Voltando ao Valongo

Noites do Valongo, o charme de tempos idos.

A imaginação tenta ir ao passado responder à curiosidade de saber como era o Valongo em seus tempos áureos. O antigo bairro santista vive atualmente ao som de apitos de navios, locomotivas, buzinas de carros e caminhões, tudo transitando entre antigas construções. Passeando por velhos bondes, outro som característico do centro de Santos, pode-se ver modernos e gigantescos guindastes, o velho e o novo dividindo a paisagem urbana.

O Mirada, festival de teatro do Sesc, levou várias atrações para a região, contribuindo assim com ações paralelas que buscam revitalizar o bairro. Revi a Casa da Frontaria Azulejada, a Estação do Valongo, o Museu Pelé e conheci duas antigas construções, agora centros culturais: O Herval 33 e o espaço denominado Arcos do Valongo. As condições ainda são precárias nesses dois últimos lugares. Há apenas banheiros químicos e, a noite, no horário das apresentações, não há água disponível, nem local aberto onde se possa comprar.

Com algumas ruas charmosas, que remetem aos conceitos do que seria sofisticado no século passado, restaurantes agradáveis, entre outras atrações, o bairro mantém uma vida agitada durante o dia, mas com regiões abandonadas, casarões e galpões vazios. Por ali transitaram barões e ricos produtores de Café. Em algum casarão que desconheço, morou D. Yolanda Penteado, personagem bastante lembrada no Seminário Contingências Antropofágicas. Nas noites do Valongo há apenas o som de veículos pelas ruas, estradas de ferro, ou do porto. Mesmo iluminado, o local parece deserto.

Abandonar regiões e mesmo cidades inteiras é “comum” na cultura ocidental. Alexandre, o Grande, avançou pelo mundo destruindo e queimando cidades para, logo a seguir, construir novas. No Egito, o imperador que viera da Macedônia mandou construir Alexandria; queria uma capital que tivesse a “sua cara”.

O Fórum Romano, setor de Roma que continha edifícios administrativos da cidade, foi expandido no que hoje se conhece como Fórum Republicano e posteriormente sofreu abandonos por imperadores que deixaram “sua marca”: César, Augusto, Trajano… Não gostavam, ou não queriam transitar pelo espaço antes usado pelo inimigo, vai saber! Quem visita Roma pode ver as ruinas desses fóruns imperiais, também um dia abandonados, e estudiosos especialistas conseguem localizar pedaços dos antigos prédios utilizados em outras construções.

Não gostar do espaço e mandar “mudar tudo” pelo fato desse ter sido utilizado por outro é fato até de picuinhas entre estrelas de fino trato. Elis Regina, contam os biógrafos, exigiu a reforma completa de um camarim no Canecão, antiga casa de shows do Rio de Janeiro, por conta de o local ter sido utilizado por Maria Bethânia. Elis quis mostrar poder, o Canecão bancou e, até onde fui informado, tal peraltice da cantora não foi bancado com dinheiro público. No entanto, há dezenas de prédios públicos, inutilizados e abandonados, mesmo estando em condições de abrigar outras instituições.

Incursão ao bairro, durante o projeto Arte na Comunidade em 2015. Casa da Frontaria Azulejada.

A Estação do Valongo soma-se a mais de uma centena de estações nas estradas férreas do país que perderam função original. O local já esteve na lista de estações abandonadas por volta de 1996, quando os trens de passageiros foram extintos, voltando a ser utilizada dez anos depois, após lenga-lenga entre Estado e Prefeitura para resolver a questão. Outras não tiveram a mesma sorte, tornando-se locais desertos e tristes, mas que se algum desabrigado infeliz resolver abrigar-se da chuva e do frio nesses espaços vazios levantará a ira de multidões.

O Valongo é um bairro lindo, com evidente herança de tempos melhores e de políticas de revitalização urbana. Mais que a “devoção à história”, espaços como a Casa da Frontaria Azulejada, os Arcos do Valongo e a Estação do Valongo, estão sendo bem utilizadas em novas funções em favorecimento da população, mesmo que ainda não totalmente adaptados às exigências necessárias de infraestrutura. Que finalidades similares sejam dadas aos demais galpões e edifícios vazios da região.

Sapos, tapas e um golpe

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

Creio que a maioria das pessoas tenha sofrido algum tipo de injustiça no decorrer de suas vidas. No mínimo não tiveram seus direitos respeitados ou tiveram que aturar aquela situação popularmente conhecida como engolir sapos. Tipo quando você tem que aturar um funcionário relapso – para ficar no razoável – para conseguir o serviço pelo qual o sujeito é pago para realizar.

Injustiças quando ali, na intimidade do sujeito, levam a um tipo de digestão onde o afetado deve lidar com suas frustrações sem interferências de outros. Uns rogam pragas, outros sonham cenas de assassinatos, há quem se prepara para algum tipo de revide e, entre várias outras possibilidades, há o famoso deixa para lá. Todavia, há as injustiças públicas. Difíceis de engolir, difíceis de esquecer.

Guardo de Antunes Filho o ensinamento de que “o primeiro tapa é o que vale, é o que entra para a história.” Dizia o diretor que, em situações adversas, perante um inimigo, um desafeto, na hora de uma briga, o importante era desferir o primeiro tapa. Um grande e sonoro tapa na cara! Na sequência o autor do tapa pode apanhar muito, mas o primeiro tapa é o que entrará para a história. Teatralmente é maravilhoso! Na vida real…

Nem uma necessidade mal atendida, nem uma bofetada recebida em público. O que me leva a escrever é algo muito pior; verdades e situações impostas a outros que, injustas, ficam por isso mesmo e a vítima não engole um sapo, mas uma saparia por toda a vida e, quiçá, após a morte. Um exemplo que me incomoda há anos: Publicaram que Michael Jackson fazia tratamentos para ficar branco. Um escândalo somado a outras situações vividas pelo artista. Ele afirmava ter vitiligo, mas… os tabloides e similares sensacionalistas duvidavam. Quando Michael morreu e, tempos depois, foi publicado os resultados da autópsia, constava lá, com absoluta clareza: o falecido tinha vitiligo. Pouco foi alardeado sobre tal fato.

Estamos em setembro. Desde fevereiro se sabe o resultado de um inquérito que vinha sendo feito pelo Ministério Público Federal, mas que foi revelado só agora. Movido contra Dilma Rousseff a partir de 2015, tornou popular a expressão “pedaladas fiscais” e foi usado para o impeachment que a tirou da presidência em 2016. Taí um sapo do tamanho do mundo imposto a uma mulher que, conforme o MPF, agiu conforme as práticas vigentes e, assim sendo, não havia motivos para a destituição da presidenta.

Dilma Rousseff, ao longo desses seis anos, manteve-se altiva, encarando “de frente” a tudo e a todos com firmeza. Se chorou, o quanto sofreu, ficou na vida privada da mulher vítima do machismo, da misoginia, da injustiça. Invariavelmente com serenidade, sorrisos reservados, calma, Dilma comenta tanto a tortura sofrida no período da ditadura quanto o golpe sofrido em 2016 com a postura de quem sabe o que é e de onde está. “A justiça foi feita”, declarou sobre o recente resultado.

Justiça seria reconduzir Dilma ao cargo impondo o imenso sapo a quem de direito. Um ou vários tapas aos que movidos por interesses escusos manipularam a opinião pública contra a primeira mulher a ocupar a presidência do país. Parece que vai ficar por isso mesmo e como ocorreu com a “revolução de 1964”, que foi um golpe, o impeachment de Dilma entra para a história como aquilo que foi: um golpe! Pedido de desculpas é pouco. Qualquer recompensa, por maior que seja, nunca será suficiente. Ao imbróglio de um inquérito transformado em impeachment resta o registro para a história: Foi golpe!

Sabatina

(E eu, dentro do ônibus, a atenção despertada pelo diálogo entre um garotinho esperto, curioso e uma mãe atenciosa:)

– Mãe, por que estavam mandando os caras irem para Cuba?

– Parece que lá é um bom lugar, meu filho!

– Mas eles estavam brigando!

– Quem mandou o outro para Cuba não deve conhecer a ilha…

– Ilha?

– Cuba é uma ilha.

– Que nem a Venezuela?

– Não menino, quem te disse que a Venezuela é uma ilha?

– Ninguém, é que escutei quando gritaram para os outros irem para a Venezuela. O que é que tem lá?

– Uma vida diferente daqui, ora essa! Ou igual, vai saber.

– Hum, você não conhece nem Cuba, nem a Venezuela, né, mãe!

– Nem essa gente, meu filho, nem essa gente. A gente sabe de ouvir falar. Só quem estudou, ou foi lá e viu bem direitinho, é que pode falar.

– Mas e as revistas, os jornais.

– Os jornais dizem o que os donos querem que digam. Já aqueles briguentos só leem WhatsApp, meu bem.

– Mãe, lembra daquele cara de boné, com a bandeira vermelha? Ele deve ser canhoto, como eu.

– Como assim? O rapaz segurava o mastro da bandeira com as duas mãos!

– Mas, estavam gritando para ele: esquerdopata, esquerdopata! Ele deve ser canhoto.

– Esquerdopata é outra coisa, menino.

– Pata, mão. Esquerda, canhoto!

– Se fosse só por isso. (e a mulher riu gostoso).

– Eu não sei se quero ser esquerdopata, mãe!

– Melhor que fascista, te garanto. Você ouviu quando gritavam fascista? Promete que você nunca vai ser fascista?

– Se você me ensinar o que é isto. E o que é comunista também! Berravam fascista de um lado, comunista de outro, deve ser tudo coisa ruim. Tudo “ista”!

– Não é, meu filho. São coisas diferentes. O som é parecido, mas são muito diferentes.

– Então, posso ser esquerdopata?

– Você nem sabe o que é!

– Mas sou canhoto! E se você não quer que eu seja fascista, posso ser esquerdopata.

– Eles estavam se xingando. Não é elogio! (E ela deu sinal para descer)

– Eles xingavam também de comunista. Meu pai fala que Jesus era comunista.

– Devia ser.

– Mas eles estavam brigando!

– Se Jesus estivesse por aqui iriam brigar com ele também.

– Mesmo? Mas, mãe você acha que…

(O ônibus parou. Mãe e filho saíram. E eu, com vontade de segui-los, ver onde toda aquela sabatina iria chegar).

Valdo Resende, escrevedor de coisas.

Primavera de 2022

Elos Ancestrais no Ceará

Cecilia Calaça é a curadora da exposição Elos Ancestrais, no Sesc Crato, no Ceará. A ação ocorre em paralelo com o XIII Congresso Internacional “Artefatos da Cultura Negra”, tendo início nesta segunda, 19 de setembro, o evento prossegue até dia 24 próximo.

Cecília Calaça

Artista visual e pesquisadora da Arte afrocentrada, Maria Cecília Félix Calaça, também é Mestre na área de Artes Visuais pela UNESP e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará. É coautora dos livros: “Afro Arte Memórias e Máscaras” e “Arte Africana & Afro-Brasileira”.

Para a exposição sob sua curadoria Cecilia apresenta os trabalhos de Clebson Francisco, Dan Pelegrin, Eliana Amorim, Gerson Ipirajá, Hailla, Herbert Rolim, Jéssica Alves, Nick, Lucas Lacerda, Maria Macedo, Soupixo e Zakira. Abaixo a ideia e proposta do evento nas palavras da curadora:

“No decorrer da nossa existência podemos transitar entre o tempo remoto e/ou presente. As vivências e conhecimentos diversos advindos de âmbitos como família, cultura, história entre outros, servem de repertório para o fazer artístico.

Artistas de descendências plurais na constância de suas construções poéticas, são atravessados por ligações atemporais. A criação de cada obra expressa um olhar particular de suas raízes étnicas, memórias, territórios, elementos simbólicos e pesquisas que se tornam narrativas potentes. Você já pensou quais são os elos entre você e seus ancestrais?

A mostra é um convite para que todos possam conhecer, se reconhecer e refletir. Aprecie a forma como cada artista expressa sua conexão com os seus ancestrais e questione de que modo podemos estar conectados aos nossos. (Cecília Calaça)”

Todos o pessoal do Crato está convidado para essa exposição. O início, no dia 19, será às 16h.

Parabéns aos envolvidos!

Língua brasileira! Tom Zé no Mirada

Língua Brasileira: Foto:_Matheus-Jose-Maria

Neste domingo vai ser um final e tanto do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc Santos. Iniciado no dia 9 tenho indicado e comentado sobre o que consegui acompanhar. Montagem do Coletivo Ultralíricos com canções inéditas de Tom Zé, Língua Brasileira parte da canção homônima do disco Imprensa Cantada, lançado em 2003:

Quando me sorris
Visigoda e celta
Dama culta e bela
Língua de Aviz…

Tom Zé, aos 85 anos, continua instigante e um dos mais criativos compositores brasileiros. Sobre a velhice e a montagem, o compositor disse: “tem algumas coisas que vão se diluindo, mas na paixão que eu tomei por essa peça, eu virei criança outra vez!”.

“Seis atuantes e quatro músicos dão a ver e ouvir a epopeia dos povos que formaram o português falado no Brasil, seus mitos e cosmogonias, passando pelas remotas origens ibéricas, por romanos, bárbaros e árabes, pela África e a América Nativa.

A montagem passeia pelo inconsciente de nossa língua, suas graças e tragédias, seu “esplendor e sepultura”, paradoxo presente em verso do poema de Olavo Bilac (1865-1918) que leva o mesmo nome do espetáculo”.

O Mirada trouxe 36 obras de 13 países, sendo Portugal o país homenageado pelo evento. Nada melhor do que ver, entre os trabalhos deste domingo, dia 18, Língua Brasileira, trabalho que reflete sobre o “esplendor e sepultura” da nossa língua considerando – conforme o diretor Felipe Hirsch: “quase 200 línguas em extinção, sendo mais de uma dúzia delas faladas por pouca gente; três, quatro pessoas originárias. “E, no entanto, o Brasil está aprendendo a entender um pouco disso, do esplendor da mistura dessa língua, e da sepultura. Essa perpetuação da escravidão, o extermínio de povos nativos indígenas, e várias línguas consumidas por isso”, diz, situando que não se trata de peça didática, tampouco de tese, mas poética”.

Com ingressos esgotados desde o anúncio e abertura de venda dos ingressos, fica registrado aqui para a direção do Festival para que, na próxima edição, tenha mobilidade e reserva de verba e espaço para ampliar o número de apresentações dos espetáculos oferecidos. Vários dos trabalhos não consegui ingressos, o que, felizmente, não aconteceu com Língua Brasileira.

Ficha técnica da montagem

Língua Brasileira. Foto:_Matheus-Jose-Maria

Uma peça dos Ultralíricos e Tom Zé
Direção geral Felipe Hirsch
Música e letras Tom Zé
Elenco Amanda Lyra, Danilo Grangheia (Gui Calzavara), Georgette Fadel, Josi Lopes, Pascoal da Conceição e Rodrigo Bolzan
Direção musical Maria Beraldo
Músicos Biel Basile, Fernando Sagawa, Ivan Gomes e Luiza Brina
Músicos (em alternância) Gustavo Sato, Cuca Ferreira, Gabriel Basile e Daniel Conceição
Diretora assistente Juuar
Dramaturgia Ultralíricos, Felipe Hirsch, Juuar e Vinícius Calderoni
Dramaturgista/consultor geral Caetano Galindo
Direção de arte Daniela Thomas e Felipe Tassara
Iluminação Beto Bruel
Figurino Cássio Brasil
Design de som Tocko Michelazzo
Preparação vocal Yantó
Design de vídeo Henrique Martins
Difusão internacional Ricardo Frayha
Direção de produção Luís Henrique Luque Daltrozo

Mitologia Africana para um novo mundo

Mais uma indicação deste blog para ver no Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc – Santos, com material extraído da divulgação do evento:

Cosmos, de Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema. Foto: Filipe Ferreira

“Um grupo tem como missão encontrar um manuscrito com indicações para a criação de um novo mundo. Enquanto segue as pistas para a sua localização, viaja no tempo e no espaço. E nessa jornada interplanetária, apercebe-se da existência de vários mundos antecedentes ao seu, que resultaram desse mesmo escrito à mão”.

“Cosmos”, com apresentações nos próximos 17 e 18/09 no Teatro Brás Cubas, “nasce da vontade das artistas de origens cabo-verdiana, angolana e portuguesa de revisitar a mitologia africana e usá-la para propor a apresentação de um mito inédito sobre o nascimento de um novo mundo. Pretende criar uma fusão entre a ancestralidade e a ciência, aliada ao dever de missão”.

Cosmos, de Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema. Foto: Filipe Ferreira

Cléo Diára nasceu em Cidade da Praia, Cabo Verde. Mudou para Lisboa na infância. Isabél Zuaa tem origem portuguesa com ascendências na Guiné-Bissau e Angola. Nádia Yracem nasceu em Luanda, Angola. São as criadoras de “Cosmos”.

“’A partir de uma ideia de migração interplanetária, procuramos outras formas de entender os conceitos de fronteira, família e existência. Unimos a tragédia ao afrofuturismo para ilustrar esta ideia tendo como única emoção-guia o amor transcendental’, declara o trio em informe da temporada de estreia em meados de 2022 no Teatro Nacional D. Maria II – mesma casa em que despontou com “Aurora Negra” (2020), acerca da invisibilidade dos corpos negros nas artes da cena”.

A montagem está entre os espetáculos vindos de Portugal, país homenageado nesta edição do Mirada. Informações de horários e ingressos no link: https://mirada.sescsp.org.br/apresentacoes/cosmos/

Ficha Técnica

Direção artística e criação Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema
Interpretação Alberto Magassela, Ana Valentim, Bruno Huca, Cleo Diára, Isabél Zuaa, Luan Okun, Mauro Hermínio, Nádia Yracema, Paulo Pascoal e Vera Cruz
Apoio à dramaturgia Melissa Rodrigues
Apoio à criação Mário Coelho e Inês Vaz
Coreografia  Bruno Huca
Cenografia Tony Cassanelli
Confecção de cenografia Rodrigo Vasconcelos
Música original e sonoplastia Carolina Varela, Nuno Santos (XULLAJI) e Yaw Tembe
Instrumentais de cordas Desordem do Conceptual Branco – Cire Ndiaye, Suzana Francês, Florêncio Manhique, Mbye Ebrima, Sebastião Bergman e Evanilda Veiga
Voz off Carolina Varela, Caroline Faforiji Odeyale e Rogério de Carvalh
Tradução Irubá Olusegun Peter Odeyale
Figurinos Eloísa D’ Ascensão e Mónica Lafayette
Confecção de figurinos Myroslava Volosh, Salim e Atelier Termaji
Adereços Almost Black, Eloísa d’Ascensao, Jorge Carvalhal e Rodrigo Vasconcelos
Direção técnica Manuel Abrantes
Operação de som Ana Carochinho
Vídeo Elvis Morelli, Maria Tsukamoto e Tiago Moura
Desenho de luz Eduardo Abdala
Produção Cama AC |
Administração e direção Daniel Matos e Joana Duarte
Direção de produção Maria Tsukamoto
Produção Executiva Ana Lobato 
Fotografia da imagem do cartaz Marco Maiato  
Fotografia de cena Filipe Ferreira 
Residência de coprodução O Espaço do Tempo 
Coprodução Teatro Nacional D. Maria II 
Produção Cama AC 
Administração e direção Daniel Matos e Joana Duarte 
Produção no Brasil Cassia de Souza – radar cultural gestão e projetos 

Duas Lauras. Uma, Laurinda!

Um filme de 1944, Laura foi o título e personagem interpretada por Gene Tierney. Belíssima! Em música há uma Laura, feita pelo Braguinha, outra, pelo Antônio Carlos & Jocafi e, entre outras, a Lady, que o Roberto Carlos fez para a própria mãe. Agora me pergunto se Laura, a Pausini, gravou alguma canção com o próprio nome tal qual outras cantoras o fizeram. Chega de prolegômenos, vamos às Lauras que me motivam a escrever este texto.

Há uma Laura que reverenciarei enquanto for vivo, tiver memória, for capaz de pensar. Foi minha mãe! E a outra conhecida Laura está, como minha mãe, com 95 anos. Essa outra Laura, nasceu Laurinda. Laurinda de Jesus! Lindo nome e, até onde me dou conta, a dona faz jus a este e ao que escolheu como nome artístico: Laura Cardoso.

Longe de mim comparar mamãe com a grande atriz! Mas gosto da ideia de ver Laura Cardoso, além de grande atriz, também grande mãe, avó, mulher! Não necessariamente nessa ordem, embora tenho cá comigo que ela primeiro se define como atriz. Sorte nossa! Colocando a profissão em primeiro plano, Dona Laura Cardoso vem nos brindando com papeis memoráveis, presença marcante pelo trabalho impecável.

Antes de citar alguns trabalhos quero enfatizar a mulher que percebo: carreira que comprova seriedade incomum para com a profissão; ética que a coloca entre as pessoas confiáveis só com a presença física: paixão pelo ofício que a faz assumir-se como é, sem subterfúgios, sem recursos que não a própria expressão, o uso do próprio corpo e voz. Dona Laura Cardoso chega aos 95 anos com um rosto absolutamente humano que pode ser a face de uma avozinha, de uma prostituta, uma víbora, uma santa, uma milionária ou uma pobre camponesa.

Dos trabalhos televisivos quero lembrar dois. A Viagem e Mulheres de Areia, ambas originais de Ivani Ribeiro. Optei por esses por Dona Laura, nesses trabalhos, mostrar faces distintas de uma mesma personagem.

Como Dona Guiomar, em A Viagem, a atriz foi a simpática sogra que, obsidiada, transforma-se em megera intragável, até conseguir livrar-se do espírito vilão, interpretado por Guilherme Fontes. Com a delicadeza e sofisticada simplicidade, a atriz se transformava seguindo o que o outro exigia.

Em Mulheres de Areia o trabalho de Dona Laura Cardoso foi tão ou mais sútil e, por isso mesmo, rico em nuances. Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, deixava evidente uma aparente proteção à vilã Raquel em detrimento da outra filha, personagens de Glória Pires. Cúmplice chantageada por Raquel, Isaura mostra o amor pela outra filha por não gostar de ouvir o que Raquel dizia de Ruth. E a novela tomou outro rumo.

Há muitos e grandes trabalhos da atriz em novelas, especiais, programas de humor. Todavia, foi no teatro que tive a oportunidade de ver um dos trabalhos que ficariam entre os melhores que presenciei. Já a conhecia de outras montagens, me apaixonando quando a vi em “Vem buscar-me que ainda sou teu”, dirigida por Gabriel Vilela no texto de Carlos Alberto Soffredini, em 1990. Todavia, três anos depois, viria o momento preferido.

Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, já havia sido montada em 1964 pelo diretor Antunes Filho, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, que retomou o texto em 1993, com Laura Cardoso e Luís Melo encabeçando o elenco do Teatro Sesc Anchieta. Texto que continua caindo como luva para a realidade brasileira, Vereda da Salvação tem como temas centrais a desigualdade social, a falta de liberdade e a religião enquanto fenômeno que leva indivíduos para rumos extremos.

Na personagem Dolor estão faces distintas de uma mulher sofrida que ficam evidenciadas através da atuação de Dona Laura. A personagem vivia o drama, baseado em fato ocorrido em Minas Gerais, de um grupo de agricultores em conflito com latifundiários e, ao mesmo tempo, nas mãos de um líder fanático, papel de Luís Melo. Em dado momento, a personagem de Laura dizia coisas, aqui extraídas do texto original, de Jorge Andrade, que dão uma ideia do estofo necessário para que uma atriz faça tal personagem:

– Estou cansada, Joaquim. Quero parar.

– Escuta uma coisa, meu filho: sem filho a gente não pode melhorar. Filho é que é riqueza de pobre. Eles dá despesa quando miúdo, mas ajuda bastante quando cresce.

– Pra todo lado que a gente vai… tem sempre alguma coisa pondo desordem na vida, Ana.

– Meus olho e meu corpo deitou mais água na terra que as nuvem do céu…

– Pode atirar, corja do demônio!

É possível que outras atrizes interpretem tal personagem. Poucas com a verdade dessa senhora, a aniversariante que presto singela homenagem. 95 anos e um rosto marcado de histórias, cheio de jovialidade e vida. Dona Laura costuma dizer em entrevistas que é preciso muito estudo, muita entrega para realizar um bom trabalho. Que uma atriz não carece de nada além da própria capacidade expressiva e esta vem através do estudo, do ensaio, do trabalho. Ostenta uma carreira que comprova o resultado de dedicação, esforço, entrega.

Essas Lauras! Fortes, generosas, inesquecíveis. Hoje lembro muitas Lauras, feliz por poder recordar e associar as duas mais queridas. Minha mãe e Laura Cardoso, a quem desejo tudo o que há de melhor que alguém possa ter.

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Nota: as fotos que ilustram esse texto foram colhidas no Instagram e em páginas que homenageiam a atriz.