanos. Ah, e banco o dialético: seria função da arte melhorar o animalzinho que se diz pensante?

Com o lançamento de Artbook41, Octavio Cariello me levou a pensar na especificidade da arte, na unicidade de cada forma artística:

Imagine-se artista. Poeta, escritor, pintor, ator, dançarino… Tente se ver em diferentes fases da vida, simultaneamente e interagindo com esses “eus” que um dia fomos através de um enredo sólido, coerente, consistente e coeso. Sim, a história é literalmente esta: Um encontro de um indivíduo com outros dois de si mesmo, em idades distintas. Parece simples. Vou voltar a exemplos:

Um arquivo como o da Rede Globo permite a um montador reunir, em enredo minimamente coerente, Gloria Pires conversando consigo própria ao longo do tempo. O resultado costuma ser canhestro, sem unidade, o roteiro manipulado em função da cena que se tem (pode ser Dona Fernanda Montenegro, Francisco Cuoco, ou qualquer um dos atores com longa carreira na emissora).

Em Boyhood, Richard Linklater filmou o crescimento de um grupo de atores durante doze anos. Algo similar também ocorre em outro filme, Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio. As experiências mostram as transformações ocorridas na vida das personagens. Soaria um tanto ou quanto artificial imaginar a reação de alguém com 12 anos após constatar algo feito por si mesmo aos 18 de idade. Em termos de cinema seria especulação, ou mesmo algo tipo programar a ação de si no depois.

Octavio Cariello é artista gráfico. E Mestre dos Quadrinhos Brasileiros (título merecido recebido da organização do Troféu Ângelo Agostini). Das 128 páginas que compõem o livro, ele usa apenas quatro para fazer, com maestria, o que gostaríamos de fazer em algum momento de nossas vidas. Um garoto aos quinze anos, um adulto aos 30, um homem caminhando para a maturidade. Três versões do artista que se encontram com sarcasmo, muito humor e uma boa dose de angústia. Cariello por Cariello! Usando sua capacidade artística para realizar algo singular, faz de si e de sua vida algo absolutamente único, específico. E de seu trabalho, um exemplo do que se pode chamar unicidade da arte. Bravos!

“Juninho Perdendo o Rumo” é apenas parte do Artbook41. Um grande álbum composto com trabalhos diversos de Cariello, desde Recife, onde nasceu, aos mais atuais realizados em São Paulo, cidade onde vive. Um exemplo que já dá “pano pra manga” para que se tenha ideia da incrível qualidade dos trabalhos que compõem o livro.

Será no próximo sábado, dia 15, o lançamento do livro na Gibiteca de Santos. Outros detalhes desse encontro estarão disponíveis em breve: aqui e nas redes sociais do local e do próprio artista. Também via redes sociais é possível adquirir o Artbook41, diretamente com Octavio Cariello.

Violência

A professora assassinada aos 71 anos por um garoto de 13 que a atingiu pelas costas; o garoto esfaqueado no metrô, no Canadá; as crianças mortas em plena creche! A menina baleada, notícia do jornal de daqui a pouco. Não é de agora que nos vem tanta violência. Só em 2022 foram 40,8 mil mortes, os dados são do G1. Lá atrás me vem a assustadora cena de um casal jogando a filha pela janela, ou da moça que, com o namorado e um cúmplice, foi condenada pela morte dos pais. Foi! Já está em liberdade. Penso que cada pessoa lembra de um crime. Da própria cidade, do país, do mundo. Aquele crime específico que nos leva a indagar horrorizados, tal qual fez o poeta séculos atrás perante a escravidão: Deus, meu Deus, onde estás que não respondes?

Provavelmente o ser humano foi um erro de Deus. Ou sabotagem do plano divino realizada com êxito pelo demônio. Independendo de religião, de escolaridade, constata-se que o ser humano é autor de crimes contra seus iguais, contra os animais dito irracionais, com o planeta. Somos os únicos seres que destruímos sem pudor o ambiente que nos cerca e que, em primeira e última instância, é o nosso lar. Roubamos uns aos outros, exploramos os mais frágeis que nós mesmos, matamo-nos em números cada vez piores.

Das cinco vias que nos levariam a Deus (todas bem definidas por Santo Tomás de Aquino), a primeira afirma que tudo está em movimento. Tudo se transforma! E o Santo concebeu Deus como o autor do primeiro impulso, da força que movimentaria tudo e todos. Um empurrãozinho divino! Lá pelas tantas, quando o ser humano se viu forte e consciente de força e conhecimento, passou a dar seu próprio empurrãozinho. Tipo a Europa carecer de expansão para resolver a incapacidade de autossustentabilidade e passar a invadir demais continentes, por exemplo. Ou os EUA crescendo o olho sobre o petróleo alheio e interferir na América Latina, no Oriente e agora mesmo, na própria Europa.

Conversa de todos os lugares, de quem seria a responsabilidade por tanta violência, tantos crimes? Como consertar e redirecionar o ser humano? Grande orgulho das raças planetárias, as religiões se odeiam e lutam entre si, em nome de Deus, para dizer que o Deus de cada tribo, de cada grupo que é “O Cara!”. Desde a Grécia Clássica, quando surgiram os filósofos que estão colocados como base da cultura ocidental, a filosofia se mostrou ótima sobre o “livre pensar”, mas bem capenga quanto ao “como resolver”. Criaram a sociologia, investiram nos estudiosos de economia, gritaram eufóricos o surgimento da psicologia e, em ondas sucessivas, quando cada uma das ciências se revela ineficaz para solucionar o humano, volta-se aos primórdios: os astros, os búzios, as cartas, os ancestrais (palavra da moda!).

Deixei de citar acima a educação. Estou envolvido com educação nos últimos 40 anos e vivo entre professores, sou de família de professores, meus melhores amigos são Professores, Mestres e Doutores em educação. Daí me irritar quando todo e qualquer cidadão se coloca na condição de determinar os rumos do planeta a partir da educação. Para sanar a violência: educação! Para acabar com o feminicídio: educação! Para eliminar todas as fobias: educação!

A História (de historiador, de gente doutora!) nos diz desde os primeiros vestígios da espécie que o ser humano não é coisa que preste. A Mesopotâmia, terra maravilhosa, está entre rios, a geografia nos ensina e a história nos revela que lá começou a grande briga humana – desde os Sumérios – e que tal briga tem relação com água e comida. Sabe como é: tendo rio, há água potável e plantios férteis nas matas. Hoje em dia, por lá e outras regiões do planeta, brigam por minério e petróleo. E com todo o planeta em perigo, logo começarão as brigas por ar. A Amazônia deverá ser a estrela maior de possíveis conflitos.

Ingenuamente podemos indagar os motivos da não conciliação entre as nações sobre as dádivas da terra. Poxa, o progresso facilitou nossas vidas, acabou com o trabalho escravo (exceto no Brasil!), aumentou os meios de produção, facilitou a vida com os meios de transporte e comunicação, a ciência descobre a cura de qualquer doença… Não foi à toa que Louis Armstrong cantou What a wonderful world! O problema é que não nos conciliamos sequer entre nossos familiares!

Como há muito enfiaram em nossas cabeças que precisamos muito mais que comida, água e um teto para refúgio de chuva e frio, trouxemos para dentro dos nossos lares a velha briga humana pela posse do que “tem mais valor”. É uma loucura total ver as pessoas, algumas velhas como eu, ou bem mais velhas, lutando por posses de bugigangas como se fossemos viver eternamente. E jovens, muito jovens, incapazes de dividir, disputando um mísero terreno ou uma grande fortuna. O certo, e horroroso de se constatar, que os problemas humanos são os mesmos de milhares de anos passados, após o fim de impérios, nações, dinastias, grupos étnicos. Não aprendemos com o passado. Nem com o presente. E aí, a mim, perdoem o desânimo, só resta temer pelo futuro.

Não há solução no conhecimento isolado, em uma única religião. Não há solução mágica! Não há solução por uma única via. Não há possibilidade de se resolver sem a união de todo o conhecimento, todos os setores, todos os grupos humanos. É preciso, sobretudo, ter a humildade para reconhecer a nossa grande, imensa incapacidade de viver em harmonia. Absoluta incapacidade de solucionar os problemas que enfrentamos. Em nome de Deus, ou daquilo que se quiser, é preciso admitir que SOZINHOS estamos apenas caminhando para um final pior, bem pior do que o momento em que vivemos.

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Nota: A imagem ilustrativa é do ator Malcom McDowell em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – Stanley Kubrik, 1971)). Uma possibilidade de legenda para essa obra prima do cinema: A violência não domesticada.