Uma senhora rua, no Bixiga!

Nossa rua, esse movimentado “sanduíche de vento”

Quem diria! Vou lançar meu livro “O vai e vem da memória” na rua onde nasci, em Uberaba, e na rua onde moro, no Bixiga. Este é conhecido oficialmente como Bela Vista, um antigo bairro da capital, São Paulo. É representativo e impossível não mexer com minhas emoções. Neste momento olho para a janela e vejo toda a minha rua. Toda! Um pequeno quarteirão, com um edifício de cada lado fazendo o popular sanduíche de vento.

Começando na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde os dois citados edifícios fazem esquina, a Rua Professor Sebastião Soares de Faria termina na confluência das Ruas Monsenhor Passaláqua e Artur Prado. Uma rua pequena, mas intensa! Sinta o lance, caro leitor: Nesse pequenino quarteirão estão 4 bares, 3 restaurantes, 2 cafés, 1 armarinho, 1 doceria e 1 cabeleireiro. E entre os moradores, “euzinho”!

Da janela do quarto, ou da sala, já vi incontáveis situações ao longo desses vinte e tantos anos. Ensimesmado olhei para o céu, tentando recuperar o céu azul de Uberaba, e pelas mesmas janelas observei o nada, já que o pensamento estava povoado de memórias. Como diriam meus avós, conversa não enche barriga, daí, ao bater a fome é descer e escolher uma bela variedade de sandubas, comida japonesa, árabe ou… nordestina!

“O vai e vem da memória” é o livro de um migrante que, em São Paulo, recorda a própria origem enquanto caminha no espaço e no tempo dentro da grande cidade. O autor mora em frente ao bar especializado em comidas do nordeste. Pronto! Um encontro de migrantes com o povo de São Paulo no lançamento de um livro. O bar é o Portella!

Fundado em 1969, o Portella bar é referência em boa comida: petiscos que estão entre os melhores da capital, torresmo, baião de dois, feijoada aos sábados e, dessas coisas que só acontecem em São Paulo: popularmente, aqui na rua, a gente diz que o Portella é restaurante baiano. Neste, sempre que há jogos do Atlético Mineiro, uma grande quantidade de torcedores do clube exerce o ofício de torcer com a mesma paixão daqueles que estão dentro dos estádios. Independendo do resultado dos jogos, o bom humor é garantido pela boa comida e bebida gelada.

E assim, somarei dois momentos especiais na minha trajetória. Primeiro, em Uberaba, quando o livro será lançado no Barroco Arte Café, que fica na Rua João Pinheiro, por onde entrei no planeta. Depois, volto para casa, para o Bixiga, minha Bela Vista. Em dado momento, descer, atravessar a rua e receber os amigos no Portella para o lançamento do livro na “minha rua”. É ou não é um privilégio raro!?

Espero dividir esses momentos com todos os familiares, amigos e conhecidos. Vejam as datas:

Nos encontraremos!

Nada mais universal que a memória


Por Flávio Monteiro

O livro “O vai e vem da memória” é uma coleção de crônicas e contos escritos por Valdo Resende sobre sua querida cidade natal, Uberaba, durante vários anos de vai-e-vens entre esta e São Paulo, onde fixou residência.

Os textos foram organizados sem ordem cronológica, hierarquias de importância ou grupos temáticos; assim como a memória, os textos fluem livremente e estabelecem entre si conexões, prováveis ou não.

O mesmo mecanismo da memória se manifesta, também, com fragmentos do texto que dá nome ao livro distribuídos como um quebra-cabeça ao longo de toda a obra, e diversas fotos que hora lembram textos passados, hora antecipam leituras posteriores. Vai e vem dos textos, das fotos… E da memória.

O leitor de Uberaba certamente vai se reconhecer nestas páginas, escritas de longe e de perto da cidade. O de São Paulo, talvez maior símbolo da (i)migração no Brasil – Paulicéia desvairada -, vai se identificar com tantas histórias sobre uma cidade que será sempre sua, ainda que o tempo transforme e afaste ambos. E os leitores do mundo terão um livro particular, porém universal – pois nada mais universal que a memória.

Serviço

O vai e vem da memória – Valdo Resende
Elipse, Arte e Afins Ltda.
312 páginas – R$ 65,00
Lançamento: 27 de novembro/2021 – 16h00
Barroco Arte Café – Rua João Pinheiro, 213 – Uberaba – MG

Si se calla el cantor

Para a cantora Marília Mendonça, prematuramente falecida, através de outros grandes, Mercedes Sosa e Horacio Guarany. Meus sentimentos aos familiares e fãs.

Si se calla el cantor
Calla la vida
Porque la vida, la vida misma es todo un canto

Si se calla el cantor
Muere de espanto
La esperanza, la luz y la alegría

Si se calla el cantor
Se quedan solos
Los humildes gorriones de los diarios
Los obreros del puerto se persignan
¿Quién habrá de luchar por sus salarios?

¿Qué ha de ser de la vida, si el que canta
No levanta su voz en las tribunas
Por el que sufre, por el que no hay ninguna
Razón que lo condene a andar si manta?

Si se calla el cantor
Muere la rosa
¿De qué sirve las rosas sin el canto?

Debe, el canto, ser luz
Sobre los campos
Iluminando siempre a los de abajo

Que no calle el cantor
Porque el silencio
Cobarde, apaña la maldad que oprime
No saben los cantores de agachadas
No callarán jamás
De frente al crimen¡

Que se levanten todas las banderas
Cuando el cantor se plante con su grito!
¡Que mil guitarras desangren en la noche
Una inmortal canción al infinito!

Si se calla el cantor
Calla la vida

Compositore: Horacio Guarini

De volta à rua onde nasci

Guardem essa data: 27 de novembro. Neste dia lançarei meu novo livro, “O vai e vem da memória”, em Uberaba, MG. O evento será a partir das 16h00, no Barroco Arte Café, que fica na Rua João Pinheiro, 213. Nasci nesta mesma rua, há muitos anos, no século passado… Estou feliz com essa oportunidade. Se o tal “nada acontece por acaso” estiver valendo, será um dia inesquecível. Vejam, a seguir mais informações:

“O vai e vem da memória” transita entre Uberaba e São Paulo

Novo livro de Valdo Resende, publicado pela editora Elipse, Arte e Afins, “O vai e vem da memória” (ISBN 978-65-00-00287-4) será lançado em 27 de novembro de 2021, em Uberaba, MG. O autor nasceu na cidade mineira cujo bicentenário foi comemorado em 2020. Em seguida fará o lançamento também na capital paulista, onde reside.

Autor, diretor teatral e escritor, Valdo Resende publicou o romance “dois meninos – limbo” e a coletânea “A Sensitiva da Vila Mariana”, ambas pela Elipse, Arte e Afins.

Entrelaçando fatos que se complementam, “O vai e vem da memória” reúne crônicas, contos e poesias contando a história de uma cidade – Uberaba, MG – sob a perspectiva de alguém que nasceu em um bairro, o Boa Vista, e mora longe, em São Paulo. Vivendo como tantos brasileiros, viaja no tempo, reconstrói espaços e cria um mosaico em um vai e vem onde cada texto vale por si, referenciando retirantes e migrantes.

Memória e emoção contam uma história da cidade onde viveu Chico Xavier, lembrando personalidades locais e nacionais como o imortal Mário Palmério e os compositores Joubert de Carvalho e Cacaso (Antônio Carlos de Brito).

Histórias de cidades são contadas a partir de seus fundadores, de grupos de personagens ilustres que desbravam continentes, atravessam mares, ultrapassam serras e montanhas, vencem grupos adversos. Em “O vai e vem da memória”, o recorte parte da vida de alguém que foi menino livre, brincando em campos e várzeas locais, e que no processo de desenvolvimento descobre a cidade em que vive, os mecanismos que a compõem, as forças que em constante jogo buscam equilíbrio necessário à sobrevivência de seus protagonistas.

Quintais, festas religiosas e hábitos culturais estão lado a lado com personagens presentes em toda e qualquer família convivendo com outros, esses habitantes que percorrem ruas da maioria das cidades brasileiras. A escola, a igreja, os meios de comunicação aproximando mundos, o tempo inexorável que transforma em passado o que foi vivido, as personagens que se constituem em exemplos e, em um país onde a economia provoca migrações, a cidade passa a ser vista de longe.

Com prefácio do escritor mineiro João Eurípedes Sabino, atual presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, “O vai e vem da memória” tem apresentação do autor pela produtora cultural Sonia Kavantan. O projeto gráfico, diagramação e capa são de Flávio Monteiro. As fotos que compõem o livro são do próprio autor.

EXPOSIÇÃO FRAGMENTOS VISUAIS

Para o lançamento em Uberaba, no Barroco Arte Café, Valdo Resende preparou a exposição “Fragmentos Visuais”, com reprodução de imagens que compõem o livro e complementam a narrativa.

Ao escolher ângulos e detalhes específicos de locais uberabenses, em imagens permeadas pelo vazio e solidão da cidade, o autor propõe um diálogo entre as memórias narradas no livro e as memórias particulares de cada espectador.

Uma escola de arte, espaço expositivo de pinturas e fotografias, além de sessões musicais, o Barroco Arte Café encantou o autor. O estabelecimento fica na Rua João Pinheiro, rua que é capítulo do livro. De quebra, o local oferece quitutes da inconfundível cozinha mineira.

Serviço:

O vai e vem da memória – Valdo Resende

ISBN 978-65-00-00287-4 Elipse, Arte e Afins Ltda.

312 páginas – R$ 65,00

Lançamento: 27 de novembro/2021 – 16h00

Barroco Arte Café – Rua João Pinheiro, 213

Uberaba – MG

Influencer

Ele só queria ser amado, admirado, desejado e, ainda mais, faturar uma graninha por ser assim, um sujeito querido e seguido por milhares, quiçá milhões. Trabalho duro, que demandou tempo iniciado por intermináveis sessões de academia. Como é difícil aumentar o peitoral! Pior são as canelas, as coxas cuja definição as peladas semanais colaboravam, mas o volume… Uns cambitos que pediam melhor alimentação. Esta, outro grande problema.

Fazer uma dieta saudável é complicado. Evitar isso, ingerir aquilo. Nada de ajuda artificial, embora secar barriga é coisa de louco. Os malditos gominhos definidores do tanquinho foram mais difíceis que aumentar bíceps, engrossar panturrilhas. Cansou de ser chamado de frango. Queria ser galo, definido, pronto para pegar quem por ele se interessasse. Nesse ponto demorou algumas semanas para se decidir em relação ao público-alvo até encontrar o meio termo.

Transitou pela indefinição procurando meticulosamente como atingir mantenedores sem que esses fossem perdidos para garotas com as quais apreciava gastar, bancar a conta, sentir-se macho. Melhor vitrine que mulher bonita nunca encontrou. O sucesso chegou aos poucos, na medida em que conquistou uma modelo aqui, saiu com uma aprendiz de socialite ali e, após divulgar imagens de noites que sugeriam prolongamentos sexuais, partia para manhãs em lanchas de amigos abastados, peladas em campos particulares e, finíssimo, até algumas partidas de golfe.

O sucesso social veio junto com um elaborado plano de exposição nas redes sociais. Após erros grosseiros advindos de fotos ruins concluiu ser necessário investir em boas produções. Essas vieram com orientação precisa de um expert, colega de academia. Era preciso ser sensual para todos os sexos, ou seja, nada de fotos direcionadas para essa ou aquela figura humana. Encontrou êxito no estereótipo do homem másculo, elegante, limpo, cheiroso, que mostrava pouco, insinuando o suficiente para incentivar sonhos e desejos alheios. Esses vieram.

O processo todo levou cerca de quatro anos. O menino franzino transformou-se em rapaz viril, sem os exageros musculares dos fisiculturistas. Junto a isso, tornou-se a celebridade elegante; aquela que está em eventos culturais de ponta, que se diverte com a elite em esportes sofisticados, passeios exclusivos. Conseguiu até um emprego de fachada, em uma seguradora após tornar-se amante de um diretor, homem casado e discreto pai de família, habituado a ser mantenedor, portanto, abrindo fácil a carteira. A relação ideal.

O boom da fama aconteceu em namoro relâmpago com uma top do momento. Uma moçoila estrangeira que, em passagem pelo Brasil cedeu encantos ao guapo que, sutil e cúmplice da celebridade, tratou de dar todas as chances para um paparazzi amigo. Este faturou alto com fotos que sugeriam tudo o que não aconteceu, posto que a moça precisava manter a pele saudável para uma sessão de fotos na manhã seguinte e o diretor da seguradora resolveu ter crise de ciúme. A primeira.

Então famoso, apreciava o trabalho matutino: pensar em postagens e poses para durante o dia. Ser gostoso, bonito, tornar-se desejado e invejado pelas pessoas. Estava ótimo ganhar dinheiro para tomar um simples café ou exercitar em tal academia, comparecer em uma festa. Presença! Chegou a contratar auxiliares: fotógrafo, redator, produtor de moda… um pequeno séquito fazendo-o mais bonito, sexy. Tão desejável que o amante, o diretor, resolveu mudar status, querendo ser marido. Com a agilidade dos executivos o homem contratou advogados, dividiu bens e terminou um casamento pensando em novo enlace com o belo e jovem influencer.

Após semanas de nova vida de solteiro para o diretor, e os regalos de sempre para o, agora, noivo, a relação começou a desandar. Para o jovem era temeroso um casamento. O que pensariam as fãs, aquelas que, incautas, não sabiam ler as verdadeiras atividades do famoso? Havia também a exclusividade que a nova fase da relação estava impondo ao rapaz habituado a frequentar a diversidade sexual contemporânea. Sim, ele descobrira ficar enlouquecido com apetrechos diversos manuseados por sadomasoquistas especializados que agiam sem deixar marcas. Tortura preferida, gostava de ser amarrado em argolas dispostas de tal forma que ele ficava tal qual o Homem Vitruviano, de Da Vinci. Braços e pernas presos, bem esticados, e os parceiros lambiam locais de seu corpo que o excitavam, levando-o à loucura. Era mantido preso sem que pudesse ter qualquer movimento. Parte do contrato, os locais de tais práticas não eram revelados e foi este o principal item a despertar o ciúme do parceiro, distante e proibido de participar das festinhas.

Os conflitos pipocaram. O homem mais velho, sentindo-se liberto após o divórcio e dono de ações que garantiam sua posição na empresa tornou-se insuportável. Ia junto a todos os lugares, opinava quanto as poses nas fotos, ao vestuário e, até mesmo, passou a acompanhar as aulas na academia. Uma rusguinha ou outra, por ciúme, seguida de rounds de brigas homéricas, chegando às vias de fato quando o homem tentou impedir o jovem de ir para as sessões secretas, necessitado que estava o guapo de relaxamento. A briga terminou em queda sobre móveis baixos onde ambos trincaram partes do corpo. A perna do influencer, o braço esquerdo do amante.

Conflito abafado, os convalescentes viveram trégua durante o período de recuperação física. Quando o jovem famoso tentou retomar sua vida descobriu estar sem cartão de crédito, ter uma conta corrente zerada e nem o carro e a moto estavam em seu nome. Com ódio, enviou sentimentos de gratidão ao amigo que fizera com que ele aplicasse dinheiro escondido, mantivesse contas secretas. E acima de tudo que jamais gastasse do que ganhava. Tinha seu trabalho nas redes sociais. Pegou seus pertences e saiu, sem se despedir do agora ex-mantenedor.

A retaliação foi rápida e devastadora. Com a objetividade dos grandes administradores o homem buscou os rivais do influencer. Entre esses, os mais baixos, os mais perversos. E criou sua versão da história: Apanhou, teve o braço quebrado, foi roubado, perdeu a família por um viciado que frequentava um “castelo” escuso, território de sadomasoquistas pederastas. Completou a narrativa com imagens de olheiras feitas por maquiador de última hora, o mesmo que cobria as imperfeições do ex-namorado.

Julgamento rápido, o cancelamento veio junto com pederastia e sadomasoquismo elevadas momentaneamente aos trending Topics do Twitter. Ao influencer restou chorar a fama perdida, a aura para sempre manchada pela impossibilidade de desmentir o caso com um homem mais velho, pai de família que perdeu mulher e filhos por conta de um vadio de ocasião.

O cancelamento foi amargo. Durou cerca de quatro meses. O tempo levado para que a moçoila top pop star voltasse ao Brasil. Alheia aos escândalos anteriores e aproveitando-se desses para garantir maior visibilidade, a moça aceitou até expor situações mais íntimas. Um intenso e inequívoco beijo de língua, uma mão amassando um peito enquanto a outra, da parceira, aconchegava o sexo do rapaz, já então recolocado instantaneamente ao podium. Influencer!

Outras viagens

BANZO

Diante desse marzão que assusta
Com seus mistérios e movimentos constantes,
ondas incertas sob sol escaldante
penso nas montanhas de Minas
nos chapadões da minha terra.
Não sendo daqui, sabendo que não voltarei para lá
sinto-me estrangeiro em todo canto
e trago constantemente na bagagem
Um pouco de tristeza, nostalgia e saudade.

Recife, verão de 2014

QUARTO DE HOTEL

Agora, quando distante de tudo
Abro janelas para além do espaço,
Portas para outros tempos.

Parece que há sons juvenis
Sombras esguias, fôlegos intensos
Cheiros que se esvaem no calor noturno.

Ecos de determinação, vontade férrea
Batalhas contra o estabelecido
Certeza do ser predestinado.

Penso nesse ser cada vez mais distante
Reconstruído em lembranças.
Restaram abismos intransponíveis
Distâncias colossais…

Longe era o tempo que faltava pra ser grande
Longe eram quilômetros entre cidades
Longe era o futuro que agora me afronta
Mostrando o fim do qual busco afastar-me.

Apenas uma noite.
Uma longa noite de calor insuportável.
Distante da casa onde raramente abro janelas.

Rio de Janeiro, novembro/2013

Dreams Island

Era muito pequeno, um menino de calças curtas. Nem se lembra exatamente quando ocorreu, mas ter ido visitar uns tios que moravam no litoral, lá em Vitória, no Espírito Santo, mudou para sempre a sua vida. Tudo por conta daquela prima chata, sabidona, que havia percebido que o menino ficara encantado com a cidade. “– Uma ilha, ela disse. Aliás, são muitas ilhas que compõem a cidade. Por isso é tão bonita! É água para todos os lados!”

A sabidona tinha estado em Montes Claros, visitando o primo. Reclamou do calor, da seca, da ausência de água em abundância. “– Aqui não tem mar? Lugar esquisito. Como viver longe do mar?” Pois mineiro vive muito bem, responderia ele se não tivesse se sentido inferiorizado, sem saber nadar, assustado com o mar em movimento. Piorou um pouco em visita à Vila Velha. Sabe-se lá o motivo, havia ondas enormes e por mais que a prima insistisse ele nem molhou os pés. Banho de mar… Tinha feito todo asseio antes de sair de casa.

Muito depois o menino descobriria que água, sabão e alguns remédios o curariam da catapora. A mãe não se conteve, fez promessa, e logo na primeira oportunidade foram para Vitória, terra dos avós maternos e, na cidade, foram ao município vizinho participar de missa no Convento de Nossa Senhora da Pena. A prima estava lá. Ela estava em todos os lugares! E não perdeu de vista o olhar de espanto do menino admirando a paisagem do alto do morro. “– Aqui é Vila Velha! Lá é Vitória”, apontou a cidade rente a água. “– Temos muitas ilhas, mais de trinta! Sua Montes Claros não tem tanta água assim.”

Ele levou uns cascudos do pai, uns puxões de orelha da mãe. Recíproca a outros, dados por ele na sabidona a quem, na hora da briga, foi chamada de capixaba, como se isso fosse palavrão. Mineiro é coisa bonita. Mineira, então, nem se fala! Mas, capixaba! “– Você não passa de uma capixaba xexelenta!”. Nunca mais se falaram, nas duas ou três vezes que se viram ele fez caretas, ela olhando-o com ar superior. “– Temos muitas ilhas!”. Ele seguiria firme em um juramento feito lá longe, com as orelhas ardendo: um dia teria a sua ilha!

Já adulto, anos e anos depois, sabia que Minas Gerais tinha ilhas, um monte delas. Gente abençoada, mineiro tem água até para construir ilha artificial, longe de tubarões, de ressacas perigosas. Engenheiro de profissão, conseguiu grandes trabalhos construindo estradas e antes dos cinquenta anos já pensava em comprar um pedaço de terra. Um sítio, uma fazenda; nada muito grande, desde que fosse banhado por água e, fundamental, que tivesse uma ilha. Poderia ser pequena, mas seria uma ilha; a sua ilha.

Conheceu todas as ilhas do Rio Doce: Brava, Bonaparte, Etelvino, Nossa Senhora da Penha… Ela, a santa daquela distante viagem. Bem que poderia ajudá-lo a encontrar sua ilha, em pedaço de terra que ele pudesse comprar. Quase comprou uma pequena chácara em Piracicaba, no Estado de São Paulo, por onde passava o rio famoso na região e na canção. Resoluto, só compraria terra em sua Minas Gerais, terra com água e ilha, tão bonita quanto Vitória. Não falava disso com ninguém e, na calada, sabia da sua luta quase insana. A capital capixaba é bonita demais!

Mineiro que é mineiro sabe de Guimarães Rosa, de Augusto Matraga. “Todo homem tem sua hora e sua vez!”. Eis que a dele chegou. A empreiteira o enviou para inspecionar reformas na estrada que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, bem no município do Brumadinho. A esposa adorou a região e na primeira oportunidade surgida compraram uma bela chácara às margens do Rio Paraopeba. Aquelas serras, aqueles rios com água farta!

Estavam longes de Brumadinho, mais distantes de Belo Horizonte e felizes com o sossego e a tranquilidade local. O casal de filhos crescidos, casados e com famílias constituídas, teria na chácara um local de férias garantido. A esposa bem que estranhou quando ele batizou a chácara: Dreams Island. Ele não negociou. A mulher entendeu a ilha como o refúgio entre cercas de arame farpado em quase toda a propriedade, exceto na parte rente ao rio. Ele, sem confessar a ninguém, só adquiriu o local por conta de duas pedras que emergiam do Paraopeba entre outras, menores, e volta e meia cobertas pela correnteza.

Tantos anos passados, nenhuma ilha disponível para suas possibilidades financeiras, ele resolveu se contentar com a Dreams, como a chamava para si. Quem sabe compraria outra, mais para a frente. Uma ilha maior, bonita. Todavia, nada melhor do que ter sua ilha, ali, para uso particular.

Finais de semana ou em feriados prolongados ele pegava vara de pescar, munia-se de iscas, um rádio de pilhas, boa cachaça e rumava para sua ilha. Raramente se lembrava da capixaba xexelenta. Quando ocorria, tinha certeza de que ela não possuía uma ilha como a dele, só dele, todinha para ele. Um dia de ausência de peixes a cachaça provocou sono pesado. Ele acordou com as costas ardendo, assadas na pedra inclemente. Ele repetiu outras vezes a façanha: Pescaria preguiçosa, cachaça farta, sono tranquilo.

Estaria bêbado naquele 25 de janeiro de 2019? A família não sabe. Estavam todos em Vitória, nas bodas de prata da prima que ele odiava. Talvez ele tivesse tentado salvar alguma coisa da pequena ilha quando se perdeu sobre os dejetos vindos do desastre da barragem, em Brumadinho. A chácara virou um lodaçal fedorento, o rio perdido, a terra contaminada. A horta, o pomar, a casa. Tudo perdido, destruído. Foi encontrado algumas semanas depois, morto, um nome entre mais de duas centenas de outros. O reconhecimento foi fácil. No pescoço ele portava um colar recebido de presente da esposa. Era de ouro maciço, personalizado, com o nome Dreams Island preso entre correntes.